Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 3 – Arco 2: Desejos

Capítulo 1.2: Ilusão desperta

Ela foi até uma pequena arquibancada no fundo da sala e lá sentou, descansou a cabeça nas suas mãos que apertavam as bochechas, com os braços apoiados nos joelhos. Ao longe, observa o garoto de cabelos de um vermelho vinho treinar sem parar, agora podendo se divertir com a espada que entregou, a imbuindo de energia como quem não cansava.

O foco e o empenho que Jun exalava, a tocava intensamente.

No entanto, enquanto analisava a situação, entre aquele misto de surpresa e orgulho por vê-lo avançar tão rapidamente, aquelas preocupações e anseios que se escondiam no seu interior, criavam forma.

Até que ponto aquele desejo de continuar vivendo a levou? Por causa disso, o amor da sua vida teve que abrir mão de tudo o que o fazia especial por ela, mas e agora, o que iria acontecer? Agora, significa que ele teria que reaprender tudo zero para voltar a ser como antes. Isso a deixava com medo.

E se voltassem para aquele inferno de antes, onde eram atacados repentinamente a toda hora? Ela seria capaz de protegê-lo sem problemas? Ela queria fazer algo, mas sequer sabia por que deveria começar.

O seu egoísmo por querer viver mais do que qualquer um, perante o medo de uma morte que parecia iminente, levou seu namorado a esse estado.

Sendo assim, o quanto que realmente valia o seu desejo?

Antes que desapareça, farei que todos saibam que uma vez estive aqui…

Rie sequer conseguiu cumprir esse objetivo e, no momento, isso nem ao menos chegava a se adequar a ela. Aliás, não iria mais morrer. No fim, não fez nada para conquistar isso; apenas a garota que teve que ser salva. E ainda fez com que Jun precisasse se sacrificar para ela…

Portanto, toda a inspiração e vontade de cantar de antes, agora tinha algum valor? Ela até deixou de fazer isso como prioridade por medo da morte, embora falasse toda hora que estava preparando algo. No ponto atual, valeria realmente a pena continuar cantando? Rie não sabia. Seu sonho, agora não possui mais uma motivação válida.

O mundo inteiro a partir de agora deve os ver como uma completa ameaça. Na visão deles, são um possível novo tipo capaz de oprimir a todos e começar um novo ciclo de dor. Quem iria querer escutar as músicas de uma garota que transmite essa imagem terrível? Ninguém se sentiria motivado ou iluminado pelas palavras dela. De fato, seria notada por todos, mas desse modo do que entintaria? Pois desse modo será penas como um símbolo de zombaria e arrogância.

Em meio às faíscas da aura prateada de Jun que se tornava roxa ao ficar elétrica, ela ficou presa entre esses pensamentos enquanto o olhava. Estava perdida em um emaranhado de emoções. Podia ter conseguido o direito de permanecer viva, mas o gosto amargo das consequências que foram fruto disso, a assolava.

— Jun me contou que você quer ser uma cantora, também… Por que você não quis me contar isso? — perguntou a mulher de cabelos prateados parando ao lado dela, sem que ao menos percebesse.

A garota paralisou por um instante e entrou em um pânico interno que a impediu de mover um músculo sequer. Essa pessoa na qual estava diante si era ninguém mais do que a lendária cantora “Lily” — alguém que motivou toda uma nação com suas músicas. 

Obviamente, essa pessoa foi a sua principal fonte de inspiração desde o início e, até mesmo, quando era criança, sendo obrigada a ser um tipo ideal de guerreira contra sua vontade. Essa mulher lhe inspirou em vários sentidos, além de só cantar. Entretanto, agora, até mesmo tinha dificuldade para se recordar e visualizar a razão dessa mulher ter se tornado uma fonte de inspiração para si.

Apenas lhe restava um sonho que não foi capaz de realizar e que já não se adequava mais a ela. Ela podia continuar existindo, mas por causa de todo o estrago que deixou, do que adiantava continuar almejando provar sua existência e assim, realmente, sentir que está viva?

Rie não sabia o que deveria fazer e isso era torturante. A única coisa que conseguia fazer era abraçar os joelhos e abaixar a cabeça. E enquanto aquela mulher a observava esperando por uma resposta, enquanto seus cabelos prateados mudavam entre tons roxos e azuis, pela energia do garoto no centro da sala que tentava se reerguer rapidamente, a deixando apreensiva. Mas por que ela estava assim?

— Porque, no fim, eu acabei não prestando para nada…

 

* * *

 

As últimas palavras daquela jovem garota de cabelos brancos, fez com que aquilo adormecido no seu interior viesse à tona. Em meio a isso, o ambiente de clima confortável iluminado por cores vivas, então tornou-se frio em tom gelado em temperatura.

Aliás, era agoniante, muito agoniante. E o som dos estalos causados pelas faíscas do poder do seu filho, que tentava se aprimorar incessantemente, fazia cores piscarem numa histeria que entrava nela.

Para onde havia ido aquele mundo que conhecia? Repentinamente, parecia ter despertado num lugar mais sombrio que o anterior. O brilho pelo qual tanto lutou para que continuasse a reluzir intensamente, simplesmente tornou-se mais fraco.

Bruscamente, em um mísero piscar de olhos, tudo que Yuri conhecia virou algo diferente. O marido que conhecia, repleto de uma energia avassaladora que motivava o que tinha à sua volta, agora carregava um olhar pesado de uma culpa que desconhecia. Seus filhos estavam crescidos e quanto a um deles, mal conseguia alcançá-lo direito, pois se encontrava sob a posse de pessoas que não gostaria que estivesse distante dele.

Entretanto, na imagem do outro garoto ela ainda conseguia ver aquela mesma luz de antes junto dele. Embora seu filho mais novo tentasse desviar olhar para não encará-la diretamente, como se estivesse tentando evitar algum tipo de dor, existia um desejo em Jun de melhorar. E isso a motivava a também conseguir seguir adiante, mesmo que ainda se encontre perdida submersa na atual realidade.

Aquela criança que acompanhou seu crescimento, dia a dia, de repente ficou madura perante os seus olhos e já estava começando a trilhar seu próprio caminho ao lado de uma parceira. E saber que não foi capaz de apoiá-lo até esse ponto doía e muito. Yuri não pode estar presente no desenvolvimento de seus filhos como uma mãe e, por mais que saiba, que não teve culpa, esse fato a machucava do mesmo modo.

E foi justamente a cena de Jun com essa garota que fez com que despertasse toda essa angústia. Ela queria um motivo para ir contra o que estava presenciando, porém, aquilo também era a fagulha restante do cintilar anterior. Aliás, a figura deles lembrava muito dela junto de Isamu quando jovens, lutando contra o mundo em busca de uma felicidade distante.

— Não prestou pra nada, é? Bem, isso foi o exato oposto que ouvi de você.

A luz que viu nessa garota ao lado de seu filho, mesmo naquela situação em que parecia estar diante de um fim iminente, foi algo que ela jamais imaginou visualizar. E isso a deixou muito feliz. Contudo, a motivação atual da garota, a irritava demais. 

Ela tinha a perfeita cara de quem abriria a mão para passar os momentos ao lado de quem mais amava, pois estaria focada em mantê-lo seguro. Estaria tentando compensar as consequências de acontecimentos do passado que estavam além de seu controle, assim, cegando a si mesma no processo.

 Yuri conseguia enxergar perfeitamente esse tipo de cenário na jovem e, simplesmente, não aceitava que ela fosse seguir por esse caminho. Não tolerava esse tipo de situação. Aliás, conseguia se ver muito bem no lugar, uma vez que foi justamente por tomar esse rumo que acabou caindo num coma que a deixou longe de sua família.

Ela não queria que ninguém mais tivesse que passar por isso.

— Eu acabei falhando em tudo e ainda só criei mais problemas para os outros… — A garota se agacha e apoia a cabeça sobre ambas as mãos para observar o namorado treinando de longe — Eu tenho que consertar isso… — E a voz dela foi sumindo gradualmente.

