Volume 3 – Arco 2: Desejos
Capítulo 1.4: Ilusão desperta
O garoto então olhou em direção a sua oponente e, embora, essa fosse uma pessoa querida para si. A mais querida entre todas. Agora só conseguia pensar como um inimigo a ser derrotado. E o motivo de querer ser capaz disso era justamente para protegê-la, para não permitir que exista outra chance dela desaparecer.
Era irônico…
Ele queria poder, queria ser capaz de fazer qualquer coisa, de ser imparável. Alguém que jamais passe dificuldade. Mesmo assim, ele estava nessa situação… ansiando por conseguir vencer a sua namorada, justamente a pessoa pela qual deseja ter força para se proteger.
Jun não se conhecia mais nesse instante… Já não via mais sentido no que estava fazendo, mas ainda tentava a qualquer custo… E por que ele queria fazer isso?
Porque eu não quero ficar sozinho… Não quero perder mais ninguém… Não quero que minhas consequências acabem novamente como foi com Hiro e Aimi… Eu preciso ser melhor!
E assim, empunhando na mão direita uma espada de um escuro profundo, preenchida por inúmeras estrelas cintilantes, e empunhando uma segunda da cor do sangue, na qual carregava todos os pecados que derramou, ele avançou. Ele queria se provar. Não queria que todo aquele caos e destruição que fez para protegê-la fosse em vão. Não podia se tornar alguém incapaz. Tinha que se reerguer e fazer algo.
Não posso ficar parado… Não posso ficar parado…
Aquela eletricidade flui pelo seu corpo. Tudo ao seu redor se tornava mais intenso e rápido, mas ainda não era o bastante. Estava mais lerdo do que uma vez já foi. Mesmo assim ele continuou brandindo as duas lâminas freneticamente cortando todos aqueles gelos, sem dar brecha para tempo de reação, até mesmo para ele. Não importava se não conseguia se mover como queira ou acompanhar o que estava fazendo, ele só confiava que daria certo.
Eu tenho que ser rápido… rápido… rápido… mais rápido!
E mesmo que não conseguisse alcançar a velocidade que desejava, ele jamais iria parar. Ele jamais ficaria sem fazer algo, quando era capaz de alcançar isso. E com essa mentalidade as duas espadas entraram num embate frenético com a da garota. Não era mais a mesma de antes, essa arma cujo tem o nome de “luar latejante”, agora se aproxima de um modelo semelhando a que ele usa, porém com uma lâmina levemente mais fina, embora ainda esteja longe de seu uma propriamente para estocada.
Se ninguém fizer nada, eu tenho que fazer! Se ninguém for capaz, então eu serei o único! Eu vou mudar esse mundo e farei dele um lugar para que a Rie possa viver. Que viva o quanto puder. Que viva ao máximo! E para isso, eu preciso me tornar o único capaz de mudar tudo. Eu serei o único!
As rajadas de gelo, o solo deslizante onde pisava e até mesmo a casca que tentava o paralisar, ele pegava tudo para si e tornava em força. E linhas poligonais eletrizantes golpeiam sem parar a lâmina da garota, a deixando sem ter como reagir.
Se for por causa dela eu posso fazer tudo… Até mesmo a superar, pois se não há ninguém forte o bastante para protegê-la, eu então serei o único!
No entanto, um grande abismo ainda separava os dois… Não importava o quanto desejasse estar ao seu lado…
Foi só uma questão de Rie parar de ficar conjurando a magia e passar a concentrá-la em sua espada que em um simples movimento o derrubou. O poder dela era absurdo e, por mais que tivesse o potencial de chegar até lá, ele ainda era…
Muito fraco… Eu sou muito fraco…
E assim, com movimentos básicos de esgrima imbuídos por aquele poder gélido, sua postura foi quebrada, independente de fazer movimentos velozes para tanto ele quando ela conseguia acompanhar. Quando se deu por si, estava caído no chão com a ponta do sabre da garota tocando levemente seu peito.
No fim, não foi bom o bastante pra conseguir te acompanhar…
* * *
Após aquele show acabar, Yuri andou até o casal que fez forçadamente brigar. Ao olhar para o resultado, ela rapidamente se arrepende dessa decisão. No fim, colocá-los num duelo era de longe uma das piores formas para pôr em prática o breve treinamento de Jun.
— Esse é um detalhe que realmente esqueci de considerar… — Ela comentou envergonha com o deslize que cometeu. — Como vocês fizeram a união de auras, vão acabar anulando um ao outro em um combate desse tipo…
Nesse pacto, os poderes não eram somados, mas a aptidão era compartilhada, ou seja, se um quisesse aprender o que o outro sabia, conseguia fazer isso com muita facilidade. Também, se caso quisessem compartilhar ou absorver a energia do outro, também conseguiriam. Em batalhas poderiam facilmente combinar seus poderes e usar disso para fazer diversas coisas em conjunto.
— Mas até que não foi de todo mal, pois parece que o Jun age melhor sob pressão. Isso fez com que ele inventasse uma forma criativa de usar sua habilidade, ao tirar a sua mobilidade, dessa forma criou um método de superar isso. — E ela continuou dando sua análise sobre o ocorrido.
Era de fato muito surpreendente que ele tenha tido essa ideia de usar a eletricidade para se prender sobre superfícies — assim ele não iria depender necessariamente do atrito para se locomover. Isso se tratava de algo tão vantajoso que mal conseguia pensar no tanto que ela, ou Isamu, conseguiriam fazer se tivessem isso.
— Já no caso de Rie, ela se deixou levar demais pelo ânimo das novidades que conseguia fazer com seu poder nesse novo auge, que quase acabou perdendo… A arrogância de achar que conseguiria vencer com algo que não tem o domínio, também contou. Porém, no fim mostrou que uma concentração de aura, junto de um excelente controle, é algo que faz muita diferença. Ela superou sua velocidade Jun, muito facilmente.
Yuri então observou seu filho com uma expressão de quem estava acabado. Parecia ser uma mistura de frustração, raiva e impaciência, mas ela não conseguia dizer com perfeição. Apenas o olhava naquela postura enquanto observava a adaga vermelha em sua mão. Algo naquele objeto com o fio cheio de desgastes o deixava pensativo.
— De todo o modo, da próxima vez quem vai testar suas habilidades na prática, em um duelo, será eu…
Quanto tempo que ela não empunhava uma espada? De fato não sabia, mas tinha que compensar de alguma forma todos esses anos que ficou sem fazer nada. Pelo menos, no fim, sabia que era a mais apropriada para treinar o seu filho nesse momento.
No entanto, enquanto não conseguia fazer ele recuperar toda a sua força anterior, ainda não tinha como deixar de ficar preocupada. No próximo dia, Jun e Rie teriam que voltar a academia, contudo tinha medo como que os Ones iriam reagir em relação a eles depois de tudo que fizeram.
* * *
E ao chegarem no campus, depois de um bom tempo, só podia se dizer uma coisa: estavam carregando com eles uma bomba relógio prestes a explodir. Aqueles uniformes dados para a tal “elite”, ou seja, o blazer vermelho de Jun e o blazer cropped azul de Rie, ainda estavam neles. Aparentemente, esse seria um detalhe bobo, contudo ajudava a ambos se destacarem drasticamente em relação aos outros.
O casal caminhava pelos corredores desse local com uma típica arquitetura moderna, com as paredes feitas de vidro, o chão feito de mármore e a decoração em madeira. E embora esse lugar tivesse um belo exterior, com uma vegetação vasta, cheio de árvores, arbustos e jardins de flores, em conjunto de calçadas ao lado de pequenos riachos e fontes de água, o mesmo não podia ser tido para os alunos que estavam presentes.
Algo que era esquisito demais levando em consideração toda a beleza que tinha ao redor. Até demais. Aliás, eles voltaram para essa escola como se nada tivesse acontecido; como se tudo que Jun fez por causa de sua namorada não teve consequências e, além de tudo, ainda tinham o privilégio de continuarem fazendo parte do conselho estudantil disciplinar chamado de elite.
Isso lhes dava um pressentimento ruim, mas tudo era tão incerto…
— Não fica dando atenção pra eles… — falou Rie, segurando Jun pelos mindinhos.
A reação de todos era algo que, definitivamente, ele jamais conseguiria prever. Se fossemos levar em consideração os Zeros, eles tentavam se manter distantes dos dois, mas até que chegavam a olhá-los com uma certa aprovação. Entretanto, no caso dos Ones, eles já os observavam com ódio, desprezo e medo, principalmente.
