Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 2 – Arco 1: União

Capítulo 3.1: Entre o ouro

Ela puxou a luva na mão esquerda com a outra e a ajeitou por debaixo da manga cuidadosamente. Fechou, abriu o punho e então esticou os dedos. Foi quando linhas de um azul safira preencheram o tecido preto cobrindo a palma tornando-se levemente mais claro e convergindo para fora, num feixe e assim jorrando um pequeno jato que em seguida se dissolveu no ar.

Na primeira vista parecia ser algo extremamente simples, de um material fino e pouco resistente que cobria a sua palpa, todavia o que Rie utilizava no momento se tratava de uma ferramenta feita para canalizar feitiços. Diferente de uma varinha na qual era utilizada com mais frequência isso tornava tudo mais prático, pois apenas precisava vestir, embora a precisão fosse um pouco menor.

— Bem, com isso se encerra o treinamento de vocês. — Chie balançava a vareta de metal que possuía um cabo com detalhes em espiral, na qual usou para exemplificar esses objetos que auxiliam para lançar feitiços. Até o momento, ela se mostrou extremamente capaz de usar qualquer tipo de magia com as mãos vazias, o que fazia Rie criar uma curiosidade quanto a sua amiga ter aquilo.

De todo o modo, agora ela estava extremamente preocupada se o seu visual ficaria feio ou não, apenas utilizando uma luva em uma das mãos, apesar de que essa era a menor de suas preocupações na atualidade. Ela vai fazer parte de uma tal elite — um nome muito esquisito para a função que realmente se trata —, algum tipo de conselho, ou grupo que irá supervisionar os estudantes para não ocorrer tragédias na junção das turmas de Zeros e Ones.

Tem a noção de que usará um uniforme diferente dos outros alunos para demonstrar que pertence a tal grupo. E só esse ideia cominava ainda mais na imaginação de como iria ficar.

Em compensação, alguém sequer parece se importar com isso… E, além do mais, o que ele está fazendo com aquela luva?

Rie demonstrou curiosidade perante a forma que Jun estava utilizando seu novo pertence, pois segundo as ações dele não estava apenas testando feitiços. Contudo, por hora, não pode ficar prestando atenção naquilo. Ela foi pega de surpresa por uma fala:

Jun, utilizando fazia aquela espiral de aura que tentava simular uma chama. O principal problema era que, as linhas prateadas estavam se rasgando e revelando uma energia de um ritmo feroz e desconta lado, ao mesmo tempo que muito intenso. Aquilo girava de forma frenética e às vezes chegava perto de se estabilizarem, porém sempre voltava para algo totalmente irregular.

— O que você tá fazendo, Jun? — Rie fez a pergunta enquanto se inclinava levemente para observar a palma do garoto.

— Até então, nada demais. Só estou testando a aceleração dupla usando esse meio. — A cara dele era de quem estava com um hiperfoco danado no que fazia.

— Desse jeito é seguro, não é mesmo?

Foi quando Rie se lembrou da imagem dele naquele dia, na base das forças de ataque, quanto usou dessa habilidade para conseguirem fugir da emboscada que receberam. Jun caiu contra o chão e começou a se contorcer de dor enquanto a sua aura não parava de jorrar descontroladamente, ao mesmo tempo que causava cortes na própria pele dele. Ela jamais queria o ver assim de novo.

— Com estou conjurando, ao invés de usar em mim mesmo, não tem como ser afetado de qualquer forma por descontrole ou acabar a energia.

— Mesmo assim, não vai se exigir demais nisso. Por mais que consiga resistir aos possíveis efeitos colaterais usando seu fator de cura, ainda é algo que vai te cansar muito rápido e deixar sem forças. — Rie apontava com uma mão para Jun, enquanto apoiava a outra na cintura. Ela fazia uma cara emburrada e biquinho.

A aura é uma energia que se tem uma certa quantidade para se usar durante o dia e depois acaba, está atrelada propriamente ao cansaço físico da pessoa. Por exemplo, acabar a magia seria o mesmo que o indivíduo ficar exausto. Sendo assim, em técnicas que ainda não foram aperfeiçoadas completamente ao nível de evitar qualquer desgaste, desmaiar por passar o limite é algo muito fatal ainda, pois pode acarretar do poder perder o controle e matar o mesmo de dentro para fora.

