Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 3.4: Entre o ouro
No passado, durante o evento que trouxe a aura ao mundo, entre os seres vivos que adquiriram a capacidade de gerar essa energia e conviver entre a mesma, também ouve aquele cujo seus corpos rejeitaram a mesma e se mornaram bestas. E quanto a pessoa se transformarem nesse tipo de aberração, o consenso entre a humanidade foi que ocorreu durante esse período até sobrasse apenas aqueles que são compatíveis.
Entretanto, Rie já presenciou isso ocorrer com seus próprios olhos durante aquele certo dia. Um no qual foi decisivo para o restante da sua vida que iria ocorrer. De todo o modo, para que isso acontecesse, seria necessário que alguém mexesse diretamente no núcleo de aura do usuário, mudando sua estrutura e forma — pessoas com corpos incompatíveis com a energia já não existiam mais, portanto tornar-se um monstro sem a intervenção de alguém deveria ser impossível.
Ainda assim, o que ela presenciava nesse momento? Pelo que sabia, logo após ter o seu interior mutado, a pessoa já começaria a se transformar lentamente numa aberração. Até mesmo Jun, em que também presenciou esse tipo de fenômeno ocorrer, comentou que era um processo que iniciava no instante. No entanto, aquele garoto, não havia demonstrado isso para começo de conversa, mesmo parecendo estar alterado desde o princípio, aparentava estar sob o efeito de alguma droga ou bebida alcoólica.
Por enquanto, somente sua aura dourada havia se tornado em algo escuro com o contorno da cor original. Porém, se não estava se transformando num monstro, portanto, o que estava ocorrendo, de fato?
— Isso é péssimo… — Jun deixou escapar essa fala, enquanto observava a cena distante, através do rombo no prédio de vidro.
O garoto mordeu os lábios e então pulou de lá, indo em direção a possível ameaça. Rie tenta assegurá-lo, mas sua mão não consegue o tocar a tempo. Ela fecha os punhos, fecha os olhos, balança a cabeça e assim toma coragem para também saltar de lá.
— Ei! Espera! O que vocês pensam que vão fazer?! — Dando um grito com uma voz apavorada, Saya contestou a atitude deles. Entretanto, para Rie era óbvio que, na mente dessa garota, sequer passaria a probabilidade de ir enfrentar aquilo, aliás, era uma One.
O trabalho de enfrentar esse tipo de ameaça era desse casal de espadachins. Eles são Zeros, as armas da verdadeira e dourada humanidade, de todo o modo.
Usando a habilidade de dar arrancada com a aura, Rie foi aterrissando suavemente, sem tirar as mãos de sua saia para que não levantasse no vento. Ele utilizava uns shorts por baixo, obviamente, porém não gostava de mostrar, mesmo assim.
— Ei, Jun? Você sabe o que é isso?
— Eu não faço ideia, mas parece muito com a corrupção para se tornar uma besta…
As mãos de Jun tremiam e ele parecia suar frio. Na face dele estava estampado a expressão de alguém que acabara de presenciar um trauma — o que não estava errado. Tanto Rie, quanto ele, passaram por coisas terríveis envolvendo uma situação parecida com a que visualizaram agora. Ela, propriamente, queria colocar as mãos sobre a cabeça e sair correndo em fuga. Em contrapartida, foi exatamente o que os outros estudantes fizeram.
Quando ela, enfim, se tocou, só estavam os dois presentes nesse local, junto daquele indivíduo alterado. Se encontravam num dos jardins da escola, com calçadas de mármore, bancos, árvores e flores, feitos para as pessoas passarem seus tempos livres.
— Se esse cara, realmente, está se tornando um monstro, isso é diferente das outras vezes… Não era pra isso acontecer assim, no nada, né? — A angústia que tinha nessas últimas palavras de Jun, era algo que Rie conseguia sentir igualmente.
E mesmo que, bem no fundo de suas almas, eles torcessem para que estivessem enganados, a cena seguinte só confirmou seus anseios. Aquela figura, que antes demonstrava desprezo perante eles, agora suplicava por ajuda:
— Socorro! Alguém! Por favor! Por favor… me… eu… eu vou… eu vou… eu não… eu não, eu não, eu não, eu não, eu não, eu não, eu não… — A voz daquele One tornava-se cada vez mais distorcida.
A partir de um rasgo de energia que saia do corpo do garoto, uma casca preta começou a se formar e consumi-lo aos poucos. Lágrimas escorriam dos olhos daquele garoto. Ele estendia a mão. Implorava. Suplicava. Pedia. Desejava. Queria tanto ser ajudado. Entretanto, no ponto em que estava, já não havia mais ninguém nesse mundo que pudesse salvá-lo.
A única opção que restava era pedir pelo seu fim. Se apagado antes que perca a consciência e se torne uma aberração. Isso era extremamente triste e trágico — Rie sabia muito bem. Contudo, perante essa situação não existiam outras alternativas. Teriam que matá-lo.