Ela então sentou-se ao lado de Rie naquela pequena arquibancada. A garota tentou se isolar mais ainda ao vê-la se aproximar dela. Entretanto, Yuri estava convicta no que diria a seguir:

— Falhar? Como assim? Como foi que você falhou em algo que sequer começou direito? E também, o que está quebrado que você tem que consertar?

Yuri olhou intuitivamente para seu filho treinando sozinho e a garota de cabelos brancos seguiu o seu olhar. Jun imbuia sua espada com a magia elétrica que ficava pulsando entre um vermelho arroxeado e um branco que possuía um brilho cromático ao redor. Ela a brandia criando ondas de energia no ar.

E mais uma vez ela ficou espantada. Aquela criança que ela acompanhou tendo dificuldade para começar a usar a aura na infância e que, pelo menos agora, parecia que seria o mesmo caso, superou drasticamente suas expectativas. Como era possível que ele tivesse avançado tão rápido em tão pouco tempo? Usar elementos devia ser algo complicado, não? Ela simplesmente estava incrédula com seu filho.

Até mesmo Rie, que era sua nora, conseguia ver essa vontade avassaladora de Jun em que almejava se fortalecer o mais rápido possível. Na face da garota havia um misto de surpresa e orgulho.

O poder dele, se propagando pela atmosfera dessa sala em rajadas de luz, a fazia ficar quente e colorida.

— Se você apenas deixar ser levada pelas preocupações, vai deixar de ter todos os desejos que lutou para conseguir ser feliz — comentava enquanto no seu subconsciente visualizava aquele dia outra vez. 

Naquele momento em que disse para seu marido que iriam fugir da cidade ao se reunirem, mas que usou isso como desculpa para que eles fossem para um lugar seguro, enquanto iria para o combate sozinha na intenção de protegê-los. Desse modo, uma das crianças foi mandada para longe, enquanto o pai tentava resgatar a outra que foi pega. E assim, ela não pode mais estar junto de sua família por anos.

— O que você quer dizer com desejos?

— Quando começou a cantar carregava algum desejo consigo, não?

Rie desviou o olhar para o lado e ficou pensativa por alguns segundos. Ela parecia apreensiva, mas, mesmo assim, falou:

— Eu queria provar minha existência e então conseguir me sentir viva de verdade…

A expressão da garota era um tanto distante, como se ela não quisesse olhar para Yuri diretamente. Ver isso fazia uma dúvida em específico revisitar outra vez: por alguma razão, Rie agia timidamente perto dela, em comparação com Jun que se soltava e até mesmo chegava a se esquecer do mundo ao redor. No momento não conseguia saber o motivo dessa atitude.

— Querer sentir-se viva é diferente de querer ser lembrada porque vai morrer. Não é o que imaginei que seria… mesmo assim, se é realmente isso que quer, esse ainda continua sendo um desejo genuíno a ser realizado.

E assim, a sua nora, finalmente a olhou diretamente. Aquela feição deprimida, então, começou a desaparecer.

— Se você for consumida somente por preocupações, vai abrir mão daquela felicidade que lutou para ter — Yuri reafirmava isso, não só para a garota, mas para ela também — Por isso que você não pode combater aquilo que a atormenta sozinha. Só conseguirá além, fazer seus desejos se realizarem…

Repentinamente, Yuri é cortado por um riso. Ela então olha para Rie surpresa.

— O que foi?

— Nada, não… Eu só pensei que agora, eu sei por quem o Jun puxou…

Ver aquela feição a deixou feliz, ao mesmo tempo que não conseguiu compreender direito o que ela quis dizer com aquela comparação.

— Acho que entendi o que você quis dizer, então… obrigada. Mesmo assim, ainda acho que preciso ser melhor do que isso para compensar tudo e fazer com que esse desejo seja o mais forte possível.

— E o que você gostaria de alcançar além?

— Pelo menos, começando a conseguir ser capaz de preparar uma refeição que o Jun irá amar descontroladamente…

E ao som dessa fala, Yuri voltou a questionar quando a escolha de seu filho quanto a sua parceira. Não devia ser só porque Rie era uma garota linda e atraente, devia haver algo mais… pelo menos, era o que esperava.

 

* * *

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