Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 2 – Arco 1: União

Capítulo 3.3: Entre o ouro

Desconfortável, essa é a palavra perfeita para descrever o clima atual. Os seis membros da elite, agora estão sentados juntos sobre uma das mesas do refeitório da academia. O intuito disso era servir como um momento para que todos consigam se entrosar melhor, pois mal conseguira apresentar seus nomes direito para começo de conversa. 

Como isso poderia ser resumido até o momento? Algo que fazia Rie sentir-se completamente sufocada perante essa situação.

— Nossa, o que foi aquilo?! Por um momento eu cheguei a imaginar que fossem destruir o colégio inteiro!

Demonstrando um ânimo esquisito, por se tratar de uma One — algo que não se espera de uma pessoa desse tipo ao se referir a um Zero —, a garota de cabelos laranja e rabo de cavalo alto, chamada Saya Seki, fazia uma série de comentário sobre a luta de Jun e Mikio. Até chegou a parecer uma criança animada com um novo tipo de descoberta, o que a princípio possa parecer bobo, porém, ainda assim, muito fofo. Até chegava a ser estranho que Rie conseguisse ter esse tipo de impressão vindo de alguém desse tipo dourado.

— Eu já ouvi falar que uma aura com um elemento raio podia ser usada para deixar o usuário mais rápido, mas a forma que você usou chega a ser surpreendente. Eu não sabia que era possível chegar num nível desses.

Mal ela sabe que o Jun pode acelerar e, talvez, sequer sabia a existência de uma habilidade como essa. Se ele usar isso em conjunto com a energia imbuída, consegue ampliar sua velocidade ao ponto de ser capaz de ultrapassar a barreira do som sem dificuldades. Ainda assim, por algum motivo, me parece que ele estava evitando usar demais a técnica e focando na magia elétrica…

— Chegou a ser mais assustador ver que essa carinha aí estava contendo também, o que me deixa com um pouco de vergonha. Por um momento eu pensei que estava indo me atacar com tudo naquela velocidade insana, mesmo assim o Jun decidiu frear de última hora e lançar aquela onda de choque.

Então não foi somente ela que estranhou o comportamento de Jun na batalha, Mikio também havia notado e, principalmente, se frustrado com isso. Não tem como alguém ficar contente ao perder um duelo e ser caçoado pelo oponente no mesmo instante, embora que de forma tosca. Ainda assim, ela tinha uma ideia do motivo pelo qual seu namorado estaria não querendo utilizar a aceleração, mesmo que tenha claramente precisado durante aquele embate.

Mesmo olhando agora, a mão dele ainda parece tremer um pouco, como se estivesse ansioso. Ele tem demonstrado isso desde que começamos aquele treinamento. É como se o corpo dele tivesse se acostumado a estar em alta velocidade e tendo dificuldade de voltar ao normal. Foi o quê? Uma semana inteira com ele tendo que usar isso quase o dia inteiro? Com certeza, o Jun notou que o uso excessivo disso está o fazendo mal.

Rie moveu lentamente seus dedos para tocá-lo, porém desistiu no meio. Uma súbita vergonha surgiu dentro dela. Provavelmente, por estar perante a presença de diversas pessoas que não era próxima, se sentia insegura de demonstrar intimidade com seu namorado. Ou a realidade era que ela apenas parou em reação a atitude fofa que ele fez no momento:

— Ei, não é pra tanto. Durante toda a luta eu passei com medo de acabar sendo massacrado e perder de forma avassaladora… — A voz de Jun sumia gradualmente.

— Olha só! Ele ficou todo tímido, ui, ui…

E lá foi ela se contradizendo completamente e indo provocar ele, sequer se importando se estava perante pessoas pouco conhecidas. O garoto, em reação, demonstrou uma face emburrada, e ela apenas encolheu os ombros e tapou a boca com a mão para prender o riso. Entretanto, mesmo atrasada, veio a tal vergonha por agir assim em público.

— Vocês são um casal, ou estou errada? — Saya fez essa pergunta para eles, enquanto os olhava com um rosto curioso — Sabe, como na maior parte do tempo se mantiveram próximos, por darem as mãos, pela forma que se olham e até mesmo por o Jun ter se preocupado que ninguém se sentasse no lado da Rie.

— Sim, nós somos.

— Sim, nós somos.

E os dois responderam à garota em simultâneo, fazendo com que ambos ficassem sem jeito na sequência. Rie se encolheu e ficou cabisbaixa na cadeira, enquanto milhares de coisas se passavam na sua mente, que entrou em um total pânico.

Meu Deus, ela é uma stalker, ou o quê? Não é possível que sejamos tão descarados assim! O Jun realmente pediu pra eu se sentar ao lado da janela e sequer imaginei que havia algo nisso. Ahhhhhhhhh! Eu vou explodir!!

Todos olhavam para ambos seja com uma face surpresa, ou levemente curiosa, exceto por Kaori. Talvez fosse por assunto envolver Jun, ainda mais levando em conta acontecimentos que tiverem em conjunto no passado, pois ela se mantém de cara fechara e até mesmo com expressão amarga em relação aos dois.

— Nossa, que legal! Só imagino o quanto devem se esforçar para conseguirem ser colocados na elite juntos. Estou curiosa para ver como a Rie é em combate, pois, com um marido capaz de fazer aquele tipo de exagero, só imagino fazendo algo parecido — disse Saya ao terminar de comer sua refeição e limpar a boca com um lenço.

— Então, saiba que perdi drasticamente para ela, na única vez que fizemos um tipo de duelo amistoso… — Por alguma razão, Jun falava isso com um certo orgulho — E, bem, nós ainda não somos casados.

Durante alguns segundos, Rie olhou para ele, confusa. Foi como se sua mente estivesse tendo dificuldade de processar o que acabara de ouvir, — talvez fosse porque estava desacreditada com aquela informação.

Ele disse ainda, não disse? Jun disse que ainda não éramos casados… Espera! Ele disse que ainda não éramos casados?! Ai meu Deus, como assim?! Eu não estou escutando coisas, não estou?! Isso não pode ser um pedido, né?! Tipo assim, do nada?! Ahhhhhh… Respira, por favor… Deve ser um mal-entendido meu, apenas! Ele não falaria algo assim, nesse tipo de situação, eu espero…

Em meio aquela pose estática que Rie havia travado, ela sacudiu a cabeça brevemente, respirou fundo e se recompôs. Com a sua cabeça, agora no lugar, ela então abriu sua boca na intenção de esclarecer melhor a situação, mal expressada por Jun, assim falando:

— Na realidade, só faz um pouco mais de um mês desde que a gente começou a namorar. Ainda não chegamos a esse ponto, mas quem sabe no futuro, né? — E ela não pode deixar escapar a chance de soltar uma indireta para o garoto e fazer com que ele ficasse sem jeito. Rie achava essa reação de Jun, simplesmente fofa demais. 

Contudo, mesmo que gostasse e até fantasiasse com a ideia de se casar, no momento, não gostaria de repensar nesse tipo de coisa. Desejava dar um passo de cada vez até que chegue a hora correta, sem apressar nada e aproveitar os instantes enquanto tudo desenrola normalmente. Apesar de gostar dessa forma intensa que tem vivido nos últimos dias, possuía a certeza de que Jun também queria que os acontecimentos seguissem dessa maneira.

— É que, bem, como soube que vocês, sabe? Zeros… costumam a se casarem e terem filhos já nessa idade… Fazerem a tal da união, também… Eu pensei que esse seria o caso de vocês também…

Também não precisa tocar nesse assunto, poxa...

A vida de Zeros é sempre um tiro no escuro em meio a uma maratona. No passado, logo ao completarem treze anos, já eram jogados diretamente no campo de batalha contra bestas menores, aumentando o nível conforme amadureciam. O dia a dia consiste em eliminar essas pragas quando são detectadas ao atravessar o domo, impedindo seu avanço para o interior da cidade.

Devido à barreira maciça que cobre o céu, gerada pela imensa torre logo atrás do castelo da rainha, no centro de tudo, a função principal é rastrear o que está ao redor e alertar quando algo entra. Embora haja a certeza de que, com o avanço da tecnologia, a presença desse domo já não seja mais necessária, uma nova torre que desempenhasse essa função sozinha poderia ser construída. No entanto, isso nunca foi feito.

Talvez seja porque os Ones querem continuar com essa imagem de lugar ideal para eles, onde nada hostil possa acontecer.

De qualquer forma, a vida de um Zero é essa: receber a informação de que uma besta foi detectada e ser enviado para enfrentá-la, de acordo com seu nível, em grupo ou não. Quase nunca há pausas; estão sempre nesse ciclo de ir para o campo de batalha, de onde podem não mais voltar. São raros os momentos em que interagem uns com os outros fora das lutas e, quando isso acontece, na maior parte das vezes é dentro delas. Momentos casuais e em família são poucos e preciosos.

Até mesmo as amizades e interesses românticos costumam se formar nas linhas de frente. Por esse motivo, a maioridade passou a ser vista aos quinze anos, quando as ameaças a serem enfrentadas ainda são leves e, portanto, o momento ideal para arranjar um parceiro e ter filhos.

Rie e Jun estavam atrasados quanto a essa situação. Era só uma questão de tempo até começarem a cobrá-los cada vez mais em relação a isso (supondo que ela não morresse devido à sua condição, claro). No presente, os Zeros ficam em escolas preparatórias até serem enviados para enfrentar os monstros de fato, e essa foi a situação dela, apesar de que a cultura ainda permanece — não era incomum ver outros estudantes casados e com filhos.

No caso de seu namorado, a situação já era outra, pois, no começo do próximo ano, haveria a festa que serviria como uma última prova antes de se formarem. Ele só teve um ano como aluno. A partir disso, viria o que chamavam de universidade, onde as aulas seriam práticas e exigiriam missões como atividades.

Entretanto, no caso do povo dourado, a situação era completamente diferente:

— Deve ser esquisito para vocês, Ones, não é? Aliás, vocês são obrigados a se casar com alguém que suas famílias escolhem, né? — disse Rie, tentando puxar com todas as forças alguma lembrança de quando vivia entre aquelas muralhas.

— Isso mesmo. E, por causa disso, realmente chega a ser frustrante ver vocês darem tanta importância a algo que, para nós, apenas possui função de status.

Ela imaginava que a situação deles era algo desse tipo. Para os Ones, seus relacionamentos eram quase sempre arranjos políticos, feitos para alcançar uma posição maior na sociedade. Rie aprendeu a lutar com esse objetivo e também tinha certeza de que iriam arranjar um noivo para ela, ainda com a intenção de subir no ranking. Chegava a ser triste ver pessoas que não se permitiam se apaixonar.

O valor de um One se baseava no quanto ele conseguia contribuir para sua própria sociedade ou, em outras palavras: no quão próximo estava da rainha. Nascer em uma família de baixo ranking significava ter menos recursos e, consequentemente, dividir a mesma escola com Zeros, aprendendo a vê-los como meros objetos devido à sua cultura. Assim, desenvolviam habilidades de luta e combate para subir nessa hierarquia, disputando entre si para ver quem era mais “único” do que o outro.

Enquanto um Zero marchava para uma batalha que eventualmente o levaria à morte, um One lutava para ganhar mais valor. Na realidade, a igualdade entre os Ones, além da cor de suas auras, se resumia apenas ao direito de não precisar perder sua vida contra a própria vontade.

De qualquer forma, no momento, Rie não iria mais refletir sobre essas questões, pois uma nova voz chamou sua atenção:

— Eu sei que pode ser interessante ficar debatendo nossas diferenças, mas tem algo nisso tudo que está me incomodando. Como quer que eu acredite que uma garota dessa, que fica se vestindo como se fosse ir pra uma festa, tenha a mesma força que aquele garoto? Me parece muito alguém que está tentando subir de posição às custas do namorado.

Foi quanto One restante, de cabelos curtos e olhos azuis chamada de Aiko, pela primeira vez decidiu falar com eles. Contudo, ela estranhamente aparenta demonstrar uma hostilidade e nojo que se focava totalmente em Rie.

— Então você é dessas que julga os outros pela aparência? — Jun em um tom frio e ameaçador, em reação ao comentário anterior. Aquela garota olhou para ele em deboche, na hora, porém, foi uma questão de instantes para que mudasse de feição drasticamente.

Jun manteve-se com uma expressão estática, como quem estava indignado perante o que acabara de presenciar. É claro que ele não iria tolerar um mínimo desaforo sequer vindo de um One. Uma pequena parte de Rie acha que essa atitude era um tanto demais, mas a outra estava igualmente furiosa. Ela não aceitava que alguém fizesse desfeita com sua aparência assim, sem mais nem menos.

— Ah, por favor, não levem a sério quando ela fala esse tipo de coisa — Saya puxou a outra e a abraçou, quebrando o clima desagradável e ainda fazendo a fonte do problema ficar envergonhada — Sabe, essa daí é quase uma princesinha, toda metódica e exigente quanto a maneira que deve se preocupar. Aliás, vem de família nobre e, por mais incrível que pareça, é a filha caçula do comandante do exército.

Saya deve ter proferido essas últimas palavras na inocência, sem pensar muito, no entanto ao ouvir isso Rie simplesmente travou. Deveria haver alguma contradição do que acabara de escutar, no entanto, após reorganizar todos os seus pensamentos, ela conseguiu ter certeza de que não havia entendido algo errado. Ela necessitava saber mais sobre isso, portanto, logo perguntou:

— Posso saber qual é o seu nome completo?

