Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 3 – Arco 2: Desejos

Capítulo 1.4: Nesse céu em pedaços

Ao pisarem no campus após tanto tempo, só conseguiam pensar numa coisa: eram como uma bomba-relógio prestes a detonar. O blazer vermelho de Jun e o blazer cropped azul de Rie, que ainda vestiam, gritavam que pertenciam à “elite” — nome dado ao conselho estudantil disciplinar. Detalhe que parecia pequeno, mas transformava-os em faróis no meio da multidão de uniformes brancos, poucos pretos e o restante com detalhes dourados.

Caminhavam por corredores de paredes envidraçadas, chão de mármore e acabamentos de madeira clara. Do lado de fora, jardins, flores, árvores, riachos artificiais, cercas, bancos e fontes que se espalhavam sob o sol da manhã. A beleza quase tirava o fôlego. Dentro, porém, o clima era outro. Sufocava.

Ninguém sorria. Ninguém falava alto. Apenas olhares.

— Ei, não fica dando atenção pra eles… — disse Rie, segurando Jun pelos mindinhos, embora mantivesse a vista dispersa, sem se conter.

“É bizarro a gente ter que voltar para a escola, como se nada tivesse ocorrido. Foi como se o mundo tivesse quase acabado, mas cá estamos outra vez, religiosamente, nesse campus… francamente… se estivesse num animê escolar, até poderia parecer algo normal…”

Os Zeros abriam espaço; alguns chegavam a acenar com a cabeça, quase em respeito. Os Ones, não. Íris douradas cravavam-se neles como se fossem ferver. Lábios contraídos, punhos cerrados junto ao corpo. Ainda assim, ninguém ousava dar um passo à frente. O corredor se partia ao meio, formando uma passarela viva de corpos que se afastavam.

A jovem apertou os dedos com força. Depois a palma inteira. Rie baixou a cabeça, deixando o cabelo branco cobrir os olhos, e grudou no braço dele. Jun sentiu o coração dela martelar contra o próprio antebraço — rápido, descompassado, quase saltando pela pele. O braço dela tremia. O corpo inteiro tremia.

Foi quando um deles avançou para a frente do caminho. Era um garoto loiro, alto e robusto. A roupa trazia detalhes metálicos dourados e gravata da mesma cor.

“Tenho que me antecipar, caso contrário, não vou ter qualquer chance de alguém reagir de verdade.”

Concentrou a aura, fazendo-a expandir por todo o interior do corpo. O suficiente para não deixar vazar para fora nem fazer seus olhos brilharem. Apoiando os punhos na cintura, o jovem de íris douradas falou:

— É sério que foi esse magricelo aí que destruiu a nossa cidade? Que bobagem.

— Foi. E daí? — Jun se posicionou à frente de Rie.

— Deve estar todo cheio de si, se achando o herói, é? Mas, pra gente, você é só o cara que destruiu tudo. Um egoísta que nem pensou nas pessoas que moravam lá. Que perdeu tudo por causa da sua… sei lá, birra pessoal. — o garoto rosnou, avançando outro passo.

Jun não respondeu com palavras. O ar ao redor dele estalou primeiro: fios de luz saltaram entre os pés, chiando. O loiro abriu um sorriso torto, achando graça, e disparou o braço para agarrá-lo pela gola. A mão não chegou.

Um cintilo rasgou o corredor, cegando tudo num flash branco. O corpo do loiro travou no instante: músculos duros como pedra, maxilar preso, olhos arregalados. A descarga desceu pelo braço dele em veias luminosas, espalhando-se do chão ao tronco. As botas chiaram no chão, soltando fumaça pelas costuras.

Com olhos fixos, Jun inspirou. O blazer vermelho ondulou, puxado por vento que ninguém sentia. Os grampos dourados do uniforme do loiro vibraram, e de repente ele foi puxado para baixo — arrastado por cabos invisíveis que prendiam o peito — ficando de joelhos.

Alunos recuaram. Os mais próximos encostaram nas paredes, pressionando pastas contra o peito, tentando não fazer barulho. O corredor, antes silencioso, agora parecia conter a respiração.

Jun inclinou a cabeça, quase gentil.

— Chega, show? Bonito o discurso motivacional e tals, mas olha só quem fala. Se fosse pra um Zero, diria o mesmo? Não, né? Nunca deve ter visto como são os extremos da cidade…

Ele sabia o que aqueles olhares significavam. Queriam vê-los em prantos. Queriam sangue, ossos quebrados, gritos. Queriam que ele pagasse por cada tijolo destruído. Dentro da cabeça de Jun ecoava: “Tem que pagar, tem que pagar, tem que pagar…”, repetido por dezenas de vozes mudas.

