Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 5.4: De mãos dadas para o futuro
Ele queria cobrir os seus olhos. Se encolher e esconder a cabeça. Queria gritar. Queria fugir. Queria com todas as forças não ter que encarar aquela pessoa na sua frente. Já havia passado por tantas coisas até então… Jun não estava preparado para isso.
Não… Isso não pode ser verdade… Eu não aceito! Qual é o sentido disso tudo?! Por que ela está aqui? Eu não quero acreditar… Depois de tudo que eu tive que passar para seguir adiante e deixar essa perda para trás, eu não quero ter que enfrentar isso agora! Eu não sei o que fazer… Por favor… Alguém me ajuda!
Na sua mente retornou aquele momento em que estava no trem, onde uma visão indistinguível cruzava por si no subterrâneo. Mas, foi quando se deparou com vista do oceano — uma imensidão que nunca havia se deparado antes —, no qual podia se avistar em conjunto um arco-íris. Algo que trouxe a cor de volta para o seu mundo cinzento no momento.
Antes daquilo, ele havia sido colocado naquele meio de transporte à força. Enquanto via um pai desesperado tentando recuperar o outro filho que foi tomado. Pessoas foram mortas para que Jun conseguisse fugir e ir para outra cidade em segurança, porém solitário. A imagem do sangue derramado ainda estava em suas memórias, mesmo que tentasse se esquecer.
Eu não quero ter que me recordar disso novamente… Já era para eu ter superado esse passado, então… Por quê?! Por que isso dói tanto?!
E junto disso estava o medo. O desespero de estar sozinho, e a imensa insegurança por imaginar que havia sido abandonado. Por um instante, quis fugir da realidade de correr de volta para o conforto anterior. Contudo, o que uma vez teve, já não existia mais…
Entretanto, em meio a todo o caos e a confusão naquele instante, uma pequena esperança lhe estendeu a mão e o fez voltar a si. “Se quer fazer algo, então faça”, foi o que Aimi lhe disse naquele dia. “Ao invés de ficar parado aí, se lamentando, será melhor esquecer isso que te machuca e fazer algo” — palavras que lhe deram a força necessária para conseguir seguir em frente.
Aliás, dessa forma, “poderia viver a vida ao máximo e fazer aquilo que gosta”. Tal mensagem que uma vez ouviu de sua mãe, na qual se conectou com a mensagem anterior e, assim, fez Jun sentir-se seguro de superar o que lhe atormentava. Portanto que estivesse fazendo aquilo que uma vez desejaram para si, não haveria motivo para se arrepender.
Desse modo, o inseguro garoto de cabelos vermelhos, conseguiu deixar seus anseios para trás e desfrutar daquilo que possuía em seu alcance no momento. Daqueles dias tão calorosos que pareciam eternos, mas que repentinamente acabaram. Trazendo à tona, tudo o que ele havia trancado para conseguir avançar, novamente.
E qual foi a razão disso tudo? O mesmo medo de não querer aceitar a realidade do que ele realmente era, dessa forma, permitiu que um amigo precioso morresse.
Naquele momento, por acreditar que a vida que construí na outra cidade se tratava da única verdade que precisava encarar… No exato instante que necessitei enfrentar o que de fato eu era… Por causa desse medo… Foi o que me fez deixar Hiro morrer…
Uma simples insegurança, tratou-se da causa de um simples deslize que ocasionou com que tudo desandou. Se Jun não tivesse ignorado suas inseguranças para conseguir avançar, tudo poderia ter sido diferente. E mesmo que agora tenha conseguido se perdoar pelos erros cometidos na outra cidade, aquela culpa persiste dentro de si.
Ao saber que ela havia caído num coma, ao invés de ter me abandonado, eu fiquei muito aliviado…
No entanto, por mais que o seu conflito interno houvesse acabado. Uma vez que agora havia encontrado uma certa luz, mesmo que quase se apagando, mas que o fez despertar e, dessa vez, realmente conseguindo fazer algo. Ter que confrontá-lo era extremamente doloroso.
Fazia Jun se recordar que jamais poderia voltar atrás para resolver os pecados que cometeu. Que aqueles momentos alegres com os seus pais e o seu irmão, nunca seriam da mesma forma. E, principalmente, que a pessoa na qual matou Aimi foi justamente ele.
Por todo esse tempo, eu nunca quis ter que encarar isso, mesmo que me lembre muito bem… Jamais vou esquecer do rosto aliviado dela naquele momento… As últimas palavras que foram começaram a ser ditas, na quais, até então… Eu… Eu quis acreditar que não chegaram a sair…
Até então, Jun queria um motivo para fugir. Uma razão palpável em que o permitisse desistir de tudo. No entanto, apesar da culpa que carregava, o que sempre teve foi uma razão para seguir adiante. Para que fosse forte. Para que buscasse a sua felicidade, as últimas falas de Aimi foram:
“Eu quero que você continue vivendo e fazendo aquilo que gosta”, foi isso que ela desejou pra mim antes de morrer… Essas malditas palavras, de novo! Isso é como uma maldição, pois… Não importa… Não importando, o quanto eu queria desistir ao ter que recapitular tudo o que aconteceu comigo… Você sempre me dá esse desejo de continuar, mesmo não estando mais aqui…
Ao ver sua mãe, enfim, despertada na sua frente, os sentimentos que Jun guardou para si, durante todo esse tempo, finalmente vieram à tona. Ele estava em pânico. Não queria cair na escuridão novamente. Perder toda a motivação que o fez desejar ser a luz que irá unir a todos e destruir o falso céu para que todos possam desfrutar um mundo sem limites.
