Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 3.5: Entre o ouro
— Vocês estão bem? — Retirando o capacete, a cavaleira perguntou isso para o casal caindo no solo. Ela possuía cabelos, olhos dourados e uma pele quase pálida que, em conjunto com a aparência, intensificava a impressão de imponência que exaltava.
Jun manteve-se em silêncio e apenas se concentrou em ajudar sua namorada a levantar junto com ele, estendendo sua mão. Toda essa simpatia que estava recebendo de Ones nesse dia era algo irritantemente estranho. Não fazia sentido esse tipo de gente que, até então, sempre tratou os que eram diferentes deles como meras ferramentas a serem descartadas num campo de batalha em que não participavam.
Esse é o tipo de armadura que um vice comandante usa e, até mesmo, o próprio. É um péssimo sinal ter alguém desse tipo aqui e, além do mais, faz a menor lógica. Por que ela finalizaria a besta? Qual é a razão dessa preocupação? Mesmo que os Ones agora tenham sido misturados com Zeros nessa escola, ainda não é uma justificativa para esse tipo de atitude.
Agarrando Rie pela cintura, o garoto acelerou, coletou as adagas caídas e se moveu para longe daquela mulher. Ele transforma o objeto numa espada e a aponta para a possível ameaça. Apesar de toda essa postura amigável que presenciava, não iria abaixar sua guarda. Acabou de ver alguém perder sua humanidade ao se tornar uma monstruosidade contra a própria vontade.
No passado, esse mesmo tipo de indivíduo fez o mesmo com a sua irmã de consideração. Não era de surpreender que eles pudessem chegar ao nível de fazer o mesmo com a própria raça.
— Calma garoto! Eu não quero fazer mal a vocês! — exclamou aquela pessoa, num susto, perante a situação momentânea.
Foi como se essa última fala que ecoou pelo local tivesse entrado por um ouvido e saído pelo outro. Jun apenas concentrou a energia na sua arma, ou pelo menos tentou. No exato instante que concentrou a aura, sua visão ficou turva. Ele começou a perder o equilíbrio. Seus olhos tentavam se fechar contra a própria vontade, e a cabeça simplesmente ficou em branco.
Na sequência, Jun perdeu a consciência. Para ele foi impossível deduzir por quanto tempo ele poderia ter ficado desacordado, mas não devia ter sido muito. Quando acordou, ele quase se afogou com um líquido meio amargo e meio doce na sua boca. Após tossir, conseguir engolir aquilo e enxergar o rosto de Rie bem diante dele.
— Meu Deus do céu, por favor, não me dê outro susto desses! — Rie o abraçou com força, antes que pudesse reagir. A voz dela parecia fanha.
— O que aconteceu? — Ele acaricia os cabelos brancos num ato instintivo de tentar acalmá-la.
Entretanto, contra a sua expectativa, a resposta que recebeu não veio da sua namorada:
— Você perdeu a consciência por alguns segundos devido ao cansaço causado pelo uso excessivo da aura. Mas agora não precisa se preocupar mais, eu entreguei duas poções para vocês. — Tratava-se da cavaleira de antes, demonstrando uma certa preocupação nas suas palavras.
Então isso é aquela coisa que eu engoli sem saber… Ainda assim, isso é muito esquisito… É inconcebível que alguém desse tipo aja assim conosco, Zeros!
— Me desculpa se acabei assustando vocês. Deve ter sido estranho ver uma pessoa como eu, ainda mais usando esse uniforme, prestando socorro — Ela caminha até eles e coloca a mão no peito, como se estivesse prestando algum tipo de reverência — Me chamo Noriko, sou uma das vices comandantes do exército do reino, mandada pela própria rainha para tomar conta dessa academia por causa da atual mistura de alunos.
Ou seja, foi a minha avó por parte de mãe que ordenou para que essa pessoa viesse para cá. Ainda assim, não faz sentido? Por que, justamente ela dentre todos, permitiria isso? A rainha dos Ones deveria ser aquela que menos toleraria essa junção, certo? As antepassadas dela não aceitariam uma atitude dessas… Será que é por causa da filha dela? Se bem que essa mulher, a tal da Yuriko Hirose, agora sabe que também possui netos… Porém é impossível imaginar que ela esteja querendo acabar com essa diferença só para ter a família por perto… deve ter algo a mais…
— Será que vocês, por gentileza, poderiam me dizer os seus nomes?
— Eu me chamo Jun Asano, e ela é Rie Koike. Acabamos de nos transferir para fazer parte da recém-criada elite.
Agora que ela tem a certeza de qual é a identidade deles não há mais escapatória.
* * *
Após o falso desespero anterior, Jun e Rie, agora com as energias levemente recuperadas graças às poções que receberam, ficaram responsáveis de ir até um professor relatar o corrido. Contudo, o garoto ainda continuava pensativo no momento. A causa era por diversos motivos, seja o questionamento se não estava exigindo demais de si mesmo, aliás, entrou instantaneamente só de ver aquela cavaleira, ou seja, por ter ouvido uma menção a respeito da rainha.
Essa figura soberana que ele desconhecia em aparência trata-se de sua avó, e era extremamente bizarro só de pensar nisso. Por mais que na teoria ele devesse pertencer a algum tipo de linhagem, na realidade, era apenas um plebeu, ou menos do que isso por ser um Zero. Jun é o filho da filha da líder suprema na qual foi deserdada, ou melhor, sentenciada à morte.
Entretanto, por hora, ele possuía preocupações maiores. Ao pararem na frente da do tal docente, se depararam com um nome que fez Rie congelar completamente.
— Não pode ser… — Ela estava com os olhos trêmulos. Na verdade, parecia que todo o corpo da garota havia entrado em um estado de alerta. Rie estava apavorada, sem sombra de dúvidas, como se estivesse prestes a cair de joelhos e vomitar.
E a razão de toda essa reação era por causa de um simples nome escrito na porta. Em um mísero instante, Jun já havia sacado toda a situação. No instinto, o garoto segurou a sua namorada pelos ombros e falou:
— Me espera lá do lado de fora, tá? Deixa que eu cuido disso — Ele fazia esse pedido com todas as suas forças. Perante a reação de puro pânico que brotou na face dela, Jun não poderia ficar parado. Não suportava vê-la assim. Portanto, de imediato, a única alternativa que viu nessa hora foi fazer que não encare o que estava adiante. Ela não parecia estar nem um pouco preparada, tanto fisicamente, quanto principalmente, mentalmente para isso.
Depois da garota se retirar de onde estava, como quem acabara de presenciar algo traumático, ele adentrou a porta. Bem, quanto a essa última parte, não era algo errado de se dizer, pois o nome que estava escrito era: “Kimiko Koike”.
Jun respirou fundo e então disse:
— Com licença. Vim relatar sobre o ataque da besta que ocorreu aqui no campus.
A primeira impressão que ele teve daquela mulher já dava para afirmar que não foi nada positiva. O cabelo preto de corte chanel se assemelhava com a inesperada irmã mais nova de Rie, porém mais longo. Até mesmo a cor dos olhos era quase idêntica aos da sua namorada. Contudo, o fato de estar usando um vestido decotado lhe passava um ar extremamente esnobe.
A própria figura por completo dessa pessoa exalava uma enorme arrogância, sem falar da expressão na face dela — alguém que olhava para ele de nariz empinado, como se estivesse perante a escória por si só. A única coisa que ele conseguia sentir ao olhar para aquela figura era nojo.
— Onde está a garota? — E obviamente a primeira coisa que ela vez foi dar falta na presença de Rie.
— Ela não tem a necessidade de ver você. E também, eu propriamente posso lhe passar as informações, vossa professora.
— Meça suas palavras quando for falar comigo.
— Tanto faz, vamos logo pro assunto…
A mulher demonstra uma face de repúdio em relação às últimas palavras de Jun. Por um segundo ele teve que se segurar para não rir. Contudo, apenas manteve a postura de quem não se importava e começou a sua descrição dos acontecimentos. Aliás, tratava-se de um caso inédito e assustador, pois um One repentinamente se tornou uma besta.
— De qualquer forma, essa situação o é pior do que imaginamos… — Ela dá um suspiro como quem estava de saco cheio. — Não é a primeira vez que tivemos relato de alunos que repentinamente começaram a agir de forma agressiva. Pelo que sabemos, até agora, tem circulado pelo campus uma droga capaz de intensificar a força do usuário, mas que acaba tendo esse efeito. Ainda assim, jamais imaginamos que poderia chegar ao ponto de transformar alguém em um monstro.
— Hmm… Então além de terem que fazer aulas juntos dos Zero por causa do baixo desempenho, também estão tendo que usar meios alternativos para conseguir mais poder… — pensava em voz alta, sem ligar que a pessoa a sua frente se tratava de uma One.
Por outro lado, chegava a ser triste. Até que ponto alguém poderia tentar chegar para parecer superior perante o outro? Estar acima de todos era mais importante que a própria vida? De todo o modo, quem era Jun para questionar isso… Ele, propriamente, não estava se importando com sigo para conseguir salvar a garota que ama. Esse era um ponto em que precisava melhorar urgentemente…
— Bem, deixando esse assunto de lado, devo dizer que estou decepcionada com essa tal elite. É lamentável que foi selecionado membros incapazes de lidar com uma simples ameaça, ao ponto de precisarem ser socorridos.
Era nesse sentido, quando falavam que as sogras eram insuportáveis? Bem, acho que esse não é o meu caso. Ela apenas deve ter ficado ofendidinha com o meu comentário… Ahhh, mas eu vou pôr fogo nessa fogueira…
Jun coloca a mão no queixo e encarou aquela figura com a cabeça inclinada, demonstra um rosto com dúvida enquanto dizia:
— Olha, eu não sei se prestar socorro é a melhor definição para o que aquela cavaleira fez, sabe? Ela apenas apareceu do nada e roubou o golpe final do inimigo que estávamos prestes a eliminar… Se bem que, para vocês Ones, esse tipo de atitude deve ser algo bem grandioso, mesmo. Realmente, não é à toa que aquela pessoa é uma vice comandante.