O estômago revirou. O ar parecia grosso demais para respirar.

— De todo modo, vamos pra um lugar longe desse caos… — murmurou Jun junto ao ouvido dela, com a voz tão baixa que mal saiu.

“Por enquanto, se puder fazer eles terem medo, então farei… Não posso deixar que descubram meu estado atual.”

 

◊ ◊ ◊

 

O casal escapou para um canto escondido da academia. As cores do jardim de flores vibravam, rodeadas por plantas altas e uma fonte de pedra que gorgolejava. Cercados por paredes e tetos de ferro forjado, feixes de luz trespassavam as folhas e salpicavam o chão.

Era como uma gaiola no terraço do prédio, onde ninguém entrava.

Rie se largou no banco de madeira ao lado de Chie, com a marmita no colo, esfriando a cada instante. Cutucava a comida com o talher, sem vontade.

— É um nojo, eu não consigo ir pra qualquer lugar sem que os outros fiquem querendo me matar pelos olhos — com os ombros encolhidos, resmungou.

Jun estava escorado na borda da fonte, com uma perna esticada e outra dobrada no joelho, bebendo um refrigerante de uva enquanto falava com Seiji ao lado. O ruivo bebia, perdendo o olhar na água que caía.

— É meio irônico… Não, pra falar a verdade, chega a ser karma… — Chie deu uma risada curta e ácida. — Um povo que ascendeu exterminando outro que o oprimia agora está sendo destruído por um povo que eles mesmos oprimiram.

“Foi só que ficou danificada… Tirando o Noburo, fiz questão que ninguém morresse. Não tem motivo pra ter empatia, são Ones.”

— Como assim? — Seiji questionou o comentário de Chie.

— Acho que a Aimi já leu sobre algo do tipo pra gente, mas sei lá… Não lembro… — Ele e o garoto de óculos se encararam no momento, reconhecendo um no outro. Ambos cúmplices ao acharem aulas de história um tédio e não prestarem atenção.

— Houve um tempo em que pessoas sem poderes e usuários de aura viviam juntos. Naquela época, todos que podiam gerar energia eram tratados como nós, Zeros. Foi nesse contexto que a festa surgiu. Nos viam como seres infectados, usados apenas para exterminar as ameaças do exterior e como entretenimento.

“Se não tivesse esse contexto, eu ia achar que ela estava falando do presente.”

— Isso durou até criarem as armas únicas, que ampliaram a força dos usuários de aura dourada. Assim, passaram a matar os normais antes que fossem contaminados pela magia e virassem bestas. Com isso, o medo de uma epidemia de monstros acabou. Depois de extintos, os recém-nomeados Ones repetiram o mesmo modo de vida, mas contra quem tinha magia de outra cor.

“Bem, as tais vítimas… obviamente. Só estão colhendo o que plantaram.”

Rie enfiou a colher na marmita fria, fez careta de nojo e mastigou sem vontade, fazendo gemidos, antes de falar:

— Por falar nisso, é no próximo mês que a festa vai começar. Já te mostraram quem vai ser a sua dupla, Chie? — perguntou com a voz doce, mexendo em uma mecha do cabelo, com os olhos vagando pelo cenário.

O blazer do uniforme de Chie era preto, diferente do branco convencional da maioria. Apenas alunos que cultivavam habilidades consideradas indispensáveis recebiam essa cor. Estavam isentos do campo de batalha, pois a função em que atuariam beneficiaria a maioria, seja criando armas, armaduras, equipamentos, poções, encantamentos etc.

Contudo, a participação na festa ainda era obrigatória para todos. Um torneio que servia como comemoração de formatura.

— Ainda nada. Ninguém é compatível comigo. — Chie roubou um pedaço de frango da refeição da irmã e mordeu com força.

— Ei! Isso é meu!

Seiji conteve um riso. Jun limpou o canto da boca após o último gole e aproveitou a brecha:

— Você não tinha dito que estava no mesmo barco, certo?

— Isso daí. Qual o problema?

— E o que acontece com quem não acha uma dupla?

— Eles devem escolher com base nas notas do tipo de poder, mas, se nem isso funcionar, fazem um anúncio pra que procurem por conta própria. — Chie respondeu com o rosto virado, ainda fazendo bico.

Jun amassou a latinha e se levantou para colocá-la no lixo. Revezou o olhar entre o jovem de cabelos azuis e a moça de mechas rosas.

— Então por que vocês dois não fazem uma? Já que são conhecidos, deve ser melhor do que ir com alguém aleatório.

O vento balançou as folhas, a água jorrando do chafariz tomou o ambiente com o barulho, e os três encararam Jun.

— Ah… Foi mal, acho que os pensamentos intrusivos venceram… — Ele se encolheu enquanto recuava com o rosto vermelho.

— Bem, essa até que é uma ideia que dá pra considerar, mas sabe? Ela é uma maga pura, e eu um espadachim que conjura fogo. Sei não, hein. Não me parece uma combinação boa. — Seiji pigarreou, franziu a testa.

Chie apoiou a mão no queixo, analisando-o de cima a baixo, como quem avaliava mercadoria. O garoto de pele parda fez careta.

— Hmm… Até que pode ser bom. Alguém que consegue soltar uma bola de fogo ou outra deve ser útil — murmurou, inclinando a cabeça, deixando a boina escorregar.

— Vocês dois juntos devem ser fortes. — Rie bateu palmas. — Ainda mais que agora misturaram os Zeros com os Ones na festa, sabe?

Os ombros de Jun caíram, o ar faltou nos pulmões, e o peso do corpo pareceu puxá-lo para baixo, como se algo tivesse sido arrancado de dentro dele. Esqueceu desse detalhe. Ones na competição significava que colocariam sangue nos olhos na prática.

— Então tá decidido — Chie estalou a língua.

— Vai parando aí! Eu não disse que concordei com isso! — Seiji protestou.

— Tá com vergonha? — ele falou antes de pensar nas palavras que saíram.

— Fica quieto, garoto, agora você vai fazer o que eu mandar. — Chie apontou o garfo para ele como se fosse lançar um feitiço.

— Olha só, até já estão se dando bem… — Rie tentou apaziguar, segurando o riso torto.

Seiji e Chie continuaram se fuzilando com o olhar. Uma gota de suor escorreu pela lateral do rosto de Jun. Ele levou a mão ao bolso, assumiu pose neutra e fingiu prestar atenção nos arcos molhados entre as pedras.

 

◊ ◊ ◊

 

Após deixarem a academia, o som da água correndo grudou nos ouvidos dele. A corrente brilhava cristalina; peixes avermelhados cruzavam e saltavam, espalhando gotas que caíam. Tudo se movia em câmera lenta, como se cada segundo se esticasse.

Prédios engolidos por trepadeiras, musgo crescendo entre as calçadas, plantas enroladas nas cercas. Barcos deslizavam pelos canais largos, exalando vapor; crianças brincavam nas margens, molhando umas às outras; pássaros mergulhavam atrás de insetos, e gatos se esgueiravam para dar o bote.

Jun fechou os olhos. O vento frio do fim de tarde bateu no rosto, levantou mechas brancas de Rie e as jogou contra a bochecha dele. Cheiro de rio, de grama molhada, de perfume de flores, de espetinhos recém-assados vindos das barraquinhas que se formavam à noite. Inspirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, os ombros relaxaram.

Rie girou nos calcanhares, apoiou as mãos nas costas, inclinou o tronco e sorriu, mostrando os dentes.

— Ei? Vamos tirar uma selfie?

O mundo desacelerou. A expressão dela, o cabelo voando, capturando a luz do sol crepuscular. Jun sentiu o coração bater forte. Colocou a mão no peito, como se tentasse agarrá-lo. Para ele, acostumado a estar em movimento, frear era estranho.

“Só isso já é tudo que preciso.”

A destruição que causou não foi inútil. Agora podia parar um segundo sem medo de sofrerem um ataque súbito — outras prioridades eram maiores do que eles. Não havia mais muralha, nem o falso céu cobrindo a realidade ao redor. O mundo que tanto almejou estava diante dele, naquele instante.

— Vem cá e me segura assim. — Rie o puxou pelo pulso, encaixou o braço dele na cintura dela e ergueu o celular.

A ponte de madeira rangeu sob os pés. A corrente transparente fluía embaixo. No horizonte, um azul infinito dava lugar às estrelas que surgiam. Na tela, dois rostos colados. O futuro que os esperava podia ser incerto, gigantesco, assustador. Mas aquela foto guardava o agora, e isso bastava.

 

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