Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 1.5: Desejo de viver
Sob o pôr do sol, uma corrente de vento fresco soprou suavemente, bateu na pele e pareceu ter derretido. Após o término do treinamento, Jun e Rie foram até a borda da cidade, onde começava o mar. A distância entre a parede de vidro, o domo e eles era por volta de meio metro, porém, não impediu que a garota de cabelos brancos se sentasse sobre uma pilha de pedras, retirasse os calçados, a meia-calça e colocasse seus pés na água.
— Pra mim ainda é um pouco estranho ver raios girando numa espiral… — comentou Jun enquanto observava a sua aura que agora parecia ser da cor azul. Não era de um tom tão forte quanto a da Rie e, também, as partes meio reflexivas do prata ainda estavam, mas isso podia ser facilmente confundido com a estabilidade da eletricidade. Embora só se assemelha ao elemento, pois observando aquilo de maneira literal, as linhas de energia apenas assumiram um formato mais poligonal e irregular.
Entretanto, ele recém aprendeu como gerar uma aura elemental; ainda não sabia como usá-la. De todo o modo, tinha mais dois dias para dominar isso. Estava curioso para ver o que aconteceria se acelerasse usando a mesma.
— O importante é que eu fui a primeira a conseguir, mesmo com as suas trapaças — falou Rie em tom provocativo, ao mesmo tempo que debatia seus pés sobre a água.
— Em compensação, quem teve o maior progresso, fui eu.
— Progresso em falhar, isso sim.
Enquanto Jun já havia conseguido aprender a conjurar aquela energia, como se fosse uma memória muscular, Rie ainda precisava utilizar os comandos que a atrapalhava toda. Mesmo assim, não mudava que ela é extremamente habilidosa — chegar a esse ponto num dia não era pra qualquer um. Contudo, o motivo do garoto ter tanta pressa para dominar isso de uma vez era, pois lhe restava pouco tempo para se tornar capaz de algo.
Em pouco menos de um mês, Rie cairia num sono sem fim. Tratava-se de uma expressão muito ampla, uma vez que não se sabia com exatidão o que aconteceria com ela. No entanto, sempre iria visar como se fosse a pior opção. A morte.
— De todo o modo, eu estou preocupada com você usando a aceleração para esse tipo de coisa. Isso não vai te sobrecarregar?
— Talvez… Eu não tenha certeza, mesmo assim, isso é necessário. Não dá para ficarmos enrolando.
Rie paralisa por um breve segundo e então fala:
— Jun, eu não quero que você aja desse jeito por minha causa…
— Eu sei… Me desculpa… É que eu, apenas ando muito ansioso ultimamente. Não consigo parar de pensar em formas do que posso fazer, ou de como seria a melhor maneira de aproveitar esses últimos momentos.
— Você não precisa fazer esse tipo de cobrança. Eu me sentiria horrível se fizesse, pra falar a verdade.
— Isso não tem nada a ver com você. É mais um problema meu — Ele fecha o punho e faz a energia em forma de eletricidade se dissipar no ar — Desde que eu descobri sua situação, eu me desesperei. Até disse o que sentia por você de forma repentina, pois não iria conseguir suportar mais desperdiçar o tempo sem que falasse o que sentia por você naquela voz… Então, me desculpa por fazer isso de forma tão apressada.
A garota, esticou os braços durante alguns segundos e então olhou diretamente nos olhos de seu namorado.
— Eu quero é que você engula essas desculpas com tudo e nunca mais me faça ouvir algo assim de novo. Viver esses últimos dias de uma forma tão intensa tem sido um máximo para mim! Nunca me senti tão viva quanto antes e quis gritar tanto o grão grata que eu estou por estar aqui! — Ela sorri — Então, muito obrigada! — E fala bem alto, como se quisesse se certificar que Jun a escutaria.
Mesmo estando perante uma situação de quase morte, Rie ainda assim não parecia se abalar por nada. Toda a energia radiante que ela emanava o motivava de tantas formas que sequer conseguia descrever — até dava a vontade de prendê-la dentro de um potinho para garantir que nunca se esvaísse. Entretanto, essa garota precisava ser livre e passar toda essa essência para o mundo.
Ainda que só reste a memória de uma canção, vinda de um forte espírito que uma vez existiu para ser notado. Se ficasse presa no coração das pessoas, então essa luta teria valido a pena. No dele já estava.
— Você, realmente, me fascina… — Por mais que fosse de canto de boca, Jun deu um sorriso nesse instante — Mesmo nessa situação, você ainda consegue se expressar de uma forma tão vívida e agir sempre animada com tudo… É diferente de mim que, apesar do quanto tente, não consigo fazer o passado deixar de me atormentar. E, até mesmo quando parece que vou superar, é como se uma mão viesse me puxar de volta para essa dor… Por isso, você me fascina tanto.
Como uma rajada que sequer pode prever, a garota foi até ele e o abraçou pelo pescoço com força. Ela encostou a bochecha na dele e apoiou a mão na cabeça do garoto. Jun, simplesmente ficou pasmo, sem saber como reagir. Estava paralisado.
— Chega a ser inacreditável ouvir isso de você, pois se não fosse por causa daquelas suas palavras de, se quiser fazer algo, então faça, não fique parado, eu nunca teria tido coragem para tomar qualquer atitude. Para ter feito aquela canção. Para ter continuado agindo dessa forma animada — Ela acariciava a cabeça de Jun, lentamente — Mesmo que sempre estivesse com esses receios, para mim, nunca pareceu ter. Era como se sempre estivesse seguindo em frente, independente da culpa que tivesse. E ver isso, foi o que me deu motivação pra continuar… E é por causa dessa força que você não enxerga que eu te amo.
Jun, por um momento, fraquejou. Ele mordeu os lábios e se esforçou para que as lágrimas que começavam a se formar não caíssem. Mentalmente estava confuso, aliás, sequer conseguia compreender direito esse sentimento que possuía, sem falar dos outros milhares que se misturavam e tornavam tudo mais bagunçado.
Entretanto, por hora, mesmo que incerto quanto quais atitudes deveriam tomar em seu futuro. Agora, neste presente, iria agarrar essa sensação com tudo para que assim, quando chegar lá, garanta que não se vá.
— Eu também te amo…
Ele abraçou a garota de volta e certificou-se que o corpo dela fosse envolvido totalmente em seus braços. Rie estremeceu, por um breve instante, mas largou todo o seu peso que assegurava para que os dois pudessem se sustentar. Estavam leves, porém, ainda assim, era como se nada pudesse os derrubar.
— Ei, sabe de uma coisa Jun? Ultimamente, em momentos aleatórios, eu tenho sentido meu peito doer… Isso é um sinal de que aquilo está pra acontecer. Significa que o destino que me aguarda é, realmente, verdade… e eu… eu… Eu tô com medo. Muito medo, mesmo… Não quero isso… Jun, quer dizer mesmo que eu vou…
Que eu vou…?
A mão da garota tremia sem parar. O coração dela estava acelerado e era como se mal conseguisse respirar. Jun conseguia sentir isso muito bem, pois no momento, os dois se sustentavam um no outro como se fossem um só.
— … Eu vou morrer?
Ele engoliu o ar em seco, como se estivesse prestes a vomitar. A abraçou com mais força, enquanto sentia uma corrente gélida percorrer de seus pés até a cabeça. Concentrou-se nas sensações a sua volta e, entre elas, havia um calor. E isso vinha de Rie. Algo que dizia que ela ainda estava ali. Um calor que afirmava muito bem que ela vivia.
— Vai ficar tudo bem… Não vou deixar que você se vá, jamais… Eu não aceito.
Rie, então, o largou, inclinou seu corpo levemente para trás e assim o encara frente a frente, olhando diretamente para seus olhos. Ela limpa as lágrimas com os cantos das suas mãos e, dando um pequeno sorriso, diz:
— Ouvir isso de você, me deixa feliz. Muito mesmo, de verdade… Mesmo assim, eu não consigo entender, por que você fala isso? Eu sequer te contei por tudo que passei pra ficar assim… Porém, escuto você dizer essas palavras pra mim e ainda falar que me ama… Faz eu sentir que estou sendo egoísta com isso, como se não fosse merecedora…
— Eu te amo e só isso que preciso pra querer te salvar. Mesmo que eu jamais saiba o que tenha passado, ou fizeram com você para acabar dessa forma. Só te amar, já é um motivo mais do que suficiente para mim.
Ele sentiu uma brisa passar e envolver o corpo dos dois por completo. Se sua mente já se encontrava um pouco bagunçada, chegava a ser impossível como devia estar a da garota. Ainda assim, sabia que era capaz de fazer qualquer coisa por causa dela. Portanto, Jun tinha certeza quanto as suas próximas palavras:
— Já sei como te tirar dessa situação, mas pra você aceitar o que vou propor, ainda preciso resolver esse outro problema que nos persegue toda hora. Aí está outro motivo, escondido, para eu ter pressa.
A garota, então, pulou totalmente para cima dele, deixando que, além da ponta de seus pés, as pernas fossem cobertas até os joelhos pela água do mar. Ela escorou a cabeça no peito do garoto e falou:
— De todo o modo, eu ainda preciso que saiba disso. Eu nunca iria me sentir totalmente à vontade se não te contasse…
As ondas que se dissiparam nas águas, a partir do casal, suavemente ultrapassaram a parede de vidro à frente deles. Elas foram em direção a um mundo infinito e sem limites, com calma, mas para nunca mais voltarem. Em meio a luz do sol que desaparecia entre o horizonte infinito, deixando o ambiente roxo ao redor, os dois continuaram mandando essas pulsações sem fim na esperança de chegar em um lugar além que pudessem tocar.
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