Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 2.3: Feita de cacos
Messes se passaram desde o incidente envolvendo Asami, ou melhor: envolvendo aquela coisa. Seria uma vergonha se retratar a uma Zero, minimamente de forma semelhante a uma pessoa. Aquela garota não passava de uma vergonha, um erro que sequer deveria ter existido para começo de conversa. Só o fato de terem a criado no lugar que nasceu durante aqueles anos já era uma razão para sentir vergonha.
E agora, em que Rie também estava na idade para despertar sua aura — algo que poderia ocorrer a qualquer instante —, ficava nervosa e ansiosa quanto ao que poderia ocorrer com ela. No entanto, deviam ser apenas delírios causados por uma mente abalada. Tudo ocorria da forma mais agradável possível.
Essa foi a explicação que Rie recebeu de sua mãe após o término daquilo. No fundo era para ela ter sentido desprezo perante a isso, porém, a única coisa que teve foi confusão. Então, significava que todos aqueles momentos que brincaram, conversaram e, até mesmo quando sua amiga tentava lhe botar para cima por se sentir triste ao ser ignorada pelos outros, não era algo verdadeiro? Aliás, aquele indivíduo, desde o princípio, não teve valor algum.
Rie não concordava em odiar aquele ser só devido ao poder, aliás, os momentos, mesmo que poucos, em que passaram juntas foram preciosos para ela. Fazer algo assim não soava, um tanto… cruel?
Então, seria isso aproveitar os momentos ao lado de quem ama?
O conceito de amar, para ela, ainda se tratava de uma bagunça, contudo, agora conseguia ver que partia de algo mais vasto do que apenas se apaixonar por alguém. Existia mais de uma forma de ter amor, quanto tipos diferentes do mesmo, e isso já começava a embaralhar sua cabeça só de imaginar. Queria perguntar para Ayane com que sentido ela quis lhe dizer aquelas palavras.
No entanto, no último mês, Ayane foi encontrada morta em seu quarto.
Os motivos da causa do falecimento da garota foram óbvios. Como não aceitou o assassinato da irmã que era muito apegada, tentou ir contra a própria família e linhagem, ocasionando em rejeição da mesma. Portanto, como não conseguiu encarar essa realidade e injustiça, foi morta. E nessa sociedade pacífica, ninguém mais além dela mesma poderia tomar essa atitude.
De qualquer forma, Rie mal conseguia conceber esses fatos. Para ela chegava ser bizarro só de pensar que jamais poderia ver ou falar com alguém. O que restou dessas duas amigas foi somente uma memória que seria rapidamente esquecida, pois na visão das pessoas nesse meio em que vive (autodenominados Ones), não passavam da mais pura miséria. Uma vergonha completa.
Mas, por hora, se concentraria em continuar sua performance no treino. Sua habilidade em dominar as técnicas de esgrima estavam cada vez mais precisas. Já tinha aprendido todos os movimentos e agora, só lhe restava masterizá-los.
— Muito bem, continue assim… — Independente do tom frio e pouco emotivo na fala, esse era um sinal raro, pois significava que sua mãe estava muito orgulhosa com o que via ela realizando no momento.
Contudo, além dela, também estava presente o seu irmão no dojo, no qual havia conseguido um dia livre para passar com a família. Na primeira vista, novamente pensou que ele se tratava de um estranho, pois nunca teve a oportunidade de ficar próxima a ele, portanto, não tinha o rosto muito bem gravado em sua memória. Se não fosse pela falta do pai e a tal irmã que questionava a existência, todos estariam presentes nesse momento, porém, no caso desse indivíduo, ela só havia visto por fotos e uma vez de relance. Caso ficasse cara a cara com o homem, provavelmente, jamais lhe passaria a probabilidade de ser algo dela.
Sendo assim, a garota de cabelos brancos se sentia mais motivada do que nunca antes. Ela, definitivamente, tentaria dar o seu máximo. No presente, enfim, tudo estava indo muito bem com Rie, por mais que grandes tristezas tenham ocorrido à sua volta. Pela primeira vez, estava conseguindo demonstrar que prestava para algo.
Entretanto, foi justamente no último ataque de uma sequência de golpes que algo ocorreu. Uma luz que fez seu mundo paralisar. O coração de Rie parou por um instante. Foi como se correntes gélidas a prendessem por completo. Aquele brilho em que saiu dela não era dourado…
Mas de um azul safira muito forte.
Lentamente, utilizando os poucos resquícios de coragem que lhe restavam, Rie virou seu rosto lentamente em direção a mãe. O olhar da mulher era uma mistura de, nojo, raiva, decepção e também… tristeza? No entanto, sequer pode processar isso direito, pois, quando se tocou, aquela figura já estava andando com uma espada em sua direção.
