Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 2 – Arco 1: União

Capítulo 4.3: Os laços que nos unem

No instante em que deu as caras foi recebida por uma enxurrada de abraços. Cada uma das cinco crianças, presentes no quintal daquela humilde casinha feita de tijolos e partes de madeira, foram correndo até Rie com o maior de todos os ânimos. Ela podia estar levemente diferente da última vez que veio, aliás, deixou seu cabelo crescer e passou várias semanas.

— Ela veio! Eu disse que ia vir!

— Eu senti muita saudade de você…

— Que lindo tá o seu cabelo!

Por um instante, enquanto era quase esmagada pelas cinco crianças, olhou para Jun. O garoto de cabelos da cor do sangue, que passou a deixar solto desde então, que no momento usava uma camisa branca, um casaco de lã velho, calças jeans azuis e tênis de passeio, a olhava com uma cara debochada. Ele parecia estar se contendo para não cair em gargalhadas perante a cena que via.

Embora a garota tenha ficado um pouco sem jeito, ela levou isso na brincadeira. Estava muito contente de poder ver esses pequeninos de novo. Estava tão ansiosa, ao ponto de ter acabado se arrumando demais apenas para vê-los.

Como penteado, deixou seu cabelo preso em um coque baixo com tranças e ainda com franja. Chegou até mesmo a colocar brincos e passar uma breve maquiagem. E quanto a sua vestimenta, usava um suéter ombro a ombro rosa por cima de uma regata de gola alta escura e levemente transparente, com uma saia rodada de cintura alta, meias-calças e sapatilhas pretas.

Apesar de estarem sobre a suposta proteção do príncipe do Ones, Mikio, e também irmão biológico de Jun, ainda tinham incerteza quanto ao tanto que iriam seguir isso. Sendo assim, por precaução os dois trouxeram suas adagas com sigo, que mantiveram escondidas por baixo da roupa. No ponto em que estavam, os Ones já deviam estar cientes de que tinham alguma ligação com essas crianças, portanto é extremamente possível que as ameaçassem no futuro. Chega a ser terrível só imaginar que, agora elas estavam em perigo, apenas porque acabaram se envolvendo.

— Obrigado pelo elogio! — Rie sorria — Eu também senti muita saudade de vocês. Muito mesmo, viu?

— Agindo desse jeito, até parece que a criança aqui é você. Mas é uma fofa, mesmo. — Jun comentou enquanto dava leves tapinhas na cabeça de Rie.

— Ei! Qual é?! — E em reação, ela ficou com o rosto avermelhado.

Entretanto, no caso das crianças, aparentemente elas ficaram confusas com o que acabou de acontecer. Elas encaravam Jun com um rosto de dúvida:

— Quem é esse daí? — Um dos garotinhos fez essa pergunta, inocentemente.

E Jun, instantaneamente, se sentiu abalado com o que escutou, ao ponto de quase perder o equilíbrio pela frustração.

— Esse é o Jun Asano, o mesmo garoto que veio comigo aqui da última vez. O que aconteceu? Por que vocês esqueceram dele?

— Nossa, é sério?!

— Ué, mas aquele moço de antes parecia todo maldoso.

— É, ele se vestia de forma malvada.

Rie apenas olhou de volta para Jun, de forma sapeca, deixando risos escaparem por não conseguir aguentar. Jun estava com os olhos franzido e um sorriso torto, deixando os ombros caídos pelo descontentamento. Contudo, mudou repentinamente para uma expressão alegre e falou:

— É que aqueles foram tempos difíceis… — Ele coloca a mão sobre o rosto e então muda o tom da sua voz para uma melodramática. — Foram tantas coisas terríveis que precisei passar para chegar naquela situação que perco o ar só de lembrar…

— Ah, por favor, Jun!

Num ato repentino, Rie dá um chute na canela de Jun, o fazendo parar de falar e soltar um cômico berro agudo. As crianças caem risos perante essa cena.

Antes ele estava se queixando sobre toda aquela situação e agora, fica tirando sarro sobre o acontecido… Confesso que isso me irrita um pouco, mas, ao mesmo tempo, fico feliz com isso. É tão bom ver que ele está fazendo piadas e vendo as coisas de forma mais positiva.

— Como você é cruel… Agora não pode mais se ter um momento trevoso hoje em dia? Mas que mundo injusto… Até estava pensando em fazer um corte de cabelo genérico, colocar um sobretudo preto e usar duas espadas...

— Depois dessa, eu me questiono quem realmente é a criança aqui? — Rie apoiava o dedo indicador ao lado do rosto numa pose de questionamento.

Jun solta um suspiro e balança a cabeça em negação perante essa atitude da garota, assim a fazendo sorrir e falar:

— De todo o modo, vamos entrando, que o nosso moço trevosidade e também... — Ela muda o tom repentinamente. — O nosso mestre-cuca! Irá fazer um grande bolo de chocolate para vocês!

— Aeeee! Finalmente! Um bolo! Finalmente!

— Eba! Eba!

E assim, quanto foram até aquela casa, Rie se agachou e se sentou sobre o tapete da sala pra jogar uns jogos de tabuleiro com a molecada, enquanto o seu lindo namorado ia preparar a refeição para eles, mesmo que um pouco envergonhados. Ela podia ser um tanto boba quanto a essa tarefa de tomar conta delas de tempos em tempos, porém gostava disso. Se fosse mandada para cá, quando foi abandonada por sua família biológica, gostaria de ter alguém como companhia.

Como eles são Zeros que nasceram de Ones, obviamente foram abandonados por não se adequarem a cultura de igualdade contraditória deles. Contudo, até mesmo entre o povo que devia os abraçar são malvistos com muito preconceito, uma vez que era muito comum que crianças nesse tipo de caso, devido as suas criações iniciais antes de despertarem a aura, acabavam tratando seus verdadeiros semelhando como se fossem inferiores até cair a ficha de que não há nada de dourado neles. Ninguém gostaria de ter que lidar com uma criança problemática logo de cara até cair na real.

Entretanto, como na atualidade foi desenvolvido um teste que consegue determinar a cor do poder logo ao nascimento, passaram a serem descartado e enviado para esses orfanatos logo como bebês. Até adquirir uma idade mínima, sempre há um cuidador por perto, quando não são adotados logo de cara. Ainda assim, esse é mais um caso de um tipo de imagem negativa que não mudou na mente das pessoas.

Quando não são mais completamente dependentes, passam a serem deixadas na maior parte do tempo sozinhas, pois um Zero ainda tem um campo de batalha no qual precisa participar. E quanto não comprem com isso, algum One deve vir para eliminar a ferramenta que deixou de ser funcional. E a diferença de uma arma de aura única para uma comum é grande o bastante para não ter como reagir contra. Portanto: ou morrer em uma luta sem valor, ou morrer por ser a falta de valor.

De qualquer forma, dentre esses cinco fofos, possuía um garoto muito travesso de cabelo roxo espetado, chamado Haru, e um mais comportado de cabelo preto chamado de Inari. Entre as garotas, tinha a Ekio, uma loirinha hiperativa, a Izumi, uma espertinha de cabeça laranja, e a Sayuri que era a mais nova dentre todos e sempre agia de forma tímida, com mechas de rosa muito clarinho, quase se tornado branco.

Quanto a essa última, Rie chegava a se preocupar um pouco, pois ela sempre ficava bastante distante das outras, como também, não pareciam dar muita atenção pra ela. De certa forma, a Sayuri a lembrava quando também era pequena. No entanto, essa daí ainda era muito pequenininha — devia ter uns três ou quatro anos.

Chega a ser tão triste que apenas descartem elas aqui… Sei que é complicado para um Zero, que está sempre em batalhas, conseguir cuidar de alguém, mas, mesmo assim, isso não é motivo para deixá-las quase o tempo todo sozinhas aqui, ainda mais sendo tão jovens…

— Venham, a comida tá na mesa — anunciou Jun, ao entrar no cômodo, cortando o breve pensamento negativo da garota e fazendo com que o restante desses pulos de alegria começando a correr animadamente em direção a ele.

— Ei! Vocês não esqueceram de nada, não? — Rie interveio elas — Primeiramente, vamos guardar os brinquedos que usaram. Não podemos deixar nada espalhado para tropeçarem depois. E também, vão com calma, ou vocês podem cair da mesma forma e se machucarem.

E após esse breve discurso, mesmo que relutante, todos acabaram fazendo o que foi pedido, assim, podendo ir até a mesa se servirem. Rie, sempre ficava encantada com as refeições que Jun conseguia fazer, ao ponto de ter arrepios toda a vez que provava uma comida dele. 

Ela queria poder preparar algo tão gostoso quanto, senão melhor, para poder retribuí-lo, porém, tentar apreender com apenas vídeos gratuitos na internet não estava dando muito certo. Da última vez que preparou algo, fez uns bolinhos de arroz tão salgados e um pouco queimados, que se certificou de comer tudo escondida para que ele não visse a tragédia que preparou. Um dia depois, ficou com dor de barriga.

Precisava encontrar alguém que ensinasse ela a cozinhar, mas não fazia ideia de alguém que sabia e estaria disponível para isso. Rie só queria poder se tornar uma namorada mais útil para Jun, mesmo que ele fosse discordar dessa questão, caso comentasse…

— Aconteceu alguma coisa? Você parece deprimida… — perguntou o garoto de cabelos vermelho em preocupação.

— Não foi nada, não. Eu apenas acabei dormindo acordada… — Rie quase se atrapalhou com as palavras — E de todo o modo, o bolo ficou delicioso, viu?

— Obrigado…

— Ohhh, ele ficou todo vermelhinho, mas que fofo!

Perante essa simples provocação, que a princípio foi algo despretensioso da parte dela, Rie se viu cercada com inúmeros olhares curiosos com essa situação:

— Eu também quero ser chamada de fofa.

— Ei! Ei! Olha, a Rie e o Jun tão flertando!

— Ei, vocês estão ficando? Por que chamou ele de fofo?

E agora ela teria que explicar algo complicado para as crianças. Por onde será que Rie deveria começar? Ela fazia milhares de questionamentos nesse instante que parecia que iria explodir. De qualquer forma, era só uma questão de tempo até a hora em que descobriram isso. Mas, relevando tudo por um momento, ela até estava se divertindo com a situação.

 

* * *

 

— Sabe de uma coisa? Ultimamente eu tenho pensado numa nova canção — Entre a luz do pôr sol que refletia no rio ao lado, enquanto o casal se aproximava de sua casa escondida no subsolo, Rie soltou esse comentário alegremente.

— E sobre o que será, dessa vez?

— É uma surpresa. Você terá que esperar pra descobrir. E que espere ansiosamente, entendeu? Nessa eu vou arrasar como nunca antes.

— Olha só, ela tá todinha convencida… — Com um olhar atravessado, Jun falava em tom provocativo.

— Ah, vê se me erra, vai!

Por algum milagre do destino, o dia foi extremamente tranquilo até então. As pessoas voltavam para suas casas exaustas. Jovens vestindo o uniforme das forças de ataque, completamente sujos e desgastados, eram recebidos por suas crianças animadas após passarem os dias solitários em casa, ou na escola, devido aos país nos cambos de batalhas. A alegria de poderem estar junto de seus entes queridos por mais uma noite.

As fadas começavam a brilhar e a ecoar um som suave de guiso ao bater de suas asas. As cascatas que caem infinitamente entre as ilhas, ressoam em um tom harmônico. Os peixes, feitos de energia iluminam os rios e lagos dessa cidade submersa. E então, auroras de energia começam a cintilar sutilmente entre os ares.

Aqueles poucos mais velhos que conseguiram sobreviver até certa idade para serem dispensados das lulas, abrem seus pequenos comércios para os cansados e famílias terem seus curtos momentos de lazer. Quanto outros, se empenham em dar o suporte e oferecer o equipamento para que consigam garantir mais um próximo dia vivos.

E entre tudo isso, Rie finalmente pode matar toda a sua saudade daquela molecada que ficou a um bom tempo sem conseguir ver. Não tinha como ela estar mais motivada do que está nesse momento.

— A última vez que fiquei animado pra ouvir uma música foi por causa da minha mãe. Vai ser legal experimentar essa sensação de novo.

— E bem, já que você tocou nesse assunto, tenho uma curiosidade a respeito disso. Por você ser filho de uma cantora, não chega a ser um tanto estranho que, dentre todas as garotas que você poderia namorar, fosse justamente uma que quer ser também?

— Na verdade, não. Se fossemos desconsiderar esse detalhe, você não se parasse em nada com ela. Você é o completo oposto dela. Por exemplo, você é toda enérgica e animada, em comparação a minha mãe que era uma mulher mais contida e paciente.

— Isso era pra ser um elogio ou uma crítica? Eu estou confusa agora.

Se fosse ver aquela pessoa pelo que conhecia, Rie não sabia de nada, pois o único contato que teve foi com os vídeos de músicas. E quanto a cantora Lily, também é um grande mistério, uma vez que nunca se teve quais informações a respeito dela, tirando as melodias que fazia. Até mesmo o motivo original do significado das letras das canções era um enigma.

— Não é um e nem outro, apenas tô dizendo que não consigo associar você à minha mãe. No começo, pelo fato de também cantar, sim, mas depois de te conhecer, descobri que tirando isso, você não é igual em nada. Outro exemplo é que ela sabia cozinhar, diferente de você.

— Ei! Mas também não precisa tocar na ferida, né?!

Rie que andava de braços dados Jun, então deu puxão nele, ao ponto de fazer o garoto quase perder o equilíbrio e parar. Ele solta um breve riso para esconder o nervosismo perante o breve deslize que cometeu.

— De todo o modo, apenas espere e veja! Quero que você seja a primeira pessoa a escutar o que estou prestes a fazer.

— Não se preocupe, como eu posso duvidar de uma garota que consegue ficar extremamente bonita de todas as formas que se veste, hein? Se diz que vai arrasar, sou aquele que acredita fielmente que vai conseguir!

— Ahhh, que fofo! Porém, você tem que admitir que estava doido pra dizer isso, né? — Perante a forma maliciosa de Rie falar, ela o vê paralisar por um momento. — Ainda assim, muito obrigada! Agora eu finalmente tenho brecha para dizer que, desde que você começou a soltar o cabelo, tenho te achado um gostoso!

— Opa! Eu ouvi o que eu realmente ouvi?!

— Você está lindo com esse visual Jun, e sempre, tá? — E ela termina sua fala dando um rápido beijo na bochecha do garoto.

Rie, então vê Jun arrepiar e ficar com sua face gradualmente vermelha. Ela deixa risos escaparem e segura o braço dele fortemente, fazendo com que voltassem a andar. Depois de alguns segundos, de pura diversão na parte dela — por garoto nem tanto —, ele consegue se recuperar da surpresa e falar:

— Amanhã eu não vou poder ficar com você, depois da aula. Eu tenho aquele treino com o meu pai para melhorar a minha habilidade.

— Tudo bem, só se cuida, viu? Eu não quero ver você desmaiando de novo por usar a aceleração demais, entendeu?

— Eu vou. Garanto que nunca mais te deixarei preocupada com isso, novamente.

 

* * *

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