Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 2 – Arco 1: União

Capítulo 3.2: Entre o ouro

Três figuras estavam presentes quando adentraram aquela sala. No centro, havia uma mesa razoavelmente grande em círculo, quanto no fundo um quadro negro que preenchia quase a parede inteira. E, como se tratava da academia que os dois não vinham a semanas, a parte que ficava para o lado exterior era feita totalmente de vidro.

Levantando-se da cadeira, uma garota de cabelos laranjas com um rabo de cavalo alto foi até eles e falou:

— É prazer conhecer vocês, eu me chamo Saya Seki — Ela falava sorridente.

Na primeira vista, essa foi uma atitude completamente contrária às expectativas de Jun, pois era estranho ver uma One agir de forma tão amigável. E como ele sabia disso? Por um motivo simples: o blazer preto com detalhes em dourados era quase a mesma que Mikio usava, mas no modelo feminino, no qual é um cropped. Caso contrário, ele não teria como saber, pois seus olhos ou cabelos não remetem à cor da energia, — uma característica comum de ocorrer, porém, longe de ser um padrão.

— Bem, como vocês podem ver, essa aqui é a Saya. Ela, graças sua performance, foi escolhida para fazer parte da elite como o restante de nós. — Mikio falava uma clara mentira, aliás, Jun e Rie foram escolhidos por ele. — Como a quantidade dos membros desse grupo precisam estar em igualdade, a One restante sentada lá no fundo é a Aiko, e quanto a Zero…

Jun não precisava que o outro completasse para saber quem era. Aquela garota com cabelos loiros e uma mecha amarrada ao lado por uma fita preta, olhos âmbar e que usava o uniforme em amarelo, se tratava de Kaori Ono. A irmã mais nova de Hiro, o amigo que Jun deixou que morresse no passado.

Por um instante, seus olhos ficaram trêmulos, porém logo se acalmou ao ver Rie assegurando sua mão. Ela sabia muito bem o que aconteceu com ele na outra cidade, uma vez que ouviu isso tanto dele quanto de Seiji, portanto, claramente percebeu quem era ela só de ouvir o nome. Rie, agora mostrava uma cara para Jun que, mesmo sem falar, conseguiu dizer que era para ele se acalmar. E assim fez.

A culpa pelo ocorrido ainda persiste dentro dele, contudo não estava querendo voltar a se lamentar por isso. Aliás, o que iria adiantar ficar triste agora? Por mais doloroso que seja, o inevitável ainda será aceitar a morte do amigo que se foi.

Ele e a garota loira se encaram por um instante em silêncio. Não ouve qualquer outra interação além dessa até que ela decidisse bufar e virar o rosto para o lado. Os três Ones obviamente não entenderam o motivo dessa atitude, contudo apenas decidiram relevar, pois Mikio logo na sequência disse:

— Esses dois aqui comigo são o Jun Asano e Rie Koike. — Uma certa presa estava presente na fala dele.

Talvez ele quisesse evitar o máximo possível de explicações quanto a nós estarmos aqui, como se nada tivesse ocorrido.

E em reação quase que imediata, casando um certa angústia em Jun, a garota de rabo de cavalo fala:

— Asano? Você tem o mesmo sobrenome do príncipe, isso é coincidência? — A princípio as palavras dela aparentam ser compostas apenas de curiosidade. Não há qualquer rancor ou hostilidade para o alívio do jovem.

— Ah, sim… Ele é meu irmão, ou algo assim…

— Ou algo assim? — Mikio murmura em tom quase inaudível, como se estivesse com essa fala presa na cabeça.

Ao observar, Jun nota que Rie e aquela garota chamada de Aiko se encaravam. No ponto de vista de sua namorada, ela aparenta apenas estar confusa perante a postura da outra; já essa daí tem uma hostilidade mais clara.

Conforme o tempo passa, esse clima desagradável vai se intensificando cada vez mais ente as pessoas nessa sala.

— Bem, eu gostaria que tivesse mais tempo para gente se conhecer, mas temos que ir para o ginásio logo. Precisamos nos apresentar para o restante da academia. — O garoto de olhos dourados comenta, claramente também incomodado com a situação.

O que Jun acabara de escutar era extremamente desanimador. Significava que ficariam num palco, ou algo do tipo, para que todos os vejam. Bem, se ele e Rie não tivesse se atrasado, graças ao ataque súbito de hormônios, talvez houvesse um momento a mais para se prepararem psicologicamente. Pelo menos, na parte dele, isso seria necessário.

