Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 2 – Arco 1: União

Capítulo 4.1: Os laços que nos unem

Sob a luz da noite, uma suave brisa cruzava pela janela fazendo as cortinas balançarem. Diante do garoto, com um olhar apreensivo, estava a garota deitada sobre a cama da enfermaria. O desespero no interior dele era sufocante. Jun queria gritar. Suplicar com todas as suas forças para que ela acordasse logo. Contudo, por hora, ele somente poderia esperar.

— Desculpa a demora — comentou o homem com sobretudo, quase suspirando, ao entrar pela porta.

— Está tudo bem… Na verdade, eu fico feliz que tenha conseguido vir.

Isamu, o pai de Jun, então se sentou em uma das cadeiras do local e falou:

— Essa é uma visão que eu não esperaria ver tão cedo, ou melhor, que eu não quero ver de forma alguma.

— Dessa vez foi só um susto, mas, ainda assim, chega a ser torturante imaginar que ela possa acabar desse jeito, só que… pra sempre.

Naquela hora, em que Jun e Rie caminhavam juntos em direção à casa deles, enquanto conversavam descontraidamente, a garota desmaiou de repente. O motivo disso foi o estado no qual ela se encontra, — uma bomba relógio esperando para explodir e assim, deixar de existir. Contudo, desta vez foi apenas um indício inicial do que estava por acontecer.

Após vir para o prédio das forças de ataque, no qual era o local mais próximo com um hospital, num desespero extremo, conseguiu se sentir mais aliviado. Segundo o que escutou de um médico, o núcleo de aura de Rie estava começando a ter mais dificuldade para gerar a energia. Portanto, a causa desse súbito desmaio, foi apenas uma exaustão ocasionada por toda a loucura que passaram durante o dia.

Bem, até mesmo eu, me meti numa situação parecida, mas no meu caso foi por pura idiotice minha… Eu realmente preciso maneirar nas coisas, ou caso contrário, vou acabar indo antes dela… Que droga que estou pensando?! A realidade é que vamos ficar bem, durante o restante desse ano e dos próximos! É o que eu espero… pelo menos…

— De todo o modo, como está indo a vida de vocês naquele abrigo improvisado? — Isamu falava com um estranho tom de preocupação.

— No começo eu me senti um pouco incomodado, porém, não demorou muito para que a vivência com ela se tornasse algo extremamente agradável e gostoso de passar.

— Eu só espero que vocês ainda não tenham feito nada indevido e imprudente…

— Ei! Eu não estava me referindo a isso daí, não!

Jun chegou a dar um pulo em reação ao que acabara de escutar. O rosto dele havia ficado vermelho como um pimentão.

— A questão é, vocês fizeram aquilo, ou não?

— É claro que não! A gente sequer dormiu juntos uma vez!

— Eu não iria xingar vocês por causa disso, caso já tivesse acontecido, pois é normal jovens da idade de vocês acabarem se animando e passando um pouco do ponto. Ainda assim, é bom que a relação de vocês não esteja sendo mais apressada do que já foi. Dessa forma, eu posso falar para que você seja gentil e cuidadoso, pensando duas vezes antes de fazer qualquer coisa, com calma. Você não pode fazer somente o que quer, precisa respeitar sua parceira, como também criticar quanto ela passa do ponto, também… Vai por mim, isso é importante…

De certo modo, isso era algo que Jun realmente precisava ouvir, pois muitas vezes se via inseguro e não sabia o que fazer, ou que tipo de decisão podia tomar no seu relacionamento. Obviamente, ele sentia-se atraído por Rie e tinha desejos em relação a ela, contudo, não sabia como reagir perante a isso. Tinha hora que Jun se via internamente como um animal selvagem querendo sair do controle, ainda assim, conseguindo se conter.

A vontade de fazer coisas a mais era algo que, definitivamente, existia dentro dele, mesmo que tente segurar. Por mais que ache sua namorada extremamente linda, não queria ver ela apenas dessa forma.

Esse conselho que recebeu do seu pai, subitamente, sem que pedisse para ele, foi algo que sentiu ser necessário. Ele estava grato por isso. Agora possuía uma ideia melhor de como poderia seguir. Aliás, Jun definitivamente gostaria de fazer mais coisas com ela e desenvolver melhor esse laço que formaram, apesar de todas as inseguranças que têm no momento.

— Você não precisa se deixar levar pelas emoções e agir de forma imprudente. Pode acreditar em mim que, caso consiga deixar a cabeça em ordem e fazer tudo com calma, apenas deixando o tempo seguir normalmente, vai ser tudo melhor.

— Nossa… Até parece que você fala isso como se estivesse espionando tudo que eu faço…

— Bem, eu apenas estou me baseando pela minha própria experiência — Isamu dava risadas, como se estivesse recordando de algum acontecimento específico do passado.

Esse tipo de comentário chegava a ser bastante curioso para Jun, pois caso não pergunte nunca chega a ouvir de seu pai como foi a relação dele com a sua mãe, diretamente. Conforme o tempo passava, as memórias da sua infância, antes de sua família ser separada, se tornavam cada vez mais abstratas. Se recordava de momentos em específicos, ao invés do geral como um todo.