A garota de cabelos pretos virou a cara para o lado, emburrada, mas após alguns segundos, disse:

— Eu me chamo Aiko Koike.

 

* * *

 

— Por motivos de orgulho, ou qualquer outra coisa envolvendo o ego, a maioria dos professores dos Ones estavam se recusando a participar das aulas para os estudantes, pois não aceitavam ter que prestar seus serviços para pessoas de posição inferior à deles. Entre o nosso povo, a maioria que recebe a obrigação de serem guerreiros estão na posição baixa do ranking — Enquanto caminhavam pelos corredores, Saya soltava esses comentários de forma despretensiosa.

Rie sabia que os indivíduos desta raça não escolhiam o que queriam ser, desde os seus nascimentos, eram destinados a seguirem um propósito de forma absoluta. Contudo, a razão dela não conseguir se focar na conversa, não era porque já tinha conhecimento do assunto. Ela, simplesmente, não conseguia tirar aquela descoberta da cabeça.

Quer dizer que aquilo não foi invenção da minha cabeça? A tal irmã mais nova que tanto ouvi falar, então realmente existe? É totalmente possível que aquela garota possa ser, pois além de ter o mesmo sobrenome, mencionaram o comandante, que atualmente é o meu pai, sem falar que possui o cabelo e os olhos da mesma cor que a minha mãe tinha.

— E como consequência disso, começou a ser registrado um desempenho acadêmico parte drasticamente inferior aos dos Zeros, vindo da nossa. O que é um dos maiores motivos de vergonha para os nossos superiores. E foi assim que decidiram demitir os antigos professores e trazerem novos com a obrigação de atuarem nesta instituição, que se tornaria mista para se focar na performance total, ao invés de classes, por mais que alguns deles não concordem — A garota de cabelos laranja continuava a falar a respeito da situação atual. Ela via Rie e Jun como estudantes transferidos para fazer parte da elite, mesmo que isso fosse uma mentira.

E Rie continuava neurótica. Ela não conseguia tirar da cabeça que havia conhecido sua irmã mais nova, pela primeira vez, por mais absurdo que seja. Ela iria conviver com alguém da sua família biológica, sem que aquela pessoa saiba que elas na realidade são parentes. Era extremamente esquisito e assustador.

Entretanto, por hora, foi capaz de deixar essa bizarrice de lado, graças ao repentino tumulto. Um estudante estava ameaçando outro.

— O que foi que você disse seu merda?? Repete?! Quem você acha que é pra ficar esnobando alguém como eu, hein?!

Um garoto One de cabelos loiros agarrava um Zero pela gola do uniforme. A princípio era somente as duas raças conflitando nessa junção forçando, contudo, ele parecia alterado de alguma forma. Os olhos dele emitiam um brilho dourado esquisito que ficava mudando de tonalidade.

— Ei! O que você pensa que está fazendo?! Agressão contra outros estudantes não é tolerado nessa escola! — Exclamou Saya, longo tentando intervir com a situação lamentável que presenciava.

— É simplesmente vergonhoso que alguém como você esteja tenha que defender uma ralé dessas — Aquele garoto, então, jogou o outro contra o chão e se virou em direção para os membros da elite.

Antes que aquele indivíduo pudesse reagir, numa questão de instantes, Jun se moveu até a frente dele e então lhe deu um soco. O punho acertou a cara do indivíduo em cheio, com uma força avassaladora, fazendo uma intensa onda de ar de propagar pelo corredor, assim, o arremessando para longe ao ponto de atravessar a parede vidro do local com tudo. Cacos, junto de um estridente som de impacto, se espalham pela atmosfera.

— Com gente desse tipo não tem como dialogar além dessa forma — Jun balançava a sua mão enquanto falava sobre essa sua atitude como se não fosse nada demais.

— Mas o que você fez foi jogar ele pra fora do prédio?! — E Rie, obviamente, contestou o seu namorado.

— Ah, são só três andares. Qualquer usuário de aura médio consegue cair de uma altura dessa sem se machucar, tranquilamente.

Antes mesmo que ela pudesse o questionar mais uma vez, desistiu da ideia ao ouvir sons de gritos. Olhando através do rombo na parede, ela avistou aquele One levantado sobre a superfície que incrivelmente aparentava não ter sofrido um mínimo arranhão, o que confirmava a fala anterior de Jun, de fato.

No entanto, a fonte do desespero dos estudantes estava longe de ser o fato dele ter sido lançado de cima do edifício. Do corpo dele jorrava energia, mas uma que não era dourada e sim, de uma coloração completamente sombria.

 

* * *

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