Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 2 – Arco 1: União

Capítulo 5.5: De mãos dadas para o futuro

Desde o começo desse dia era como se houvesse algo de diferente nele. Rie conseguia perceber claramente que Jun havia mudado de postura, contudo agora era mais evidente do que antes. Até parecia que o garoto havia ficado de saco cheio e decidiu tomar uma atitude.

Quanto eles tiveram aquela conversa, antes de Jun repentinamente desaparecer, ela ainda conseguia ver um certo desespero no interior dele. Isso seria por causa do garoto dizer tanto que iria a salvar, porém, ao se ver próximo do limite de tempo para realizar qualquer coisa, acabou por iniciar toda uma atitude, mesmo sem saber o que fazer? Não era o que parecia, ele demonstrava uma confiança forte demais para ser essa alternativa.

— Eu posso, mas isso vai depender dela — Falava a mulher de cabelos prateados e olhos escarlates, ainda perdida no meio da situação.

Até então, Rie nunca ouviu falar sobre uma magia capaz de fazer um dano retornar a um estado anterior. No entanto, se isso era realmente possível e essa mulher possuía a habilidade de realizar tal feito, talvez… Não, muito provavelmente, conseguia ser curada do estado terminal em que se encontrava. 

Será que era isso que Jun estava pretendendo desde o começo? Mesmo se for, não faria sentido ele querer trazer sua mãe de volta por causa de um feitiço desses, pois ela ter voltado também foi uma surpresa para ele… Então, pelo visto, parece que apenas está se aproveitando de uma oportunidade que surgiu do nada… Eu não sei como reagir…

— Ela vai precisar se recordar perfeitamente de um momento em que o seu núcleo estava sem quaisquer danos. Essa é a principal condição.

— Rie, você tem alguma memória assim? — Existia uma certa ansiedade nas palavras de Jun.

— Eu tenho…

A única vez que ela esteve sem que sua vida estivesse em risco, foi logo depois de despertar a aura e antes de ser capturada para ser usada como uma cobaia. Rie acreditava que era necessário explicar todos esses detalhes e assim fez. Aos poucos, um sentimento de esperança brotava no seu interior.

Entretanto, rapidamente desapareceu com a fala em resposta da mulher:

— Eu sinto muito, mas se acabar fazendo isso com você, muito provavelmente vou acabar te matando no processo…

— Mas, por quê? — Rie entrou em um conflito interno, aliás, o que antes havia sido dito que era possível, acabou de ser contrariado.

— Como você tinha dito antes, a causa da sua situação atual também foi responsável por despertar essa tal aptidão. Usuários de aura que possuem esse fator são chamados de Duo, pois só conseguem alcançar esse poder por meio de uma união, mas como você conseguiu isso de modo errado, mesmo que tenha te salvado naquela situação, ainda é compreensível ter a deixado assim.

— O que isso tem a ver com não ser possível, então?

— Se eu fazer seu núcleo retornar para o estado anterior, quando não for assim, você vai acabar trocando de aura. As chances do seu corpo não aceitar o tipo antigo e só acabar perdendo a vida por causa disso, são enormes.

Então, de fato, parece que não existem mais esperanças pra mim… Acho que já está na hora de aceitar, aliás, não me resta mais tempo, de todo o modo… Eu vou morrer.

 

* * *

 

A garota se encontrava pensativa, em meio a todos os acontecimentos que ocorreram no último dia. Ver seu namorado desaparecer do nada e, ainda descobrir depois que a causa disso foi ele ter sido capturado foi desesperador. De uma hora para a outra ela poderia perder alguém que tanto ama, simplesmente do nada.

Seja por serem caçados graças aos poderes deles, ou seja por ter que lutar no campo de batalha mais futuramente. Esse destino que carregava era extremamente triste e trágico. Tudo que ela queria era poder ter momentos alegres junto dele, por mais bobos que sejam, o conforto de ter a oportunidade de ficar ao lado de quem gosta era insubstituível.

Ainda assim, ela só deveria ter mais dois ou três dias para desfrutar disso. Agora nem era mais capaz de protegê-lo, pois toda vez que tentava usar a aura sentia uma dor descomunal que a deixava incapacitada. Não sabia como iria contar isso para Jun. Ela não queria deixá-lo mais preocupado do que já estava.

E mesmo que um pequeno milagre, havia aparentemente surgido, no fim tratava-se apenas de uma falsa esperança. Era doloroso, mas Rie tinha que aceitar que abandonaria todas as pessoas que uma vez foram preciosas para ela.

Contudo, antes que desapareça, ela iria gritar para todos que uma vez esteve entre eles. Estava ansiosa, porém, o próximo dia seria o momento em que cantaria sua nova música. A sua última canção.

— Me desculpa por toda a preocupação que te fiz passar hoje — Comentou Jun ao se sentar sobre a cama. Ele também parecia estar muito pensativo.

— Tá tudo bem. O importante é que você tenha conseguido voltar inteiro. E também, não é como se fosse duvidar das suas capacidades. Você, com certeza iria derrotar cada um deles com tudo, pois o meu namorado é um espadachim esplêndido — Ela dizia essas palavras com orgulho.

— Acho que ouvir isso, foi todo o meu dia valer a pena… Eu te amo!

E então, o garoto esticou os braços e começou a se espreguiçar. Em contrapartida, Rie que foi pega desprevenida por essa fala, se encolheu toda para não explodir de emoção. Ela até deixou cair sua escova de cabelo que usava para pentear, enquanto se olhava na frente do espelho do quarto.

Normalmente, ela rapidamente o responderia de volta, mas dessa vez reagiu como uma típica garotinha insegura. Talvez estivesse pensando em coisas negativas demais. Rie, então, reorganizou seus pensamentos e olhou de volta para sua figura refletida. Incrivelmente, estava contente com a imagem que via de si. 

Enfim, conseguia se sentir agradada com o seu visual. Aquela garotinha do passado, na qual era obrigada a seguir um modelo de pessoa a se tornar, contra sua vontade, já não existia mais. Ela estava contente com quem se tornou, com o que conquistou e conseguiu construir nestes últimos anos, porém, agora estava perto do seu fim… Contudo, o que importava agora era o seu presente. 

E ela estava explodindo de alegria.

— Eu também te amo! — Falava dando um grande sorriso — O que aconteceu pra você ficar todo meloso, assim, do nada? A sua mãe ter acordado fez você ficar tão contente com a vida ao ponto de querer expressar isso?

— Ah, o que foi? Não pode mais elogiar, agora? — Jun se atira de costas sobre a cama. — Eu só estou falando um fato sobre você. E também, quando a ela… Eu ainda não sei o que achar sobre, minha mente está um caos quanto a isso…

— Acho que eu te entendo. Deve ser difícil saber como se comportar com alguém que não vê há anos…

Rie por instante imaginou o que aconteceria se caso encontrasse com a sua mãe. Era algo que ela, definitivamente, não estava preparada para encarar.

— De qualquer forma, o que aconteceu quando vocês se encontraram? Eu tô curioso? — E o garoto se senta novamente para ouvir o que ela tinha a dizer.

— É só me apresentei pra ela como sua namorada, nada demais… Bem, confesso que foi extremamente assustador. O olhar de julgamento que ela mostrou pra mim, fez eu querer sair correndo para longe dela.

Em reação, Jun começa a dar risadas. Rie, instantaneamente fica com sua face vermelha e joga sua escova nele para ver se o fazia parar, se arrependendo logo na sequência e indo lá buscar. Entretanto, foi só uma questão se instantes para todo o clima mudar, graças a próxima fala do garoto:

— Eu sinto muito que aquele feitiço dela não possa ser usado para te curar…

— Quanto a isso, não tem razão para se preocupar. Eu já estou começando a aceitar que morrerei como uma garota virgem, relaxada e que é malvista pela sogra, pois não sabe cozinhar e cuidar direito do namorado.

— Pelo menos, ver que você está fazendo esse tipo de drama, faz eu ficar menos preocupado… E, aliás, por qual motivo, o fato de ser virgem incomoda você?

— Ei! Dentre todas as coisas, por que foi dar atenção justo a isso, em particular?

— Esse assunto é do meu interesse.

Rie franze os olhos e solta um breve riso, antes de dizer:

— Você podia ser um pouco menos descarado… Sabe? Dessa forma não é nem um pouco romântico…

— Eu só quero saber se você tem interesse.

— É claro que eu tenho! Não sou nem uma santa e também, se for pra morrer jovem, que pelo menos não seja assim.

— A parte de não ser santa, eu entendo muito bem… — Jun falava como se recordasse de algo trágico.

E Rie, em reação, começou a bater em Jun com o travesseiro. Ela estava transbordando devido aos seus sentimentos que eram atiçados cada vez mais por ele, como se fosse simples de se falar. Quem sabe, essa postura mais agressiva que tenha demonstrado repentinamente, fosse uma forma dela mascara a sua insegurança. De todo o modo, a garota não gostava de agir assim, portanto, logo parou.

— Mas e então? Você quer fazer? — Nas palavras nele havia um certo receio. Nesse instante, ela pode ver o mesmo tipo de incerteza nele, o que a deixou mais confortável.

— Por que não? — disse ela, cabisbaixa para esconder seu rosto avermelhado.

Demorou alguns segundos até que tomasse coragem, porém, quando encontrou forças, ela inclinou seu corpo para frente até que os seus lábios se encontrassem num beijo delicado. Com a atitude dela, um tanto tímida, o garoto então se sentiu seguro para puxá-la para perto e a enrolar em seus braços.

O coração dela batia freneticamente no peito. Seus olhos estavam fixos nos dele, capturados pela intensidade do momento. E assim, Rie se entregou ao momento, envolvendo seus braços em volta do pescoço dele, puxando-o para mais perto.

Em um movimento suave, Jun lhe deu um outro beijo apaixonado e intenso. Ela, então, se rendeu àquele momento, permitindo-se sentir a intensidade do desejo que crescia dentro de si. E quando finalmente se separaram, a garota o abraçou com mais energia, sentindo o calor de seus lábios, novamente, porém cada vez mais forte. Desse modo, o casal se perdeu, como se o mundo ao redor parecesse desaparecer enquanto eles se entregavam àquele momento mágico, deixando-se levar pela conexão que os unia.

 

* * *

 

Sob a luz artificial do abajur no quarto, Jun vestia seu uniforme sem preocupações. Algum dia, ele esperava poder acordar junto da sua namorada em meio aos raios solares, mas enquanto tiverem que se escondem no subterrâneo, isso não será possível. Ainda assim, estava contente por conseguir passar esses momentos aconchegantes ao lado dela. 

Embora haja uma preocupação evidente ao acordar, só o fato de ver a garota se mexendo embaixo das cobertas, relutando em levantar, o deixava aliviado. Mesmo que permaneça um pouco histérico graças aos acontecimentos da última noite, conseguiu ficar bem descansado, disposto a enfrentar o que estava por vir nesse dia seguinte. Apesar do que for, daria o seu máximo para que nada de ruim aconteça.

Eu, realmente, tinha muito mais expectativas quanto a como seria a nossa primeira vez… Mesmo assim, estou feliz de ter dado esse passo junto dela. Sinto que agora estamos um pouco mais próximos... Só espero que da próxima vez, quando ela não estiver sofrendo tanto de dor, dê pra fazer algo mais divertido.

Depois de enrolar tanto, a garota de cabelos brancos, enfim, conseguiu encontrar forças para se levantar.  Com seu corpo enrolado para se proteger do frio, apenas com seus ombros nus de fora, ela falou:

— Bom… Bom diaaa… — Um grande bocejo pode ser escutado em conjunto.

Jun deixou escapar um pequeno riso de canto. Ele sempre achava impecável as caras que Rie fazia ao acordar — eram algo tão puro e bobo que chegava a ser fofo. Em compensação, a garota que lutava contra o próprio cabelo para que não ficasse caindo em cima dos olhos, apenas se demonstrava perdida perante a reação dele.

— Bom dia, senhorita preguiça!

— Ei! Você me chamou do quê?!

— Nada, não. É bom ver que você tenha acordado tão rápido!

E segundo o pequeno costume que Jun criou desde que os dois começaram a dormir juntos, ele se aproxima de Rie e lhe dá um beijo na bochecha. A garota, em reação, demonstra uma face com um sorriso envergonhado.

— Eu acho bom você ficar bem atenta hoje. É muito provável que já tenham descoberto nossas identidades, então o melhor é que estejamos preparados.

— Dessa vez, eu não vou sair de perto de você. Não quero que te tomem de mim uma outra vez.

— Eu nunca mais vou deixar que isso aconteça. E também, até o final desse dia tudo estará resolvido. Só aguarde. Será hoje que nós dois iremos arrasar. Não é assim que você gosta de falar?

— Nossa, mas como você é um chato…

Os dois riem juntos, escorando a cabeça uma na outra, e assim Jun fala:

— Eu vou lá fazer o café, vê se não demora outra eternidade se arrumando, tá?

— Só se você deixar uma torrada preparada pra mim.

— Hm… É realmente uma senhorita preguiça…

— Seu chato!

E assim, o garoto foi rumo à porta de saída do quarto. No entanto, antes que fosse embora de vez, foi parado pelas seguintes palavras:

— Jun, eu te amo!

— Eu também te amo.

Ele então se deparou com o sorriso daquela garota que o olhava de forma tão carinhosa. Essa era a coisa mais preciosa e querida que poderia ter no momento. Definitivamente, daria o seu máximo para protegê-la nesse último tempo que lhes restava juntos. Na realidade, faria isso durar por mais longos anos, até que fiquem completamente velhinhos. 

Não importava se tivesse que enfrentar o mundo inteiro para isso. E caso seja preciso, o venceria de forma avassaladora, sem que tenha a menor chance. Rie iria viver até o fim, para que toda essa luz que ela representa, possa brilhar perante a todos.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora