Volume 1
Capítulo 4: Fera Fora da Jaula
— Todos prontos? Se posicionem! — ordenou o árbitro.
Eu estava bem posicionado ao lado de Valkyrie, mantendo cerca de dez metros de distância do arqueiro e do cavaleiro adversários. Era minha primeira vez empunhando uma espada em um combate real; mesmo sendo de madeira, a ansiedade não diminuía.
— Valkyrie, vou segurar o cara do escudo. Deixo você livre para lidar com o arqueiro!
Ela permaneceu em silêncio por um instante, então assentiu. Seu foco nos oponentes parecia mais intenso do que o normal; talvez ela levasse duelos mais a sério do que eu imaginava.
— Todos prontos?!
Nenhuma das duplas apresentou objeções, e o juiz autorizou o início. Valkyrie avançou imediatamente, movendo-se em alta velocidade na direção do arqueiro. Como resposta, ele disparou três flechas de madeira.
O arqueiro será o maior problema se ficar livre. Eu preciso manter o cavaleiro ocupado enquanto Valkyrie cuida dele.
O cavaleiro tentou interceptá-la, mas ela desviou com um salto ágil por cima dele, deixando o caminho livre.
O arqueiro lançou flechas em sua direção, mesmo assim, ainda no ar, Valkyrie girou a lança e cortou as três flechas com precisão absoluta. As arquibancadas explodiram em gritos, impressionadas com a demonstração de habilidade.
— Como…?! Merda!
O arqueiro golpeou o solo rochoso com uma força descomunal, levantando uma cortina de fumaça semelhante à usada pela primeira dupla do dia. Sem hesitar, Valkyrie mergulhou na névoa como se saltasse em um lago.
Avancei contra o cavaleiro, que estava momentaneamente distraído com o confronto dos outros dois. Mesmo achando aquilo covarde, não pude deixar a oportunidade passar.
Foi inútil. Ele bloqueou meu ataque com facilidade e contra-atacou com um chute direto em meu abdômen.
— Aargh!
O impacto me lançou ao chão com força. Tentei me levantar rapidamente, mas a falta de ar tornava cada movimento doloroso.
— Garoto, pelo visto você não sabe manejar uma espada — disse ele, com desprezo. — Recomendo que se renda, ou vai sentir dor de verdade.
Reuni o pouco de força que restava e avancei novamente, desta vez mirando a perna direita dele. O ataque foi bloqueado mais uma vez.
— Muito fraco.
Ele ergueu a espada e desferiu um golpe direto à minha cabeça.
— Aargh!
Consegui desviar, mas de forma imperfeita. A espada atingiu meu ombro direito, arrancando um grito de dor com a força do impacto. A dor foi tão intensa que minhas pernas cederam; ajoelhei-me contra a vontade, segurando o choro.
— Eu te avisei. A vitória já está deci—
Uma explosão ecoou dentro da fumaça. O cavaleiro travou, tentando enxergar algo. Olhei na mesma direção, e, conforme a cortina se dissipava, vi o arqueiro estendido no chão, inconsciente.
Pouco depois, o árbitro anunciou a vitória da oitava dupla — a minha.
— O quê?
O cavaleiro encarou o companheiro caído, depois voltou o olhar para Valkyrie, que estava de pé diante dele. Seus cabelos prateados balançavam suavemente, e seus olhos calmos contrastavam com a tensão ao redor.
— Entendo — disse ele, com a voz firme, mas carregada de um leve pesar.
Valkyrie passou por ele, mas parou ao seu lado.
— Arqueiros e magos são vulneráveis a curta distância. Recomendo que proteja melhor seus aliados em batalhas com desvantagem.
Ele fechou os olhos, respirou fundo e sorriu levemente, afirmando que compreendia. Mesmo derrotado, demonstrou respeito.
Valkyrie caminhou até mim. Eu ainda estava ajoelhado, tomado pela vergonha, esperando em silêncio sua decepção.
— Ele te acertou muito forte no ombro?
Pensei ter ouvido errado. Ela estava demonstrando preocupação… comigo? E não raiva? Hesitei antes de responder e abaixei o rosto.
