Volume 1
Capítulo 1: A Voz da Mentira
[A Voz da Mentira?]
— Ora… não sabia que eras tão frágil. Ou será que eu sabia? — a voz dela ecoou, suave e venenosa. — No fim das contas… estou mentindo ou dizendo a verdade?
A garota misteriosa me observava de cima, os olhos cintilando com um brilho que parecia brincar com a minha dor.
Meu corpo tremia, minha respiração falhava e minha visão oscilava. Tentei me levantar, mas o sangue onde antes era minha perna escorria cada vez mais.
Por favor… por favor… fique bem… não morra…
Era tudo o que conseguia pensar, mesmo sabendo que minha vontade não bastava para manter meu corpo de pé. As lágrimas escorriam incessantes, enquanto eu estendia o braço numa tentativa inútil de alcançar o corpo da garota inconsciente, distante de mim.
— Ei, olhe para mim. Não desvie o olhar agora!
A voz dela cortou meus pensamentos. Dei meu melhor para erguer a cabeça, mas ela pesava como pedra. O medo já me dominava completamente; estava claro que eu não sairia daquela caverna com vida.
— Vamos, força, força. — Sua entonação era quase gentil… quase. — Não é divertido se você desmaiar tão rápido.
Um sorriso torto surgiu em seus lábios, ao mesmo tempo doce e cruel. A aura dela me envolveu como um véu sufocante — leve, mas implacável.
Era mentira… era verdade? Sim? Não! Por quê… por quê? Ela me odeia? Sim… não!?
A mentira e a verdade se misturavam no ar, embaralhando minha mente, fazendo meu coração acelerar e desacelerar em ritmos irregulares.
A dor na perna só aumentava. Sem conseguir suportar, comecei a gritar, ao mesmo tempo em que suplicava para que parasse. A figura sombria me observava com seus olhos vermelhos, que pareciam penetrar minha alma.
— Pare… por fa… está do…ro…
— Ah… está apagando? Já?
A silhueta sussurrou, inclinando a cabeça numa falsa decepção.
— Que pena… a parte mais interessante estava prestes a começar.
Meu corpo finalmente cedeu. Minha consciência escapou por entre meus dedos como areia.
Tudo ficou escuro.
[Mecto — Ano 1487]
— Vou acabar me atrasando!
Corria pelas ruas de Mecto, desviando das pessoas. Por ter dormido demais, acabei perdendo o horário de saída. Virei a esquina rápido demais e quase trombei com um rapaz. Meu corpo perdeu o equilíbrio antes que eu pudesse reagir, e senti o chão se aproximando.
— Hã?
A palavra “Leveza” ressoou atrás de mim, e uma luz suave envolveu meu corpo. A queda perdeu força; desci devagar, como se o ar me segurasse. Quando toquei o chão, olhei para trás rapidamente.
— Cara, se correr assim, uma hora vai se machucar.
Um garoto de cabelos laranjas me encarou com um olhar sério. Queria prestar atenção ao seu sermão, mas meu entusiasmo me impediu.
— Pareceu até que eu flutuei! Pode fazer de novo?! — perguntei, ainda animado.
O garoto suspirou fundo.
— Não. E você não flutuou; só aterrissou mais suavemente. Agora, tome mais cuidado enquanto corre.
Minha animação insistia em permanecer, até que olhei para o relógio no pulso e lembrei que ainda estava atrasado. Agradeci ao garoto, junto de desculpas, e voltei a correr pelas ruas.
Pouco depois, cheguei ao meu destino: a Academia de Mecto. Parei diante dos enormes portões e olhei para cima. A felicidade por finalmente ter conseguido chegar onde estou era grande, caminhei até o portão e segui adiante.
Ao entrar no grande salão, vi uma multidão de alunos reunidos, todos falando ao mesmo tempo, tão ansiosos pela cerimônia quanto eu. Misturei-me a eles, tentando encontrar um lugar.
Um senhor de cabelos brancos, com a barriga arredondada pressionando a túnica, subiu ao palco. A presença dele por si só silenciou o salão. Ele observou todos por alguns instantes e, então…
A cerimônia começou.
— Começaremos agora a cerimônia de abertura da Academia Mágica de Mecto! — anunciou. — Me chamo Afonso Fvern, Diretor desta instituição. Iremos falar tudo que é relevante antes de começarem o teste de entrada.
Levei um susto quando a multidão atrás de mim começou a gritar em desaprovação. Olhei melhor ao redor e vi pessoas vestidas de forma simples, até mesmo outras com roupas dignas de um baile. Suspeitei que fossem nobres.
— Ei, teste de entrada? Mas nós não tínhamos sido aprovados depois daquela prova…?
Os murmúrios e reclamações ecoaram pelo salão. Afonso levou a mão à cabeça, visivelmente nervoso.
— Acho que não será nada demais. O principal deveria ter sido aquela prova de entrada — comentou um rapaz bem vestido, confiante, para a garota ao lado.
Uma mulher de cabelos castanho-escuros e aparência jovem caminhou lentamente pelo palco até Afonso, que se afastou do púlpito. Ela tomou a frente com calma e majestade, fazendo todos se calarem.
— Me chamo Cinthia Laplace, Vice-Diretora da academia. — Fez uma pausa, olhando de ponta a ponta na multidão, antes de continuar. — Muitos devem estar confusos por causa desse anúncio sobre o teste de entrada, mas… quem disse que vocês já haviam entrado na academia? Foram apenas convidados a participar do evento, até o momento.
— Com licença… — uma jovem de expressão tensa levantou a mão.
— Diga.
— Disseram que fomos convidados a vir para a academia… mas, pelo que entendi agora, ainda temos que fazer algo para realmente entrar? — A garota franzia o cenho, confusa e preocupada. — Não estou entendendo direito.
A vice-diretora olhou para Afonso, que a observou de volta com um sorriso sem graça. Tive a impressão de que o diretor havia sido ameaçado silenciosamente. Ela voltou o olhar para nós.
— Certo. Vocês foram convidados a vir para a academia, mas não a participar. Apenas por terem feito a prova, ganharam o direito de estar presentes aqui hoje.
A diretora fez uma pausa enquanto analisava um papel sobre o púlpito. A multidão permaneceu em silêncio enquanto aguardava, não por vontade própria, mas pela pressão que dominava o salão. Eu lutava para permanecer de pé; uma força invisível parecia me empurrar para baixo.
— O teste final será simples: vocês terão que lutar entre si em combates avaliativos em dupla, para demonstrar controle básico do próprio elemento e cooperação. Alguém tem mais alguma dúvida?
Enquanto ouvia sua explicação atentamente, a pressão sobre mim se dissipou. Senti alívio, mas também curiosidade sobre a origem daquela força. Alguns outros alunos levaram a mão ao peito, talvez também tivessem sido afetados da mesma forma que eu.
— Por que preciso fazer esse teste se sou claramente mais forte do que esses perdedores? Esse tratamento igualitário é ridículo. A nobreza não deveria se misturar com essa sujeira!
Um jovem loiro, bem vestido, declarou em voz alta, quebrando o silêncio do salão. Sua fala provocou reações imediatas, alunos se revoltaram contra sua opinião, dando início a um novo conflito.
— O que você disse, maldito?!
— Quer apanhar?!
Senti minhas costas serem empurradas. Algumas pessoas tentavam se aproximar do nobre, que estava relativamente perto de mim. A possibilidade de o salão se transformar em uma arena me deixou apreensivo.
— Silêncio.
A Vice-Diretora Cinthia calou o salão novamente. Com apenas uma palavra, a multidão se silenciou de imediato. A pressão que antes havia desaparecido retornou — deixando claro que a fonte era Cinthia — e me fez quase ajoelhar.
— Muito bem. Você acredita que não merece o mesmo tratamento que os outros… — Cinthia fez uma breve pausa, como se refletisse. — Então lhe darei uma oportunidade de ingressar imediatamente na academia: se conseguir permanecer em pé diante de mim por cinco segundos, será aceito. Caso contrário… será expulso. Tudo bem?
— Só isso? Que simples.
O nobre zombou, espalhando sua soberba sem pudor. Uma garota aproximou-se dele e pediu que desistisse, afirmando que aquilo seria para o próprio bem dele.
— O quê? Quem é você?
A garota deu um passo à frente.
— Valkyrie Riend. Recomendo que recuse este teste — disse ela, com um leve sotaque perceptível.
Sua forma de falar era elegante, porém estranhamente distante. Seus cabelos longos e prateados a faziam parecer uma pintura quando permanecia imóvel.
— Cale a boca e saia da minha frente. Não preciso de ninguém cuidando de mim.
O nobre loiro subiu ao palco. Seu destino não estava longe; o púlpito ficava a poucos passos. No entanto, no momento em que chegou a cerca de dois metros de Cinthia, seu corpo simplesmente desabou. Ele começou a tremer, os músculos se contraindo como se fossem esmagados por uma força invisível.
— AARGH! ISSO DÓI, PARE!
— Certo, já é o suficiente. Podem retirá-lo daqui — declarou Cinthia, ajeitando o cabelo com tranquilidade. — Mais alguém deseja ter o privilégio de observar minha beleza de perto? Isso… se não tropeçar antes.
O deboche dela fez murmúrios se espalharem pela multidão. A dúvida geral era se aquilo havia sido uma magia ou algum tipo de ataque invisível. Eu, sinceramente, não fazia ideia, mas a cena despertou minha curiosidade e empolgação. A pressão sobre mim desapareceu junto com o suspiro do nobre.
— Incrível! Não sei o que aconteceu, mas foi tudo muito rápido. Ele se ajoelhou do nada — deixei escapar, animado, sem perceber que havia falado alto.
— Isso foi a aura daquela piranha.
Uma voz ao meu lado explicou. Virei o rosto e me surpreendi ao reconhecer quem era: o mesmo garoto de cabelos laranjas que eu encontrara mais cedo.
— Você… é o rapaz de antes! — exclamei, ainda surpreso.
— Sou Grennor Hesper. Para tirar sua dúvida, ela apenas deixou sua força vazar pela área.
— Muito prazer, e obrigado novamente pelo que fez mais cedo. Me chamo Gindo. Então… aquilo não foi magia?
A explicação só aumentou minha confusão. Até então, eu entendia a aura como algo que podia ser moldado em formas sólidas, mas talvez também pudesse se manifestar de maneira mais abstrata. Nunca imaginei que pudesse ser usada daquela forma.
— O elemento dela é sobrenatural: controle da gravidade. A aura fez o nobre sentir uma pressão absurda.
Eu já havia ouvido falar de elementos sobrenaturais enquanto estudava em casa, mas nunca consegui compreendê-los totalmente por falta de livros. Permaneci em silêncio, imaginando o que aquilo significava. O Diretor Afonso ergueu a mão, exigindo novamente o silêncio do salão.
— Agora, escutem com atenção. Nossa academia funciona com um sistema chamado Ordem. Aqui, vocês serão classificados da posição duzentos até a posição um. As posições mais altas recebem certos privilégios, então competir por elas é algo natural.
Ele fez uma pausa, dando-nos tempo para refletir. A ideia de lutar contra outros alunos não me agradava; afinal, eu não era um nobre e não tinha como competir em igualdade contra pessoas de linhagem.
— Para subir na Ordem, será necessário desafiar membros posicionados acima de vocês. Caso o desafiante vença, ocorre a troca de posições. — Seu semblante se tornou rígido por um instante, antes de continuar. — Quem provoca alguém mais forte deve estar preparado para o que pode vir… a academia não se responsabiliza pelo resto.
Suas últimas palavras tiveram um destaque intencional. Cinthia permaneceu ao seu lado, imóvel, de braços cruzados. Felizmente, eu não sentia mais a pressão de antes, o que provavelmente significava que ela não estava com raiva… eu acho.
— Agora, deem uma salva de palmas para os três no topo da Ordem.
O salão aplaudiu enquanto três estudantes subiam ao palco: primeiro, um homem alto de cabelos escuros e presença imponente; em seguida, uma garota de cabelos loiros, cuja postura irradiava confiança; por fim, uma garota pequena de cabelos azul-claros, que aparentava sonolência, quase arrastando os pés, como se o simples ato de subir ao palco já a cansasse.
O primeiro a se aproximar do púlpito foi o homem de cabelos negros e uniforme dourado. Bastou ele subir para que o salão se aquietasse — era o tipo de presença que não precisava levantar a voz. Ele se apresentou como Drake Pater, aluno do quinto ano, desejou-nos bons estudos e reforçou a importância do esforço dentro da academia.
Em seguida veio a garota sonolenta. Seus olhos semicerrados ameaçavam se fechar ali mesmo. Vi o diretor observá-la do canto da parede, como se quisesse gritar “Se apresente!”. A vice-diretora permanecia ao seu lado, de braços cruzados, sem qualquer intenção de intervir.
De repente, a garota abriu os olhos. Apresentou-se como Arinar Jaspian, aluna do quinto ano. Sua fala resumiu-se a um pedido para que todos comessem e dormissem bem. Em seguida, levou um dedo aos lábios, com um olhar pensativo. Caminhou lentamente em direção à saída, mas parou no meio do caminho e se virou novamente.
— Lembrei! — gritou, surpresa, agora com os olhos bem abertos. — Se fizerem bagunça e causarem problemas para a tia da cozinha, eu matarei seja lá quem for.
Suas pupilas brilharam intensamente junto da ameaça. Comecei a me sentir sonolento, prestes a cair. Olhei para Grennor ao meu lado; ele parecia bem — pelo menos até eu notar o suor escorrendo por seu rosto. Ao redor, alguns estudantes estavam na mesma situação que eu, embora outros permanecessem de pé sem dificuldade.
A ameaça da garota, que antes parecia inofensiva, foi um choque geral. Ainda assim, como se nada tivesse acontecido, Arinar virou-se e foi embora, levando consigo aquela estranha sensação de sono que ainda me dominava.
Será que aquela sensação era a aura dela, sendo exalada da mesma forma que a de Cinthia?
Comecei a temer o nível de poder daqueles no topo da Ordem. Ainda assim, minha determinação em me tornar um cavaleiro mágico gritava dentro de mim, impedindo-me de desistir.
— Você namoraria ela?
— Nem fodendo.
Ouvi dois alunos brincalhões conversando atrás de mim. A conversa descontraída também foi ouvida por Grennor, que reagiu com uma risada discreta. O palco mudou de atmosfera quando a terceira e última pessoa subiu ao púlpito.
Uma garota loira, de beleza imponente, iniciou seu discurso. Seu nome era Sabrina Kepler, aluna do quarto ano.
— Esta academia recompensa apenas os capazes — declarou, lançando um olhar afiado à plateia. — Esperem estar à altura.
Enquanto discursava, seu olhar permanecia rígido, quase ensaiado. Ainda assim, eu sabia o que se escondia por trás daquela máscara: nojo.
Estava tão acostumado a ser encarado daquela forma que aprendera a reconhecer o desprezo antes mesmo que ele se manifestasse por completo. Se existia algo que eu pudesse chamar de dom, era isso.
A presença de Sabrina era intimidante — mas dessa vez, não por causa de alguma aura.
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