Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 2.2: Feita de cacos
Quando colocou seus pés no quarto, logo avistou um pacote amarrado com uma fita vermelha. Rie fechou a porta rapidamente e correu um ânimo extremo em direção àquilo. Com toda a certeza, esse deveria ser o presente que seu irmão havia deixado. Ela mal podia esperar para descobrir o que era.
Desamarrando o laço borboleta cuidadosamente, ela foi tomando cuidado para não danificar nada daquilo. A felicidade momentânea fazia com que quisesse tratar com carinho cada parte disso que recebeu.
— Uau! — Sem que pudesse se controlar, deixou escapar um forte som de surpresa que, no mesmo instante, tentou esconder para que não a percebessem.
Rie havia ganhado um vestido branco com saia rodada. Essa era a primeira vez em que estava podendo tocar em algo desse tipo. Até o momento, só tinha visto as outras garotas e mulheres utilizarem roupas assim. Como quase sempre está usando o uniforme de treino, até então, ninguém fazia questão de lhe dar outros tipos de roupa.
Tremendo, mas, ao mesmo tempo, tentando se segurar para aguentar a agitação, ela vestiu seu novo presente. Arrastou um pequeno banquinho até a parede, onde tinha um espelho, subiu e assim observou seu novo visual. Estava quase soltando gritinhos de euforia, mesmo assim, assegurou eles apenas para si. Pegou a saia com ambas as mãos, girou seu corpo levemente e observou aquilo balançar.
Eu até pareço com aquela cantora…
Observando sua imagem refletida no espelho, usando aquela vestimenta, e, claramente, desconsiderando seu triste penteado atual, a silhueta de Rie a lembrou de uma cantora que frequentemente costumava escutar escondida. Se descobrissem isso, era certeza que tomariam seu celular no mesmo instante, pois uma nobre não devia se levar por coisas inapropriadas como canções, na quais, também não fossem de mesma classe que ela.
Entretanto, na segurança de seu quarto, poderia deixar todas essas coisas chatas de lado e apenas desfrutar. Portanto, ela pegou seu par de fones de ouvidos, os plugou e abriu um videoclipe na internet daquela pessoa. Rie debatia seus pés descalços no colchão da cama enquanto escutava a melodia.
Essa mulher das músicas se tratava um indivíduo extremamente misterioso, pois tirando o apelido de “Lily”, não existiam mais informações a respeito dela. Contudo, para Rie, apenas escutar as canções já eram o bastante. Ela amava muito as melodias e as letras que essa pessoa, na qual sequer tinha o conhecimento de quem realmente era, mas que mesmo assim, sempre a motivava e lhe dava forças para acordar no próximo dia com energia, desse modo, conseguindo seguir em frente.
Cantarolando bem baixinho, antes de ir dormir, Rie pegou essa inspiração para si que, independente das repetidas vezes que escutava, sempre sentia. No fundo, bem no fundo mesmo, por mais que o medo de admitir que isso fosse verdade pudesse causar reações e atitudes terríveis das outra pessoa para ela, a garota gostaria de, somente uma vez, poder ser como essa cantora. Gostaria de fazer o mesmo bem que recebe ao escutar isso para os outros.
* * *
— Que inadmissível… — Essas foram as primeiras palavras que Kimiko, a mãe de Rie, soltou ao adentrar no quarto da filha e avistar ela.
Numa fração de segundos, milhares de agulhas gélidas foram fincadas por toda a espinha de Rie. Ela estava paralisada. Com um medo genuíno. Suas pernas balançavam. Seus dedos tremiam. Seus olhos estavam arregalados e trêmulos, prestes a começar a lacrimejar. A vontade era de sair correndo o mais rápido possível, no entanto, mover ver um músculo sequer parecia ser o mesmo que ameaçar toda sua existência.
Ter ido dormir naquele horário tardio, — um erro da parte dela — fez com que acordasse mais tarde do que o costume, — sendo o segundo erro que cometeu. Desse modo, sua mãe teve que ir até seu quarto para checar o que ocorreu com ela, e aí estava algo que Rie jamais devia ter deixado de correr. Pois ao entrar nesse cômodo, acabou sendo avistada usando o vestido que ganhou do irmão.
A culpa era da Rie. Contra sua vontade, acabou despencando no sono por se manter acordada até aquele ponto da noite. Portanto, mal teve a oportunidade de trocar para um pijama. Se ao menos tivesse conseguido isso, essa fúria não teria sido despertada.
— Quantas vezes eu vou ter que dizer isso pra você… — Ela agarra Rie pela gola da roupa e fecha seu pulho com força — Você é a droga de uma nobre! Não está aqui pra ficar usando essas frescuras de meninas!
Essa mulher podia estar dizendo isso, porém, ao mesmo tempo, igualmente utilizava um vestido, sem falar que se tratava de um bem colado no corpo e com partes expostas. Rie não conseguia entender. Por que ela não poderia se vestir assim também? E, além disso, esse que ela ganhou do irmão não era nada chamativo comparado ao da sua mãe.
— Você nasceu para ser uma guerreira. Não tem tempo pra fazer essas coisas de garotinha — A gola da sua roupa era puxada cada vez com mais força. O tecido estava começando a raspar na pele de Rie e machucar — Seu propósito é mostrar a superioridade da nossa família perante as outras. A minha família!
O interior dos olhos de Kimiko, começaram a demonstrar um brilho dourado. Rie pode observar aquilo tomando a ires da mulher por completo. Sentia seu peito começar a ferver. Sua pele assar. E ver seu vestido sendo rasgado e queimado em meio a partículas de ouro, afiadas e sem qualquer vida.
