Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 2 – Arco 1: União

Capítulo 1.4: Desejo de viver

Isamu abraçou seu filho com força. Algo no seu interior dizia para que fizesse isso — era como se fosse uma necessidade —, pois, de todas as formas, queria garantir que aquele menino não fugisse dele; não outra vez.

Como pessoa, ele se sentia um merda. Tudo o que batalhou, se esforçou e insistiu alcançar, na esperança que pudesse se tornar alguém melhor, mais forte e capaz do que naquela vez, seis anos atrás, parecia ter sido em vão. É como se não tivesse peso algum em ter se tornado o capitão das forças de ataque. No final, apenas era um homem que foi incapaz de proteger sua própria esposa. Um pai que devido a sua mediocridade teve que mandar um filho para longe, o deixando sozinho, e teve o outro tomado de si, sem que ao menos tivesse a mínima oportunidade de ir atrás e recuperá-lo.

— Eu pensei que nunca mais fosse te ver novamente… — murmurou de forma quase inaudível, assegurando-se para não despencar em meio a lágrimas.

E garoto, manteve-se em silêncio, o que era compreensível perante a inutilidade de ser quem era ele… Entretanto, para sua surpresa, quando se tocou, teve seu corpo abraçado de volta.

Será que… Alguém… Alguém como ele que, na última oportunidade de manter o pouco que sobrou de sua família, por pura covardia acabou a mandar para longe, poderia merecer algo desse tipo? Essa pessoa que, também, nem se prestou a arriscar a vida para tentar apanhar uma pequena esperança que podia existir? Ele, de fato, não sabia…

E agora estava com esse milagre entre seus braços. Um que foi incapaz de ir atrás, mas que foi forte o suficiente, até mais do que si próprio, para conseguir voltar sozinho para o lar. Não importava o que ele era considerado, ou o que achavam dele, para Isamu ele não passava de um lixo.

O gêmeo mais novo, desde que o reencontrou, após anos pareceu tentar evitá-lo, quanto em outros momentos, simplesmente não demonstrava se importar com sua existência. Ele conseguia entender isso muito bem, aliás, o mandou embora para longe durante anos, deixando que voltasse cheio de traumas, sem que pudesse dar o apoio para superá-los. Isamu, definitivamente, era um péssimo pai.

Mesmo agora que finalmente estava vendo um de seus filhos se apaixonar e descobrir novas etapas da vida, onde foi que ele estava? Sequer o ajudou com dicas, ensinamentos, ou o instruiu para com agir num relacionamento de forma saudável… apenas deixou que o moleque descobrisse tudo sozinho, enquanto era frequentemente caçado como uma bruxa.

E quanto ao mais velho, que não largava de seus braços? No presente, soava como se fosse um estranho para ele… Sem sombra de dúvidas, não importava quantos méritos tivesse, em sua mente sempre seria alguém terrível. Uma falha como pai.

Independente da falta que seu velho o fez, por morrer em batalha quando ainda era uma criança, e o desejo de ser tão presente como uma vez desejou que fosse com sigo. O que conseguiu foi deixar que sua esposa recebesse um golpe fatal e caísse num sono interminável e permitir que suas crianças se separassem.

Ahhh, Yuri… o que você faria se estivesse no meu lugar? Eu sinto tanto a sua falta… E sei que isso seria um pedido extremamente egoísta, mesmo assim, gostaria tanto que acordasse e viesse até nós… Desejo tanto poder ver toda nossa família unida mais uma vez, como naqueles dias, mas que agora parecem ficar cada vez mais distantes…

 

* * *

 

Após o capitão e aquele garoto de cabelos prateados irem embora, só se mantiveram Rie, Jun e Chie neste ginásio aos pedaços. Ela sabia claramente que aquela pessoa se tratava do irmão de sangue do seu namorado, porém, optou fazer o mesmo que ele e não se envolver naquele reencontro entre pai e filho. E, de todo o modo, não iria dar uma de intrometida no que não dizia a seu respeito, apenas vai focar nessa nova batalha que precisará encarar três dias nos próximos.

