Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 2.5: Feita de cacos
Desde a chegada de Rie na família Ueno, três anos se passaram. No momento, fazia um pouco mais de um mês que completara treze — a idade necessária para ter que começar a ir para o campo de batalha. Entretanto, essa se tratava de uma realidade que, pelo menos nessa cidade, já se encontrava no passado.
A partir de agora, tanto ela quanto Chie iriam fazer parte de uma escola, de várias recém-inauguradas. Todas as crianças, ao fazerem dez, no presente passariam a ter que frequentar esse lugar, o que, considerando elas, tiveram muita sorte de se safar no último momento. Não iriam mais precisar arriscar suas vidas até que completem dezoito. E também, para aqueles que já estão servindo como armas sem terem se formado na academia, na atualidade, possuem o direito de deixar as batalhas até lá.
Mas nem tudo são flores, pois ouviu falar que existirão competições entre os estudantes, seja entre membros da mesma instituição, ou contra de outras. Esses eventos são chamados de “festa”, — algo que Rie não faz ideia do porquê de terem escolhido um nome assim. Fazia mais sentido serem nomeados como torneios, ou qualquer coisa do tipo. Porém, como foram os Ones que escolheram isso, ela não iria ficar se debatendo.
Pessoas que abandonam crianças por causa da cor de uma purpurina não devem bater bem da cabeça, de qualquer forma.
Quando ficou sabendo pela primeira vez a respeito dessa nomenclatura, foram pensamentos daquele tipo que se passaram na sua cabeça e persistem até então. Contudo, aliás, isso se tratava de outra coisa que ficou somente no passado. Na atualidade, foram criadas leis, sujeitas de acontecer uma guerra entre nações, caso os Zeros nascidos entre os Ones não sejam enviados para orfanatos devidamente no território dos mesmos.
E qual a razão de Rie recapitular todas essas informações na sua mente? A resposta para isso era simples: estava tentando ver se encontrava uma justificativa plausível na sua memória para ser capaz de conceber o que estava vendo.
— Por que você fez isso? Sempre esteve tão linda daquele jeito — Simplesmente, tudo nela indicava as características de alguém que via algo incrédula.
Chie se encontrava utilizando seu uniforme escolar, constituído de: um blazer, uma camisa e meias-calças da cor branca, com uma boina preta, uma laço e uma saia rosas. Até então, não existia nada de incomum nela, tirando o fato de ter cortado seu cabelo e deixado numa altura logo acima do ombro.
— Como você nunca está contente com sua aparência, decidi cortar para que, assim, consiga fazer com que você se sinta melhor consigo mesma.
— Se for assim, eu vou me sentir mal. Não gostaria que você tomasse esse tipo de atitude por minha causa.
— Ahhh, cala boca, sua chata… — Chie andou até a frente de Rie e empurrou o peito dela com a ponta do dedo — Eu fiz isso porque quis, então. Tá bom assim?
A garota estava começando a sentir seu espaço cada vez mais invadido. Aliás, a outra não parava de empurrá-la para trás. Daqui a pouco iria perder o equilíbrio.
— Mas fique sabendo, mesmo sem sermos irmãs de sangue, não quer dizer que eu não me importo com você, viu?! — Na cara de Chie estava uma expressão determinada, porém, que logo mudou para uma revoltada — E também, você deveria se valorizar mais, realmente. Seu corpo até está se desenvolvendo mais do que o meu e isso me dá inveja!
— Me desculpa…
— Sem desculpas! Engole isso.
Em todas às vezes Chie vencia Rie no argumento, até mesmo quando não existia um. Chegava a ser surpreendente como uma garota tão inteligente conseguia ser enérgica dessa forma, ao mesmo tempo. Na sua concepção, uma maga que fica estudando quase todo o momento como ela, até mesmo antes de dormir, ao ponto de acidentalmente fazer chover dentro do quarto e ter que ficar uma noite sem dormir limpando o lugar, deveria ser alguém contido e calmo. No entanto, essa daí era a agitação em pessoa.