Ele, obviamente, possuía medo de esquecer daqueles instantes. Na atualidade até chega a parecer um sonho aquilo que viveu. O que uma vez teve, agora estava somente no passado, no entanto, portanto que consiga guardar essas lembranças consigo, imaginava que as coisas positivas que teve jamais iriam morrer. É o que ele queria acreditar.

De qualquer forma, agora era hora de fazer com que o seu futuro se torne tão, se não melhor, do que já foi aqueles momentos nostálgicos. Era o que iria fazer. Algo que tornaria realidade.

— Eu imagino que você não me chamou aqui pra receber conselhos amorosos, de todo o modo. Tem algo que você precisa de mim, estou enganado?

— Na verdade, é mais ou menos isso que eu queria de você, então não está totalmente errado. Eu queria perguntar para você como que faz aquela coisa chamada de união, você sabe como pai, certo?

— Então todo aquele meu discurso para deixar as coisas seguirem normalmente não serviu de nada pra você? — Isamu parecia drasticamente decepcionado.

Até chega a ser curioso ouvir esse tipo de coisa da parte do seu pai, pois na visão da sociedade (além de serem o novo tipo que os ameaça), são um casal atrasado. Na cultura dos Zeros, já era para eles terem tido filhos a no máximo três anos atrás, portanto ouvir de Isamu para seguir sua relação com calma, chega a ser fora do padrão. Jun até se pergunta se, caso fosse sua mão no lugar, a mensagem seria diferente? De todo o modo não tem como saber.

E também, essa não é a questão principal do momento.

— É porque eu…

Nesse instante, Jun olhou para Rie adormecida na cama. Ele sequer conseguia imaginar como deveria ser, caso estivesse no lugar dela, pois no estado em que sua namorada se encontrava, na melhor das situações ela ficaria em coma, e na pior deles, ela morreria. O garoto não conseguia aceitar isso… Não era justo alguém ser submetido a essa situação só por ser diferente de um outro tipo. Iria fazer o possível para que esse não seja o fim dela, apesar do preço que receberá. O importante era que os dois pudessem continuar vivendo um ao lado do outro.

— Não precisa dizer, eu já entendi. Isso é uma ideia que eu realmente não tinha pensado até então… Ainda assim, você tem noção que, caso faça uma união de aura com ela, vai perder o seu poder prateado atual? Tem o lado bom, é claro, pois continuará podendo usar as armas de One e ainda, terá um potencial maior do que já tem. Contudo, como será uma energia totalmente diferente dessa de agora, precisará reaprender o que já sabe para funcionar no novo tipo.

— Isso é algo que me confunde um pouco… Por que eu vou mudar e ela não, sendo que já ouvi mais uma vez que nossas auras são iguais?

— Sua mãe saberia dizer o nome disso, mas é porque você ainda não conseguiu despertar essa aptidão, diferente da Rie. Imagino que aquele evento que a fez ficar nessa situação tenha servido como gatilho para isso. Nós só não reparamos isso visualmente nela, pois o quando núcleo fica danificado do jeito que ela possui, faz com que a aura brilhe de forma incompleta, assim, dando a impressão de que ela é uma Zero normal.

Mesmo que Rie ainda aparente ser muito forte, o estado em que a garota se encontrava, definitivamente, a deixava enfraquecida. No entanto, a partir de agora parecia que ela iria ficar cada vez mais debilitada. Jun se preocupava quanto a esse quesito, qualquer coisa poderia ser fatal para ela caso acabe desmaiando só de tentar lutar.

— Mas, enfim, como fazer a união, certo? É bem simples pra falar a verdade… pode acontecer naturalmente conforme se tornam mais íntimos, ou vocês podem fazer de forma manual. É só fazerem qualquer tipo de contato físico, como dar as mãos e tentar juntar as energias. O mais comum é o casal tentar realizar isso durante um beijo.

— Durante a luta de hoje contra a besta, na escola, nossas auras começaram a se misturar, porém isso não chegou a acontecer até o fim… Teve até uma hora que eu consegui fazê-la acelerar junto de mim.

— Tem como criar vínculos simples entre as auras, permitindo que compartilhem elas, sem ter que se unir. Um tem que oferecer o poder, e o outro aceitar. Esse deve ter sido isso que aconteceu nessa batalha, mesmo assim, pode ser um sinal de que já estejam aptos para realizar esse pacto a qualquer hora, ou que simplesmente possa ocorrer naturalmente.

Eu lembro que naquela hora estava muito imenso com ela, como se estivéssemos em sincronia. Mesmo que tenhamos feito essa tal conexão básica, parecia que iria se desenvolver para algo maior. Ainda assim, acho bom que tenha dado errado na situação… Mal consigo imaginar o que poderia acontecer se um ficasse incapaz durante o embate contra uma besta.

— Pra mim, ainda seria melhor se sua mãe estivesse aqui para explicar isso. Além dela entender sobre esse tipo de poder, também seria bem provável que ela conseguiria curar a Rie, pois possuía um tipo de magia de cura que não vi ninguém mais ter, capaz de fazer um dano retornar a um estado anterior, ao invés de intensificar o fator de cura.