— Não está soando um pouco arrogante da sua parte, não acha? Que você está pensando que é moleque?
— Alguém mais forte que você, ao menos. Sabe? Com todo o respeito, mas uma professora que vem ao trabalho, vestida como se estivesse indo para uma festa, não passa nem uma imponência…
— Seu insolente!
Ué? Sua filha casula pode dizer isso e eu não? Cadê a lógica nisso?
Kimiko se moveu com hostilidade, na intenção de pegar algo ao lado de sua mesa. Entretanto, Jun apenas acelerou brevemente e voltou para posição anterior deixando-a procurando o nada.
— Por acaso, seria isso que você está procurando? — Ele estende a mão mostrando o pequeno objeto — Por sinal, essa é uma adaga muito bonita, seria uma pena se perdesse ela.
A mulher toma o seu pertence dele com brutalidade e demonstra uma face indignada. Jun dá um sorrisinho de canto e se virar de costas para ir embora. Ele, simplesmente, estava se divertindo horrores com a situação, porém estava na hora de parar, pois acabou passando dos limites.
Entretanto, no instante que tocou a maçaneta, ele escutou um pequeno barulho de estrondo. Ao olhar para a fonte do som se depara com um projétil de energia, semelhante aos que a Rie sabia fazer, mas mais precário. Sem demonstrar uma reação, ele apenas fecha seu punho naquilo e o destrói fazendo poucas partículas se espalharem.
— Não me leve a mal. Eu apenas esperava um pouco mais de profissionalismo vindo de você. Foi só uma crítica construtiva, senhorita professora.
Ele dá um sorriso, fecha a porta e então vai embora. Caminha durante alguns poucos segundos, chegando próximo a saída do edifício que estava e então para.
— Isso até que doeu um pouco…
Jun sacode enquanto deixa seu fator de cura acelerado agir. Ele já estava se arrependendo da atitude que acabara de tomar.
Pelo menos, eu espero que tenha conseguido atuar e ser o mais insuportável possível! As caras que fez foram, simplesmente, hilárias… Ah, deixa pra lá… Já tô vendo o problema que eu acabei de causar…
* * *
— Minha nossa, eu não acredito que você fez isso com ela — Rie andava alegremente segurando as mãos por trás das costas.
— Eu me deixei levar por impulsos mais uma vez, me desculpa. Não deu três segundos e já fiz sua mãe me odiar.
Sob o pôr do sol, o casal andava calmamente em direção a sua casa, ou pelo menos para aquele lugar improvisado que chamavam de lar. E para surpresa de Jun, Rie até estava levando tranquilamente a história do nada amigável, ocorrido entre o garoto e a pessoa que lhe abandonou, como ainda tentou matá-la.
— Bem, se caso tivéssemos nos apresentados como nós mesmos, ela já iria odiar você instantaneamente, de qualquer forma. E também, se eu ficar reclamando toda vez que fizer algo imprudente vai saturar rápido e muito.
— Mas aí… aí… Aí eu fiquei sem palavras. Dessa vez você me venceu, não tenho argumentos… — Jun tentava esconder o rosto envergonhado.
Rie, em reação, deixou escapar um riso e então agarrou no braço dele. Chegava até ser estranho ver que agora estavam tendo um momento calmo desses, depois de todas as loucuras que passaram nesse dia. Jun não via a hora de se atirar na cama e apagar de vez.
— Hoje aconteceu tantas coisas insanas que eu estou exausta. Depois de ver você fazer raios crescerem do chão, eu realmente só quero descansar a cabeça — Rie bocejava enquanto reclamava em tom de brincadeira.
— Como não é o elemento de verdade, mas a aura replicando as características, dá pra fazer esse tipo de coisa.
— Que bom que você encontrou um bom uso pra isso. Já no meu caso, as únicas coisas que consegui inventar foi usar a temperatura para aumentar a potência dos ataques e, também, fazer com que crie uma casca paralisante no inimigo.
— Isso daí já é muito bom, não sei o que você vê de ruim. E além disso, o limite do que você pode fazer é a criatividade. Eu só sou… um pouco hiperativo, então acabo inventando muitas coisas no improviso.
— Algo que é bem a sua cara mesmo — E a garota não para de soltar risadas nessa e tranquila e lenta caminhada de braços dados com seu namorado.
Entretanto, essa felicidade na qual parecia que duraria durante o trajeto todo, repentinamente foi interrompida. Rie parou de andar bruscamente fazendo Jun tomar um susto que só intensificou na sequência. Ela havia fechado os olhos com força e colocado a mão no peito como se estivesse tentando aguentar algum tipo de dor.
— Rie?! Tá tudo bem com você?! — Jun exclamou, porém de nada serviu sua preocupação. Quando os seus braços seguraram Rie para impedir que caísse no chão, percebeu que sua namorada havia perdido a consciência.
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