Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 2 – Arco 1: União

Capítulo 4.2: Os laços que nos unem

A fumaça se propagou suavemente pelo ar, dissolvendo-se. Enquanto esquentava suas mãos ao segurar a caneca de chocolate quente, nessas últimas noites geladas antes da primavera chegar de vez, Rie estava sentada no sofá, ao lado de seu namorado, em meio a uma decisão sem fim. 

No começo, os dois apenas iriam assistir juntos, qualquer coisa num serviço de streaming aleatório na televisão da sala, porém já se passaram minutos e decidiram nada até então. Portanto, a única coisa que conseguiram, foi fazer piadas ironizando a situação para que o clima não se tornasse desagradável. 

O próprio visual dos dois remeteram a algo mais descontraído. Enquanto Jun usava apenas sua camiseta preta de gola alta, junto de uma calça de moletom, Rie estava usando uma camisola azul com um leve casaco de lã por cima. Não havia nada de diferente quanto ao seu cabelo, além se estar um pouco húmido após o banho.

Por mais que monótono, tudo estava andando da forma mais agradável possível. Entretanto, um repentino comentário vindo dela fez com que tudo ao redor mudasse drasticamente:

— Ei, Jun? Obrigada por tudo até então… — Ela continuava cabisbaixa, olhando em direção a sua bebida, ainda intocada.

— O que aconteceu? Por que isso, do nada? — Deixando de tomar pela metade, o garoto largou a sua caneca nos porta copos na pequena mesa à frente para poder prestar toda a sua atenção nela. Jun, aparentemente, havia ficado preocupado com o que ouviu.

— Eu, apenas achei necessário dizer isso. Sabe, depois daquilo que aconteceu comigo ontem, senti que precisava afirmar isso…

— Francamente, vai ficar tudo bem com você — Indignado, ele pega de volta a caneca e dá um grande gole. Aparentemente, Jun acabou queimando a língua — Você ainda vai ter um futuro maravilhoso pra fazer o que quiser, então, não precisa ter medo… Eu vou garantir que essa será a nossa realidade.

Rie achava extremamente fofo ouvir isso da parte de Jun e, até mesmo, a fazia sentir-se que era amada. Contudo, embora queira muito acreditar nas palavras dele com todas as forças, ainda assim, dentro dela havia algo que a impedia. Apesar do quanto quisesse, não queria deixar se iludir com uma falsa esperança.

Mesmo que eu sobreviva, ainda terei que lutar pela minha vida. Seja por causa daqueles Ones que querem matar a gente, ou no campo de batalha enfrentando monstros. Sei que não estou sozinha nisso; o Jun também vai estar, mas é agoniante saber que, não importa o que aconteça, parece que nunca vou poder ficar em paz… 

Existiam tantas coisas que ela gostaria de fazer. A ansiedade de, talvez nunca seja capaz de conseguir cantar novamente, ou de passar junto do seu namorado era desesperadora. Ela queria dar o seu melhor nas músicas. Conseguir colocar todas as suas inspirações e desejos para fora. Desejava conseguir construir um relacionamento cada vez melhor. Contudo, a incerteza que era o futuro, — esse medo e ânsia de que nada vai existir —, pareciam que iriam lhe destruir.

De qualquer forma, isso é só uma preocupação pequena! Isso mesmo! O importante é que poderei ter mais momentos como esse e, também, para melhorar como cantora. São coisas que amo com todo o coração. Essa pequena vivência que eu já tenho aqui com ele, é algo que eu trato com muito carinho. Não há nada nesse mundo que possa fazer eu querer abrir mão disso… Porém, para conseguir isso, eu ainda preciso estar viva…

— Se você se sente desmotivada, então vou dizer aquilo de novo pra você… — Jun coloca sua mão sobre a cabeça de Rie — Se quiser fazer algo, então faça! Não fique parada! Só você sabe do tanto que é capaz para conseguir viver ao máximo, e assim, ter certeza de que nada foi em vão.

— Nesse ponto, isso já é um discurso decorado, mas eu entendo a intenção. — Rie deixa um pequeno riso escapar, fazendo o garoto ficar vermelho em reação. — Mesmo assim, foram essas palavras que me deram, até então, toda a coragem que eu precisava pra continuar e arrasar! Seja pra me tornar uma cantora, ou pra ser forte o bastante para lutar e ficar ao seu lado nesse futuro incerto.

Rie, enfim, conseguiu dar o primeiro gole no seu chocolate quente. Toda a insegurança que a atormentava até então, havia cessado nesse momento.

— Esse ânimo que você demonstra, mesmo na situação que está, sempre vai ser algo que me fascina, e muito. — Jun sorri e dá, pelo que parecia, o último gole na sua bebida. — Por outro lado, ver que você quer se tornar uma cantora é algo que eu invejo, de certo modo. Tipo, até então, tenho focado tanto em ficar mais forte para proteger tudo que amo, ao ponto que me vejo perdido às vezes. Caso não precisarmos lutar, eu sequer consigo ter uma ideia de algo que queria fazer…

— Se um dia isso acontecer, realmente nunca cogitei como poderia ser, mas também não cogitei esse ponto. E de todo modo, caso essa se torne nossa realidade, eu vou estar com você pra te apoiar no que quiser fazer.

— Olha só, mas que fofa ela é… — disse Jun com um olhar provocativo.

Em reação, Rie sentiu um arrepio ocasionado pela vergonha, quase a fazendo derrubar a caneca no sofá. Entretanto, ela rapidamente colocou sua cabeça em ordem e, como se nada houvesse acontecido, diz:

— De qualquer forma, tem algo que eu gostaria de pedir pra você…

A última fala fez com que o ambiente mudasse drasticamente de novo. Uma face preocupada retornou a Jun o deixando inquieto.

— Por causa daquilo de ontem, na última noite, eu não consegui dormir, pois simplesmente não dava… eu estava… como medo. Muito medo de que, se eu fechasse os olhos, não iria acordar de novo…

Na teoria, ainda falta algum tempo para que chegasse a hora em que Rie iria cair num sono sem fim, porém, vai que isso estava errado. Ela sequer conseguia imaginar o que iria ocorrer no instante em que seu núcleo de aura parasse de funcionar. Iria doer? Iria apenas apagar? O que ela iria sentir? Será que ainda teria consciência, após cair no coma? Ou, somente morreria? De fato, não queria saber.

— Então, será que… ao menos nessa noite… eu posso dormir com você? Não queria que isso acontecesse dessa forma, mas eu estou com tanto medo de que não sei se conseguirei ficar sozinha outra vez naquele quarto…

— Tudo bem, é claro que você pode.

— Obrigada…

Ela então assoprou na caneca com chocolate quente e a fumaça se dissolveu mais uma vez. No interior de Rie existiam muitos medos e inseguranças, porém, também um desejo descontrolado de seguir adiante. Apesar do fato de não estar indo dormir, pela primeira vez junto de seu namorado, por motivos mais românticos, como gostaria, estava muito contente de dar esse passo.

Embora o calor estivesse prestes a chegar, no horário atual, próximo à meia-noite, fazia bastante frio. Portanto, deitar-se no colchão junto dele numa apertada cama de solteiro, até parecia algo agradável. Ficaria bem próxima a Jun para sentir todo o seu calor. E foi o que fez.

No começo, tanto ela quanto ele pareciam se sentirem bastante desconfortáveis. Para falar a verdade, na primeira vista até parecia um tanto estranha essa situação, mas devia ser pela falta de costume. Contudo, no instante em que os dois se aproximaram, ao ponto de seus corpos se tocarem levemente e se aconchegarem, Rie sentiu-se confortável onde estava.

Ainda assim, a garota tinha medo de fechar os olhos. E se essa fosse a última vez que estaria acordada? Rie tinha muito medo. Tanto medo que queria gritar e se levantar para não ter mais que encarar a triste realidade fadada a vir, mesmo que não fosse agora.

Entretanto, quando Jun a abraçou, todos esses anseios no interior dela começaram a desaparecer. Estar sobre os braços deles a fazia sentir-se segura e protegida, como também amada e desejada, de certa forma. E assim, ela escorou sua cabeça no peito dele. Podia escutar os batimentos acelerados do coração de Jun, remetendo o nervosismo que devia estar tendo no instante. 

E isso a fez perceber mais uma vez que não estava só. Todas as batalhas que enfrenta na atualidade não eram algo que fazia sozinha. Os medos que a cercavam não eram uma característica exclusivamente de si. Com isso em mente, agora, Rie enfim pode fechar seus olhos com um sorriso no rosto.

 

* * *

 

O garoto despertou com o susto do barulho de um alarme agudo. Este era um som que o irritava, pois sempre tocava quando ainda queria continuar dormindo. No entanto, usando de forças que não gostaria de ter que levantar, ou pelo menos tentou. A linda garota de cabelos brancos, deitada ao lado dele, o segurou inconscientemente para que não saísse do lugar.

Ele acariciou o rosto dela e então, após insistir um pouco, conseguiu se soltar. Na hora ele sentiu um pouco de pena, ao ver Rie, que tentava permanecer dormindo, se encolher. Contudo, puxando levemente a bochecha dela, falou:

— Bom dia, sua dorminhoca!

Rie, então, lentamente tendo que se erguer, forcejando contra a força invisível que tentava a fazer se deitar novamente. Ela dá um longo bocejo, esfrega os olhos e então diz:

— Bo… Dia… — Uma voz extremamente baixa e sonolenta pode ser escutada.

Nesse ambiente iluminado pela luz do abajur ao lado, pois, por ser um lugar escondido, não havia como o sol chegar até esse lugar, Jun olhou para sua namorada numa pose cômica. A garota com o cabelo bagunçado e uma alça da camisola que caiu do ombro, o encarava com um olhar de quem ainda se encontrava no mundo dos sonhos.

Essa imagem que Jun presenciava, além de achar muito fofo, obviamente, também fazia ele ficar encantado e muito admirado. Estar diante de uma garota tão bela, logo pela manhã, parecia até algo da sua imaginação, mas era a realidade atual que vivia. Estava tão contente que tinha alguém para passar esses momentos, — que na teoria deveriam ser monótonos —, ao ponto de querer gritar para expressar o tanto que estava grato.

Entretanto, por hora ele iria se deixar levar pelas emoções e se aproveitar da situação. Sendo assim, Jun se aproximou de Rie e lhe deu um beijo na bochecha. A garota deu um pequeno pulou pela surpresa.

— Não ouviu? Tá hora de acordar.

Ela, que ainda parecia estar com dificuldade para processar o que acabara de ocorrer, em reação, apenas puxou o cobertor e escondeu sua face avermelhada. Jun, apenas deixou escapar um breve riso perante o que via, mas foi cortado por um comentário:

— Como você é cruel… — Rie olhava para ele cabisbaixa, com uma expressão emburrada. — Quem queria ter feito isso ao acordar, era eu!

— Hehe, você perdeu dessa vez. Foi muito lerda. — E Jun dava risadas.

Rie faz beiço e então joga o travesseiro nele com toda a força.

— Seu chato!

 

* * *

 

Chie não via hora para abrir sua boca e tentar atiçar sua irmã perante os novos acontecimentos que acabara de descobrir. Sempre era maravilhoso ver as reações perante a algo bobo, mas que tratava de forma extremamente importante. Ela se divertia demais, ao ponto de querer ficar caçoando da cara dela durante o dia intento, mas, é claro, sabia quais eram os limites.

Ver a Rie contando sobre as suas novidades amorosas de forma tão contente, como que parecia estar se sentindo realizada consigo, era muito agradável. Chie, enfim, estava vendo a sua irmã de consideração, conseguindo se soltar e aparecendo conseguir aproveitar sua vida era uma vitória. Sequer conseguia imaginar que quanto a conheceu era uma garotinha toda insegura e chorona. É claro, ela não a julga por isso, pois entende até bem demais os seus motivos.

Contudo, por outro lado, ouvir esse tipo de coisas lhe causava uma certa inveja. No fundo, Chie queria encontrar alguém também e não acabar como uma solteirona, mas com todos os garotos que interagiu até então, nunca deu bom. Enquanto uns ficavam com o saco cheio dela, outros apenas iam embora por se sentirem ofendidinhos. Ela, realmente, não conseguia entender esse tipo de gente.

— Mas você não acha que isso pode ter sido um pouco exagerado demais? — E, em contrapartida a tudo que havia ressaltado em Rie na atualidade, agora ela agia de forma envergonhada.

— Ah, por favor, você ficou linda aqui! Uma diva!

Nesse instante, Chie apresentava para outra como havia ficado o resultado do último vídeo de música no qual gravaram, no prédio das forças de ataque. Obviamente, Rie continuava agindo toda fresca, pois naquela situação se encontrava utilizado um vestido decotado. Se ela falou que não se sentia mal, quando seu namorado a viu de forma parecida nesta manhã, qual era o problema de se ousar um pouco para tudo e a todos? Não fazia sentido.

Embora Chie quisesse que sua irmã tivesse coragem para se mostrar e dizer para o mundo quem era que estava aqui, conseguia entender ela. E mesmo que tentasse criar lógicas absurdas na sua mente, sabia que não fazia sentido. A situação que Rie encontrava se tratava de algo íntimo e pessoal, também envolvendo aquela questão terrível.

Nossaaa! Eu tô tão perto! Perto demais! Só preciso de um pouco mais de tempo, mas isso é algo que não tenho… Que ódio!!

A garota de cabelos rosas possuía o objetivo de conseguir criar uma cura para as suas duas irmãs, tanto para Rie que estava como uma bomba relógio, quanto para Ayane que já está dormindo a anos. Aquela pobre garotinha foi cair naquele sono sem fim com apenas cinco anos. O estresse causado por aquele evento no passado, que também ocasionou que Rie ficasse no estado atual, fez ela despertar a aura antes da hora e ficar dessa forma. Ela estaria com onze agora, e Chie mal consegue imaginar como seria para ela caso acordasse na atualidade.

De qualquer forma, sabia que era mais do que capaz de conseguir salvá-las dessa situação. Apenas precisava conseguir quanto antes, pois no caso dessa aí que está choramingando ao seu lado, o provável que aconteça quanto chegar a hora é que… morra.

— Até amanhã, eu já devo ter a letra de uma nova música pronta. Só preciso parar pra escrever ela — Rie dava pulinhos de animação — Dessa vez, eu realmente estou muito inspirada!

— É claro. Depois dessa última noite calorosa que teve, se é que me entende, não tem como não estar exaltada.

— Ei! Não tire conclusões erradas! Eu disse que a gente apenas dormiu juntos!

— Ah, sim… me engana que gosto. Sei muito bem o tanto pervertida você é.

— E eu sei bem, o quão fracassada você é em conquistar alguém

Mas olha só a audácia da menina…

Após essa provocação vinda de Rie, a guerra foi inaugurada. Chie não pararia até derrotá-la no argumento, mesmo estando totalmente errada. Estava curiosa para ver o tanto que sua irmãzinha iria aguentar sem explodir, quando for provocá-la até não aguentar mais de tão tímida que vai ficar. Com certeza, mal pode esperar.

— Já pode ir sumindo com essa cara maldosa aí! — Rie exclama.

— O que foi? Está com medinho?

— Na verdade, é que eu preciso ir até o orfanato agora… Já faz um certo tempo que não vejo aquelas crianças…

 

* * *

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