Mas deixando essa breve preocupação de lado…

Por hora a jovem de cabelos brancos iria parar um momento para analisar melhor essa peripécia que Jun estava tramando. Os dois possuem um mesmo tipo de aura, no qual se destaque por ter uma superfície reflexiva, porém que lembra mais a textura de um cristal do que algo metálico em comparação a dos Ones.

Conforme aquilo chegava perto de se estabilizar, o brilhos se tornava algo mais próximo com o de um joia. Um espectro de cores como a de um arco-íris cintilava sutilmente entre os reflexos, e no caso de Jun, por ser de cor prateada era como se a magia dele fosse propriamente a luz em seu estado mais puro.

— De qualquer forma, por que você está perdendo tempo com isso, logo agora?

— Pra te salvar. — Ele responde de forma rápida e direta. — Embora exista a consequência de ter o núcleo completamente estraçalhado se perder o controle disso, se conseguir ativar da forma correta, acontece o efeito contrário e todos os danos presentes são eliminados.

Em outras palavras, ele estava treinando para descobrir se conseguia dominar e, ao mesmo tempo, transformar essa habilidade fatal em algo usável e sem riscos para que assim uma cura seja criada para salvá-la... Só dele reafirmar que estava fazendo isso por causa dela, fazia Rie pensar o tanto que Jun estava à sua frente. Como usou a aceleração durante toda a prática, nesse curto dois dias de treino no final de semana, para ele pode ter valido como se fossem diversos dias.

Obviamente, algo que a preocupava de certo modo, uma vez que ele deve estar se sobrecarregando mentalmente para aprender mais rapidamente. Durante a última noite no esconderijo deles, houve um breve instante que ele aparentou que iria simplesmente desligar do nada.

— Ainda assim, toma cuidado, tá? — Ela não quer deixar que o garoto que ama, simplesmente acabe se matando em uma corrida sem fim prévio para tentar salvá-la.

— É claro que eu vou.

Eu realmente espero…

 

* * *

 

Rie engoliu o ar em seco e fechou os olhos por um segundo na tentativa de fugir da imagem que estava na sua frente. Podia ser apenas um reflexo, mas um no qual deseja querer apunhalá-la por causa de uma culpa fantasma. Em sua visão estava presente a sua versão de dez anos, usando aquele enjoado uniforme de batalhe e com um corte muito curto de cabelo, quase masculino.

Contudo, a realidade na qual a encarava era uma adolescente de dezoito anos, vestindo um uniforme chique e provocativo, destacando todos os seus traços femininos.

Se vestir melhor e mostrar a garota linda que é… Isso parece ser uma atitude forte à primeira vista, porém, eu acho que é algo que não consigo ter…

Usava um blazer cropped azul em que era extremamente curto, — só cobria os ombros, braços e uma parte das costas. O busto ficava exposto, assim mostrando o decote em V do vestido preto por cima de uma camisa branca com colarinho e laço borboleta. No restante, uma sapatilha preta com um pequeno salto e meias-calças por baixo, sem falar dos shorts escondidos por baixo da saia. 

Não havia diferenças drásticas do seu visual anterior, tirando que essas roupas agora eram capazes de concentrar a aura. Portanto, por mais que seu look seja algo, a princípio para deixá-la bonita (o que de fato era a intenção), agora poderia se tornar tão resistente quanto uma armadura, se não mais, só de consertar a energia.

Desde a promessa que fez quando era criança, deixou que Chie lhe ajudasse a se soltar mais quanto ao seu vestuário. De fato, no presente ela se mostrava de forma mais ousada em comparação com o passado. Entretanto, existia um detalhe a mais que impactava ela ao ponto de querer se esconder do mundo…

O seu cabelo se encontra na altura do peito. 

Era a primeira vez que Rie deixava crescer tanto. E sua imagem dessa forma lhe trazia um sentimento terrível, como se estivesse cometendo um dos maiores pecados. Sua aparência agora era o extremo oposto ao que sua mãe biológica considerava aceitável. Aquela mulher podia ser um nojo de pessoa — alguém que tentou matá-la ao descobrir o que era —, ainda assim, lá no fundo… bem no fundo, um desejo idiota de aprovação ainda persiste.

— Você tá muito linda assim — comentou Jun aparado em frente a porta do quarto dela, na qual deixara aberta.

— Muito obrigada! Mas, mesmo assim, eu não sei… Não consigo me sentir muito bem assim. Acho que quero voltar atrás.

— Aí, aí… — Ele dá um suspiro — Ninguém vai falar mal da sua aparência. E também, se falar, eu meto a porrada — Jun parecia convencido com o que dizia.