Ainda assim, Rie admirava ela muito, por mais que se sentisse muito mal de não conseguir achá-la igualmente como uma irmã. Não tinha certeza se no futuro iria conseguir, pois o mesmo bloqueio no interior que a impedia de mudar muito seu visual, lutava com garras e dentes para ser incapaz de ver Chie da mesma forma.
— O que vocês duas já estão discutindo essa hora do dia? — Abrindo a porta do quarto das garotas, Naomi, a mãe delas, já foi entrando sem sequer pedir autorização e às dando um susto no processo. Ela estava utilizando as roupas das forças de ataque na cor verde água. Uma jaqueta de couro curta com uma saia que subia até a cintura, como um corpete, e longas botas que cobriam quase que a perna inteira.
— É que ela ficou muito fofa usando o uniforme! — abraçando Rie num pulo, a garota de cabelos rosas exclamou — Você não tinha visto ela assim?!
Uma mentira descarada, seja lá pelo motivo que for, no qual fez Chie ter vontade de agir assim. Rie ficou muito confusa, pois as únicas diferenças da sua vestimenta eram a saia e laço azuis, junto da sua meia-calça escura.
— Eu entendo o ânimo das duas, mas vejam de tomar cuidado no primeiro dia de vocês, viu?! Não vou poder acompanhá-las, pois me mandaram uma missão para fazer.
— Vai demorar muito? Quando você volta pra casa? — Rie estava muito preocupada quanto a isso, uma vez que, da última vez que ocorreu, sua mãe voltou toda machucada depois de uma semana inteira.
— Quando for a hora do jantar, eu já devo estar aqui de novo.
A mulher, então, andou até as duas, puxou elas para si e deu um forte abraço, terminando com um beijo na testa de cada uma. Ela demonstrou um sorriso caloroso e antes de andar até a porta e dizer:
— Eu amo vocês.
A felicidade que Rie possuía no momento não podia ser descrita em meras palavras. Independente de possuir um destino arriscado como uma Zero e, também, um tempo indeterminado e com limite de vida. Para ela, não existia algo melhor que esse cotidiano com sua nova família. Podia não conseguir chamar essas pessoas dessa forma, porém, as amava com muito carinho. Eram muito preciosos e importantes para ela.
E foi com aquelas palavras na cabeça que as garotas foram para o primeiro dia de aula delas. Aquilo tratou-se de uma experiência única e maravilhosa. Enquanto estavam admiradas com a arquitetura do lugar, com tudo o que falaram que iriam apreender a partir de agora, desse modo, descobrindo um novo mundo que nunca viram antes, as horas foram se passando. Quando menos perceberam, o céu já havia dado lugar à lua na hora que desceram o elevador para o subterrâneo onde ficava sua casa.
Entretanto, naquela noite, por mais que Rie e Chie aguardassem ansiosamente pela volta de sua mãe para contar as incríveis novidades, ninguém veio. Passaram a madrugada muito nervosas, até a manhã do outro dia, em que receberam a notícia de um homem que ao abrir a porta da loja do seu avô ferreiro.
No dia anterior, Naomi Ueno, acabou morrendo em combate.
* * *
Uma semana se passou desde que a mãe delas morreu. E, até então, Chie quase não falava mais. Até mesmo, começou a fazer seus estudos de magia com menos frequência. Foi como se todo aquele brilho e ânimo tivessem se esvaído por completo. Rie, jamais iria julgá-la, pois não sabia o que fazer e como deveria reagir perante essa perda e, no fundo, acreditava que chorar não iria adiantar de nada.
Tanto ela quanto sua amiga precisavam de tempo para pensar. Processarem a situação e se acalmar. E assim, por mais doloroso que possa ser, poderão superar a falta de Naomi e seguir em frente. De fato, podia ser extremamente doloroso saber que jamais poderia ver alguém novamente e ter que lidar com isso, porém, teria que ser feito uma hora ou outra. Mas que tudo aconteça no seu tempo.
No momento, estavam fazendo um teste de qualidade das armas de aura que o senhor Nobu forjou nos últimos tempos. Distrair a cabeça fazendo algo era uma forma efetiva de esquecer emoções ruins.
Rie ficava ativando aquelas adagas e vendo se transformar em espadas, sem parar. Fazendo aquelas lâminas brilharem em azul e brandiam para ver se tudo correspondia conforme o esperado. Até então, só teve um objeto que não conseguiu concentrar a energia de forma decente, entre o que pareciam ser milhares. Era um sinal de que aquele velho tratava-se de um ferreiro magnífico.
— O que você está fazendo, Rie? — Quando Nobu entrou na sala da loja, vestindo um avental de couro, ele fez uma expressão de espanto.
— Eu tô testando as espadas, como o senhor pediu…
— Mas essas daí são armas únicas!
— … O quê?
Esse tipo de ferramenta, na qual ele estava se referindo, tratava-se de algo que apenas os Ones podiam usar, pois eram feitas propriamente para o tipo de aura deles. Nisso estava o principal motivo de se acharem superiores aos Zeros, uma vez que essas coisas conseguem duplicar o poder do usuário.
— Você poderia, por favor, testar outra arma dessas?
— Claro…
A garota então pegou um pequeno objeto de ponta curva e concentrou seu poder nele, fazendo o corpo daquilo ser preenchido por linhas luminosas. Numa questão de instantes, aquilo se tornou numa grande katana com detalhes dourados. Ela olhava para aquilo bastante confusa, como se seu cérebro estivesse com um enorme delay para processar o que acabou de ocorrer.
— Isso é uma descoberta e tanto… — Ele falava pasmo — Eu preciso chamar um certo alguém que veja isso.
* * *
Perto da hora em que a loja costuma fechar, um homem entrou pela porta fazendo o sino balançar. Na primeira, por causa de todas as roupas serem pretas, em conjunto com um sobretudo longo, o fazia parecer completamente suspeito. Contudo, aquele cabelo da cor do sangue, levemente comprido, logo entregavam quem era. Os olhos de Rie até brilharam no momento em que o avistou.
— Andei ouvindo que você andou fazendo uma performance absurda no campo de batalha e, além disso, sozinho. Não vou ficar admirado se acabar se tornando alguém grandioso no futuro, soldado — Nobu falou com um forte sorriso, enquanto dava um aperto de mão naquele indivíduo.
— Não é pra tanto… Eu mal consigo me ver subindo de posição, imagina só me tornar alguém desse tipo. Chega a ser inacreditável.
Esse adulto tratava-se de Isamu Asano, um dos destaques das forças de ataque e, também, a pessoa que salvou Rie de ser comida pelo monstro há três anos. Por causa dele, ela conseguiu ficar em segurança e ter a oportunidade de ganhar um novo lar com essa família.
— Nossa, como você cresceu, Rie. Anda tudo bem com você? — Ele mostrava forte sorriso no rosto, ao mesmo tempo que dava tapinhas na cabeça dela.
— Sim… Tudo bem sim…
A resposta foi por pura educação, pois na realidade, a sua situação e das outras pessoas nessa casa não se encontravam da melhor forma. Aliás, Naomi havia morrido há poucos dias.
— Você poderia mostrar pra ele o que consegue fazer? Por favor?
— É claro!
Sem hesitar, Rie pegou a mesma katana com detalhes em dourado de antes e usou sua aura nela. Em poucos segundos, a adaga de ponta curva cresceu e se tornou aquela arma grandiosa.
— Agora eu entendi… Então ela é aquele tipo de indivíduo… — Isamu mostrou uma expressão séria e estranhamente melancólica
— Tem algum problema comigo?
— Não! Digo, é claro que não… é só que… — Ele respira fundo pra se recompor — Você é uma usuária de aura especial. Ao mesmo tempo que não é uma Zero, também não é uma One. Tem um nome pra isso, mesmo assim, eu não sei dizer… Se a minha esposa estivesse aqui, ela sabia explicar, pois tanto ela quanto meu filho nasceram com esse poder.
— Então você vai ter que chamar ela?
— Me desculpa, porém, infelizmente não tem como ela vir até aqui agora. Mas se está curiosa, acho que deve conhecer ela, pois no passado costumava a cantar músicas com o pseudônimo de Lily.
No mesmo segundo, os olhos de Rie brilharam em fascínio. Ela mal conseguia conter o ânimo e a curiosidade perante o que acabara de ouvir, pois se tratava da cantora que sempre admirou desde pequena, até mesmo quando precisava ouvir as canções escondidas.
— Eu sei sim! Eu escuto as músicas dela!
— Que legal! Fico feliz de ouvir isso — Isamu respondeu com um sorriso, ainda escondendo uma tristeza esquisita.
Foi quando o senhor Nobu fez uma pergunta que a deixou intrigada:
— De todo o modo, será que vamos ter que mandá-la para outra cidade, também?
— Não tem necessidade disso. E aliás, daria problema deixar dois jovens nessa idade, com o mesmo tipo de aura, juntos. Sem falar que é algo que me arrependo. Ainda nem começaram a construir as escolas lá, sendo assim, no presente o meu filho deve estar sendo enviado para o campo de batalha. Gostaria de trazê-lo de volta o quanto antes, mas está sendo muito difícil conseguir e, pelo jeito, vai levar um bom tempo… Só me resta rezar que fique tudo bem até lá.
— Fica calmo, eu te entendo…
Perante essa conversa, uma certa curiosidade despertou em Rie. Isamu disse que possuía um filho com o mesmo tipo de poder que o dela e que no presente estava indo lutar, ou seja, devia ter a mesma idade que a sua. Ela gostaria de conhecer alguém assim e, principalmente, a Lily, pois soube que é do mesmo tipo também.
* * *
— Ei? Ei? Ei, Chie? — Deitada sobre sua cama, apenas com a cabeça exposta, Rie ficava chamando a atenção de sua amiga sem parar.
— O que foi?! — E Chie, obviamente, se irritou no processo, levantando e jogando as cobertas para o alto em simultâneo.
— Tem algo que queria fazer, mas preciso da sua ajuda…
Sabia que não podia pedir por qualquer coisa no momento. Além disso, considerando o luto da irmã por lado de adoção — o que ela possuía também —, na qual era quem mais estava sofrendo por isso, tinha noção que poderia soar um tanto incessível. Entretanto, tratava-se de um desejo que a fazia querer estar disposta a correr esse risco de poder magoar a outra.
— Eu gostaria de cantar que nem aquelas pessoas na internet…
— E o que eu tenho a ver com isso?
— E que, como você sabe mexer em computadores, eu imaginei que poderia me ajudar a fazer instrumental. Acho que seria uma boa forma a gente se soltar e colocar tudo de ruim pra fora.
A garota, em reação, soltou um suspiro e balançou a cabeça como quem dizia: “é sério o que eu acabei de ouvir?”, assim, a fazendo querer se esconder embaixo das cobertas para esconder a vergonha. Contudo, a expressão Chie mudo drasticamente para sua surpresa. Ela soltou uma risada e falou:
— Tudo bem, acho que isso parece legal. Só que você vai ter que prometer que vai começar a se soltar mais, ok? Quero ver você se vestindo melhor e mostrando a garota linda que é!
— Eu prometo! Vou tentar…
Rie ficou muito contente que, enfim, pode ver sua amiga sorrir de novo. Ao mesmo tempo que teve uma motivação avassaladora. Estava muito incerta quanto ao seu futuro, porém, pelo menos nesse momento, possuía algo que queria fazer, junto de um potencial no qual, finalmente, poderia lhe fazer sentir-se viva de verdade.
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