Todas aquelas íris de cores douradas, ou pelo menos a maioria que tinha isso, lhes dirigiam esse tipo de expressão. Mesmo assim, ninguém ousava chegar perto deles. Era como se todos saíssem da frente para criar uma passarela para eles cruzarem.
E o toque de dedos de sua namorada ia se intensificando até que suas mãos se unissem. Ela estava deixando o cabelo cair por cima do olhos e caminhava cabisbaixa, cada vez mais se aproximando dele, se aconchegando, se encolhendo, se escondendo. Devido ao toque, até mesmo conseguia sentir o coração dela batendo. Pulando e pulando rapidamente, mais forte, acelerando, frenético e ameaçando a explodir. Desse modo, quando se tocou a garota já estava abraçada no braço dele.
No fundo, Jun sabia que eles queriam bater neles. Queiram os espancar, os ver sofrer, fazer com que paguem por todo o estrago que fizeram. Desejavam que Jun queimasse no fogo do inferno e agonizasse por cada mínimo instante restante de sua existência. Ele tinha que pagar. Tinha que pagar, tinha que pagar, tinha que pagar…
Ele não estava mais suportando ficar nesse lugar.
— De todo o modo, vamos pra um lugar longe desse caos… — comentou Jun, bem baixinho, para que só Rie ouvisse.
* * *
Ainda naquela arquitetura típica, eles foram para um local isolado. Estavam num jardim de flores, com outras plantas e uma fonte feita em pedras, mas o detalhe que mais se destacava era que as paredes e o teto eram feitos de ferro forjado. Na teoria poderiam ver o lado de fora, mas por causa da extensa vegetação só a luz passava e dava para ver o brilho entre as folhas.
Era como se estivesse num lugar lindo e tranquilo no interior de uma gaiola em que ninguém ousaria de invadir. Aliás, esse era um lugar da academia que raramente as pessoas viam, portanto estavam livres de todos aqueles olhares dos Ones.
— É um nojo, eu não consigo ir pra qualquer lugar, sem que os outros fiquem querendo me matar com os seus olhares — Rie reclamava com sua marmita apoiada no colo em que esfriava cada vez mais, sentada junto de Chie num banco de madeira e explicando toda a situação que ela e Jun passaram nesse dia na academia.
E enquanto isso, o ruivo só observava isso em silêncio, pensativo, enquanto comia um cachorro-quente e ouvia Seiji ao seu lado fazendo comentários sobre o assunto. Ambos estavam escorados na fonte com as costas, sentados no chão.
— É meio irônico… Não, pra falar a verdade, chega a ser karma… — Chie solta um breve riso sarcástico. — Um povo que ascendeu ao exterminar um povo que oprimia eles, agora sendo destruído por outro povo que eles mesmos oprimiram.
Mas foi só a cidade que sofreu danos… Exceto o Noburo, fiz a questão de não matar ninguém, pois ninguém merecia, mesmo assim eu não entendo… Por que ao ver eles nessa situação eu ainda consigo ter empatia? Eles são só Ones, poxa... Apenas receberam o que mereciam, tô errado?
— Como assim? — Seiji perguntou, confuso com o comentário de Chie.
— A Aimi já leu sobre algo do tipo, mas eu não me lembro direito… — Tanto o garoto de óculos e cabelos azuis, quanto Jun se encaram neste momento, como quem estava se identificando um com o outro. Ambos eram cúmplices de achar aquelas aulas de história um tédio e de não prestarem atenção.
— Houve um tempo em que pessoas sem poderes e usuários de aura viveram juntos. E nessa época todos com a capacidade de gerar a energia eram tratados como nós Zeros. Foi nesse contexto em que a festa surgiu, pois erramos desprezados pelos outros e nos viam como ferramentas para se proteger das ameaças do exterior e uma fonte de entretenimento.
Se não tivesse esse contexto, eu iria pensar que estavam falando do presente.
— Mas isso durou até aqueles que seriam os Ones inventarem as armas únicas, que amplifica a força da aura dourada deles, assim conseguindo matar os normais de modo que eles morressem antes de serem infectados pela energia e se tornarem bestas. E como não tinham mais que temer uma epidemia de monstros, os extinguiram e então replicaram seu modo de vida, mas com quem tinha a magia de cores diferentes das deles.
No fim, eu não sou muito diferente deles… Aquela destruição que fiz é muito próximo disso… Estava começando a repetir um ciclo…
Enquanto ouvia isso, Rie então começou a comer, mas fazendo uma cara de desagrado pela comida que estava fria. Ela então solda um comentário a respeito da história que acabou de escutar:
— Por falar nisso, é no próximo mês que a festa vai começar… Já te mostraram quem vai ser a sua dupla Chie? — disse como quem não queria nada. Uma perfeita agente do caos.
— Ainda nada. Ninguém é compatível comigo. — E ela então roubou uma parte da marmita de Rie e mordiscou com força.
— Ei! Isso é meu!
Jun então observou Seiji rindo levemente do instante. Foi nesse momento que lembro de algo e logo perguntou:
— Você não tinha me dito que estava na mesma situação, certo?
— Isso mesmo.
— O que acontece com quem não consegue determinar uma dupla? — Uma dúvida genuína, pois nunca teve a necessidade de pensar nisso, pois já recebeu sua parceira de mão beijada.
— Eles devem escolher com base em notas do tipo de poder, mas se nem isso der certo devem fazer um anúncio pra que procurem por contra própria. — Chie explicou, ainda com uma cara de emburrada.
Após terminar de saborear seu cachorro-quente completamente, Jun então limpou sua boca e organizou seus pensamentos. Ele estava prestes a dizer algo impactante:
— Por que vocês dois não fazem uma dupla? Já que são conhecidos, deve ser melhor do que ir com alguém aleatório.
Todos durante alguns segundos ficaram se encarando em um silêncio constrangedor. O vento soprou e o barulho de toda a vegetação ecoou por todo o ambiente. E submerso nesse climão, Jun apenas ficou confuso, se questionando se tinha dito algo de errado ou constrangedor.
— Ah… Desculpa, os pensamentos intrusivos venceram… — comentou o jovem de cabelos vermelhos e olhos azuis em meio a uma postura tímida.
— Bem, até que é uma ideia a se considerar, mas sabe? Ela é uma maga, e eu um espadachim que sabe conjurar magias, não parece uma combinação muito boa — fala Seiji, um tanto desconfortável.
O garoto de óculos, então troca olhares com a garota de boina, e ela vira a cara para o lado e diz:
— Hmm… Até que pode ser bom. Alguém que consegue soltar uma bola de fogo ou outra deve ser útil — divaga Chie com um olhar analítico, como quem estava julgando Seiji descontroladamente dos pés à cabeça. Enquanto isso, Seiji está com uma careta estampada.
— Vocês dois juntos devem ser fortes. Com a união das turmas de Zeros e Ones que teve esse ano, vocês devem conseguir lidar com a participação deles na festa. — Rie falava animada, contente aparentemente com a ideia.
Esse era realmente um detalhe que Jun havia se esquecido. Neste ano, os Ones também iriam participar da festa. Ele mal conseguia imaginar o que eles poderiam fazer nesse torneio. A participação deles era algo preocupante, e ele precisava ficar forte rapidamente para conseguir lidar com isso.
— Então vamos fazer isso. — E Chie responde.
— Ei! Eu ainda tô pensando a respeito disso! — Seiji contesta.
— Tá com vergonha? — Jun pergunta na inocência.
— Fica quieto garoto, agora você vai fazer o que eu mandar. — Chie finaliza.
— Olha só, até que já estão se dando bem… — Rie diz na tentativa de ser uma pacificadora nesse conflito.
Em meio a esse cenário conturbado, seu amigo e a garota de cabelos rosas, continuaram trocando olhares afiados. No fundo Jun estava começando a se sentir culpado por esse acontecimento, mas por hora iria fingir que não tem nada a ver com esse ocorrido. Uma certa preocupação não parava de o assombrar…
No presente, ainda tinham medo dele por causa do que fez, no entanto era só questão de tempo até saberem que ele recebeu um reiniciar e perdeu praticamente todas as suas habilidades — por sorte já conseguir recuperar sua magia elemental de eletricidade. Embora isso tenha lhe dado um futuro potencial drasticamente maior do que anteriormente, não era algo que conseguiria facilmente de qualquer forma. Iria demorar e isso era agoniante… agoniante demais…
* * *
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