— E por que você nunca falou que existia algo assim antes?!

— Pois eu já tentei pesquisar se alguém a mais tinha o conhecimento disso e não achei nada sobre…

Com a atual informação que recebeu, Jun, obviamente, ficou extremamente interessado no assunto. Ele queria saber mais sobre, contudo, desistiu por hora de perguntar. A garota deitada na cama, repentinamente, começou a se mover.

— O que tá acontecendo aqui? — Rie perguntou, esfregando os olhos, de forma sonolenta e confusa.

Entretanto, a única coisa que Jun pôde fazer foi pular em cima dela e lhe dar um forte abraço. O alívio que ele sentiu nesse momento era impossível de se expressar em palavras. Estava tão feliz que ela havia levantado, que o restante ao redor se tornou algo fútil. Só queria sentir o calor de sua namorada que ainda estava viva.

— Que bom que você acordou…

 

* * *

 

Após o final das aulas, na base das forças de ataques, enquanto andavam casualmente pelo jardim de flores que tinha no local, Seiji tomava um refrigerante, enquanto Jun comia um cachorro-quente ao mesmo tempo em que conversavam. O amigo dele lhe contava sobre todos os inúmeros ocorridos que passou durante os últimos dias e agora falava sobre a descoberta de nova e excelente habilidade:

— Então, se você fizer dessa forma aqui, vai diminuir o gasto de energia e aumentar a velocidade de conjuração — E assim, Jun terminava a sua explicação sobre a nova magia elemental que aprendeu para Seji, fazendo raios com a mão livre.

— É um absurdo que você tenha aprendido isso em tão pouco tempo, mas, de qualquer forma, muito obrigado! Vai ajudar muito.

— Se eu descobrir uma forma de ficar mais forte, o mínimo que posso fazer é dizer, para que um amigo meu, também consiga — E o garoto de cabelos vermelhos termina sua fala sorrindo.

Seiji estava muito contente de ver que o seu irmão de consideração, agora parecia mais leve do que antes. Quanto eles se mudaram para essa cidade, ele parecia tão sobrecarregado com sentimentos trancafiados dentro de si que iria quebrar a qualquer momento. Era tão bom ver que aquele Jun mais alegre, quando criança, havia sido liberto mais uma vez.

Ainda assim, não é como se ele não tivesse deixado de enfrentar tantas coisas pesadas ao mesmo tempo. O Jun pode tentar se manter mais positivo, mas sua cabeça ainda deve estar num caos… Porém, de todo o modo, isso é algo nele que me motiva. Não posso deixar que esse idiota me deixe pra atrás, se não, como que vamos virar heróis juntos?!

Na atualidade podia parecer um sonho bobo de criança, contudo era a motivação que movia Seiji até então. Se tornar tão forte ao ponto de calar a boca de todos e provar que é capaz de salvar qualquer um. Isso, além de ser devido ao título que seus pais uma vez tiveram no passado, vinha daquela promessa na infância. Seriam poderosos o bastante para jamais deixar alguém morrer. Jun lutava para ser assim, mesmo que fosse para salvar a garota que amava.

— Bem, mas deixando isso de lado, tem algo que eu queria falar pra você — Ao dar a abocanhada final no seu lanche, essa última fala dele faz com que todo o clima ao redor mude drasticamente — Sobre tudo o que eu disse você naquele dia que fomos na caverna pegar os cristais… Me desculpa.

Em reação, a única coisa que o garoto de óculos e cabelo azul-escuro pode fazer foi deixar escapar uma gargalhada. Ele puxa Jun pela lateral do pescoço com o braço e começa a bagunçar a cabeça dele.

— Não tem motivo pra você se preocupar com esse tipo de coisa. Eu já te conheço há um tempo, então estou acostumado com suas rebeldias juvenis.

— Mas a gente tem a mesma idade! — exclamava Jun, inconformado, tentando se soltar descontroladamente.

E Seiji se divertia sem parar. Esse momento era como aquelas incontáveis tardes que iam treinar na beira da praia e fazer peripécias, mas diferente. Aqueles momentos em que eles voltavam para casa, exaustos, sujos e com os joelhos ralados ao ponto de receberem xingamentos da senhora Miyako, não iriam voltar mais. Agora não passava de uma memória muito importante.

A sua irmã já não estava mais entre eles, como aquele amigo precioso, também. Podiam estar distantes do lugar em que cresceram e separados daqueles que ainda sobraram, porém, portanto que continuem vivendo ao máximo, se certificando que nada foi em vão, estaria satisfeito.

— Sacanagem isso que você fez, francamente… — Jun, de cara emburrada, então soltou um forte suspiro.

Eles não podiam mudar o que uma vez aconteceu no passado, no entanto, eram capazes de fazer com que o futuro fosse cada vez melhor. Travam-se de momentos como esse, em que Seiji conseguia a sua motivação para seguir adiante. Aliás, não havia nada mais divertido do que ver seu amigo com o cabelo todo bagunçado e envergonhado, após caçoar com ele. Que pequenos instantes como esse possam continuar.

 

* * *

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