Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 2.4: Feita de cacos
O que de fato ela é? Qual o valor de sua existência? Seria possível de Rie ser merecedora de algo nesse mundo? Ela tinha tantas culpas. Coisas que foi incapaz de concluir até o final. Sequer conseguiu prestar, ao ponto de se tornar um orgulho para os seus pais. Desde o seu nascimento, não passou de um erro; uma vida sem valor algum. Aliás, desde o princípio, mesmo vivendo sobre uma ilusão que a fazia imaginar ser o oposto, sempre foi uma Zero. Tratava-se de algo vazio e sem valor.
Portanto, como ela deveria se comportar perante essas pessoas?
A partir do princípio, foi criada com uma One nascida em uma das famílias mais nobres, com o propósito de ser uma guerreira para seguir com sua linhagem. Isso não era incomum, pois, mesmo que passassem o ar de igualdade absoluta, todos os indivíduos de aura dourada, eram mandados a seguir um propósito, sem chance de escolha. Sendo assim, ela foi alguém de se considerar privilegiada entre os privilegiados — uma posição que não se deu ao trabalho de pôr em sua cabeça a superioridade de uma raça inexistente. O foco era se tornar a melhor na tarefa que foi designada.
Então, chegamos ao ponto atual que, embora tudo tivesse a levado para ter um desprezo perante os Zeros, ela não tinha. Nunca entendeu o motivo disso. Por que eles não deveriam ser considerados humanos? Qual era essa de arma da humanidade? Desde que sua amiga morreu por ser alguém desse tipo, Rie entrou em conflito, pois a vivência que teve ao lado dela não se diferenciava de outros. Aí estava a razão de não ver sentido nisso.
E agora, após ser resgatada daquele incidente envolvendo monstros, há um mês, estava perante a nova família que a adotou. Possuía um sentimento estranho, como se não pertencesse a isso e dava vontade de fugir.
— Muito… Muito prazer… eu me chamo Rie… Rie Koike… — Ela permanecia cabisbaixa para não ter que encarar as pessoas por vergonha, até tendo dificuldade para falar.
Não sabia como funcionava o sistema de adoção nessa sociedade, mas seu nome e sobrenome foram mantidos os mesmos que teve desde o começo. Pelo visto, a única coisa que acontecia era ter um documento que confirmava a responsabilidade por sua guarda.
— Que rosto é esse, hein? Vem cá dar oi pra sua nova irmãzinha… — A mulher colocou as mãos sobre os joelhos, agachando-se levemente e chamou por uma menina que espiava de canto, com uma cara emburrada, atrás de um balcão.
Essa adulta, possuía um cabelo longo, na altura da barriga, de um rosa escuro querendo transacionar para o vermelho, e olhos de um púrpura muito forte. Usava um macacão jeans por cima de uma camiseta branca. Seu nome era Naomi Ueno, aquela que seria a mãe adotiva de Rie a partir de agora.
No início, era para ter sido enviada a um orfanato junto das outras crianças que foram sequestradas naquele dia, porém, como foi a última sobrevivente daquilo, primeiramente mandada ao hospital. Então, antes que pudessem encontrar um lugar para enviar a garota, essa pessoa ficou sabendo do seu caso e se ofereceu para assumir a guarda dela.
Pelo que Rie escutou, o marido dela morreu em uma luta contra aqueles mesmos monstros que viu, porém, em outra situação e lugar. Como o homem dessa mulher, também foi o caso de um Zero que nasceu entre os Ones, no qual se apaixonou por ele enquanto passava pelas dificuldades de ter sido abandonado por seus pais, ela quis ajudar a garota na mesma hora. Parecia que Naomi gostaria de tomar conta de alguém para que não passasse pelas mesmas coisas que a pessoa que amou precisou encarar.
— Oi, meu nome é Chie — A menina agiu de forma seca e agressiva, como se quisesse mostrar que esse lugar era o território dela. Ela possuía um cabelo de um rosa-claro, na altura do peito, e olhos da mesma cor.
— Ei! Cadê os modos que eu te dei — Franzindo os olhos, a mulher pegou nas bochechas da filha e as puxou.
Enquanto aquela cena cômica ocorria, porém, um pouco assustadora para a parte de Rie acontecia, um homem muito robusto foi até ela. Possui um cabelo preto que estava começando a se tornar grisalho e uma barba enorme. Ele se agachou e falou com a garota de olhos azuis, próxima à porta de entrada:
— Seja bem-vinda a família, eu me chamo Nobu. Não quero lhe apressar quanto a isso, mas, a partir de agora, serei seu avô — Esse senhor, agia de uma forma muito gentil.
— É… É um… Um prazer…
Por um breve instante ela olhou para o lugar em que se encontrava. Essa era uma casa de ferreiro, onde existiam inúmeras ferramentas que sequer sabia o que eram, ou ao menos tinha visto uma vez. Até ficava numa área abaixo da terra, com teto sustentado por pilastras, ao mesmo tempo que existia um grande cristal de luz no centro. Chegava a ser um pouco difícil de acreditar que viveria nesse lar, a partir de agora.
— Espero que tenha dado para apresentar vocês, nesse pouco tempo — Naomi andou até Rie e assegurou sua mão — Contudo, por hora, preciso levá-la ao hospital mais uma vez. Isso foi só uma passada rápida.
* * *
O ambiente todo mudou repentinamente. Foi como se tudo ficasse em preto e branco, exceto pelo azul do céu através das paredes de vidro da clínica. Na feição do médico, de óculos e cabelo raspado, estava presente um olhar de pena, direcionado para aquela que nem sabia direito o porquê de estar aqui.
— Isso é muito esquisito, pois, em todos os casos, há uma mudança visível na aura do usuário, como se ela não conseguisse brilhar de forma completa. Mas a dessa garota parece estar comum.
Naomi, sentada ao lado dela, observava tudo com as íris trêmulas. Entre essa falta de cor, Rie pode enxergar o púrpura nos olhos da mulher.
— Por mais que ela pareça estar em um estado perfeito de saúde, independente das causas que foram, o núcleo de aura dela acabou sofrendo um dano crônico.
A sua recém-mãe adotiva se levantou da cadeira em um susto. Entretanto, mesmo perante a essa atitude, o médico continuou falando:
— Há um ferimento, do tipo que se estenderá com o tempo. Ou seja, em alguns anos é quase certeza que ela…
No lugar, uma ansiedade desesperada tomou todos. O coração de Rie batia acelerado, mesmo sequer sabendo do que se tratava a situação. Em seu interior, apenas existia a mensagem de que, seja lá o que for, era algo terrível.
— Por sorte pode acabar num coma, mas, o provável é que morra.
E assim, perante a ilusão de uma nova vida melhor que a anterior pudesse se formar — Aliás, não tinha ninguém ditando a maneira de como deveria ser, se parecer, ou vestir —, foi rapidamente destruído. Tudo se partiu em milhares de cacos.
* * *
— Você não precisa ficar escondendo o seu choro — Apoiada com os dois braços sobre a cama, falou Chie, em um tom calmo e reconfortante.
Rie, agora estava no que seria seu novo quarto onde teria que dividir com essa garota, na qual era sua irmã de consideração agora. Possui duas camas ao centro, uma escrivaninha e guarda-roupa no lado de cada uma delas, assim, criando uma divisão para o que era de uma garota e da outra. O teto inclinado, de madeira, possuía uma grande janela para o lado de fora, mostrando um falso céu de pedra recheado de lindos cristais luminosos.
— Na verdade, não há nem um motivo para você chorar, pois vou ser aquela que vai conseguir criar uma cura para esse tipo de problema! — Parecia haver uma gigantesca convicção nas palavras da garota de cabelos rosas.
— Você não precisa se preocupar comigo…
— Não é por sua causa que eu digo isso, obviamente. Tenho um bom motivo para querer me tornar a melhor de todas, em qualquer tipo de feitiço, para conseguir fazer esse tipo de coisa.
Rie ficou sabendo que o falecido pai de Chie, tratava-se de um mago esplêndido, que conseguia utilizar qualquer tipo de magia, seja elemental ou não. Até a própria mãe dela e avô, para serem grandes ferreiros, necessitava de um alto conhecimento nesse assunto para conseguirem forjar ótimas armas de aura.
— Então, qual é o motivo? — Existia uma curiosidade sincera em Rie. No fundo ela sabia que Chie não estava dizendo aquilo de boca para fora, ou apenas como uma maneira de tentar animá-la, por mais que essa intenção estivesse junto. De fato, parecia ser algo que aquela garota realmente acreditava ser capaz de realizar. Tinha uma motivação evidente por trás disso tudo.
— Amanhã, eu quero que você venha comigo até um lugar, tudo bem?
— Sim…
— Ótimo! Então, tenha uma boa noite.
Ainda insegura, Rie então se cobriu e colocou a cabeça no travesseiro, porém, antes de tudo, observou Chie com o canto dos olhos. Ela não sabia por quanto tempo viveria desse jeito, ainda assim, até que estava gostando de certo modo. Nunca teve qualquer companhia antes de dormir. No presente, ainda estava distante a hora de seu fim, mas já se sentia como daquela vez — quando injetaram a seringa nela. Se aquilo não tivesse ocorrido, poderia apenas se preocupar em viver como uma garota normal.
Desde que passou a estar dentre os Zeros, começou a poder utilizar um vestido todo o dia sem ninguém reclamar. Até tinha vezes que a elogiavam por sua aparência, o que a fazia ter êxtases momentâneos de felicidade. Tudo o que ela sempre desejou poder ser, agora poderia. No entanto, ainda persistia nela um receio enorme quando a mudou sua aparência. Lá no interior, continuava a necessidade de uma aprovação de sua mãe; a verdadeira.
Portanto, qual seria a reação que teriam se a visse com um visual completamente oposto ao que tolerava para ela até então? Lhe faltava coragem para tentar encarar isso.
Acho que eu não quero que meu cabelo cresça… Jamais vou deixar que passe dos meus ombros…
Então, sendo submersa por pensamentos que a fizeram esquecer da trágica notícia que assolou seu último dia, Rie dormiu. Ela sonhou com sua antiga família, imaginando que todos estavam juntos e felizes, até acordar e esquecer completamente, deixando essa alegre ilusão para trás e se dissolvendo de vez.
— Acordem as duas! — exclamou Naomi, puxando as cortinas do quarto com força e destapando as garotas — O café tá na mesa.
A hesitação do dia anterior, ainda persistia em Rie que, durante todos os momentos, agiu com extrema cautela seja: para lavar o rosto, escovar os dentes, pentear o cabelo e até passar a manteiga no pão. Contudo, esse nervosismo que tentava isolar, alguma hora iria lhe prejudicar, e assim fez.
Sem querer, ela bateu com a ponta do cotovelo numa caneca, fazendo-a virar e derrubar o café em cima da mesa. O desespero que brotou nela, na hora a fez ficar paralisada. Estava com tanto medo que não se viu sem escolha além de pedir que:
— Por favor, me perdoem! — Ela abaixou a cabeça e fechou os dois olhos com muita força, ansiando pelo que pudesse ocorrer.
Entretanto, seja o que for, permaneceu normalmente, sem acontecer nada com ela.
— Tudo bem, não tem problema isso, pode se acalmar, é só limpar. Pode deixar que eu busco uma toalha pra enxugar.
Perante esse ocorrido, Rie não soube como reagir. Ela apenas achou tudo muito esquisito, desde a falta de reação negativa das pessoas, quanto a não receber nem um xingamento. Pelo que sabia, esse tipo de atitude era algo inaceitável. Uma nobre, jamais poderia cometer tal erro…
A questão era que ela não se tratava mais de uma nobre.
E com esse conflito na cabeça, chegou o momento em que a Chie lhe chamou para ir até o local que mencionara na última noite. Desse modo, deixando suas crises de lado por um momento e sendo guiada por um senso de curiosidade, Rie a seguiu. As duas caminharam juntas por esse subterrâneo, sustentado por pilastras de mármores e com cristais luminosos espalhados pelo céu de pedra.
Sem entender, as duas foram andando até um hospital, bem pequeno dessa vez, em comparação ao que foi antes. E, depois de alguns minutos de enrolação, as duas receberam a autorização para entrarem numa sala. Rie, instantaneamente, ficou muito nervosa.
— Essa aqui é a Ayane, a minha irmã mais nova…
Uma garotinha menor do que elas, com um cabelo do mesmo rosa que a Chie, mas cortado bem curtinho. Se encontrava numa cama, deitada e de olhos fechados com um soro sendo injetado no braço. Ela respirava suavemente, sem demonstrar sinais de que iria se mover a qualquer momento.
— Como você, a maninha teve seu núcleo de aura danificado, e isso aconteceu por ela ser um caso raro. Há um ano, quando ela possuía apenas cinco anos, acabou despertando seu poder…
No mesmo instante, uma enxurrada de informações foram jogadas na cabeça de Rie. Ela nunca havia imaginado que alguém poderia conseguir ser capaz de gerar essa energia numa idade mais jovem do que sempre escutou ser possível. Como também, a imagem de alguém, já no estado que ela poderia ficar no futuro.
— Por ela ser tão nova, seu corpo acabou não aguentando, o que a fez ficar nesse estado na mesma hora…
Rie, então, observou a expressão de Chie e, para sua surpresa, não estava nem um pouco melancólica. Na verdade, aquela garota parecia estar motivada.
— E é por isso que eu quero me tornar a maior maga de todas! Pois assim eu poderei fazer minha irmã acordar e todos os outros que forem ficar como ela.
* * *
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios