Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 6.5: Rasgue o infinito como um feixe
Quando seus pés tocaram o chão, Jun soltou Rie cuidadosamente. Embora ela tentasse demonstrar que não estava enfraquecida, ele sabia muito bem da situação dela. E de todo o modo, a cuidaria como se fosse uma joia preciosa na qual não se pode quebrar. Por mais que estivesse ciente de toda a força que ela precisava carregar consigo para se manter assim até então, ainda a trataria com esse devido cuidado. Sabia que ela faria o mesmo no caso dele.
A tal torre, em reação ao ataque que sofrera de Jun para eliminar seu inimigo, destruindo a espada da sua mãe no processo, tornou-se uma espécie de plataforma côncava, lembrando uma flor que desabrochou. Porém, embora o material tenha se tornado incandescido e derretido, no momento já havia se fixado sólido outra vez.
— Eu sinto muito, mas ainda tenho que terminar essa luta… — Colocando a mão no lado da bochecha de Rie, Jun comentou.
— Não me diga que, mesmo tudo aquilo, não foi o suficiente para matar o major?!
— O Noburo se foi… Pelo menos o que ele era uma vez.
Ao longe, então uma silhueta pode ser avistada. Travava-se daquele mesmo homem, em que se regenera de todos os ferimentos que sofreu. Ser rasgado e atravessado ao meio, pelo visto, não era o suficiente para matar isso que ele se tornou, após o uso contínuo daquela droga que o alterou por completo.
— Seja um resquício de humanidade que ainda lhe restava, agora não existe mais. Isso é só mais uma besta desprovida de qualquer razão.
Uma casca sombria tomava o corpo daquele indivíduo. Era como se sua pele estivesse sendo tomada por uma espécie de armadura natural. Contudo, o sinal de que havia se tornado um monstro por completo. Ou pelo menos se tratava do que Jun imaginava, até escutá-lo no instante seguinte dizer:
— Desgraçado!! Eu vou te matar!!!
Como… Como assim?! Como é possível que tenha mantido qualquer tipo de razão, mesmo dessa forma? Era para ele ser somente uma aberração!
Aquilo que ele estava presenciando, em sua concepção, deveria ser algo impossível. Portanto, o Noburo havia se transformado. Embora tenha sido capaz de falar, ao observar melhor, parecia que era somente isso que havia lhe restado. A atitude selvagem que a aberração a seguir se igualava às mesmas de qualquer criatura desse tipo.
Saindo do pulso daquilo, uma lâmina se formou. E assim, o homem monstro começa a correr de forma desengonçada até Jun, no qual sacou a adaga que cresce numa espada. Desta vez usaria a sua arma, a lampejo estrelar, mesmo que não tivesse toda a potência que a anterior. No entanto, era mais do que o suficiente para matar aquilo.
Sua magia se intensifica de tal modo que uma camada feita puramente da mesma cubra a arma por completo. Isso se estende até seu braços e a lateral do rosto, até mesmo chegando a se formar entre as pontas de seu cabelo o deixando prateado. Era como se essa parte de seu corpo fosse energia pura.
— Não precisa se preocupar, isso vai ser rápido — Ele dá um sorriso para Rie e então se virou apontando o objeto da cor de um céu noturno irradiado para a ameaça.
Rasgando o infinito como um feixe, acelerado como a própria luz, igual um cometa deixou um arrastou reluzente para atrás, empurrando as intermináveis partículas do domo que se quebrou caindo pelo ar. Todo seu brilho se canaliza na espada, jorrando de forma violenta e assim centenas de estrelas começam a criar. Entretanto, dessa vez, ele partiria a realidade junto delas. E assim fez.
Em uma rajada de poder, riscos atravessam o corpo daquilo que era o resquício do major, desenhando linhas que o fazem ser fragmentado em milhares de pedaços. As partes, estilhaçadas, instantaneamente tentam se reunir. Contudo, agora não se tratava mais de algo que podia curar quantas vezes quiser sem ser parado. Agora possuía um núcleo sólido no qual dava para ser destruído.
Com um turbilhão de estocadas, Jun vai criando rombos naquilo desenfreadamente. Raios de energia voam para todos os lados, e clarões que parecem sugar o mundo ao redor são formados com cada impacto. E linhas são traçadas, deixando apenas uma silhueta que se quebra em cacos.
Movendo-se num ritmo frenético nessa velocidade avassaladora, brande sua espada de um lado para o outro. Vendavais e mais vendavais de arcos são formados, cortando a casca protetora em pedaços. E desse modo, aquele coração que foi tomado pela escuridão pode ser avistado.
— Que dessa vez… vá embora! — Com esse grito, Jun move seu punho para frente.
O núcleo do homem é acertado e assim, num único lampejo uma chuva de estrelas, todas concentradas num ponto só, atravessam aquilo de uma vez só. Uma rajada maciça de energia voa adiante, e desse modo desintegra o homem em fragmentos em que jamais voltariam a se juntar.