— Você, realmente, nunca prestou para nada…
Uma lâmina com um contorno reluzente em dourado, então moveu-se em linear até a garota. Nessa fração de segundos, tantas coisas passaram por sua mente. Ela queria pedir desculpas. Misericórdia. Implorar por sua vida. Contudo, é claro que uma mãe jamais sentiria compaixão por uma filha que, para começo de conversa, sequer poderia ser chamada de humana.
Por um instinto de sobrevivência, Rie moveu seu insignificante sabre de ferro contra aquela arma mágica. O metal ao entrar em contato com a luz de ouro foi amassado fazendo um buraco no fio. Ainda assim, lhe restava a ponta daquilo. E desse modo, jogando seu corpo para frente, a garota perfurou o ombro da própria mãe.
Gostas de sangue pingaram, uma por uma, espalhando o líquido pela superfície. Perante a expressão apavorada e horrorizada da criança, a mulher demonstrou uma vontade assassina. Por um momento, Rie quis gritar, mas se conteve. No fundo, de alguma forma já existia esse pressentimento. Mesmo sem ter um motivo, sabia que esse sempre foi o seu destino. Ser morta contra a própria vontade.
Apenas lhe restava aceitar a realidade. Portanto, somente fechou seus olhos com força e começou a esperar pelo seu trágico fim.
Porém, nada aconteceu…
— Você não tem o direito de tirar a vida disso… — Assegurando a espada da mãe com a palma da mão, falou Kentaro, seu irmão mais velho, sem se importar com o vermelho que escorria — Vamos seguir a lei e mandar isso para um orfanato. Não faz sentido descartar armas tão escassas.
E mesmo a protegendo, ele sequer se referiu a Rie pelo nome, ou simplesmente como sua irmã. Perante a essas palavras, ela recebeu um choque. Tudo pode ter ocorrido em poucos instantes, no entanto, foi o suficiente para que sua vida mudasse de cabeça para baixo, apenas a fazendo pensar:
Será que apenas uma vez… uma qualquer… alguém, realmente me amou? Eu estava, mesmo vivendo?
Essa se tratava de uma pergunta que jamais seria respondida, pois, no momento seguinte, a garota foi acertada por uma rajada muito forte. E assim, tudo se tornou escuro.
* * *
Quando ela recuperou a consciência, se encontrou em um lugar no qual nunca havia visto antes. Uma sala que se assemelhava muito a de um hospital, mas não possuía janelas. Estava deitada numa cama com a barriga voltada para cima e, por mais que tentasse se movimentar, não conseguia. Seus braços e pés estavam amarrados.
Ela tenta gritar por ajuda e é quando se toca de há um pano em sua boca a impedindo. Contudo, esse pequeno rebuliço é o suficiente para chamar a atenção de algumas poucas pessoas que estavam no local.
— Uma das espécimes acordou…
— Tudo bem, não vai fazer diferença como vão estar…
Essa conversa foi o suficiente para deixar Rie extremamente confusa. Ela se lembrava claramente que, antes de cair no sono, seu irmão falou sobre mandá-la para um orfanato. No entanto, isso aqui estava mais para um laboratório do que outra coisa.
Com o canto dos olhos, ela observou melhor ao redor e, da mesma forma que estava, também tinha outras crianças. Todas amarradas sob uma cama. E assim, Rie se desesperou e começou a se debater na tentativa de escapar daquilo, porém, nada adiantava. Com sua simples força física seria incapaz de rasgar as cintas de couro em seus membros.
Foi quando ela escutou um grito e rapidamente olhou para o lado. Uma das crianças, enquanto um desses homens injetava algo no peito dela com uma seringa, passou a se contorcer. Em meio aquilo, uma energia verde sai dela, desse modo, fazendo Rie se tocar de que todos aqui, exceto os adultos, não deveriam ser Ones. E, como agora ela sabia que se tratava de uma Zero, imaginou que fosse enviada para esse lugar pelo mesmo motivo.
Ela e os outros haviam sido raptados? Não parecia ter outra explicação, pois, como havia escutado antes, devia ter sido mandada para um lugar onde fossem tomar conta de indivíduos do tipo que são. De todo o modo, seria incapaz de chegar a uma conclusão.
Agora estavam indo até ela com aquela seringa.
A garota tentou reagir. Se debater. Fazer força para escapar. Rezar que acontecesse um milagre qualquer. Entretanto, apenas teve seu peito perfurado por aquela agulha.
No começo, teve uma dor insuportável a ser perfurada por aquele ferro. Mas foi quando sentiu, algo começar a rasgar seu corpo, do centro para adiante, bem lentamente. Era como se estivesse sendo fatiada por milhares de navalhas em simultâneo, nas quais não possuíam presa para a cortar de vez. Era insuportável. Agoniante. Desesperante. Horroroso. Rie não conseguia respirar. Não adiantava o quanto tentasse, pois parecia que algo entrava por sua garganta e tentava a triturar por dentro.