— Hmmm, eu não sei se agradeço ou fico preocupada com isso?

Foi quando ela se virou e avistou Jun também utilizando seu novo uniforme. A princípio não se diferenciava muito, — usava um colete social por cima de uma camiseta de gola alta, uma calça e sapatos, sendo todos da cor preta. Entretanto, a diferença estava no blazer que agora era vermelho. Infelizmente não estava com o cachecol, porém havia soltado seu cabelo, o que a deixou num êxtase instantâneo.

— Meu Deus! Você tá muito lindo! — Ela colocou ambas as mãos sobre a boca e observou ele com os olhos brilhando.

— Oh! Olha só, hein? O que foi que deu em você? — Respondeu o garoto em tom provocativo.

— Ué? Agora não dá mais pra elogiar, não?

— É claro que pode. Apenas foi uma surpresa você ser tão direta assim, já que normalmente fica mais atiçando do que realmente agindo em si.

— Ei! Não duvide de mim!

Nesse instante, Jun andou até ela e, como se fosse movida por um impulso além de sua razão, Rie pulou nele e o abraçou pelo pescoço. Ele a puxou para perto e envolveu seus braços em torno dela, assim, sentindo seu coração bater rápido contra o dele. Quando teve sua cintura abraçada com força, agarrou ele com mais intensidade e fechou seus olhos instantes antes de seus lábios se encontrarem em um beijo suave, mas que logo se intensificou. 

No fundo, a garota sentia como se estivesse cometendo um tabu por estar fazendo algo desse tipo. A culpa invisível causada por sua antiga vida, em que foi expulsa, ainda persiste nela como uma forma de maldição.

Ainda assim, apesar de toda a insegurança. Seja por seu visual. Seja por ter se submetido em uma relação dessa na situação em que se encontra. Por passar e desejar esperança a alguém. Essa pessoa que queria tanto não sair mais de perto. Mas iria deixar esse alguém sozinho eventualmente. Rie era uma garota terrível. Uma das mais egoístas e cruéis que existem.

Entretanto, tratava-se uma que queria tanto agarrar esse sentimento com tudo. Ao final daquele longo beijo, ela mal respirou e deu outro no seu namorado. E em reação, ele a puxou para mais perto de si ainda, e Rie apenas se ofereceu de corpo e alma mais ainda. Sentiu suas línguas se movendo juntas em meios a esses desejos intensos. Sua pele arrepiou quando ele mordeu suavemente o lábio inferior dela, provocando uma sensação de euforia que se espalhou por todo o seu corpo.

As mãos dele deslizavam e exploravam suavemente seu corpo, mas ele se controlava para não ir além dos limites, e ela se entregava completamente ao momento, sentindo-se amada e desejada. Não sabia se era por estar um pouco fragilizada segundos atrás, ou se era uma vontade que manteve trancafiada dentro de si até então. Apenas suplicava para que ele não saísse de seus braços. Agora e até mesmo nesse futuro incerto.

No momento, podia ser incapaz de compreender o que tinha em relação a esse garoto. Simples palavras não eram o bastante para expressar. Cada beijo parecia mais forte que o anterior, e ela se sentia como se estivesse flutuando em uma imensidão. Somente sabia que era algo que a fazia ficar muito feliz. Até então, tratava-se da primeira vez que presenciava de uma coisa como essa. Apesar do quanto amedrontador e tentador que seja, ao mesmo tempo, Rie iria se agarrar nisso até mais nada restar.

Se houver algum preço que terá que pagar por estar agindo como uma pecadora, ela estava pouco se importando. Aliás, o pior de todos já tinha mais do que garantido, e esse era a sua morte.

— Eu sei que deve se sentir insegura quando a sua aparência divido a tudo que aconteceu como você, mesmo assim, não é como se alguém fosse te criticar por isso. Vair ser mais provável que fiquem babando pela garota incrível que você é.

 O casal então se afasta levemente, deixando apenas suas testas se tocarem enquanto se encaram diretamente nos olhos.

— Se bem que… eu não quero que os outros fiquem olhando pra você. Só eu tenho esse direito. — Jun completa.

Rie apenas lhe devolveu um sorriso como resposta. Estava sem ar para poder falar. E de todo o modo, após ouvir aquilo de Jun estava mais animada do que nunca.

— Seu ciumento! — exclama Rie dando um beliscão no torso de Jun. No instante seguinte, ela escuta um grunhido hilário.

 

* * *

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