Jun desacelera e deixa a ponta de sua espada raspar no chão. A sua energia prateada de brilho prismático, então se espalham. Ele olha para a garota de cabelos brancos e fortes olhos azuis. Começa a andar e vai de encontro a ela, entre esse novo mundo sem limites que os cercava.
* * *
Com a mão apoiada no parapeito na borda da sacada, ele avistou a garota observando o horizonte. Depois de ter passado aquela noite conturbada, tendo que lutar até o amanhecer, agora os dois finalmente tiveram um momento para relaxar. Jun trouxe Rie até a base das forças de ataque, onde puderam tratar os danos que sofreram.
Adiante dela estava uma cidade na qual foi tomada pela vegetação após ser deixada para apodrecer. Neste lugar com construções feitas de mármore branco, também existiam prédios de vidro que refletiam a luz da vastidão.
E logo ao longe, uma circunferência que se tratava do restante de algo que foi derrubado podia ser avistada. Dentro dela existia uma terra utópica com estruturas decoradas com ouro, porém, que agora se encontravam em boa parte danificadas. No centro daquele lugar, não havia nada em que pudesse ser visto; apenas o ilimitado céu ao longe.
— Isso é esquisito. Eu me sinto como se isso fosse me sufocar, mesmo assim, não consigo parar de olhar… Realmente, estou encantada com essa vista — A voz dela se encontrava um pouco fraca, mesmo que num estado melhor, comparado anteriormente.
— Não foi muito diferente comigo. Na primeira vez que vi isso, fiquei assustado, mas logo depois fiquei encantado — Jun fala, parando logo ao lado dela. Em reação, Rie escora seu corpo no dele.
A sensação que tinha era como se estivesse em contato com algo extremamente delicado. Uma pessoa muito frágil, mas ao mesmo tempo extremamente preciosa, na qual queria garantir sua segurança. Ainda assim, era perfeitamente compreensível, aliás, Rie tentava aproveitar os seus últimos momentos em que estaria acordada.
Da forma como ela já estava debilitada, era perfeitamente possível imaginar que ela se recusaria a dormir outra vez. Caso fizesse isso, ela muito provavelmente não iria despertar. E Jun entendia perfeitamente essa sua vontade de se manter consciente até os últimos segundos em que pudesse enxergar. Ela iria desfrutar da vista desse céu no qual não era mais limitado por uma barreira de ilusões.
E o fato dela se manter com um sorriso no rosto — por mais que pequeno —, se trava que tinha dificuldades de acreditar. Como que ela conseguia se manter dessa forma, apesar de todas as circunstâncias, era algo que ia além de sua compreensão. No entanto, o enchia de uma forte esperança e determinação.
— Acho que depois de ver isso, eu estou satisfeita. Sinto como se uma parte minha estivesse realizada, por mais que uma outra continue muito abalada… Infelizmente eu não fui capaz de cantar minha última canção…
— Que besteira. Mesmo que não possa ser da forma que você imaginava, ainda assim, não há nada que esteja te impedindo de fazer.
Embora estivessem abalados, os olhos de Rie foram tomados por um brilho cintilante, como se estivessem prestes a lacrimejar, ao se encontrarem com os de Jun. No fundo, um certo animo que ainda não se apagara, veio à tona.
— Você tá certo. Por mais que você seja o único que vai escutar, para mim, isso será mais do que perfeito.
E assim, a garota de cabelos brancos começou a cantarolar. Apesar de ser um som baixinho, pois não possuía forças o suficiente para fazer isso em toda sua magnitude, se tratava de algo muito intenso. Como naquele dia em que os dois se conheceram quando Jun chegou na cidade. Se tratava de algo gelado e confortável como a brisa numa manhã de primavera, igual a essa em que estavam. Entretanto, isso não lhe trazia uma dor sem fim, mas sentimento tão reconfortante que queria abraçar para que nunca desapareça.
— Isso é uma melodia que eu, realmente, gostaria que todos pudessem ouvir — Jun fez esse comentário, quando aquele som que Rie ressoava acabou, sem tirar os olhos por um segundo dela.
— Bem, de todo o modo, eu tenho que te pedir desculpas. Foi muito egoísta da minha parte querer que você ficasse ao meu lado, sabendo que iria te deixar em tão pouco tempo…
— Se for assim, deixa eu também ser egoísta e fazer um pedido para você, então…
Uma expressão confusa brotou no rosto de Rie, junto de uma certa ansiedade quanto ao que ele estava prestes a dizer. Contudo, antes de qualquer coisa, Jun respirou fundo, colocou todos os seu pensamentos no lugar e assim disse:
— Rie Koike, eu gostaria que você fizesse uma união de aura comigo.
— Como assim? Você tá louco!? — Ela tosse após elevar um pouco sua voz — Se a gente fizer isso, você vai ter que reaprender tudo que já sabe do zero. Eu jamais iria aceitar em ter que ir embora e, ainda te deixar num estado em que poderia facilmente morrer. Não posso permitir que você abra mão disso, depois de tudo que eu sei que você é capaz de fazer.
— Mas essa é a única forma que existe para que eu ainda possa continuar com você. E se for para ter isso, não importa qual preço eu tenha que pagar.
— Do que você tá falando, Jun? Eu não tô entendendo.
Jun virou-se de frente para ela. Rie aparentava estar completamente perdida quanto ao que acabara de ouvir, aliás, no ponto de vista dela devia se tratar de uma proposta absurda e sem qualquer sentido algum. Era como se o garoto tivesse acabado de fazer um pedido suicida para ela, mas tudo isso não se passava de uma mera impressão, aliás:
— Você esqueceu? Ao fazer uma união, o núcleo de aura se apaga e dá lugar a um novo, mantendo a cor original, porém contendo uma segunda cor que o casal vai ter em comum. Ou seja, esse danificado que você tem vai deixar de existir e ser substituído por um novo em perfeito estado, e assim você vai…
— Eu vou?
— Você vai viver.
Nesse instante, Rie paralisou totalmente. Só em sua face, podia se ver o quanto ela estava desacreditada. Como se ela se recusasse a aceitar de alguma forma o que acabara de escutar. Dentre aquela garota que se encontrava prestes a desistir de vez, ela começou a ser tomada por um esperança na qual parecia ser impossível.
— Mesmo assim, e quanto aos Ones? O que vai acontecer se ele vierem atrás de você e não tiver como lutar?
Jun olha brevemente para o lado, em direção àquele cidade doura, que se encontrava completamente danificada e fala:
— Quais Ones? O que eu vejo ali é um povo abalado, muito mais preocupado em construir o seu lar, do que ficar indo atrás de dois jovens. Sem falar que o major, que era o principal responsável por isso, está morto. Se continuarem vindo atrás da gente, vai ser de uma forma drasticamente menor, comparado a antes.
— Mas se virem, você ainda será alguém incapaz de se defender.
— Você está enganada. Já esqueceu daquela aptidão que tempos pra despertar como isso, dando o nome de Duo para esse tipo de usuário de aura que somos? Só com aquela espada que você roubou, que acessava um pequeno pedaço disso, já dava pra ver o estrago que pode fazer esse poder. Não é como se eu fosse me tornar um fraco por causa disso.
O garoto de cabelos vermelhos, então coloca sua mão no lado do rosto da garota com os olhos de um forte tom de azul. E desse modo, as ires dela cintilam em meio a lágrimas que começam a se formar.
— Então, você aceita esse meu pedido? — Com uma face cheia de determinação, Jun faz essa pergunta.
— Eu aceito — E Rie, com lágrimas escorrendo por todo o seu rosto, confirma.
Os dois se aproximam um do outro e canalizam sua energia. Tudo que eles precisavam fazer era que elas se unissem, justamente como o nome dessa conexão indicava. Por causa do seu estado enfraquecido, Rie devia estar passando por uma enorme dor em seu peito, mas que ela tentou suportar ao juntar seus lábios de forma delicada nos de Jun.
As ações frágeis que ela exercia, então começaram a se fortificar. O seu corpo trêmulo e sobreaquecido a normalizar. Dessa maneira, permitindo que conseguisse envolver seus braços naquela que amada e a abraçar, cada mais forte. Podia se tratar de um beijo extremamente simples, porém, que junto dela Jun conseguia sentir todas as inseguranças se afastar e dando lugar a algo mais intenso e poderoso.
Era como se nesse momento, os dois pudessem ser um só. Mesmo que um fosse por um breve instante. Mas o bastante para ele nunca mais querer largar. O único desejo que persiste dentro de Jun era o de estar ao lado dela. De acompanhar essa garota até o fim, a protegendo para que nunca se vá. Para ele, Rie era como uma luz que iluminava todo o seu ser, na qual queria a ver brilhar e jamais se apagar.
E assim, quando levemente se afastaram, sentindo suas respirações, observaram uma segunda cor se formar. Uma tão reluzente e pura em que agregava todas as outras. Entre as auras prateadas e azuis, daquele brilho prismático que refletia tudo ao redor, uma parte tão vivida de ambos agora eles dividiam.
— Jun, eu te amo. Amo e muito!
Em meio a brisa que fazia seus cabelos balançarem, derramado lágrimas que eram levadas pelo ar, a garota sorriu. Sorriu transbordando toda a felicidade que a cercava, para que Jun lhe desse essa mesma expressão de volta. Como nunca antes, ele se sentiu incrivelmente vivo. Tão vivo quanto Rie agora era.
— Eu amo mais — puxando-a para perto com os braços, ele comentou convencido.
Entre a vastidão sem fim as suas voltas, repletas de nuvens de cores sem fim, em um pulo, Rie lhe deu um forte abraço. Apesar de todas as incertezas e perigos que o futuro guardava para o casal, a partir desse instante possuíam uma única certeza absoluta: estariam juntos até o fim. Não importa o quanto tentassem separá-los. Se manteriam agarrados um no outro, num laço luminoso resplandecente que jamais iria se apagar.
Shelter Blue v.2 — fim
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