É quando ela avista um garotinho ao seu lado. No interior do peito dele, vazava a energia que se tornava cada vez mais escura. Ao redor da pele dele, uma casca preta se formava e começava a tomar as partes do corpo em que a carne descascava. E entre os poucos cacos de aura expelidos, de uma coloração totalmente sombria, rombos eram feitos.
Lágrimas escorreram de seus olhos. A dor que a tomava era tanto que, ao menos, conseguia raciocinar direito. Cada parte sua, a partir do interior, pareciam ser arrancadas à força, repetidas e repetidas vezes, a um ponto que dava a imaginar seus ossos ficando expostos em breve. A vontade de gritar, já não existia mais. Apenas uma camada preta e apodrecia que a preenchia de pouco em pouco. O que Rie conhecia como si própria estava deixando de existir. Perdendo a vida. Se tornando algo tenebroso que a amedrontava.
E assim, repentinamente, deixou de sentir qualquer coisa.
Numa explosão, cristais de um azul muito forte, cobriram ela por completo e então se partiram eliminando todas as trevas que tentava lhe dominar. Somente restando milhares linhas de energia que a rodava em uma espiral, da mesma cor, porém que pareciam refletir todo o mundo ao redor que nem aquele dourado em sua memória, mas que se desvaneceram em pequenas partículas até mais nada sobrar.
* * *
No exato instante em que Rie voltou a pensar, foi normalmente recebida por um forte impacto que arremessou junto da cama em que estava. Após se recuperar da tontura causada pela queda, percebeu que estava solta. Sua cabeça ainda podia estar um pouco embaçada, mas se recordava perfeitamente de ver algum tipo de minério se formar ao redor dela, se quebrando na sequência e partindo as amarras junto. A própria vestimenta branca que utilizava mostrava rasgos em algumas partes.
Ela se encontrava num vão entre a quina da parede e o colchão que virou de lado com a pancada. A poucos instantes, ela havia pensado que iria morrer, porém, agora se sentia tão bem como se nada houvesse ocorrido. De todo o modo, de fato, algo aconteceu e, também, ainda estava rolando. Aliás, gritos podiam ser escutados de fundo.
Com muito cuidado, Rie foi se erguendo aos poucos e observou a sala de canto, por detrás daquele objeto de algodão. E a visão que avistou podia ser descrita como terrível.
Aquela criança que antes estava ao seu lado, agora possui uma pele totalmente derretida e escura. Os membros se tornam distorcidos, como se tivessem os esticados e atravessado um por dentro do outro. Uma energia escura envolvia o corpo daquilo e jorrava de um buraco no peito e da boca, enquanto um dos braços, que tomou um formato pontudo, atravessava o peito daquele homem que lhe injetou a seringa.
O pescoço do monstro, então, se esticou para poder abocanhar a pessoa. No mesmo instante, Rie se escondeu dentro daquele vão, fechou os olhos e pôs a mão na cabeça. Ela pode escutar gritos de desespero. O som de ossos se quebrando. Um líquido escorrendo. Então, terminando com ruídos distorcidos que se apagam gradualmente até apenas o silêncio restar no lugar.
Depois de alguns segundos ela finalmente se acalma e toma coragem para espiar novamente. No entanto, antes que pudesse ver qualquer coisa, escuta um forte estrondo que faz todo o ambiente tremer. Ela cai de bunda no chão, porém, se ergue novamente. E assim, se depara com uma sala vazia, na qual possuía um vermelho nojento espalhado pela superfície e um grande rombo no teto que dava para ver o céu.
Rie anda pela sala com seus pés descalços e, sem ver outra alternativa, escala os escombros até chegar na ruptura acima, tampando o nariz para não vomitar com o cheiro horroroso. Somente de relance, ela pode avistar corpos humanos totalmente mutilados ao redor, contudo, ignorou e tentou não olhar. Focou-se em subir aquilo, quase escorregando algumas vezes e, com muito esforço, ela sai de lá para se deparar no meio de uma rua com prédios dourados à volta.
Toda a cidade estava tomada por criaturas horrendas.
As pessoas corriam e gritavam por suas vidas. Porém, para aquelas que não conseguiam fugir, apenas lhe restavam serem mastigadas bruscamente. E entre um daqueles monstros, com a mandíbula pingando enormes quantidades de sangue, a garota foi avistada. Todos os seus músculos paralisaram na hora. Rie precisava correr. Ela não queria ser morta. Mas, mesmo assim, não conseguia se mover. Significava que dessa vez, todos os milagres que a protegeram, enfim, acabaram?
Ela deu um grito muito forte e colocou os braços na frente do rosto.
No entanto, mais uma vez, nada ocorreu.
— Está tudo bem com você?
Um homem, utilizando um sobretudo, com uma grande espada curva e uma aura de cor preta, mas que estranhamente brilhava, estava diante dela. E entre o indivíduo, aquele ser amedrontador se dissolvia no ar, partido ao meio em dois.
* * *
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios