Caminho do Fim Brasileira

Autor(a): Quiceath


Volume 1

Capítulo 5: Arma da Alma

Assisti até o final de todas as lutas, que se estenderam até o pôr do sol. Ao fim, Cinthia tomou a frente e parabenizou os que permaneceram. O número de competidores havia sido reduzido pela metade.

Consegui passar!

O diretor Afonso avançou alguns passos e aguardou pacientemente até que todos se calassem para dar continuidade.

— Muito bem, parabéns a todos que lutaram bravamente para chegar até aqui. Todas as lutas foram admiráveis. Esperamos que aprendam muito durante os cinco anos em que estudarão nesta academia.

Pude sentir o ânimo se espalhar ao meu redor. Minha felicidade poderia ter durado até o dia seguinte, mas foi interrompida pelo roncar alto do meu estômago — eu não comia desde a manhã.

— Olhe isso… vocês, novatos, são forçados a lutar sem direito a uma refeição. A vice-diretora é mesmo um demônio — comentou Grennor, de forma dramática.

Tentei tranquilizá-lo, dizendo que estava tudo bem e que eu aguentaria, mas ele não parecia disposto a se acalmar. Talvez não se desse muito bem com a vice-diretora.

— Certo, cada aluno deve pegar sua chave e seguir para o dormitório correspondente. O dormitório de vocês é o de cor marrom. O andar de cima é destinado às mulheres, o de baixo aos homens.

A Vice-Diretora Cinthia acrescentou após a fala de Afonso. Em seguida, ambos se retiraram da arena, deixando os alunos sob a responsabilidade do árbitro. Ele ordenou que uma fila fosse formada para a entrega das chaves. 

— Uff…

O suspiro da garota de cabelos negros denunciava o cansaço. Sua parceira de cabelos ruivos a repreendeu em um cochicho pelo desrespeito.

— Desculpe, senhorita Floy.

Reconheci as duas garotas: a do chicote e sua companheira, a maga de gelo. Decidi me aproximar, sentindo uma mistura de admiração e curiosidade. Valkyrie seguiu para a fila, com Grennor logo atrás tentando falar com ela.

— Olá, me chamo Gindo. Vi a luta de vocês. Aquele fogo que você usou foi impressionante.

— Sou Floy, da casa Velmora — respondeu ela, com um sorriso gentil que transmitia confiança.

A presença da garota ao lado de Floy me atingiu de imediato quando ela ordenou que eu me afastasse, para não sujar sua amiga. Não soube como reagir àquele desprezo; meu coração acelerou, deixando-me desconfortável.

— Amanda! — Floy elevou a voz, corrigindo a amiga. — Desculpe por isso, ela não quis te ofender.

A garota de cabelos negros desviou o olhar, ainda cautelosa, mas logo voltou sua atenção para a chave que Floy segurava, analisando cada detalhe com interesse silencioso.

— Quarto setenta e três… o meu é o setenta e quatro! — exclamou Amanda, com os olhos brilhando de alegria. Seu humor mudou instantaneamente ao perceber que seriam vizinhas.

— Amanda, você não fez o árbitro te dar a mesma chave que a minha, né?

A garota de tranças segurou a mão de Floy e a puxou com empolgação em direção à saída, ignorando completamente a pergunta — ou talvez a resposta já estivesse clara. Floy ainda se virou para mim e se despediu com um sorriso leve.

Enquanto permanecia na arena, observando o movimento ao redor, o árbitro se aproximou. Ele estendeu a mão e me entregou uma pequena chave de metal em minha palma. O número oitenta e cinco estava gravado nela.

Segurei-a com firmeza, sentindo o frio do metal e sua textura levemente áspera. Por um instante, admirei o número antes de guardá-la no bolso, ciente de que aquela pequena chave representava meu lugar na academia.

Uma mulher elegante de cabelos azuis surgiu diante da multidão, chamando atenção imediata.

— Atenção, alunos. Lembrem-se de que os homens ficam no andar de baixo e as mulheres no andar de cima — anunciou com voz firme.

— Pisar no espaço do sexo oposto trará sérias consequências.

O silêncio que se seguiu falou por si. Todos sabíamos que qualquer passo em falso poderia causar problemas graves; o clima pesado fez meu coração acelerar.

Uma senhora vestida de branco gritou da entrada da arena, avisando para pegarmos rapidamente o jantar no refeitório. Meu corpo ainda doía um pouco, então decidi ir logo para depois ir ao dormitório descansar.

Segui pelo corredor junto de outros estudantes. No salão, a fila já estava quase no fim, o que me permitiu receber a refeição sem demora. Guardei-a em um saco de pano e caminhei até a saída da academia. 

***

Dentro do enorme dormitório, o corredor era tão extenso que eu mal conseguia enxergar o final. Parei em frente ao quarto indicado; o número oitenta e cinco estava marcado na porta. Abri-a e deixei minha mochila encostada na parede. 

Observei o ambiente. O quarto não era nem grande, nem pequeno, apenas de tamanho médio. Havia uma cama, uma escrivaninha, um guarda-roupas e um banheiro. Ao fechar a porta, notei um cartaz com informações fixado na parede.

“Vá ao salão amanhã às oito e vinte para a seleção de instrutores. Primeiro será realizado o acordo da Arma da Alma e, em seguida, um instrutor irá escolhê-lo. Seu número de chamada é doze.” 

Após ler o aviso, sentei-me na cama.

— Uff… teste da Arma da Alma. Espero ter sorte e conseguir algo bom.

Decidi que era hora de descansar. Retirei minhas vestimentas da bolsa e as guardei no guarda-roupas, deixando um conjunto separado sobre a cama. Após o banho, me enxuguei, arrumei o leito e me preparei para dormir.

No dia seguinte, preparei-me para sair e encontrei Grennor no corredor do dormitório.

— Bom dia, Grennor.

— Sim… bom dia, eeh…

— Gindo. Me chamo Gindo.

— Ah, isso. Gindo. Indo para o Salão do Despertar? Que tal irmos juntos? Todos os veteranos estarão presentes para observar a capacidade dos novatos.

Salão do Despertar… então seria ali que minha arma despertaria. Mas todos os veteranos estariam presentes?

— Todos os veteranos vão estar lá? — perguntei em voz baixa, deixando minha apreensão escapar.

— Todos. Pelo menos os que quiserem assistir — respondeu ele com firmeza, sem hesitar, o que apenas fez meu coração bater mais rápido.

Caminhávamos pelo salão em um silêncio quase agoniante. Eu queria fazer mais perguntas, mas temi ser inconveniente.

— Chegamos.

O local era enorme, de formato circular, lembrando a arena do dia anterior, mas desta vez havia um altar elevado no centro, cercado por dez cadeiras dispostas de forma uniforme. Eu permanecia do lado de fora, atrás de um vidro que isolava a área, observando cada detalhe com atenção.

— Vamos aguardar o velho — sugeriu Grennor, em voz baixa, quase como um conselho.

Meus olhos percorreram os estudantes presentes. Havia uniformes de várias cores, cada grupo parecendo carregar uma vibração diferente. No entanto, o que mais me chamou a atenção foram os poucos estudantes de uniforme dourado. Eles não se misturavam; seus olhares eram frios, quase predatórios, e emanavam uma aura perigosa que me impedia de encará-los nos olhos.

— Cuidado com eles — advertiu Grennor, percebendo minha distração. — Não se envolva, Gindo. São perigosos, e não é algo com que você queira se meter.

Assenti, sentindo o corpo tenso, mas curioso, enquanto minha atenção permanecia presa aos uniformes dourados, tentando compreender a razão de tanta reverência e temor.

— Por que todos têm uniformes de cores diferentes?

Grennor apontou discretamente para alguns grupos espalhados pelo salão.

— É assim que a academia separa os anos. O seu será branco, já que você está no primeiro ano. O meu é azul, do segundo ano. Os de vermelho pertencem ao terceiro, os de preto ao quarto e… os dourados são do quinto ano.

Ele fez uma breve pausa, como se quisesse que eu refletisse sobre o peso daquela informação. Em seguida, levou a mão ao queixo, pensativo.

— Entendo. Algo te incomoda?

— Sua situação é um pouco complicada — respondeu ele, sem rodeios. — Por ser plebeu, a vida aqui não vai ser fácil.

Senti o peito apertar.

— Você tem razão… um plebeu estudando ao lado de nobres é praticamente pedir para irritá-los — meu pensamento escapou alto demais.

— Não é exatamente isso — ele corrigiu. — O verdadeiro problema são as facções. Você precisa aprender a identificar com quem lidar… e quem evitar.

— Facções? — repeti, confuso.

— Maldito! Achou que ia fugir de mim pra sempre?!

Uma garota de cabelos castanhos e uniforme azul surgiu entre nós como um trovão, beliscando as bochechas de Grennor sem piedade. Valkyrie apareceu logo atrás dela e me cumprimentou com um aceno.

— Seria uma maravilha se eu pudesse… p-paure, dimôniu…

Observei Grennor sofrer em silêncio até que a garota finalmente me notou. Ela abriu um sorriso radiante antes de se virar para mim.

— Oi! Sou Karen Jorn, do segundo ano — disse, então lançou um olhar rápido para o refém em suas mãos. — E noiva desse idiota.

Apresentei-me de volta, curvando-me de forma respeitosa. Karen sorriu novamente antes de soltar, por fim, as bochechas de Grennor.

— Já pensou em cortar as unhas? — ele resmungou, massageando o rosto dolorido.

— Se você se ajoelhar e pedir perdão por ter me evitado, eu penso no caso.

Percebi alguns olhares se voltando para nós; talvez a confusão tivesse chamado atenção demais. Comentei isso em voz baixa.

— Nah, não ligue para eles — respondeu Grennor, voltando o olhar para o palco além do vidro. — Vai começar.

— Bom dia a todos, novamente. Meu nome é Afonso Fvern, Diretor desta academia. Hoje nos reunimos para o chamado da Arma da Alma, que será realizado por nossos novatos. Antes disso, imagino que estejam confusos quanto às cores variadas dos uniformes. Permitam-me explicar.

O diretor fez uma breve pausa. O salão silenciou por completo.

— Nesta academia, além do sistema de Ordens, utilizamos uniformes de cores diferentes para indicar o ano de cada estudante. Branco representa o primeiro ano, azul o segundo, vermelho o terceiro, preto o quarto e dourado o quinto.

Enquanto ele explicava, avistei Floy do outro lado do salão, diante do vidro, ouvindo atentamente. Amanda permanecia ao seu lado, algo que já me parecia natural.

— Agora que isso foi esclarecido, iniciaremos o chamado da Arma da Alma. Cada um de vocês possui uma arma com a qual mantém uma ligação especial. Ao chamá-la no altar, caso sejam reconhecidos, a arma se manifestará. Os instrutores sentados diante do altar poderão adotá-los como pupilos, se assim desejarem.

Meu olhar se voltou para as dez cadeiras posicionadas ao redor do altar central. Dez instrutores observavam em silêncio absoluto.

— Chamarei agora o número um. Por favor, entre no salão e dirija-se ao altar.

Segundos depois, um garoto loiro, de estatura baixa, entrou no salão e se ajoelhou diante do altar.

— Deusas, por favor, abençoem-me com minha arma predestinada! — implorou, estendendo as mãos trêmulas.

O silêncio tomou conta do ambiente. Ninguém parecia sequer respirar.

— Nada aconteceu? — murmurei, confuso.

O garoto tremeu visivelmente, mas manteve-se ajoelhado, com as mãos estendidas. Então, um brilho começou a se formar sobre o altar. A luz se intensificou até revelar um arco azul profundo, semelhante à safira, que pousou suavemente em suas mãos.

— M-muito obrigado… Deusas!

Ele segurou o arco com ambas as mãos, os olhos marejados de felicidade, e inclinou a cabeça em um gesto profundo de gratidão.

Assim que terminou, um dos instrutores se levantou.

— Garoto, meu nome é Erina Simone. Sou especialista na arte do arco. Que tal tornar-se meu discípulo?

— Meu nome é Manuel Jestar — respondeu ele, com a voz embargada pelo entusiasmo. — Por favor… permita-me aprender com você!

Erina assentiu levemente.

— Muito bem. Pode se retirar e aguardar as instruções posteriores.

Manuel se curvou para Afonso e deixou o salão apressado, quase saltitando.

— Próximo — comentou Erina, sentando-se novamente.

— Número dois, por favor, dirija-se ao salão — anunciou o diretor Afonso.

Alguns segundos se passaram. Depois, longos minutos. O clima começou a ficar desconfortável.

— Repito, por favor, número—

— Tá, tá. Já ouvi, velhote.

Uma voz desrespeitosa ecoou pelo salão. Um garoto de cabelos brancos entrou caminhando com total desdém, interrompendo Afonso. Murmúrios surgiram imediatamente entre os alunos.

— Ora, ora… alguém interessante apareceu — comentou uma garota loira alguns metros à minha direita.

— Hahahaha! Ele te chamou de velhote, Afonso. Vai deixar barato? — zombou um jovem.

— Um foda-se pra vocês, nobres.

O clima mudou instantaneamente. Nobres antes relaxados passaram a encará-lo com hostilidade, alguns cerrando os punhos, outros franzindo o cenho. O garoto de cabelos brancos, no entanto, não pareceu se importar nem um pouco.

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