Depois de alguns segundos, sendo deixada para esperar ansiosamente, sua amiga que ficou procurando algo em uma mochila, enfim, voltou até eles. Ela, então, estende as mãos e mostra um estranho objeto, assim dizendo:

— Primeiramente, vamos descobrir com qual elemento vocês têm afinidade. Isso aqui é uma folha que possui diversas gemas, com cada uma representando um diferente — Ela largava aquilo no chão.

Após analisar, estava mais para um pequeno tapete do que uma folha de papel em si. Possuía inúmeras pedrinhas coloridas, com um nome embaixo, — água, terra, fogo, ar, som, gelo, gravidade, eletricidade, natureza e outras coisas confusas para ela.

— É bem simples como isso funciona. Concentrem suas auras em uma gema e vejam se tem alguma reação. Brilho nem um significa zero afinidade, um brilho fraco pouca e um brilho forte bastante — Chie colocava os dois dedos sobre a joia azul, escrito água em baixo, fazendo aquilo emitir uma luz radiante.

— Seria possível ser apto a mais de um deles? — Jun se agachou, fazendo uma cara de análise.

— Obviamente. Bem, não há nada que impeça uma pessoa de apreender qualquer elemento que quiser. Acontece que auras diferentes tendem a possuir mais facilidades para coisa de um tipo do que outro e, muito disso, varia muito de usuário pra usuário, mas com esforço e muita paciência é possível qualquer coisa — Ela, por algum motivo, falava isso de uma maneira muito convencida.

— Mas, no nosso caso, a gente precisa aprender isso rápido — Agora foi a vez de Rie se abaixar.

Ela coloca a mão sobre a mesma pedra que Chie usou para exemplificar e concentra a sua energia. Uma luz quase invisível se forma, a fazendo se sentir abalada internamente.

— É por isso que vamos descobrir o que vocês têm melhor afinidade e focar nesse. No caso da Rie, já descobrimos que água não vale a pena investir. Ela vai levar um longo tempo se quiser dominar isso.

E assim, Rie começou a testar uma por uma. Enquanto, duas ou três demonstraram brilhos de intensidades levemente mais fortes quanto a primeira, todas sequer acendiam. Ela estava começando a se desesperar de vez. Não era possível que seria uma daquelas sem qualquer aptidão que prestasse.

Minha nossa… Eu não posso ser tão azarada assim! Por favor, acenda só uma… Por favor! Nunca pedi nada!

Foi quando colocou os dedos sobre um cristal branco que, num piscar de olhos, se iluminou de uma forma tão intensa que quase a cegou por um instante. A felicidade que teve no momento foi o suficiente para dar um pulinho de alegria. Porém, Rie logo se acalmou ao perceber que Jun estava prestes a soltar um riso por sua causa.

— Caramba, como você é sortuda… — disse Chie, suspirando em inveja — O comum é as pessoas acabarem tendo aptidão para os quatro básicos, mas você conseguiu ser péssima pra todos, exceto o de gelo.

É o mesmo elemento que o general… Sério, por que tinha que ser esse e não outro? Eu não que me parecer com ele…

— Bem, acho que isso combina com você — Jun deu um sorriso para Rie.

— É mesmo?! Que bom…

Ela devolveu o sorriso para seu namorando, ao mesmo tempo a fazendo ficar mais contente pela descoberta. No entanto, agora não era momento para ficar de flerte, pois de frente a sua melhor amiga era um tanto desagradável. Além disso, Chie parecia ter ficado nada confortável perante essa atitude dos dois. Deixaria pra fazer esse tipo de coisa quando chegasse em casa, mais tarde.

— Agora é minha vez…

Jun então iniciou suas tentativas, porém logo na sua primeira vez já foi uma falha total; a gema sequer reagiu. Contudo, ele continuou buscando descobrir sua afinidade e, para a surpresa de todos, nada emitia um brilho sequer. O garoto começou a suar frio e a mover sua mão rapidamente para tocar cada uma delas.

— Calma, Jun. Não precisa se desesperar — disse Rie tocando o ombro dele.

E nesse exato instante, ela se arrependeu profundamente de encostar no garoto, pois recebeu um forte arrepio. Na realidade foi como se uma forte corrente tivesse percorrido por todo o seu corpo. Durou menos de um segundo, mesmo assim, fez ela se sentir totalmente incapacitada, antes de perceber as milhares faíscas de eletricidade que se espalharam.

