Caminho do Fim Brasileira

Autor(a): Quiceath


Volume 1

Capítulo 10: Autoridade Carmesim

— Vai ficar em silêncio?

O nobre perguntou, com um claro traço de impaciência na voz. Knox o encarou com indiferença. Um sorriso começou a surgir em seus lábios enquanto ele ergueu lentamente a mão e mostrou o dedo do meio, deixando evidente seu desprezo.

— Vai se foder.

O estudante manteve a calma. A resposta inesperada arrancou dele um sorriso de volta, o que também me surpreendeu. Ele parecia prestes a continuar o diálogo, mas um dos alunos ao lado de Emily pediu que se afastasse. Ele obedeceu.

— Vou acabar com esse filho da puta! — gritou um deles.

O estudante impaciente avançou do lado de Emily em direção a Knox com determinação, mas foi recebido por um soco tão forte que o fez tropeçar, com sangue escorrendo pelo nariz.

O segundo partiu logo depois, tentando acertar Knox com um chute na cintura, mas teve a perna agarrada antes de conseguir completar o golpe.

— Eu não disse que era gentil? — provocou Knox, segurando a perna dele enquanto observava a tentativa desesperada de se soltar.

A multidão começou a murmurar. Ouvi alguém sair correndo dizendo que iria buscar um professor.

— Aaaargh!

Knox acertou o garoto com um chute certeiro na sua cintura, derrubando-o no chão com um grito de dor que ecoou pelo refeitório. Emily, atônita, soltou a garota que estava atormentando quase por reflexo.

O clima no refeitório mudou completamente. Alunos que antes ignoravam a cena, sentados em suas mesas, agora observavam a situação junto com os demais.

— E então? Você é a próxima? — disse Knox, exibindo um sorriso selvagem para Emily.

Ela recuou, apavorada.

Notei uma esfera branca se formar na mão do terceiro garoto, aquele que havia se afastado no início da luta. Knox parecia não ter percebido; seus olhos estavam fixos apenas na garota loira à sua frente.

— Não ouse me tocar! Sou da facção Lua Flamejante! Você não vai querer problemas conosco!

— Sou bom em lidar com problemas — respondeu Knox, com os olhos brilhando de excitação.

O terceiro garoto ergueu a mão na direção de Knox, com a esfera pronta para disparar. A reação dele foi quase instantânea: apareceu diante do garoto e segurou seu pulso. Meus olhos sequer foram capazes de acompanhar o movimento.

Ele perguntou, de forma irônica, se magia estava valendo, antes de desferir uma cotovelada violenta no queixo do estudante. O sangue respingou no ar antes de o garoto cair desacordado no chão.

O contraste entre os três garotos caídos e a garota ainda de pé fez a multidão começar a se preocupar, embora ninguém ousasse se aproximar para tentar impedi-lo. Knox voltou seu olhar para Emily, que estava completamente atordoada com o que havia acabado de acontecer.

— Não chegue perto de mim, raça podre!

O insulto foi forte o suficiente para me atingir, mesmo não sendo direcionado a mim. O garoto de cabelos brancos começou a caminhar lentamente, passo a passo, na direção da garota.

Nesse momento, uma garota de uniforme preto atravessou as portas do refeitório.

Ela entrou silenciosamente, com passos leves, mas sua presença foi suficiente para calar quase todos — principalmente os alunos de uniforme azul e vermelho. Reconheci-a imediatamente: Sofia Rastelius, a garota da invocação da Arma da Alma que havia me escolhido para treinar.

Ela olhou ao redor, como se procurasse algo, até que seus olhos encontraram os meus. Sofia caminhou tranquilamente em minha direção, mas parou ao perceber o tumulto.

— O que vocês dois estão fazendo?

A voz de Sofia cortou o refeitório como uma lâmina fina e gelada. Não era alta, mas cada sílaba carregava uma autoridade natural que fez até mesmo quem não estava diretamente envolvido na confusão se encolher levemente.

Todos se voltaram para ela.

A cena diante de Sofia era um caos:

a garota de tranças chorava em silêncio, os três nobres estavam estirados no chão, Emily tremia incapaz de encarar Knox… e Knox ainda mantinha aquele sorriso selvagem, embora agora seus olhos tentassem entender quem era a figura que acabara de entrar.

Sofia deu alguns passos à frente. A luz do refeitório refletiu no preto elegante de seu uniforme e, por um instante, tive a impressão de que o ambiente havia ficado menor — como se a simples presença dela ocupasse mais espaço do que deveria.

Ela olhou Knox dos pés à cabeça, como quem avalia um inseto que pousou em sua mesa de jantar.

— Briguinhas na hora da refeição? — perguntou, em um tom quase preguiçoso. — Vocês realmente não têm nada melhor para fazer?

Não havia raiva em sua voz. Era pior que isso: havia indiferença, como se toda aquela cena não passasse de um pequeno incômodo.

A garota de uniforme preto deu as costas para a confusão de forma deliberadamente lenta, como se deixasse claro que ninguém ali representava uma ameaça real.

— Parem de brincar e vão comer — disse, com um sorriso curto, quase entediado.

Ela retomou o caminho em minha direção, como se nada importante tivesse acontecido. Mas antes que desse mais dois passos, Knox chamou a garota com um simples “Ei”.

Sofia parou. Não se virou imediatamente.

Primeiro respirou devagar. Depois inclinou levemente o rosto para trás, apenas o suficiente para que um de seus olhos — frio, afiado e carregado de uma força esmagadora — encarasse Knox.

O ar ao meu redor pareceu pesar.

— Sim? — respondeu, com uma calma tão ameaçadora que me fez engolir em seco.

Knox encarou aquele único olho. A expressão dele, antes selvagem e provocadora, desapareceu como fumaça. Era como se estivesse diante de um predador que olhava diretamente para sua alma — e ele percebesse que, no fim das contas, era apenas a presa.

Por alguns segundos, ninguém respirou.

Sofia, percebendo que ele não teria coragem de continuar, simplesmente desviou o olhar e o ignorou por completo. Voltou a caminhar em minha direção, sem pressa, como se toda a tensão ao redor tivesse deixado de existir.

— Bom dia. Gindo, quero que me acompanhe. Iniciarei seu treinamento.

Seus longos cabelos vermelho-escuros e os olhos carmesins lhe davam uma beleza marcante, o suficiente para que o salão inteiro voltasse a atenção para nós.

— Bom dia. Entendido, Sofia! — abaixei a cabeça rapidamente em reverência.

Sofia olhou para Valkyrie ao meu lado, mas Valkyrie desviou o olhar imediatamente, como se tivesse visto um monstro surgir diante dela. Sofia observou em silêncio a garotinha terminar o último pedaço de bolo enquanto o vento levava algumas migalhas, antes de voltar a atenção para mim.

— Vamos.

***

Caminhávamos pelo corredor em direção ao campo de treinamento pessoal que Sofia havia mencionado. Permanecemos em silêncio. Imaginei que ela não fosse boa em iniciar conversas com os outros — assim como eu — ou talvez simplesmente não quisesse falar.

— Aquela é sua namorada?

A pergunta me pegou completamente de surpresa. Reagi rápido, tentando esclarecer o mal-entendido.

— N-Não! Valkyrie é apenas uma colega de classe — expliquei, nervoso.

Demos mais alguns passos pelo corredor até chegar ao nosso destino. Sofia levou a mão à maçaneta e abriu a porta, revelando o local.

Era uma sala grande, aproximadamente do tamanho de duas salas de aula juntas, espaçosa o suficiente para que qualquer pessoa pudesse se mover sem esbarrar nos outros. O chão era feito de pedras polidas e resistentes, marcado por arranhões que denunciavam inúmeros treinos anteriores.

As paredes pareciam revestidas por placas metálicas, lisas e brilhantes, dando a impressão de estarem encantadas de alguma forma — embora eu não tivesse a menor ideia de qual tipo de magia seria. Luzes mágicas flutuavam no teto, iluminando o ambiente de forma uniforme, como se o espaço tivesse sido projetado para não permitir sombras.

Em um dos cantos havia suportes com armas de madeira, bonecos de prática e alvos circulares em diferentes alturas. Mesmo sem ser gigantesca, a sala transmitia claramente a sensação de que ali aconteciam treinamentos sérios… possivelmente mais sérios do que eu estava pronto para enfrentar.

Sofia fechou a porta e caminhou até um dos suportes de armas, pegando uma espada de tamanho médio antes de olhar em minha direção.

— Tome — disse, arremessando a espada de madeira para mim. Por pouco não a deixei cair.

Ela se posicionou cerca de cinco metros à minha frente, de mãos nuas.