E dessa forma, os seis membros divididos igualmente entre os dois tipos, da tal elite saíram daquela sala. Contudo, não teve como Jun não continuar de reparar na persistência da troca de olhares estranhos entre Rie e aquela One de cabelos pretos, na altura do queixo e olhos azuis, na qual se chamava Aiko conforme sua recordação.

— Aconteceu alguma coisa? — Ele se demonstrava confuso.

— Não, eu acho… — E até mesmo Rie parecia não entender o que foi aquilo.

Eles seguiram andando por mais alguns segundos num silêncio desconfortável, quando Mikio foi furtivamente até eles e fala baixinho:

— Eu quase me esqueço de dizer isso. Pelo que eu sei, não faz muitos dias, mas por causa dessa mistura entre os tipos de alunos, novas pessoas foram chamadas para serem professores aqui e… A Kimiko Koike é uma delas.

Nesse instante, quando Jun olhou na direção de Rie, ele se deparou com um rosto completamente aterrorizado.

 

* * *

 

Quando soube sobre a apresentação, um grande desânimo brotou em Jun. Aliás, estavam no exato centro do ginásio sendo observados pelo restante da instituição, ou pelo menos uma grande parte dela, na plateia ao redor. Contudo, não se tratava de somente ele que aparentava estar nervoso. Movendo-se discretamente e cabisbaixa, Rie segurou a sua mão com um dedo.

— A partir de agora esses serão os estudantes encarregados de supervisionar vocês, caso qualquer um tente quebrar as regras. E para fortificar essa junção, aqui temos membros divididos igualmente entre Zeros e Ones. Algo honorável…

Essa professora, decorou o que está falando no microfone. É um dos jeitos mais robóticos que ouvi alguém falar até então. Também, não é como se alguém estivesse levando isso a sério, de todo o modo… Pra qualquer um é impossível de se conviver com pessoa que desprezam você por ser quem nasceu.

No entanto, deixando esse discurso de lado — que mais parece um deboche —, Jun começou a se questionar quanto à escolha do local para essa apresentação. Estavam no centro de uma arena de duelos que, por alguma coincidência do destino, parecia ter sido preparada justamente para esse momento.

Eles vão colocar a gente pra lutar, com certeza. Fazer um duelo de apresentação ou algo assim…

— E para terminar esse evento, como também, demonstrar a força dos membros escolhidos a dedo, os garotos da elite farão um duelo!

Muito previsível, mesmo…

Jun ficou tão indignado com a obviedade dos acontecimentos que demorou para processar que os únicos garotos no grupo eram ele e Mikio. Antes de ir até a plateia, sua namorada olhou para ele como quem dizia: “eu sinto muito, mas não tem o que eu possa fazer”, só por sua feição o deixando com uma certa angústia no processo.

— Eu não quero ter que passar por isso… — Ele suspirou como uma mera tentativa para aliviar a sua ansiedade. E quanto finalmente aceitou a realidade, olhou para o indivíduo que na teoria é seu irmão de sangue.

É claro que a escolha de um duelo entre os dois foi algo planejado. Jun é aquele que quase dizimou por completo o exército dos Ones e deixou seu general gravemente ferido. Embora esteja satisfeito que toda a culpa caiu praticamente só para ele e Rie, por serem um tal de “novo tipo” que ameaça a existência da nação dourada, isso tornava a situação atual ainda mais complicada.

Os olharem de ambos os povos direcionados aos dois não era nada positivo. Enquanto para essas pessoa chiques são vistos como um perigo grave no qual deve ser eliminado o mais rápido possível para restaurar a soberania dos mesmos, para os oprimidos do cenário, eles são vistos como uma fonte capaz de trazer ainda mais problemas para eles.

Um mundo que não os aceitam de forma alguma, ou que querem os usar como um meio para tirar proveito.  Tal lugar onde não existe qualquer margem para que possa viver tranquilamente sem que queiram tirar tudo de si.

E é por isso que Jun tem o desejo de mudá-lo.

— Enfrentar você mais uma vez, até chegar a ser nostálgico. Ainda lembro como se fossem ontem, todas às vezes que acertava você com a espada de madeira e caia no chão, indo logo em seguida até a mamãe chorando. — Mikio solta esse comentário em tom de zombaria.

É quando Jun retorna a prestar atenção na sua volta.

— Então, como se sente indo enfrentar o irmão que nunca conseguiu vencer. Nervoso? — Mikio fala instigando sua tentativa de provocação, apensar de ter um leve tom de piada no meio.

Contudo, Jun não levou esses comentários na brincadeira. Já estava de saco cheio dessa situação. E conforme trocam olhares no aguado do início para começar o duelo, um pequeno domo de vidro começa a se formar ao redor deles delimitando o espaço da arena que lutariam a seguir.

— Com medo de um cãozinho que somente sabe latir? Eu tenho mais pena do que outra coisa, isso sim.

E agora foi a vez do garoto de cabelos cinzentos suspirar. Contudo, em contrapartida, Jun sacou sua nova adaga que gradualmente cresceu. Se tratava da mesma que pedia para fazer com a katana de Seiji, mas agora modificada para concentrar sua aura elemental.

Todo seu corpo é de um azul noturno quase preto, aparecendo muito com aquela que foi da sua mãe na qual o roubaram outra vez, mas numa versão própria para o seu estilo de pegada. Até mesmo o guarda mão era praticamente inexistente, pois estava presente no recorte na lâmina que ligava até o cabo, porém um pouco mais curta e fina em comparação a outra. Uma arma de dois gumes nascida da junção dos dois tipos que usou no decorrer, agora com o nome de lampejo estrelar.

— Bem, eu não pretendia pegar leve de qualquer forma…

Mikio ajustou a postura de batalha, e Jun o fez mesmo na sequência. O mundo se tornou silencioso por instante e então, ao sinal da voz no microfone, os dois investiram em direção ao outro.

Eu apenas preciso acertar um único ataque nele pra acabar com isso…

Durante o movimento, viu os olhos do irmão tornarem-se dourados. Jun respirou fundo e com as íris brilhando num prateado imbuído por uma cor predominantemente purpura, mas intercala entre tons de azul rapidamente como uma estática, então parte em arrancada. Um estrondo pode ser escutado e assim, com um relâmpago vindo dele, apareceu na frente do oponente. Os dois ficam caras a cara e Jun diz:

— Dessa vez, quem vai ir chorando até os braços da mãe será você.

Movendo seu braço em linear, com a lâmina traçando uma linha que fazia curvas poligonais, a ponta ia em direção ao peito do outro. A intenção era só encostar e não causar danos, portanto, os ataques aqui não podiam ser letais.

Entretanto, foi quando ele sentiu uma forte pressão o empurrar contra o alvo. E assim, Mikio notando a desestabilização de Jun, tentou o golpear, agora, com aquela misteriosa onda o puxando contra o garoto. Em reação, usando a energia na luva negra, ele conjura um feitiço de raio e fecha o punho para que se espalhe ao redor. Então, é repentinamente lançado para trás novamente.

Essa variação de força e pressão… Será que ele consegue utilizar magia gravitacional? É muito provável. Sendo assim, apenas preciso ser mais rápido que a potência que ele faz.

— Desse jeito, o máximo que você vai me fazer é rir — Mikio retruca com um sorriso.

Jun se mantém em silêncio e apenas tenta se concentrar. Ele sente um pequeno fluxo se formar dentro dele e circular em seu corpo. Sem esperar, Mikio concentra o poder dourado ao seu redor que gira em espiral. Todas as fitas de aura se acumulam num único ponto e são arremessadas por aquela pressão.

O garoto com o blazer escarlate, corta a primeira bola de energia com a lâmina e continua a avançar. Se depara com inúmeros daqueles projéteis metralhados em sua direção formando uma nuvem. Porém, aquele fluxo dentro de si não parava de acelerar, se tornava cada vez mais rápido e girava incessantemente.

Com sua silhueta deixando um rastro residual celeste para trás, ele pulou, cortou, rasgou, perfurou, girou seu corpo e em meio piruetas como um raio que se rebate em cada um daqueles pontos, novamente encarou seu adversário. A aura preencheu o contorno de sua espada e assim, fez um corte na horizontal.

Toda a energia se propaga pelo ar, e as duas lâminas chocam uma contra a outra. Raspam e fazem faíscas. O som das espadas ecoou pelo local, enquanto os dois se moviam com destreza e agilidade. Mikio investe com força, mas Jun pula para o lado, girando no ar e desferindo um golpe que é bloqueado com precisão. Em resposta, o outro salta para frente, dando uma série de ataques rápidos que são desviados um por um em sequência, freneticamente ao ponto do oponente mal conseguir processar os movimentos.

— Como assim?! — Mikio parecia espantado.

— O que foi? Aqueles longos dias de treinamento exclusivo com o nosso pai, não serviram de nada pra você?

Os dois continuaram a se movimentar num ritmo desenfreado, com suas espadas se encontrando em um embate absurdo de força e agilidade. Ambos demonstraram ser espadachins esplêndidos, e nenhum deles parecia estar ganhando vantagem sobre o outro.

