Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 2.1: Feita de cacos
— Não há nada melhor do que aproveitar seus momentos ao lado de quem ama, então, trate de aproveitá-los ao máximo — Junto de um carinhoso sorriso, essa foram as palavras que sua amiga lhe disse enquanto lhe dava tapinhas na cabeça.
Entretanto, Rie sequer pode entender qual era o significado disso. Tratava-se de apenas uma garota de nove anos que mal conseguia imaginar o que seria esse tal amor. Naquela frase, claramente, possuía a intenção de expressar algo importante para ela — que desse valor pra seja o que for —, porém apenas soou como uma bronca. E desde o começo nunca teve a culpa de nada.
Foram os outros que saíram correndo de mim, sem motivo… Isso não é justo!
Na sua triste tentativa de brincar com as outras crianças, na qual falhou com perfeição, Rie se viu sozinha no parquinho. Neste lugar com brinquedos feitos de madeira e tubos pintados de dourado, com calçadas de mármore e alguns poucos arbustos, em que era cercado por arranha-céus com detalhes em ouro. Ficava logo ao lado de sua casa, porém, raramente possuía a oportunidade de sair de lá.
— Ei, Rie? Não fica prestando atenção nela, não. Ayane é sempre toda melosa com esse tipo de coisa — demonstrando uma energia eletrizante enquanto pulava em cima da sua irmã, exclamou Asami como quem estava de saco cheio daquela conversa.
Essas duas, como dava para perceber, tratavam-se de irmãs. A mais velha, de doze anos, chamada Ayane, possuía um cabelo acima dos ombros, quanto a mais nova, que recém completara dez, na altura do peito. Ambas tinham mechas da cor lilás e olhos de um cinza quase preto. Dentre todas as outras crianças, elas eram as únicas que costumavam falar com Rie. Não sabia se era porque a considerava como uma amiga, ou por respeito, já que faziam parte da mesma linhagem, mesmo sendo de famílias diferentes.
Após observarem Rie sozinha num balanço, com uma expressão tristonha, pois, como ninguém além queria fazer companhia a ela, vieram fazer. Desde que se lembra, sempre foi assim, todos tentavam evitar o máximo possível, e ela nunca entendeu direito. Até mesmo quando perguntava para sua mãe ficava confusa, pois a resposta que recebia todas às vezes era: “ainda bem que gente dessa laia não queira se misturar com você”, o que acabava ainda lhe deixando sem respostas.
Então Rie perguntava para si se, talvez, seria por causa dessa sua linhagem? Pelo que falavam para ela, estava na posição mais alta dentre todos, contudo, ela também possuía uma dificuldade para enxergar perfeitamente o que significava. Ainda assim, se fosse de fato esse motivo, então a evitavam por pura inveja? Algo que não fazia sentido para ela, pois sequer tinha culpa.
— Ei! Não tem nada de meloso nisso! Eu apenas estava tentando animá-la — Ayane puxava sua irmãzinha pela bochecha enquanto passava um sermão.
Portanto, levando tudo isso em conta, aí estava o motivo de sua cabeça ter ficado mais embaralhada ainda. Se ninguém queria ficar perto dela, como iria aproveitar os momentos ao lado de quem ama? Sua amiga havia mencionado antes que não devia desejar que todos gostassem dela e dar um valor para aqueles que já são importantes, mas, mesmo assim, ainda ficou pensando que:
Isso tem a ver com se apaixonar, ou coisas desse tipo, não? E a mamãe disse que garotas como a gente não tem idade pra isso, então, por que ela está falando disso agora? Com doze anos já é idade pra isso?
No presente, ela não queria ter algo assim, ainda. Apenas gostaria de ter mais tempo para brincar do que treinar todos os dias, sem parar, enquanto recebia sermões de sua mãe por não conseguir ir tão bem quanto gostaria.
— Você tem um namorado? — Rie pulou do balanço e olhou para a mais velha enquanto fazia uma expressão inocentemente curiosa.
— Não, é claro que não! Ainda não tenho idade pra isso, vai demorar até que minha família escolha um pra mim… — O rosto de Ayane ficava cada vez mais vermelho como um pimentão.
— Ué? Não era disso que você tava falando?
A garota de cabelo lilás, acima do ombro, então deu um suspiro e abriu a boca mais uma vez para fazer uma explicação. Entretanto, foi cortada drasticamente pela outra:
— De qualquer forma, Rie, você ficou sabendo que eu tô quase conseguindo usar a aura?! Não é legal?! — Asami, a mais nova, se meteu na frente, ignorando completamente a sua irmã e começou a dar pulinhos de alegria enquanto anunciava a novidade.
Pela expressão da criança, parecia que ela iria falar sobre isso até não poder mais, no entanto, a conversa acabou logo nessa última fala. A mãe de Rie, com um cabelo preto de corte chanel longo e olhos azuis, nos quais ela puxou, em que usava um vestido com decote em V mostrando uma das pernas, veio até sua direção, a pegou pelo braço e disse:
— Meu Deus, olha esse seu estado… Quando chegarmos em casa, você vai tomar um banho e terá um treino mais puxado para aprender a se cuidar, sua porca.
Suas amigas, ao avistarem essa mulher, chamada de Kimiko Koike — esposa do comandante do exército dos Ones —, meteram o pé de vez. E Rie apenas as observou irem embora, sem dizer nada, ao mesmo tempo que era puxada a força.
* * *
Desde o seu nascimento, Rie foi destinada a ser uma guerreira, mas não qualquer uma e sim, a melhor dentre todos. Como filha do homem presente na maior posição possível no batalhão do Ones, vindo de uma linhagem que sempre criou combatentes extraordinários, ela recebeu essa responsabilidade.
Pelo que escutou, sua mãe, desde a infância, teve que passar pelo mesmo que ela. Treinou incessantemente para conseguir subir sua posição entre o ranking, pois, tirando isso, não há motivos para lutar, uma vez que não existem mais conflitos. Para pessoas como ela que nasceram com o propósito de serem guerreiros, lutar é sua forma de subir na sociedade. Foi dessa forma que a mulher que a criou conseguiu ser digna o bastante para ser escolhida como noiva daquele homem e assim poder desfrutar de uma vida de luxo.
O objetivo de Rie — o propósito de vida com que nasceu — era de conquistar o mesmo que sua mãe, ou ser melhor. Por essa razão, ela precisava prestar no que foi feita para ser. Aliás, sua performance afetava diretamente o status da sua família. Mesmo que nunca tenha visto seu pai pessoalmente, tirando a imagem dele por uma foto, como também, a respeito de uma irmã um ano mais nova que, se questionava a respeito de sua existência, pois nunca viu nada a respeito (só escutou falar), e, além disso, interagiu tão poucas vezes com o irmão mais velho que facilmente se esquecia de sua aparência.
Tanto que ao ser abordada pelo mesmo, no corredor em direção ao dojo, imaginou que esse garoto de olhos dourados e cabelo preto penteado para trás, chamado Kentaro Koike, fosse um estranho que estava tentando falar com ela. De todo o modo, Rie não tinha culpa, pois ele possuía um rosto bastante comum, para falar a verdade.
— Fiquei sabendo que você tem apresentado performances incríveis durante o treino. E isso é maravilhoso — Um sorriso radiante estava presente na face dele.
— É mesmo?! — Ela deu um pulinho de alegria, porém logo se conteve e baixou a cabeça — Mas a mamãe sempre diz que eu tenho ido muito mal, que sequer consigo cumprir as expectativas…
— Ah, não dá atenção para o que ela diz. A mãe fala e age sobre as coisas além do que elas realmente são.
— Mas se eu discordar dela, eu vou apanhar! A mamãe sempre diz que crianças desobedientes merecem ser punidas.
— Bem, ela exagera tanto às vezes que, realmente, fico em dúvida se está falando algo ao pé da letra ou não.
Kentaro então sorriu e fez um cafuné na cabeça com cabelos brancos da garota. Rie encolheu seus ombros e lhe dirigiu um olhar cabisbaixo. Ela não sabia como reagir perante a isso, pois quase nunca recebia algo assim de uma pessoa.
— De todo modo, chega a ser um pouco triste que uma menina tão bonita tenha que ficar usando um uniforme militar desses toda hora.
O irmão de Rie claramente se referia às suas roupas atuais e, a que usava quase todo o tempo, se fosse desconsiderar o pijama na hora de dormir. Uma jaqueta de couro preta com colarinho e ombreiras, junto de uma calça branca e botas também escuras. Esse era seu visual padrão, pois durante, quase o dia inteiro, estava treinando esgrima ou duelando com outras crianças de sua idade para manter sua posição como nobre.
— Eu deixei um presente no seu quarto, sem que a nossa mãe veja. Quando puder, me fale o que achou, entendido?
— Entendido! — Um ânimo reluzente, muito raro, brotou na face da garota.