— Agora vai se trocar e colocar uma roupa que preste. A de uma guerreira e, não, a de uma garotinha, me ouviu?! — A mulher olhava Rie de cima para baixo, de canto, como aqueles olhos envolvidos por uma aura de valor único.
Mas, antes que fosse até o dojo para esperar por sua filha imprestável, ela se agachou e segurou a criança pelo rosto. As unhas pintadas com um esmalte dourado pareciam que iriam perfurar as bochechas dela. Era agoniante. Era torturante. Rie sequer conseguia respirar.
— Eu também já passei pelo mesmo que você, então…
Rie queria gritar. Gritar para pedir por ajuda. Pedir por misericórdia. Contudo, sequer possuía forças para mover um membro qualquer e, muito menos, a coragem de fazer isso perante sua própria mãe. Só lhe restava um pavor.
— Engole a droga desse choro!
* * *
A realidade era que ninguém realmente a ama, ou ao menos se importa com Rie. Os adultos que deveriam tomar conta dela, apenas se interessavam com essa tal nobreza dos Ones. Sua única função é duelar para conseguir um ranking maior em algo que ela mal sabia o que significava direito.
Para sua mãe a única coisa que importava era a filha estar na posição mais alta dentre todas. Assim, a mulher ganharia melhores status, vantagens e seria vista de forma mais positiva pelos outros. Rie não julgava esse pensamento, pois, ela passou pelo mesmo para chegar onde estava. Era apenas essa forma que conhecia para viver. Somente um jeito para provar sua existência. Entretanto, ainda assim, por mais desesperador que fosse…
Rie desejava nunca ter nascido.
Queria nunca mais precisar passar por momentos horrorosos como aquele de antes. No fundo, apenas queria poder ser uma garota qualquer — o que sua mãe amaldiçoava e achava algo de se envergonhar. Por que ela não podia usar uma saia e deixar o cabelo crescer? Onde que estava o sinal de fraqueza nisso? Ela, realmente, não entendia.
No entanto, como foi sua própria mãe que disse — a pessoa que mais deve querer o bem dela — isso deve ser a verdade, certo? Por hora, apenas se concentraria na luta que teria que fazer para subir, seja lá onde que for.
A oponente que iria enfrentar, na qual a surpreendeu, tratava-se de Asami, sua amiga e irmã mais nova de Ayane que olhava para as duas da arquibancada. Elas faziam parte da mesma linhagem de guerreiras, por mais que fossem de famílias diferentes. Essa garota era alguns meses mais velha do que ela, o que lhe dava uma grande vantagem, pois estava prestes a despertar a aura, que ocorre por volta dos dez anos.
Ao avistar Rie, ela solta um pequeno sorriso, porém, a garota de cabelos brancos se mantém séria e cabisbaixa. Seu objetivo no momento era derrotá-la, da forma mais rápida, primorosa e elegante possível para contentar sua mãe. Talvez, assim, ela possa ser perdoada pelo que ocorreu no começo desse dia.
Portanto, na arrancada de começo de batalha, ela sacou seu sabre e partiu em direção a amiga que, agora, não passava de um mero empecilho a ser destruído. Entretanto, quase no exato começo dessa luta, ela foi interrompida. O motivo disso veio por causa de um feixe de luz que saiu de Asami, porém um que não era dourado.
E sim, de um rosa violeta.
Kimiko se meteu no meio da arena, de modo que Rie tivesse que frear na hora. Contudo, sua mãe não foi até lá devido à filha, mas para parar a outra garota. Essa, na qual agarrou pelo pescoço e transformando sua adaga de aura numa espada, perfurou o peito dela até a lâmina atravessar por completo.
Asami gritou e então um líquido vermelho jorrou. E a arma branca brilhou em dourado, assim, começando a fazer queimaduras. Ondas de calor podiam ser vistas em volta do busto daquela menina. O sangue escorrendo, agora borbulhava. Berros de dor ecoavam pelo dojo. O que estava acontecendo diante dela? A garotinha de cabelos brancos não conseguia entender o que estava vendo.
Rie ouvia perfeitamente o som do ferro cortando. Dilacerando lentamente aquele pequeno corpo. O queimando. O rasgando aos poucos. Deixando gotas carmesins pingarem uma por e se espalharem pelo chão. Fazendo com que o barulho de ossos se partindo dessem início a um efeito dominó. Entretanto, no instante seguinte, tudo na visão de Rie tornou-se completamente escuro...
— Não olha! Não olha, por favor… — Tratava-se da voz de Ayane, em um tom desesperado e agoniado, na qual a abraçou e cobriu seus olhos para que não enxergasse mais aquela cena. Os braços a cobriam com tanta força que pareciam que iriam esmagá-la. Conseguia sentir o coração da outra garota bater desenfreadamente e de forma pesada. Lágrimas pingavam e escorriam pelo seu cabelo branco.
Ainda assim, Rie podia escutar aquilo perfeitamente. Sentia um cheiro horroroso que fazia a garganta arder. Sua amiga estava sofrendo. Ela estava gritando por sua vida. Pedindo por misericórdia. Tudo isso em meio aos rangidos de coisas partindo. Rasgando. Jorrando. Queimando. Borbulhando. Tornando-se distorcido. Se apagando. E então, ficando no mais completo silêncio, para que nunca seja escutado novamente.
* * *
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