Volume 3 – Arco 2: Desejos
Capítulo 1.1: Ilusão desperta
— O estado atual da nossa cidade é uma vergonha, mas esse é um fato que precisamos aceitar! — Entre os barulhos do salto que batia contra a superfície, uma voz ecoou em meio ao profundo silêncio
Feixes vazavam entre as nuvens de chuva que começavam a se dissipar. E este ambiente acinzentado era tomado aos poucos por um azul suave, colorindo o mundo. No entanto, na face das pessoas só havia a incerteza, o medo, a angústia, a tristeza e uma invulnerabilidade que só se intensificava perante a imensa vastidão que os cercavam.
Neste abrigo, não existia mais aquela barreira tão reconfortante. Manter-se sob uma ilusão de segurança havia deixado de ser uma opção válida. Agora só restava encarar a realidade nua e crua desse mundo que, enfim, foi desperto.
No topo de um castelo elegante, uma mulher de longos cabelos prateados com a nuca pintada de dourado, erguia-se à beira da sacada. A coroa que usava não apenas adornava sua cabeça, mas também pesava sobre seus ombros com a responsabilidade imposta pelo momento.
— Espero que não fiquem soltando fogos de artifício — disse Jun enquanto tentava avistar tal aglomeração, na frente daquele grande edifício ao longe.
— Por que não? É sempre tão lindo quando fazem isso… Se bem que agora de manhã não daria pra enxergar algo assim. — E Rie comentava em tom de gozação.
Contudo, a visão que possuía desse evento vinha da imagem de um televisor. No prédio em que estava, conhecido como a base das forças de ataque em lutavam contra as ameaças do exterior, isso era todos assistiam em conjunto. Estava indo junto de Rie para uma sala de treinamento, quando pararam para se sentar e assistir o evento com os outros.
Suas emoções naquele momento se encontravam em uma mistura confusa. Ele lutava para compreender a gama de sentimentos que percorriam dentro de si.
Tanto da tela, quanto do topo de edifício em que estava, podia ver uma magnífica cidade. Um lugar feito com uma arquitetura de ponta e mais sofisticada possível. As estruturas eram feitas de um mármore branco, perfeitamente polido, e decorado com detalhes em ouro. E tudo em conjunto formava a visão de uma terra completamente chique e utópica, mas que no presente se encontrava em pedaços.
Enormes rasgos no solo estavam presentes por toda a área do local, em conjunto de rombos e crateras espalhados. E quanto às construções? Elas estavam em sua maior parte destruídas e, até mesmo, havia diversos prédios nos quais haviam sido derrubados à força.
— O domo, o nosso símbolo de nossa segurança, foi tristemente despedaçado — exclamava a rainha com um tom esperançoso que Jun achava difícil de engolir.
Enquanto ela demonstrava um ar de pureza e perfeição, o restante da população estava, em sua maior parte, toda molhada e abalada. Um fedor das pessoas naquele amontoado não devia ser nada agradável. A própria fumaça dos acontecimentos do dia anterior, só fazia tudo se tornar mais sujo.
Enquanto as palavras dela ecoavam, imagens da população eram passadas na transmissão. Na cena atual mostrava uma garotinha, caída de joelhos e chorando em que tentava ser reconfortada por sua mãe. Elas usavam vestidos nobres, mas nesse instante se encontravam sujos e avariados.
Jun ficou com os olhos trêmulos por um instante, mas ele não deixou ser levado por aquela narrativa que suplicava para o telespectador sentir empatia por eles.
— Por mais de mil anos fomos agraciados com a proteção do céu, mas agora é hora de olharmos além — proclamava a rainha para o seu povo, fazendo com todos fiquem atentos.
Para aquele povo que se autodenominavam "Ones", seres especiais e únicos, essa situação deveria ser devastadora. No entanto, para a espécie de Jun, essa destruição não era mais do que outra terça-feira. A base das forças de ataque, composta por sua raça, os "Zeros", não compartilhava uma mínima compaixão pela população dourada.
E próxima frase da rainha expressava a perfeitamente a razão disso:
— Mesmo sem o domo, agora temos meios de detectar qualquer ameaça a quilômetros de distância. Não há motivo para temermos. Permaneceremos como nos últimos mil anos e nos próximos, sem que uma única pessoa seja perdida — Ela falava convencidamente, tomada por um eco que era cada vez mais alimentado pelas inúmeras aplicações e gritos de animação que a plateia expressava.
E qual era a razão de não terem ocorrido perdas durante todo esse tempo? Porque os que morriam em batalha eram os Zeros, considerados menos que humanos, meras ferramentas. Esse discurso para eles era um deboche. As pessoas na sala em que Jun estava riam disso como se fosse um show de comédia.
Em meio a isso, a voz de Rie cortou os pensamentos de Jun:
— Então, basicamente, não importava ter o domo ou não? — Ela escorou a cabeça no ombro de Jun, soltando esse comentário em tom cômico. O toque de sua namorada trouxe conforto, mas Jun sentia um remorso momentâneo, que logo se dissipou.
O garoto de cabelos vermelhos, então, acariciou a cabeça com longas mechas brancas de sua namorada com a mão. Jun possuía um mau pressentimento quanto ao que a rainha estava prestes a falar:
— Mas agora está na hora de enfrentarmos um novo desafio — continuava a anunciar a rainha, fazendo a plateia ser tomada por um silêncio profundo — Toda essa destruição que vocês presenciam foi causada por uma única pessoa. Um garoto que foi capaz de enfrentar todo o nosso exército sozinho e ainda, fazendo a questão de poupar a vida de todos, como se não fosse nada para ele… Uma completa humilhação…
Jun desviou o olhar para o lado e então decidiu apenas escutar o som. Percebendo a reação dele, Rie pousou sua mão sobre a dele.
— Mesmo assim, a culpa disso tudo foi nossa própria incompetência… O responsável por fazer esse garoto realizar tal atitude e, também, o único a perder sua vida nesse evento, foi um dos nossos. Um traidor que quebrou o mais severos dos tabus!
Francamente… O Major só fez o que fez, pois você mesma permitiu.
E perante as últimas falas da rainha, o povo dourado inteiro demonstrava uma feição de espanto. Para eles era inacreditável que alguém da própria raça tenha sido o causador primordial de tal tragédia. Aliás, eram únicos e especiais; seres evoluídos.
— E agora, há algo que preciso revelar para vocês… — O repentino peso que surgiu na voz da soberana Yuriko Hirose, fez com que Jun e Rie entrassem em alerta — Aquele que causou essa destruição foi meu próprio neto. A cria de minha filha defeituosa que imaginávamos ter eliminado...
Em conjunto, o casal se levantou de onde estavam sentados. Ambos ficaram com seus olhos arregalados, incrédulos com que acabara de escutar. Aquela revelação era um segredo guardado por anos. Não fazia sentido aquela mulher decidir revelar isso do nada.
— O conceito de Zeros e Ones de vocês precisará ser atualizado, pois agora temos a certeza de um novo tipo entre nós. Um com o poder capaz de destruir nossa nação.
* * *
Uma luz azulada reluzia a partir das paredes de vidro fosco que constituíam o edifício da base. O ambiente era aconchegante e, de certo modo, até mesmo um tanto nostálgico. Vazia quantos anos desde a última vez que Jun ficou junto de sua mãe numa sala de treinamento? Ele, de fato, não estava com cabeça para calcular.
E a razão que o levou a estar nessa situação era incrivelmente parecida com as das últimas vezes.
— Eu sempre quis poder ver isso com mais calma… — Comentou a mulher com a mão no queixo e uma expressão de análise enquanto observava seu filho.
Na palma da mão do garoto uma energia cintilava de forma pujante. Elas eram de um intenso vermelho arroxeado, porém atuavam em conjunto com branco extremamente puro, também. Contudo, o brilho que as constituem, não era algo sólido, mas como o de um cristal.
Ele se sentia terrível. Como completo inútil. Alguém extremamente fraco e incapaz.
O que Jun tentava era nada mais do que o básico. Algo que deveria conseguir naturalmente, sem ao menos pensar, contudo, ainda possuía certas dificuldades. Apenas concentrar a aura em si próprio, até mesmo uma criança conseguia fazer sem problemas, porém ele ainda se atrapalhava algumas vezes com isso.
— Isso não chega a ser um pouco nostálgico, não? — Yuri falava se agachando enquanto apoiava a cabeça com ambas as mãos. Ela olhava para o desempenho do filho (para ele lamentável), com um sorriso no rosto.
E o garoto, apenas desvia seu olhar sutilmente para o lado. Ele ainda não se sentia confortável o bastante para encará-la diretamente.
Ao realizar a união de auras com Rie ele estava ciente de que teria que reaprender tudo do zero, novamente. Sim, de fato, ele estava ciente. Entretanto, não imaginava que, mesmo depois de uma semana após esse ocorrido, ainda estaria nessa etapa tão inicial.
Mas, por outro lado, ele realmente não poderia negar quanto a isso era nostálgico. Quando criança aprendeu a utilizar a aura pela primeira vez como agora, junto de sua mãe. Faz isso duas vezes, chega ser humilhante. No entanto, como ela possuía um grande conhecimento quanto ao poder especial que adquiriu, era a pessoa mais apropriada para essa tarefa.
— Quando criança, toda vez que não conseguia manter a aura fazia uma cara de emburrado tão fofinha. Era um amorzinho… — Ela parecia estar tendo algum tipo de delírio mentalmente.
E em reação, Jun franziu os olhos e fez a cara de quem havia ficado envergonhado. Toda a energia concentrada em sua mão não conseguiu ser mais mantida.
Estendeu seu braço então e apenas se utilizando de uma memória muscular, sem qualquer pingo de esperança, a energia se entrelaçou pelo membro e foi até a ponta de seus dedos. E assim as duas cores passaram a ser purpura e azul. Quando na sequência, um intenso relâmpago atravessou a sala.
O que? Como assim? Como isso aconteceu? Então… Então, quer dizer que a forma de ativar magia não muda? Se realmente for isso, é uma descoberta muito boa.
O garoto olha com o canto dos olhos para a mulher e então fala:
— Tá, eu já tive um avanço, qual é a próxima parte? — E ao final da fala ele continua a observar caída de bunda no chão devido ao susto que tomara, em conjunto com uma face de quem estava surpresa e desacreditada ao mesmo tempo.
Entretanto, antes mesmo que ele pudesse tomar qualquer atitude para ajudá-la a levantar, a entrada de uma terceira figura nesse ambiente o parou. A garota de cabelos brancos, então, perguntou com uma face extremamente confusa:
— Tá tudo bem aí?
— Está sim. Foi só um susto — disse a mulher de cabelos prateados, erguendo-se e limpando a saia.
Rie inclinou a cabeça levemente para o lado, ainda um pouco perdida com a situação. Contudo, pelo visto, ela apenas decidiu ignorar o acontecimento e seguir com que pretendia fazer nesse lugar.
— Nosso pedido finalmente ficou pronto, olha aqui! — Ela estende as mãos, mostrando dois objetos. Eram suas adagas, sendo uma da cor da noite e a outra da cor do luar.
Suas armas haviam sido mandadas para o ferreiro Nobu para receberem uma manutenção. Desde que fizeram a união de auras, foi como se as adagas deles tivessem começado a se desgastar mais rapidamente. O mais certo era que não fosse capaz de suportar perfeitamente seus novos poderes.
Contudo é quase certo que no futuro teriam que transformá-las naquele tipo de espada daquela que anteriormente pertencia a Yuri, mas que Jun destruiu na última batalha. Chie possui um backup de como funciona aquilo, porém ainda não descobriram como criar isso ou transformar as suas em algo do mesmo tipo.
No entanto, entre ela havia uma a mais, uma terceira adaga. Essa era do mesmo modelo daquela de cor noturna, porém, de um vermelho da cor do sangue. E Jun conhecia aquilo muito bem.
— Como foi que você conseguiu isso? — perguntou, em uma mistura de surpresa e confusão.
— O capitão mandou eu entregar isso para você. Parece que era algo que você tinha perdido, mas sua avó encontrou e te mandou de volta… Não deve ser muito útil agora, mesmo assim pode servir com uma reserva ao menos.
Ele nunca mais tinha visto isso desde aquele dia, de fato. O tal dia em que deixou um de seus amigos mais próximos morrer. Depois de eliminar a besta que matou Hiro, nunca mais tinha visto essa arma de novo. E ver esse objeto fazia suas mãos tremer. Era como se aquilo carregasse todos os desejos daquele que deixou de falecer e as culpas que deixou para trás.
A prova dos seus pecados que nunca os deixariam.
— Bem… Obrigado, de todo o modo...
No entanto, antes que ele conseguisse pegar as suas adagas, Rie puxa seu braço para trás o deixando agarrando o ar e diz:
— Eu não vou te entregar, a não ser que você me prometa uma coisa. Sabe? Graças a todo o trabalho que foi andar até lá a pé e solitária. — Ela faz uma atuação dramática em meio suas falas. — Eu quero que você pense em mim sempre que for usar! — E termina se inclinado em direção a ele com uma postura provocativa e um sorriso no roso.
— Eu acho que essa não é a primeira vez que eu escuto isso…
E ela afastava seu braço cada vez mais enquanto o garoto de cabelos vermelhos ficava cada vez mais submerso na sensação de déjà-vu.
— Tá, tá bom… Eu prometo.
— Fofo. — Rie dá uns pulinhos de alegria.
O sorriso da garota de cabelos brancos então se torna de contentamento e assim, finalmente permite que seu namorado pegasse a adaga. Jun, havia ficado sem jeito.
Entretanto, a reação que a mulher fez perante a atitude dos dois era, sem dúvidas, algo que ele não sabia como descrever. Ele se perguntava o que sua mãe pensava a respeito da relação dos dois? Jun sequer conseguia imaginar, definitivamente.
* * *
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