— É impressionante o controle que você tem com a aura. Eu apenas consigo ver algumas partículas com essa coloração de estática serem expelidas. Chega a ser surreal que deixe tão pouco vazar.

— Quem deu a oportunidade para que treinasse foi você. Então, sinta-se culpado.

O que ele fazia não era nada mais do que concentrar o poder para reforçar seu corpo, mas sem desperdiçar energia. Algo que qualquer um consegue fazer, mas dessa forma ele intensificava a armadura invisível que criava ao redor do corpo. Para aprender feitiços, teve que aprimorar ainda mais essa técnica.

Então, aproveitando-se de Jun que se distraiu com a conversa, Mikio conseguiu uma abertura e desferiu um golpe rápido, que o outro bloqueou com dificuldade. Mas isso não foi suficiente, pois o garoto dourado usou aquela força para empurrar o irmão, fazendo-o tropeçar.

— Você continua igual quando éramos crianças, se desconcentra com qualquer coisa.

Jun morde os lábios, se recupera rapidamente e se ergue num pulo, dando uma sequência de golpes precisos que Mikio mal conseguiu bloquear. Mas ele continua. Jun acelera sem parar. A luta se torna ainda mais frenética, as espadas se cruzam com tamanha velocidade que se dificulta acompanhar.

Eu não aceito… Eu não aceito isso, é sempre assim! Mikio é sempre o centro das atenções, seja conseguindo a maior atenção do nosso pai para treinar quando criança, ou por ser mais elogiado pela mãe. Quanto eu? O irmão mais novo com dificuldade em tudo.

As partículas jorram do corpo de Jun com mais intensidade. Se não fosse por causa daquela magia gravitacional que empurrava seus ataques para trás já teria dado um fim nisso. Ele fecha os olhos e se concentra na sensação momentânea. E então, quando ele os abre, dá um grito e movendo sua espada em linear como lampejo de um estrela cadente, estraçalha aquela barreira invisível e avança.

Uma grande pressão se propaga por aquele pequeno domo. Mikio usa a pressão de seu poder e se arremessa para trás, assim conseguindo escapar por um triz. Ele se debate contra a parede, porém, logo se levanta e olha para Jun.

Eu preciso ser rápido. Muito rápido. Mas mais rápido do que nunca antes. Eu sei que sou capaz. Tenho um poder especial e que vou usar para nunca mais perder nada.

As linhas jorram de seu corpo. Elas se entrelaçam pelo seu braço. Começam a preencher a espada do cabo até a ponta. E giram num fluxo que acelera, tornando-se cada vez mais veloz. O objeto brilha exalando um feixe intenso. As fitas de energia vão até seus pés e de lá, brasas azuis começam a se formar. Jun olha em direção a Mikio, com suas íris, com um interior que iniciava a se tornar arroxeado, e identificavam numa luz reluzente.

Assim, rasgando o chão da arena num Dash, os dois vão ao encontro do embate final. Contudo, em meio a esses milésimos, tudo começa a se mover em câmera lenta.

E então tudo acelera.

Agora é como aquelas inúmeras vezes de antes, onde nós sempre estávamos correndo em direção ao outro. Seja naqueles duelos. Em brincadeiras ou em intrigas bobas que faziam ficarmos totalmente sujos de terra lama, fazendo recebermos uma bronca quando voltávamos. Porém, ainda recebíamos um abraço de nossa mãe e ouvíamos que ela nos amava.

O cenário do mundo ao redor se torna aquele do passado. Eles se transformam em suas versões antigas e ficam mudando entre cada uma delas. E continuam correndo, porém, agora sozinhos. Aliás, aquela que antes lhes trazia conforto e segurança anterior, já não estava mais entre eles.

E então a realidade retorna para o presente.

No instante em que os dois estavam prestes a se encarar, fazendo de movimentos extremamente rápidos e suave, Jun crava sua espada no chão. Uma onda de eletricidade se espalha ao redor e paralisa Mikio. Ele puxa o cabo e com um chute acerta a barriga do outro que cai no chão.

Uma onda de impacto potente se propaga e então, tudo desacelera e bem lentamente toca com a ponta da espada o peito do outro sutilmente.

Ele balança o objeto para todos os lados e se virar de costas. Joga o blazer para o alto e guarda o objeto que diminui gradualmente numa adaga na bainha, olhando para o irmão com o canto dos olhos e um sorriso, assim, dizendo:

— Muito lerdo…

 

* * *

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