E assim, Kentaro partiu para cumprir com suas responsabilidades — as mesmas que a dela —, deixando um sentimento agradável no ar. Entretanto, após isso, surgiu um pequeno calafrio na espinha de Rie. Desde o princípio ela havia se adiantado para ir até o dojo, porém, com essa pequena pausa que teve para conversar com ele, pode ser que tenha passado da hora combinada…
Ela foi andando apressadamente, rezando para que ainda não esteja atrasada. Entretanto, a expressão de decepção da mulher ao recebe-la, instantaneamente confirmou os seus anseios:
— Que lamentável… — O olhar dela parecia penetrar a alma de Rie — Se sequer presta para cumprir um horário, imagina só conseguir empunhar uma espada. Já está na hora de pôr vergonha na cara e agir como uma nobre, menina! Não estou te criando para ser uma incompetente.
— Mas é que…
— Sem mas! E anda logo para começar o seu treino!
Como esperando, Rie sequer teve chance para se explicar. Contudo, era entendível que sua mãe agisse assim, pois no fim, tudo o que queria era o melhor para ela. Para se tornar uma guerreira, realmente merecedora do título no qual nasceu, não poderia haver falhas. Ela tinha que prestar para tudo que fosse necessário.
De todo modo, ela sacou seu sabre de lâmina reta da bainha na cintura. Não se tratava de uma arma de aura, mas de uma tradicional feita de ferro, pois ainda era incapaz de utilizá-las porque faltavam poucos meses para completar dez anos, quando normalmente todas as crianças como ela despertam o poder dourado no qual é o símbolo de sua superioridade e nobreza.
Seu treino consistia em tentar realizar técnicas e movimentos em que eram ordenados por sua mãe. E a mulher apenas ficava sentada num banco, escorada na parede com as pernas cruzadas, fazendo-lhe críticas sem parar. Cada vez que recebia comentários negativos, era o mesmo que ser estocada por uma espada diretamente no coração, portanto, precisava deixar de errar e agir de forma perfeita.
Rie manteve-se com essa mentalidade, até ficar tarde da noite. Normalmente ela treinava até às dez horas, tomava banho e ia dormir um pouco antes de terminar o dia. Entretanto, desta vez, ao invés de somente dizer que está dispensada, sua mãe andou até ela.
— Que vergonha…
Ela repentinamente agarrou Rie pelos cabelos. Aquilo era agoniante e doía muito, mas, independente do que sentisse, jamais deveria abrir a boca para sua mãe.
— Quantas vezes já lhe falei pra não deixar seu cabelo passar dos ombros. Isso é um sinal de fraqueza. Você não está aqui para parecer frágil e vulnerável perante os outros, está aqui para ser melhor do que qualquer um — usando uma arma de aura, no formato de adaga, ela então cortou o cabelo de Rie a força — Você está na posição mais alta entre os Ones. Não é uma garotinha qualquer. Precisa mostrar que é a tal.
Rie olhou para os seus fios de cabelos brancos espalhados no chão e permaneceu a se manter de cabeça abaixada. Não podia demonstrar para sua mãe quaisquer sentimentos de tristeza e fragilidade. Caso contrário, não estaria agindo como a One que deveria ser.
Engolindo o choro em seco, a garota com o cabelo, no momento, se encontrando na altura do queixo, saiu do dojo e foi em direção ao banheiro para tomar banho. Lá ela poderia ver sua aparência lamentável e chorar embaixo do chuveiro. Agora, em que ninguém podia avistá-la, não teria problema em se deixar levar pelas emoções.
E assim, quando enfim pode se recompor, saiu de lá. Ela devia estar acordada mais tarde do que normalmente costuma a ficar, portanto, tentou ir até seu quarto da forma mais furtiva possível, sem que fosse percebida por ninguém, pois não queria receber mais broncas. No entanto, Rie parou ao visualizar uma figura incomum.
Abaixo das grandes escadarias da mansão em que vivia, sua mãe conversava com um homem. Ele possuía um cabelo branco penteado para trás, levemente comprido e demonstrava sinais de que havia recentemente feito sua barba. Havia também uma pequena garotinha de cabelos pretos, se escondendo atrás das pensar do homem, com um olhar sonolento, na qual sua mãe sorria para a mesma, mas que Rie ignorou.
Esse daí é o meu pai…?
Era só isso que vinha na sua cabeça nesse instante, contudo, para sua infelicidade, não pode observar melhor aquela figura. Como se fosse algum tipo de instinto, ele olhou para sua direção, o que a fez se esconder por trás da parede que observava de canto, instantaneamente. Rie não tinha certeza se seu palpite estava de fato correto, aliás, até então só viu seu pai por fotos, e a aparência desse homem batia com suas lembranças daquela imagem. Sendo assim, se realmente fosse quem imaginava ser, como será que ele é? Será que agiria da mesma forma que seu irmão?
De todo modo, no momento, ela ainda não era capaz de descobrir. Estava longe de prestar o bastante para sequer ter o direito de falar com ele. Quem sabe, quando despertasse sua aura, consiga atingir tal patamar…
* * *
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