Ver essa mulher o fazia fraquejar. Tinha medo de se tornar fraco e incapaz novamente. De que não consiga permitir que Rie continue vivendo. Só de imaginar uma realidade em que não poderia estar mais ao lado dela parecia ser o fim do seu mundo. Ela era sua luz. A sua esperança. A pessoa na qual amava.
E saber que as mesmas inseguranças ainda existiam dentro de si, era algo completamente desesperador.
Entretanto, o garoto jamais iria imaginar que, dentre todas as coisas que ela faria ao avistá-lo fosse… justamente… correr até ele e lhe dar um forte abraço. Seu corpo estremeceu e ele fraquejou por um instante. Aliás, dentre todos esses últimos anos, a primeira coisa que ouviria saindo da voz de sua mãe, seria:
— Me desculpa…
Por quê? Por que ela está se desculpando? Eu não entendo…
Jun não sabia como se comportar perante a ela. Sequer conseguia mover seu corpo. Apenas tinha o desejo de gritar. A vontade de fugir dos braços dela. Queria com todas as forças não ter que encará-la, ao mesmo tempo que aquela maldição o impedia de desistir. Portanto, ele somente queria chorar, porém não conseguia.
— Eu sinto muito por ter deixado você por todo esse tempo… Mal consigo imaginar pelo que você deve ter passado por minha causa… Mesmo assim, a única coisa que fiz foi ser uma bruxa que lhe soltou uma praga e o abandonou…
Um intenso vento soprou, fazendo com que os cabelos prateados da mulher balançarem em meio ao ar, junto das pétalas de flores do jardim. Nos olhos de Jun, preenchidos por aquele poder de brilho intenso, lágrimas então começaram a se formar.
O garoto, então, mordeu os seus lábios. Mesmo que estivesse com um coração que não parava de bater desenfreadamente, como se estivesse prestes a explodir, e um corpo trêmulo no qual parecia incapacitado. O que acabara de ouvir, tratava-se de algo em que não aceitava.
— Não… Você está errada! — Aquele líquido, então conseguiram escorrer das ires de Jun em que gradualmente retornavam para o azul original.
Se então tudo que o amedrontava era o seu medo de encarar a realidade, agora ele não possuía mais. Isso que sua mãe acabara de falar, era justamente o que lhe faltava para obter a coragem de encarar essas inseguranças. Agora não há mais motivos para trancafiar esse tipo de coisa no seu interior. Estava na hora de colocar para fora, pois nesse instante, não havia mais nada que estava fora de seu alcance.
— No começo isso podia parecer uma maldição, mas foi por causa disso que eu cheguei onde estou… E se fosse para deixar de ter o que perdi, construí e conquistei por causa disso, eu jamais aceitaria! Nunca estive tão contente por ser quem eu sou!
E assim, Jun também conseguiu abraçar sua mãe. Tudo que estava preso em sua alma, o atormentando, agora tinha se dissipado. Aquela criança com medo de se tornar solitária, acordou daquele mundo ilusório e sem cor. Pois sabia perfeitamente que possuía pessoas queridas à sua volta, nas quais jamais o deixariam e que também não permitiria irem embora contra as suas vontades.
— É por isso que eu não vejo um motivo para te culpar… Na verdade, eu apenas consigo fazer é te agradecer por permitir que eu exista. Se não fosse por sua causa, nunca teria aprendido a ver o quão agradável e divertido é fazer algo que gosto!
Neste momento, não havia mais nada nesse mundo que pudesse impedir Jun de prosseguir. Seja uma nação querendo sua cabeça. Seja uma rainha que almeja controlar a todos por causa de uma falsa superioridade. Ou até mesmo o estado terminal em que sua namorada se encontrava, era nada. Apesar do qual algo parecesse impossível de se realizar, ele sabia perfeitamente do quão capaz era.
Contudo, por hora, há algo em aberto para se realizar…
— Eu senti saudade… mãe…
* * *
Sentada sobre um banco ao lado de uma fonte no jardim, Jun parou para ouvir o que sua mãe tinha para falar. Por um instante, olhou para Rie que parecia estar perdida em meio a tudo o que estava ocorrendo. Ele, de certo modo, achava que conseguia compreender como ela estava se sentindo.
— Quando eu percebi, do nada comecei a sentir uma energia, depois de muito tempo… Para mim foi como se apenas tivesse acordado anos depois, de um segundo para o outro, mas ao mesmo tempo sabia que estava dormindo até então… Não sei explicar.
Se fosse o que Jun estava imaginando, repentinamente, ela conseguiu sentir sua aura uma outra vez. Levando em consideração que, tratava-se do núcleo que havia a deixado nesse estado, era compreensível que isso a fizesse recuperar a consciência ao obter de volta. Contudo, nunca soube que algo assim era possível. Na realidade, era para ela permanecer em coma sem chances de se recuperar.
— Como fiquei sabendo que, recentemente, havia recebido a visita de meu filho naquele hospital, eu imagino que tenha conseguido tomar, mesmo que inconscientemente, um pouco do poder… O seu poder. Desse modo, utilizei o feitiço de recuperação e consegui me recuperar daquele estado.
— Como assim? Isso não faz o menor sentido. Até onde eu sei, a única outra forma de utilizar a aura de outra pessoa é através da união.
— Isso é um tipo de conexão permanente, onde um casal passa a dividir suas aptidões, criando um núcleo em comum. Existem outras formas de realizar um contato com outros indivíduos. O que eu fiz, foi só pegar um pouco emprestado e, também, você ter herdado a mesma aura que a minha ajuda nisso.
E o garoto conseguia ter mais dúvidas do que respostas. No entanto, do pouco que entendeu, pelo visto, existem outras maneiras de compartilhar a energia.
— Então, o que difere a união, disso que você falou?
— Essa se trata de uma junção que acontece por causa de um laço romântico, ou desejo sexual já estabelecido entre duas pessoas. Quanto a outra é só um vínculo simples… Muito provavelmente, você apenas aceitou meu pedido de usar sua aura, mesmo que sem perceber.
— Ah… Entendi…
A maneira como ela falava, levando a entender de que era algo no qual Jun já devia saber, o fazia ficar sem jeito. Na realidade, ela parecia estar da mesma forma, pois a maneira como ela estava se comunicando levava a entender isso. Muito provavelmente, ela estava agindo assim e conversando de tal modo, aliás, estava encarando um filho, que no ponto de vista dela, apareceu repentinamente crescido.
A sua mãe, Yuri Asano, durante todo o momento, pareceu não olhá-lo diretamente, aliás. Era como se estivesse com algum tipo de vergonha, ou simplesmente timidez. Sem falar que ele estava junto de sua namorada, na qual já vivia junto dele na mesma casa, quase como sua esposa, o que devia ajudar a deixá-la sem saber como se comportar nessa situação.
Rie, em conjunto, parecia estar muito perdida no meio desse reencontro, também. Ela demonstrava a feição de alguém que gostaria de ir embora para não se intrometer num assunto em que não parecia fazer parte. Entretanto, tinha um motivo pelo qual ela precisava participar disso e era o que Jun estava prestes a perguntar:
— De qualquer forma, essa tal magia de recuperação é aquela que faz um dano voltar a um estado anterior, certo?
— Sim… — Ela parecia surpresa — Onde foi que você ficou sabendo disso? Não é algo que está no conhecimento das pessoas em geral, ou será que… agora está?
— O meu pai me contou sobre isso… E também, já cheguei a ver alguém usar isso na prática, quando atravessei o peito da rainha com a minha espada e ela curou logo em seguida.
— Você… Você fez o quê?!
Durante aquela luta contra a sua avó, Jun havia chegado a um estado de seu poder que, até então, não sabia que era capaz. Entretanto, embora a impressão tenha sido de que estava acima dela no embate, na verdade, apenas conseguiu se sobressair, pois ela havia o subestimado, aparentemente.
De todo o modo, agora sabia perfeitamente como funcionava sua habilidade. Ao acelerar duas vezes a velocidade era intensificada, em um estado no qual ele conseguia manter normalmente. Porém se continuasse fazendo isso múltiplas vezes, sem parar, conseguiria chegar naquele brilho intenso, que descobriu sem querer, no desespero contra a rainha.
Ainda assim, era um tipo de uso da técnica que consumia muito energia, aliás, estava criando cargas sem parar, ao invés se só concertar e deixar fluir, portanto, caso usado demais pode acabar o deixando incapacitado pelo desgaste. Então, continuava sendo algo que só devia ser usado como último recurso, ou como meio de finalizar um oponente de forma efetiva e definitiva.
— Pequenas coisas, como eu e minha vó termos nos encontrado, não vem ao caso agora — Com uma feição séria, Jun encarou sua mãe diretamente nos seus olhos escarlates — Se você conseguiu curar o seu núcleo de aura com isso, eu quero saber se também pode curar o da Rie que está danificado?
A força de vontade e determinação que Jun demonstrava nesse instante eram avassaladoras. Os desejos que ele almejava chegavam a tocar todos ao redor. No ponto em que se encontrava, não importava o quanto tivesse que lutar — mesmo que precise enfrentar o mundo inteiro —, tornaria verdadeira a realidade em que Rie estaria viva. Não importava qual fosse as consequências. Era capaz de acatar com qualquer coisa.
E na face da mulher, estava presente uma expressão de surpresa. Ela conseguia ver perfeitamente o tanto que seu filho estava disposto a chegar nesse fim. Jun, não era mais aquela criança que dependia da sua mãe. Agora era alguém que jamais ficaria parado e faria tudo que estivesse ao seu alcance para conquistar o que quer.
* * *
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