Volume 3 – Arco 2: Desejos
Capítulo 1.5: Nesse céu em pedaços
O casal caminhava sob calçadas de tijolos vermelhos. Trincadas, afundadas, com barro e plantas brotando entre os buracos. Cruzaram por um parquinho com brinquedos de tubos roxos e brancos, remendados, enquanto a madeira rangia conforme as crianças brincavam.
Foi nesse lugar que tiveram o primeiro encontro.
Na época, a intenção de Rie era usar aquilo como desculpa para cumprir uma missão que lhe foi dada: levar Jun até o capitão junto de uma adaga que furtou no início daquele dia. Ainda assim, ela tirou proveito da situação para conhecer o garoto que despertava sua curiosidade. No fim, foram atacados por Ones e precisaram fugir.
Embora o cenário fosse ideal para reviver aquele momento roubado, estavam pegando um atalho pelo local para chegar a um orfanato. Ela era voluntária para cuidar das crianças de lá uma vez por semana — Jun, no caso, foi obrigado a fazer o mesmo como punição. A jovem envolveu o braço no do namorado e caminhou.
— Pensando bem, eu queria ter me arrumado antes de vir pra cá… Será que só o uniforme já tá bom?
— Se não fosse pelo blazer, nem daria pra saber que é um. — Ele a analisou dos pés à cabeça.
— Ei? Tá criticando meu visual, é? — Rie cruzou os olhos, fingindo indignação.
— Não, muito pelo contrário. — Jun empinou o nariz, fortalecendo o tom de voz. — Você não é sem sal. Tá sempre usando algo estiloso que realça você e tals.
— Ohhh. Que fofo! Posso te apertar? Posso?
Com as pálpebras entreabertas, os lábios de Rie se curvaram. Ela intensificou o gesto nos braços dados e pressionou o corpo no dele. A face do ruivo ficou ruborizada.
— Olha… fico feliz de saber que você me acha atraente, tá? Então, quando sairmos da próxima vez… quem sabe eu coloque algo mais revelador pra você? Só pra você… — cochichou no ouvido do jovem.
— Duvido. Você sempre coloca uma camisa por baixo do vestido pra esconder o decote. Ainda mais em público.
— Certo! Você tá me criticando sim, seu idiota! — Inflou a bochecha, dando soquinhos nele.
— Psicologia reversa, esse é o nome dessa técnica lendária.
— Ah, qual foi? — Rie o largou e apoiou as mãos no peito dele. — Como sua noiva, eu tenho direito de ser mimada, não tenho?
— Isso é verdade.
— Sendo assim, olhe pra mim, não tire os olhos de mim.
Ela agarrou a camisa com força, fazendo bico. Jun segurou o rosto da garota, criando uma careta na feição dela, e disse:
— Tá bom, tá bom… — murmurou. — Aquieta esse fogo aí. Tá todo mundo olhando…
— O quêê!?
A moça olhou em volta. As pessoas sorriam, outras riam e comentavam, desviando o olhar ao percebê-la encarar. Ela engoliu em seco, encolheu-se, tremendo as pernas, abaixou a cabeça com o rosto fervendo, como se saísse fumaça.
Imaginava que deviam estar interpretando os dois como um casal jovem se divertindo, nada além disso. Ainda assim, não conteve a reação.
No fundo, de todo modo, Rie ainda sentia o coração se aquecer. Eram momentos simples como aquele que queria guardar. Agora não tinha mais medo de partir. Um mar de possibilidades cruzava a mente, e desejava viver mais emoções como essa.
◊ ◊ ◊
A borda rosada do horizonte deu lugar ao luar. Para Rie, a visão que presenciava podia ser descrita com a palavra “magnífica”. Por um tempo, admirou os padrões borrados e abstratos refletidos nos polígonos do domo, imaginando como seria na prática, mas essa barreira não existia mais.
Agora via as nuvens com os próprios olhos. Imagens em livros e vídeos antigos na internet, de qualidade baixa, eram tudo o que conhecia até então. Diria que, na prática, eram como uma pintura em movimento, mistura de cores frias e quentes, intensas e suaves, que a hipnotizaram com a vastidão sem fim aparente.
Pássaros com corpos translúcidos de energia, como se estivessem em chamas, ciscavam e repousavam nas cercas de ferro forjado. Quando se aproximaram, um de cor vermelha voou entre as fadas que brilhavam com o início da noite, pousou numa ilha flutuante e retornou junto de outro, branco. Avançaram pelo céu, atravessaram uma nuvem, e Rie os acompanhou até sumirem.
Uma pena soltando fagulhas caiu. A jovem a colheu no ar com os dedos, mostrou a Jun sorrindo. Estendeu a mão para observar.
Contudo, quebrou-se em partículas, revelando uma figura inesperada atrás.
— Ei? Quem é esse?
— Não sei…
O mindinho buscou contato na mão do garoto. O toque dele tremia, transmitindo cada vibração para ela. Diante deles estava um homem com cabelos pretos ondulados na altura do nariz. Os olhos eram de um vermelho profundo, afiados e, ao mesmo tempo, apáticos. Usava um uniforme com a alfaiataria One, lembrando a estética das armaduras, porém de tecido — contornos dourados, botões assimétricos e gola destacada de um sobretudo, feito de material de combate.
Pelo que ela deduzia, levando em conta a aparência, aquele homem devia ter uma das patentes mais altas. No entanto, se estivesse certa, não faria sentido alguém assim estar ali. A postura era de quem aguardava. Quanto mais analisava, mais o coração batia com força.
— Vocês finalmente apareceram… — virou-se e falou, encarando o casal, em um tom neutro até demais.
As crianças observavam a figura, apoiando as mãos na borda da entrada do orfanato; outras coladas umas nas outras, cabisbaixas, de corpo acuado. O sangue de Rie ferveu, fazendo-a abrir a boca, porém Jun falou antes:
— O que alguém como você tá fazendo aqui? — Com um olhar afiado, a expressão dele se fechou. O toque se enrijeceu.
— Esse jeito de falar, hein? Bem, vindo do neto de Daiki Hirose, até que poderia ter esperado algo do tipo. — A voz do homem soava pacífica, no entanto transmitia uma hostilidade estranha.
Esse era o nome do falecido rei dos Ones. Rie ouvira de Jun que ele sabia pouco sobre esse lado da família. Ainda assim, a citação chamava atenção, pois, além de ter morrido há vários anos, deixaram de falar dele por ter sido considerado um traidor.
— Por ora, vou me apresentar apenas como o líder dos Cavaleiros Reais. Trago uma mensagem direta de Vossa Alteza para vocês.
No mesmo instante, o casal soltou as mãos e agarrou o cabo das adagas nas bainhas. O homem fez um sinal de pare com a palma e falou:
— Vocês podem se acalmar, só estou aqui para dizer isso.
Mantiveram a guarda alta, aguardando. Ele suspirou.
— Muito bem… Durante o período da festa, as crianças deste orfanato ficarão sob nossa custódia. Só serão libertadas se vocês vencerem a festa; caso contrário, serão mortas.
— Isso é loucura! Vocês vão usar as crianças como reféns por vingança?! Isso é desumano! — exclamou Rie, dando um passo à frente. A lâmina da espada dela se encheu de um brilho azul fervente.
— E o que ele fez não foi por vingança? Acho bom você moderar a sua voz comigo, mocinha.
Ela deslizou. Um jato de aura disparou dos pés, estourando o ar. O sabre desenhou um arco incandescente, expandiu-se e avançou. Então o mundo se partiu, mas o ataque sumiu.
O eco da imagem do mesmo golpe se replicou. Uma sequência em cascata foi lançada contra o homem, multiplicando-se. Foram partidos ao meio; entretanto, não o poder, e sim o próprio ar. Como se a realidade fosse cortada em duas, além de metáfora, no literal.
Sangue espirrou, contudo Rie estava intacta, mesmo sem entender. A cor vermelha tomava sua visão. Estava distante, e ela insistia em focar nisso.
— Que coisa, hein? — comentou a figura de cabelos pretos.
Os olhos dela, imbuídos de azul cintilante, tremeram. Ondas de aura se propagavam pela casa do orfanato. Uma casca gélida crescia entre as paredes, partindo-as como vidro, aos poucos, enquanto outras partes desmoronavam em efeito dominó.
Entre as crianças que observavam, um garotinho estava com o ombro dilacerado. Um corte se estendia até o peito.
◊ ◊ ◊
Cavaleiros reais, segundo o que Jun sabia, eram a elite do exército dos Ones, restando apenas a rainha como figura acima deles. O povo dourado ascendia por lutas e demonstrações de força, então ser o líder disso significava que não havia ninguém mais poderoso que ele.
Aquele que chegou ao topo por mérito, assumindo a coroa e a mão da última herdeira do sangue, estava morto.
— Minha missão era somente dar a mensagem e colocar vocês no lugar, caso contrariassem. A Yuriko fica mole quando o assunto envolve a família dela. Mas confesso que estava curioso, de qualquer forma.
“Agora ele falou o nome da rainha, como se fossem próximos… Antes era só ensaiado?”
Rie o ignorou e correu para socorrer a criança. O homem não demonstrou se importar e sorriu de canto. Encarando Jun, ele ergueu o indicador e continuou:
— Irei reagir apenas com esse dedo. Quero saber do que os Duos são capazes, depois eu decido se irei cumprir as ordens ou não…
Jun hesitou por um instante. Quando Rie o atacou, o poder dela foi desviado para outra direção. Ele se questionou sobre um feitiço de teletransporte ou portais, no entanto nunca ouvira falar da existência de algo do tipo. Outra probabilidade seria algo relacionado a ilusões, porém ele teria que ter lançado algo contra a garota antes, e apenas ela iria enxergar, não os dois.
“Que tipo de magia era essa? Droga! Eu não podia lutar sem mais nem menos…”
O jovem posicionou a espada como se estivesse a sacá-la de uma bainha na lateral da cintura. Concentrou a aura nos pés e avançou com um impulso. Movendo-a na vertical, um estalo soou, causado pela vibração do metal ao parar. O dedo do líder dos cavaleiros era contornado por uma linha dourada em sua silhueta.
— Está com medo, é? Eu notei a hesitação em seu golpe. Bem, relaxe, pois isso é apenas um teste para mim, então espero que coopere, caso contrário…
Foi quando o mundo se dividiu outra vez, como se Jun presenciasse um efeito de refração ocorrendo no ar. A imagem de espelhos quebrados se estendeu a partir do ponto em que o fio de sua arma tocou a pele do outro. Ele deslocou o braço, e a ponta da espada surgiu do outro lado, pinicando seu pescoço.
Nos poucos instantes em que sua atenção perdeu o foco pela confusão, a mão do inimigo desapareceu no mesmo efeito. Ele falou:
— Se estivesse a sério desde o começo, poderia ter feito isso na hora em que você se aproximou…
Uma pressão esmagadora surgiu no centro do peito, não só na superfície, mas por dentro, como se o ar fosse expulso dos pulmões — um aperto absoluto, contínuo, paralisante. Os braços, pernas e joelhos cederam, tremiam. Um zumbido tomou conta dos ouvidos entre batimentos irregulares e então ausentes.
A visão de Jun escurecia na borda. Na verdade, tornava-se ausente. Não era escuro, apenas inexistente. Um frio o tomava, percorrendo as veias do corpo, como se houvesse secado, rasgando-o por dentro e o tornando murcho.
— Junn!! — Rie gritou, arrastando a voz num eco. A imagem em seus olhos era turva, com fantasmas duplicados.
Espinhos de gelo luminoso azul surgiram do chão, marchando na direção dele, acelerando, crescendo. Foram divididos milímetros antes de encostar no homem de cabelos negros. No entanto, surgiram diante de Jun, atravessando ele e arremessando para longe.
— Esperava mais, mas estão usando apenas essas magias simples… Não imaginava que a união fosse tão limitante de início… — suspirou, virando-se enquanto soltava o garoto para encará-la.
A casca fria cobria Jun, o corroendo, conforme se debatia contra o solo até afundar o rio próximo com o impacto. Contudo, para ele era quente e reconfortante. Um calor que o abraçou e o absorveu. Seus olhos brilharam em azul e então faíscas saltitaram a partir dele.
“Isso está muito teatral. Não sei se é uma atuação pra provocar ou se é ele que gosta de falar bastante, mas… eu estou pouco ligando pra isso!”
Ondas de estática ondularam na água ao redor, convergindo para um único ponto, conforme ele se levantava. A camada de aura na pele do ruivo tornou-se prateada e então concentrou-se no interior. Os fios escarlates esvoaçaram para a frente do rosto, o ocultando antes de se erguer por completo. Seus pés recuperaram o equilíbrio, revelando as íris imbuídas por um prata intenso, perfurando aquele à frente.
Um jato de energia jorrou para o alto, como vapor, expulsando as nuvens. A corrente de eletricidade reverberou e avançou para o One, como uma avalanche.
“Eu vou… Eu vou matar esse desgraçado!”
— Oh… — O canto dos lábios do homem se curvou, e ele ergueu uma das sobrancelhas.
Os raios cobriam o alvo por todo o perímetro, porém eram desviados para direções diversas, continuando a avançar num cenário que ignorava a lógica. Quando se solidificaram, transformando-se em correntes de gelo, expandiram-se como agulhas em um movimento de Rie.
Entretanto, não importava o que fizessem, nada sequer conseguia chegar perto do homem. Rie brandiu seu sabre, e a realidade foi repartida outra vez, fazendo-a golpear a si mesma. Quando Jun avançou com uma estocada, apenas a ponta de um dedo parou o ataque, ignorando qualquer sentido físico que pudesse haver. A superfície se partiu, e uma cratera se formou ao redor, exceto na posição em que o líder se mantinha de pé.
Jun caiu, mas, antes que pudesse pensar, já se viu de pé outra vez. As linhas poligonais que o circulavam reluziam, partiram-se e dispararam com ele como partículas. O solo rasgou em sua trajetória, incandesceu e então virou plasma, repetindo o processo, indo de uma direção a outra. Era como se o filme de uma câmera tivesse começado a rodar, projetando a imagem residual até se tornar rápido o bastante para ser impossível distinguir a olho nu.
— No estado em que você está, sequer conseguirá tocar um dedo em mim.
Ele brandiu sua espada da direita para a esquerda, de cima para baixo, todavia cada um dos cortes era parado pela mão do líder. Assim, o ritmo diminuía até se tornar lento o bastante para qualquer pessoa sem conhecimento em batalha ser capaz de reagir e dominar.
O estômago de Jun foi atingido, fazendo-o desabar. O pode rodeando seu corpo dissipou em partículas quebrando como vapor, ao som de notas suaves. No entanto, ele se recusava a parar; mesmo sem um pingo de força nos músculos, tentava mover a espada.
Quando uma rajada de luz fez todos pararem.
Entre as crianças, uma explosão ocorria. Era uma garotinha, a menor de todas, com mechas de um rosa quase branco. Partículas de energia circulavam, refletindo cores ao redor.
— Interessante… — essa foi a última coisa que o homem de cabelos escuros disse. Pelo menos, o que Jun escutou antes de tocar a perna dele com a mão. Essa foi a última coisa de que se recordou antes de receber um chute e perder a consciência.
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