— É verdade, eu esqueci de dizer que isso pode acontecer, caso coloque energia demais numa gema que tenha afinidade — comentou Chie, enquanto olhava para o garoto com um rosto risonho.

A face apavorada de Jun, confusa ainda com o que acabara de ocorrer, estava simplesmente hilária.

— Bom, é compreensível que, com uma afinidade alta dessas, nem uma das outras tenha reagido com você — Chie pega o papel e se levanta — Agora, podemos começar o treinamento de uma vez e, enfim, desmistificar a dificuldade por trás dos feitiços. Só esperem um buscar uma coisinha, ok?

Ela retorna até aquela mochila jogada no chão, coloca as gemas e assim retira dois livros de dentro. A garota, então, retorna até a frente dos dois e diz:

— A forma de efetuar uma magia é bastante simples. Apenas vejam cada linha de aura como um comando que, em conjunto com outros, criam uma reação. Deixa eu mostrar…

Chie estende sua mão e uma linha luminosa, verde água, se entrelaça por ela. Aos poucos outros traçados vão se formando ao redor, um de cada vez, até que em um certo ponto todos convergem em algo só. E, assim, as fitas energia tem sua coloração levemente mudada e começam a girar como uma broca em espiral de formato líquido.

— Ao memorizar a sensação que acontece ao realizar o feitiço, essa etapa de usar comandos pode ser pulada. Esse livro mostra o passo a passo de como conjurar cada elemento, mas caso vocês tenham qualquer dúvida, perguntem a mim, pois, por mais que não tenha o domínio, sei usar a maioria — E ao final dessa fala, a garota de cabelos rosa fez aquilo na sua palma voar e se espatifar contra a parede do ginásio.

— Eu tenho uma dúvida — Jun perguntou enquanto folheava rapidamente um dos livros — Aqui não diz nada sobre criar os elementos na forma pura, apenas em embutir a aura com o mesmo. Eu já vi um amigo lançar bolas de fogo legítimas.

— Ah, claro… as duas formas acabam dando no mesmo, mas apenas fazendo com que o poder assuma o formato, ao invés de se tornar o próprio, o gasto de energia diminui e a velocidade aumenta. É comum as pessoas nas quais tiveram acesso a um material mais antigo tenham aprendido dessa forma.

— Eu entendi… que coisa, hein… — Ele falava com desgosto.

Era quase certeza que Rie havia entendido o motivo dele fazer essa pergunta, pois claramente se referia aquele seu amigo, em que utilizava magias de fogo. Jun, agora devia pensar em contar para Seiji que existia um método melhor para lançar seus feitiços sem infringir o orgulho do garoto.

De todo o modo, Rie então pegou um dos livros e virou as páginas até onde começava a falar sobre a magia envolvendo o gelo. Tratava-se do conjunto de várias imagens, com instruções e dicas de como conseguir posicionar cada linha e assim canalizar o desejado. Ela teria que conseguir fazer aquilo quantas vezes quiser sem errar, para que assim consiga decorar o sentimento ao realizar e se torne algo tão natural quanto respirar. 

Bem, não vou ficar antecipando etapas… por hora vou focar em conseguir fazer o básico com sucesso.

Com pensamentos decididos em mente, ela deu início a sua prática, porém se desconcentrou no mesmo instante, ao avistar Jun. O que ele fazia era simplesmente surreal. Aquele garoto, estava se aproveitando da sua habilidade de acelerar para fazer diversas tentativas em sequência. A energia se entrelaçava pela mão dele e sumia sem parar.

Ei! Isso é roubo! Não é justo! Eu não posso fazer isso também para agilizar…

Rie o olhou emburrada, indignada perante a injustiça que presenciava. Ela ficou sabendo recentemente que, ao se tornar mais rápido, Jun não enxergava as coisas em lentidão, mas sua mente conseguia processar tudo o que acontecia à sua volta em tempo real. Ou seja, ele podia compreender grandes quantidades de informações mais velozmente. Entretanto, mesmo com isso, parecia que teria dificuldade.

Ela respirou fundo, se concentrou e iniciou suas tentativas seguindo as dicas de sua amiga. Pelo visto, essa tarde e os próximos dois dias serão longos…

 

* * *

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