— Venha com tudo.

Hã? Assim, do nada? E sem ela sequer usar uma arma?

Mesmo com tudo acontecendo tão de repente, segurei a espada com firmeza e me preparei, tentando identificar alguma abertura. Vendo minha hesitação, Sofia ajustou a postura e deixou pequenas brechas, como se me convidasse a atacar por qualquer lado.

Levei a espada para trás, armando o golpe como se fosse lançá-lo a partir das costas, e avancei o mais rápido que pude.

Sofia desviou com extrema facilidade, sua expressão parecia querer me perguntar se aquilo realmente era um ataque. Ela recuou alguns passos e fez um gesto para que eu tentasse novamente. Empunhei a espada outra vez, pronto para uma nova investida.

— Aaaargh! — gritei, avançando com determinação.

Minha espada cortou o ar e, antes que eu percebesse, meus pés já não estavam mais no chão. Caí após a rasteira que Sofia aplicou sem dificuldade. A garota de cabelos vermelho-escuros definitivamente não pegava leve.

— Não corra sem estratégia, pare de gritar e — ela apontou para minha espada caída — não solte sua arma.

Peguei a espada e me levantei rapidamente. Meu uniforme branco estava um pouco manchado, mas isso era o menor dos meus problemas.

Levantei a espada e tentei pensar em alguma estratégia.

Talvez, se eu fingir atacar o tronco e no último momento mudar para a cintura, consiga acertar.

Inspirei fundo e avancei novamente na direção dela, movendo os pés com firmeza pelo chão polido e sentindo o peso da espada se equilibrar em minhas mãos. Cada passo ecoava pelo salão enquanto meu coração batia acelerado.

Sofia, no entanto, desviava de todos os meus movimentos com uma expressão de puro tédio, o que me fez questionar se ela já antecipava cada ação minha. Aumentei a velocidade e foquei ainda mais no ataque à cintura, mas ela recuou com uma agilidade impressionante, mantendo-se sempre fora do meu alcance.

— Minha vez — anunciou, assumindo uma postura de combate.

Em um piscar de olhos, ela desapareceu.

Olhei ao redor da sala, mas não consegui encontrá-la. De repente, um soco atingiu meu estômago.

— Aargh! — gritei de dor, ajoelhando-me enquanto quase soltava a espada de madeira da mão esquerda, mas a segurei com ainda mais força.

— Use sua Arma da Alma.

— Mas é apenas um pingente simples…

— Faça-o ter alguma utilidade — ordenou, posicionando-se novamente a alguns metros de distância.

Coloquei a mão no bolso e puxei o pingente, a gema azul-marinho brilhando suavemente. Ajustei a postura e segurei a espada.

Onde devo atacar? Ela desvia de tudo… devo mirar em suas pernas?

Enquanto tentava traçar uma estratégia, Sofia avançou de repente.

— Se você não vem, eu vou — disse, correndo em minha direção antes de desaparecer novamente.

Mais uma vez tentei localizar sua posição, mas fui atingido outra vez. Sua perna direita colidiu contra meu ombro direito. De relance, tive uma visão rápida por baixo de sua saia: roupa íntima violeta. Um instante de distração antes que sua perna esquerda viesse no próximo ataque.

Antes que o segundo chute me atingisse, tive uma visão instintiva da trajetória do golpe. Recuei o rosto e consegui desviar.

Sofia me encarou com um olhar de surpresa, como se não esperasse que eu fosse capaz de reagir.

— Isso foi bom. Então podemos aumentar o ritmo — declarou.

Ela ergueu as mãos, e algo ao redor dela pareceu vibrar enquanto retomava a posição de combate. Segurei a espada com firmeza, mas antes que pudesse reagir, Sofia avançou novamente, desaparecendo do meu campo de visão.

Dessa vez não tentei seguir seus movimentos — sabia que seria inútil. Fechei os olhos e tentei ouvir qualquer som que revelasse sua posição.

Alguns segundos se passaram até que ouvi algo atrás de mim. Virei-me rapidamente, mas não havia nada.

Um barulho no teto chamou minha atenção.

Quando olhei para cima, recebi o impacto de um joelho — envolto em uma elegante meia-calça negra — contra o meu rosto.

Antes de perder a consciência, só consegui pensar em uma coisa: meu treinamento com Sofia seria um verdadeiro inferno. 

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