— Não quero, não quero, não quero, não quero, não quero… não, não, não, não, não, não, eu quero! Eu não quero! não quero! não quero!!! — A camada sombria, enquanto preenchia o seu corpo, aos poucos entrava na sua boca, como se quisesse rasgá-lo de dentro para fora. — Eu… eu não quero… quero… quero… morrer… — E então, após ser tomado totalmente, calou-se para nunca mais falar.
Jun sacou a adaga da bainha e, num piscar de olhos, transformou o pequeno objeto numa espada e partiu em investida. Partículas azuis jorram do seu corpo e então, ele deu um passo para perder o equilíbrio e quase cair no chão.
— Jun! Jun! Está tudo bem com você?! Meu Deus, o que aconteceu?! — desesperada, Rie o segurou antes que atingisse o chão. Na face do namorado, havia um olhar vazio, como se tivesse perdido totalmente as energias, mas que se recuperou em instantes.
— Me desculpa… Acho que ultimamente, tenho usado a aceleração demais, ao ponto do meu corpo não conseguir aguentar mais… — comentou ao mesmo tempo que se levantava — Tá tudo bem comigo, eu só vou precisar descansar um pouco depois, só isso…
— Seu idiota! Eu já disse antes que você não precisava se esforçar tanto!
— E você quer que eu faça o quê?! Fique parado e veja a garota que eu amo morrer?! Eu preciso me fortalecer, quanto antes, para me certificar que isso não vá acontecer!!
— E quanto a mim?! Acha que eu também estou gostando de ver o garoto que amo se matar por minha causa?
Após essa última fala de Rie, os dois permaneceram em silêncio. Eles olharam na direção do One, ou pelo menos, do que restava dele. Aquela figura, com olhos vazios, em que eram preenchidos gradualmente pela escuridão, já não possuía mais um pingo sequer de vida nela. Apenas uma ânsia. Um desejo. Uma vontade. Uma fome repentina.
— Eu sei, me desculpa… Apenas confia em mim que vai ficar tudo bem, tá? Eu não pretendo morrer. Preciso estar vivo para ficar ao seu lado quando for te salvar.
— Tudo bem, eu vou acreditar — falou enquanto sacava sua adaga de um branco reluzente com o contorno prateado, que crescia na espada agora chamada de luar latejante — Mesmo assim, vamos dar um fim nisso, antes.
— É claro! Mas, dessa vez eu peço que pare de duvidar e acredite de verdade quando falo que você irá viver. E vou deixar claro mais uma vez que não é uma promessa, mas o que vou fazer.
Cortando o ar e deixando um rastro ocasionado pela pressão, Jun partiu em arrancada até aquele garoto. Nos dois havia uma clara tristeza e relutância, quanto ao ter que enfrentar aquele indivíduo, aliás, a culpa de estar se tornando um monstro não devia ser dele. No entanto, era o que eles precisavam fazer. Por mais doloroso que seja, seria a vida de um pela de vários que poderiam ser tomadas futuramente, caso se torne uma aberração.
Em um movimento horizontal, Jun tenta cortar aquilo, porém, no instante em que a espada está prestes a encostar no corpo do ser, ela é repelida por um forte impacto. Um dos braços da criatura havia tomado a forma de uma lâmina. Em reação, o garoto, com a aura de linhas poligonais, num movimento angular, rotaciona pelo inimigo e tenta golpeá-lo pelas costas.
Rie concentra a energia no seu sabre, fazendo o azul tomar um tom levemente mais claro, avança disparando inúmeros feixes de um frio extremo. Utilizando dessa magia elemental que aprendeu, ela poderia usar da temperatura para potencializar a força de seu poder, e assim fez. Cada um dos projéteis que acertavam a pele do monstro, a queimava intensamente, ao mesmo tempo que se espalhavam e o cobria em uma camada gélida, na qual paralisava seus membros.
— Jun, você realmente não tem jeito…
Após escutar aquilo que ele falou antes, agora se sentia mais motivada do que nunca. Foi como se todo o medo por enfrentar um inimigo que representa o trauma passado e a tristeza por não ter outra alternativa, além de eliminá-lo, fossem superados. Neste momento, não havia nada nesse mundo que pudesse a parar.
Brandindo suas espadas em conjunto, a dupla deu início a uma sequência de golpes. A besta, com corpo humanoide e duas navalhas no lugar dos braços, coberto por uma energia selvagem com contorno dourado, deformava seus membros para tentar retalhá-los. Entretanto, aquilo sequer tinha uma chance contra eles.
Em movimentos lineares precisos, Rie disparava estocadas carregadas de um poder que criava buracos, rombos e crateras no corpo daquilo. E Jun, traçava milhares de linhas poligonais por dentro do ser, o picotando e cortando sem parar. A criatura podia se regenerar o quanto quiser que eles não iriam parar.
Ela se agachou, perfurou as pernas e saltou por cima brandindo seu sabre, lançando infinitas navalhas giratórias de um brilho azul fosforescente. Ondas se propagam pelo ar enquanto cada um dos impactos faziam a terra tremer. Raspando sua lâmina contra a do monstro, faíscas são expelidas pelo ar. A pressão exercida pelo embate faz parecer que seus músculos irão rasgar. Contudo, num piscar de olhos, com um chute Jun arremessa aquilo para longe.
— Esse tipo de besta que consegue se recuperar, possui um núcleo sólido! Nós precisamos destruir isso para a eliminar de vez!
Ao ouvir o som da aura dele acelerar, Rie o observa avançar contra o alvo num dash. Indo de um lado para o outro, ele faz cortes nos quais deixam rastros que parecem rasgos na própria realidade. A velocidade era tanta, ao ponto de confundir a mente e levar a imaginar que havia vários deles, em todas as direções, dilacerando a besta ao mesmo tempo.
Movendo-se em zigue-zague ele continua a fatiar a criatura em pedaços, criando cortes com a energia no ar. Ele desacelera por um breve momento e usando uma arrancada para baixo, ele crava sua espada no solo, concentra aura e faz crescer raios do chão que perfuram o corpo do monstro, como uma bola de agulhas. Salta atravessando aquilo como um ciclone, partindo os relâmpagos em cacos e novamente volta a aterrissar, repetindo a ação na sequência. Como se estivesse quicando na superfície, o garoto desferiu impactos no oponente, formando uma cratera cada vez maior.
E ao finalizar, ele avança na direção da garota, deixando um tracejado azul a partir dos pés ao frear. Jun perde o equilíbrio e demonstra o olhar vazio de antes, mas se recupera em instantes, apoiando-se no cabo da arma.
— Minha nossa, Jun?! Você está bem?!
— Bastante cansado, mas ainda consciente, eu acho… — Ele respirava muito pesado e falava de forma ofegante — De todo o modo, não foi o suficiente, até agora. Portanto, eu vou precisar da sua ajuda — Jun estende sua mão para ela — Por favor, me empreste o seu poder!
Rie solta um suspiro e assim pega na mão dele, respondendo:
— Como todo o prazer!
Ele a puxa para perto e abraça a cintura da garota. Os dois apontam suas espadas para frente. Em meio aqueles pedaços sombrios que tentavam se juntar, um núcleo que parecia um amontoado de cristais afiados e irregulares podia ser avistado. E, em conjunto, a dupla canaliza suas energias. Rie sente uma corrente intensa percorrer dos seus pés à cabeça e a fluir incessantemente.
As duas lâminas emitem um brilho reluzente, e seus pés deixam de tocar o chão. Num dash rasgam a superfície, traçando uma linha reta em direção a ameaça. Nesse instante ela conseguia sentir o poder de Jun e oferecia o seu próprio em simultâneo. Era como se agora os dois fossem um só. Algo invencível que jamais poderia ser parado. As auras de tons de azuis diferentes atuavam como um dueto, agindo em sincronia uma com a outra, se tornando cada vez mais fortes ao ponto se estarem prestes a se unir em algo único, maior e imparável.
Entretanto, foram parados por uma repentina rajada que os impediram de continuar. Um clarão que os lançaram para atrás.
— Eu sinto muito a demora. Não queria deixar que os estudantes precisassem ter que lutar, mas espero que esteja tudo bem com vocês. — Uma voz desconhecida, difícil de distinguir no momento, falou.
Em meio ao som de metal das adagas que se debatiam contra o chão, Rie abriu os olhos após se recuperar do impacto. Jun havia a abraçado para protegê-la da queda, contudo ao se recuperar desse acontecimento súbito, se viu diante de algo surpreendente. Perante a eles, com uma lança cravada no coração distorcido da besta, se encontrava uma cavaleira.
A armadura dela se assemelhava com aquelas que, os insuportáveis soldados que tanto perseguem eles, na cor preta com detalhes dourados, porém com o padrão trocado. Tratava-se de alguém de uma posição acima daqueles que estavam acostumados a enfrentar com tanta facilidade. Entretanto, o detalhe que tornava tudo mais bizarro era que ela é uma One.
Por qual motivo, alguém dessa raça e de um ranking muito elevado estaria fazendo nesse lugar? E além do mais, se prestando a finalizar o monstro?
Os dois encararam aquela figura, na qual empenhava a presença de superioridade e elegância. Não sabiam se estavam cara a cara com um inimigo poderoso, em que seriam incapazes de enfrentar. Entretanto, levando em consideração a situação de desgaste que ambos se encontravam na hora, a única coisa que Rie e Jun puderam sentir foi o medo de uma ameaça iminente que andava até eles.
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