Eu sou mesmo um perdedor.
Então senti um calor suave se espalhar pelo ombro e pelo corpo, fraco, porém reconfortante. Levantei o rosto e vi a mão de Valkyrie brilhar enquanto ela conjurava algo em minha direção.
— Os vencedores retornem às arquibancadas; aos perdedores, retirem-se da arena — ordenou o árbitro.
Ela interrompeu a magia e se virou para obedecer. A dor ainda persistia, mas aquele gesto reacendeu minha esperança. Levantei-me e caminhei até ficar ao seu lado.
— Desculpa… quase perdemos por minha causa.
Ela apenas disse que não havia problema, e seguimos em silêncio.
Senti algo quente passar por mim. Virei-me no susto e vi uma garota de cabelos flamejantes — a mesma que havia encarado Floy durante a luta — caminhando em direção à saída.
— De olho naquela ruiva?
Grennor se aproximou, observando a garota de aparência nobre. Perguntei se ela seria uma novata, mas ele negou e pediu que eu não me aproximasse.
— Ela é alguém tão importante assim?
— Sim e não. O nome dela é Seraphina Velmora. Está classificada em quinquagésimo terceiro na Ordem. Resumindo: é orgulhosa e despreza plebeus, até mesmo a baixa nobreza.
Gravei mentalmente que era alguém de quem deveria manter distância. Grennor colocou a mão no meu ombro — parecia um hábito automático — e olhou para o outro lado da arena, comentando sobre uma garota de cabelos rosados.
— Sim… o que tem ela?
Esperei, curioso. Ele engoliu em seco, o suor escorrendo pelo rosto, até finalmente elogiar a beleza da garota… e seus seios.
— Hã?
— Quer dizer, olhe aqueles melões! Ela é uma das mais gatas da academia, rivaliza de igual para igual com as outras belezas.
A resposta inesperada de Grennor me deixou perplexo. A entrada de Valkyrie no diálogo, comentando que não havia visto melões do outro lado, foi apenas mais uma prova de sua inocência.
— Não, Valkyrie… ele está… bem… se referindo aos seios dela.
Esclareci a situação, iluminando a mente de Valkyrie e facilitando sua compreensão. Ela alternou olhares rápidos entre os próprios seios e os da garota ruiva, até soltar um leve heh. Eu não fazia a mínima ideia do que se passava em sua cabeça.
Voltei minha atenção para a arena, agora barulhenta. Um rapaz de cabelos brancos, vestindo roupas esfarrapadas, discutia em voz alta com sua companheira. Os dois pareciam prestes a entrar em conflito.
— Já disse para me obedecer, plebeu! Fique quieto, sobras!
A garota gritava com ele como se repreendesse um cachorro de rua. O rapaz, por sua vez, parecia um delinquente prestes a explodir, respondendo com xingamentos incessantes.
Eles avançaram quase até o centro da arena, mas foram advertidos pelo árbitro a manter distância. Do lado oposto, a outra dupla já estava posicionada, aguardando o início.
— Vadia, fica quieta e não me atrapalha. Só corre pela arena ou faz qualquer coisa assim.
O rapaz de cabelos brancos falava de forma agressiva. Ouvi a outra dupla comentar, de braços cruzados, que aquela luta seria fácil. A provocação fez a garota insultada ficar vermelha de nervoso.
— Plebeu… sou Nolan, da casa Troz. Não posso decepcionar minha família. Peço humildemente que não destrua minha oportunidade.
Ela abaixou o tom de voz, demonstrando calma e seriedade. Em resposta, ele pareceu compreender; silenciou por um momento e, por fim, concordou com um simples “tudo bem”.
Eu, Valkyrie e Grennor permanecemos em silêncio, aguardando o início do combate. Assim que os competidores se posicionaram corretamente, a autorização foi dada.
— Plebeu, me acompa… Hã?
A garota olhou para o lado e encontrou apenas o vazio. Seu aliado já não estava ali. Um estrondo ecoou do outro lado da arena. Virei-me rapidamente e o vi: o rapaz de cabelos brancos segurava uma espada de madeira em cada mão, encarando os dois adversários.
— VAMOS!
Ele gritou e, com um giro veloz, lançou ambos os competidores ao chão. Sua parceira, antes abandonada, correu na direção do confronto. Fiquei confuso ao notar que ela não carregava arma alguma e perguntei o motivo a Grennor.
— Normalmente, quem luta de mãos vazias é mago ou lutador. Pelo avanço rápido dela, eu diria que é uma lutadora.
Não demorou para sua suposição se confirmar. A companheira do espadachim se juntou à luta, desferindo socos poderosos contra o escudo de madeira de um dos adversários que já havia se levantado. O rapaz de cabelos brancos, por sua vez, correu até o outro oponente, ainda caído.
Ele tentou atingir o peito do adversário com a ponta da espada, mas o golpe foi evitado com um desvio no chão. O espadachim abriu um sorriso empolgado.
— Então desvie mais um pouco.
Ele avançou novamente, agora usando ambas as espadas com maior destreza. O oponente, sem se intimidar, contra-atacou com uma esfera de água que raspou o ombro do rapaz de cabelos brancos, rasgando a manga de sua roupa.
Uma explosão barulhenta ecoou fora do local do evento. Meu coração disparou e olhei instintivamente na direção do som. Grennor percebeu meu comportamento estranho.
— Algum problema?
— Só um susto com essa explosão repentina lá fora.
Ele repetiu a palavra “explosão” com um tom confuso, mas logo pareceu ignorar o assunto. Não era só ele; todos nas arquibancadas continuavam focados exclusivamente na arena.
Só eu ouvi essa explosão?
— VAI FICAR CORRENDO?! ENTÃO CORRA!
O grito do espadachim perturbado ecoou pela arena. Ele parecia ter atingido o limite da paciência. Sua companheira tentou alertá-lo em voz alta, mas teve a fala interrompida por seu oponente.
O rapaz bateu as lâminas de madeira, que passaram a brilhar em azul. O mago recuou alguns passos e endureceu a postura. No instante seguinte, uma lâmina surgiu de forma abrupta em sua cintura, lançando-o a vários metros de distância.
— Hesel!
Seu companheiro gritou em desespero. Sua tentativa de alcançar o aliado ferido falhou, pressionado pela lutadora, que atacava sem descanso, com determinação estampada no rosto.
— Essa luta já está decidida — comentou Grennor, observando o espadachim com seriedade.
O mago tentou se levantar, mas mal conseguia erguer o braço. Tudo o que restava era aguardar a derrota que se aproximava lentamente. Seus olhos marejaram, e o tremor do corpo denunciava o desespero.
— Vamos… corra mais um pouco.
O espadachim parou a poucos metros dele, sorrindo de forma maliciosa diante da expressão de medo do mago. Comecei a sentir raiva daquele garoto, que preferia provocar um oponente claramente mais fraco.
Encurralado, o mago juntou as mãos ao peito e fechou os olhos, ajoelhado em seu último esforço.
Feixes de luz começaram a se formar ao seu redor, o espadachim ficou parado analisando a situação.
— Por favor, me ajude, Luz — implorou o mago, erguendo uma das mãos — Iluminação.
Os feixes desceram em alta velocidade. O impacto criou uma cortina de vapor ao redor do rapaz de cabelos brancos, ocultando-o por completo.
— Ele foi derrotado?
Valkyrie e Grennor acompanhavam tudo com atenção absoluta. Minha pergunta ficou sem resposta até que o vapor começou a se dissipar.
Uma garota de uniforme negro estava parada à frente do espadachim, envolta por um escudo azul. Ela encarou o mago caído em silêncio, fechou os olhos e, após alguns segundos, tornou a abri-los.
— Magia de grau avançado detectada. Ordem do mestre seguida com sucesso. O combate foi interrompido. O árbitro deve determinar o vencedor.
Seu tom apático combinava perfeitamente com a expressão vazia. O juiz ergueu a mão e anunciou em voz alta que uma quebra de regras havia ocorrido, decretando a derrota da dupla do mago.
O espadachim permaneceu imóvel por alguns instantes, até que largou as duas espadas ao chão e virou-se caminhando em silêncio para a saída.
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