Volume 2 – Arco 1: União
Capítulo 1.3: Desejo de viver
O local de encontro marcado foi um ginásio. Possuía uma arena e arquibancadas ao redor, porém, não era muito grande, devia ter sido construído para duelos de um contra um, diferente da festa no próximo mês que seria de dois contra dois. Entretanto, a situação desse
O lugar estava, simplesmente, lamentável. Grande parte do edifício estava coberto com musgo, trepadeiras e, até mesmo, tinha um buraco no teto.
Como o de se esperar, a razão dessa aparência, semelhante a filmes pós-apocalípticos, era por essa construção ter sido feita bem próximo às extremidades do domo. Em algum momento houve um ataque do exterior, o que fez as pessoas abandonarem essa região. Quanto mais próximo à borda, mais terrível era a situação desta cidade.
Tomando muito cuidado para que não fossem avistados por ninguém e também, rezando para que não sofressem um ataque surpresa, Jun e Rie vieram até esse local. Ficaram de se encontrar com o capitão (o pai de Jun) para conversar sobre a situação dos dois. Contudo, no exato segundo que deram as caras, a garota de cabelos brancos foi atacada por uma figura barulhenta.
— Ai que saudade! Pensei que nunca mais veria você, para todo o sempre!
— Ei, calma aí! Só faz uma semana desde a última vez e, também, a gente ficou trocando mensagens durante todo esse tempo!
Essa garota de cabelos rosas, bem clarinhos, que se estendia logo abaixo do queixo, com olhos de mesma cor, mas num tom escuro, tratava-se de Chie Ueno. Nesse meio tempo, em que foi forçado a se mudar de casa novamente, Jun precisou interagir com ela por um comunicador para receber suporte nas suas infinitas fugas contra os soldados de armadura. E a principal impressão que teve dela foi:
Ela até parece que tem um parafuso a menos na cabeça! Mas dizer isso seria agir de forma tão escandalosa como… De todo o modo, gosto dessa sua forma mais descontraída. Qualquer um iria enlouquecer se ficasse sério a todo momento.
— Ohhh, meu Deus! Não acredito que minha irmãzinha tenha se deixado levar por esses desejos carnais tão rapidamente! Ela se tornou uma mulher tão rápido que nem pude acompanhar!
Ainda assim, acho que ela gosta de se aparecer… Não vejo outra explicação!
— Ahhhhhh, mas vê se me erra! Sua louca! — exclamou Rie, golpeando Chie pela cabeça com o punho.
— Isso foi uma crueldade da sua parte… devia ser um pecado agredir aquela que viveu e cresceu junto de você por todos esses anos!! Não creio que as atitudes pecaminosas daquele traste tenham a deixado tão agressiva assim… — E Chie terminou fazendo uma cara de choro mais do que artificial.
Atuar dessa forma é novidade… mesmo que esteja tentando jogar a culpa pra mim…
— Sua debochada… — comentou Rie, retirando as palavras da boca de Jun, por mais que tenha se mantido em silêncio até então.
Em reação, Chie soltou um breve riso e mostrou a língua para a outra. Ao ver essa cena, não teve como Jun ficar sem deixar um suspiro escapar. Ele se perguntava até que ponto alguém poderia ir para conseguir caçoar de outra pessoa? Bem, como se tratava de Chie, conseguia esperar perfeitamente isso dela, porém chegava a ser bastante curioso o contraste dela em momentos descontraídos, como esse, em relação aos sérios.
— De todo o modo, como anda a análise daquela da espada? — Jun perguntou, referindo-se a arma que uma vez foi de sua mãe, de um poder superior as demais e que ele tem a capacidade de usar.
Com a descoberta que aquilo possuía um tipo de trava visível na qual impedia pessoas, além dos Ones com suas auras douradas de utilizar, não poderia ficar quieto. Embora o general tenha a roubado dele na última luta, por sorte Chie tinha a digitalizado quando ficou inconsciente ao usar de uma aceleração dupla para escapar com Rie quando foram emboscados. Isso podia ser algo crucial nas lutas contra as bestas do exterior, tanto quanto, talvez (muito talvez, mesmo), acabar essa desigualdade de poder entre os Zeros e Ones.
— Realmente, tem muitas coisas evidentes além das armas únicas convencionais. — Chie falava com os olhos fechados enquanto balançava o dedo. — Mesmo assim, eu ainda não consegui entender boa parte do que é aquilo.
— Então, qual é o motivo de todo esse orgulho?
— Não é óbvio?! Se isso realmente possui o tipo de trava que falou visível, significa que poderemos ter a possibilidade de construir equipamentos incríveis no futuro! Isso não te empolga, não? Hein, moleque?
Bem, ela é neta de um ferreiro, então acho que faz sentido ficar animada por causa disso, é claro, se também tiver os mesmo interesses que o avô… Mas, deixando isso de lado por um momento, por que ela está me chamando de moleque? Nós temos a mesma idade!
— E também, não precisa ter pressa quanto a isso, pois eu fiz um backup dos dados daquela espada em diversos servidores privados que tenho na internet. E você sabe, né? Uma vez que está na internet, não tem como tirar de lá! — Ela apontava o dedo para Jun, como se quisesse mostrar que estava certa.
— Mesmo assim, não vou desconsiderar a possibilidade de tudo ser apagado repentinamente. E, além disso, isso me soou muito como aquelas tiazonas que acreditam que tudo que está na net é verdade, aliás.
— Não duvide de minhas capacidades, seu fraco.
Tá bom, então eu irei confiar, mesmo com alguns receios.
Ao final dessa fala, mais uma vez em tom provocativo da garota, foi quando uma figura que só observava os jovens distantes, até então, andou até eles. Um homem com cabelos da cor do sangue, na altura dos ombros, usando um sobretudo preto.
O clima entre as duas garotas mudou completamente. A postura descontraída que tinha até pouco então mudou para uma séria, no entanto, Jun permaneceu da mesma forma de antes. Ele estava pouco se importando com quem aquele cara era — podia ser o capitão das forças de ataque, ou seja, lá o que for, mas, para ele, era o pai incompetente que deixou seu filho para trás por longos seis anos. Um ressentimento que ainda persistia dentro dele, por mais que não fizesse mais sentido existir.
— Agora que já resolveram seus assuntos, vamos ao principal. Eu preciso voltar pro trabalho logo — Isamu anda com as mãos nos bolsos, assim, dando a impressão de que estava sob o controle da situação.
Toda aquela pose, de como se fosse um tipo de figura soberana, ou de apenas um líder, irritava Jun profundamente. Ele até se perguntava qual seria a reação das outras pessoas se soubessem que o maior passatempo do seu pai, quando está em casa sem ter o que fazer, era encher a cara? Até chega a ser engraçado que o homem passasse essa imagem na frente dos outros.
— Embora, ainda não tenham chegado todos que gostaria, acho que já posso ir explicando o que sei — O capitão colocava a mão na testa enquanto balançava a cabeça e suspirava.
Entretanto, como se essa última fala fosse algum tipo de premonição, nesse exato instante, uma presença a mais deu as caras. Era um garoto de cabelos prateados, no qual usava o mesmo uniforme da academia deles, porém de uma maneira perfeitamente organizada e impecável. Tratava-se de Mikio Asano, o irmão de Jun e segundo filho de Isamu.
O garoto de cabelos vermelhos, então, notou que Rie instantaneamente assegurou a sua mão com força ao notar aquele indivíduo. Ela, muito provavelmente, temeu que ele pudesse tentar tomar algum tipo de atitude precipitada ao avistá-lo, sendo assim, já garantiu que não saísse de perto dela.
Mesmo me preocupando de que possam ter o seguido para nos atacar mais uma vez, não precisa ter medo. Ainda estou incerto quanto a isso, mas, talvez, ele não seja nosso inimigo… E, de todo o modo, que coisa fofa vindo dela.
— Desculpe o atraso, foi muito complicado chegar até aqui para mim, ainda mais sem que me notassem — disse o Garoto, gesticulando de uma maneira desconfortável.
Naquele evento há uma semana, Mikio lhe ajudou a criar uma oportunidade para resolver o problema. Obviamente, esse garoto deve ter algum tipo de autoridade, pois é considerado o príncipe dos Ones, uma vez que sua mãe nasceu da realeza. Apenas é curioso, que tenham dado um passo atrás para darem esse título a ele, pois no caso do Jun, apenas continuou sendo considerado menos que um plebeu; um Zero. E tudo isso devido à cor de suas auras.
Bem, é de se esperar que sua mãe poderia dar à luz a alguém com um poder de cor dourada, além do prata que ela mesma possuía, pois todos seus parentes e antepassados tinham essa característica. Contudo, ainda era muito complexo para Jun entender o motivo de terem aceitado seu irmão lá na cidade no interior da muralha.
Deveria ter sido parecido com o que acontece para os Ones que nascem entre os Zeros, porém, nunca se importou em saber como isso funcionava. Apenas sabia o que ocorria com o caso contrário, — no passado eram mortos, logo após despertar a capacidade de gerar aura, e, no presente, são enviados para orfanatos em péssimas condições.
— Não… Não, você chegou bem a tempo — O capitão deu uma gaguejada — Já estávamos prestes a falar a respeito daquilo que veio propor. Se possível, já poderia explicar para nós?
Por que ele está falando de um jeito todo formal com o seu próprio filho? Acho que ele não foi assim comigo, foi? De qualquer forma, que sou eu pra julgar… Tentei o ignorar quando nos reencontramos…
— É claro que sim… — Mikio respira fundo antes de continuar — Eu fiz uma proposta que irá permitir que o Jun e a garota, filha dos Koike, possam voltar a frequentar a academia normalmente.
Ei! Ela tem um nome, sabia?
Ao perceber a reação negativa de Jun, Rie gruda nele mais ainda, agora o abraçando pelo braço. Ela possuía uma cara de quem dizia: “Controle-se! Agora não é a hora de ser um idiota!”, algo que o fez temer por sua vida durante um certo instante. Mesmo com alguns receios, estava disposto a ouvir o que seu irmão tinha a falar.
— Posso garantir que fiquem em segurança, portanto que sigam uma condução. Façam parte de um conselho disciplina que vão criar na academia com o nome de elite, junto comigo, para que assim eu consiga ficar perto e garantir que não venham até vocês.
— Elite? Me desculpa, mas não consigo levar a sério algo com esse nome… — Como estranhou esse termo, de certo modo suspeito, Jun tentou contestar, porém, foi impedido de continuar devido a um puxão vindo de Rie. Ela, de fato, estava muito preocupada quanto ao que ele pudesse fazer, por mais que na realidade não tivesse quaisquer intenções hostis.
— É claro que não! Eu estou falando sério! — Mikio parecia ter se sentido provocado por Jun — Bem, por mais que eu não goste desse nome que escolheram… Mas, de todo o modo, me deixe explicar. Será um grupo de estudantes, misturando Zeros e Ones, nos quais ficarão responsáveis de supervisionar as turmas que agora passarão a ser mistas, como também ganharão alguns benefícios ao fazer missões em particular para o colégio.
Pera aí… Vão misturar as turmas de Zeros e Ones? Qual é a lógica nisso? Querem causar uma guerra civil?!
— Qual é o motivo dessa decisão? Isso não é algo um tanto contraditório, não? — Rie parecia ter ficado extremamente confusa com essa informação. Ela não estava sozinha com isso, pois Jun, também.
— Como os Ones estavam tendo uma performance acadêmica menor e, também por não aceitarem que fossem piores que os Zeros, tomaram essa decisão. Sem falar os professores designados, frequentemente davam queixas por não quererem frequentar essas instituições para dar aulas a pessoas de classes baixas.
Jun estava ciente que existiam níveis sociais naquela sociedade dourada, justamente por saber que os em níveis mais baixos eram obrigados a frequentar a mesma escola. Entretanto, ainda continuavam a não se misturarem com indivíduos como ele, recebendo tudo quase que de forma particular. É curioso que isso tenha entrado em conflito e também muito estranho, pois, na teoria, não era para eles estarem sob uma igualdade absoluta?
— Tá, mas fazermos parte dessa tal elite, não faria termos mais atenção, não? — Jun, sem perder tempo, rapidamente referiu-se ao óbvio furo nessa proposta de Mikio.
— Não importa. Vocês vão estar sobre a minha proteção, portanto qualquer coisa que fizerem contra vocês será o mesmo que atacar diretamente a família real.
— Mesmo assim, depois de todo o caos que a gente causou, não acho que vão nos ver muito bem de jeito ou de outro.
— Isso é algo que vocês vão ter que lidar, mas garanto que os ataque vão para de uma vez, ao menos.
Nesse instante, repentinamente, Chie parou na frente dos dois, ajeitou a boina, elevou a voz e falou convencidamente:
— Bem, agora que isso já está resolvido, vamos para o assunto principal. Eu vou ensinar vocês dois a utilizarem magia elemental.
— Ué? Mas por que você decidiu isso do nada? — Rie faz a pergunta.
— Nós descobrimos que aquele meio que Jun usa para duplicar a própria habilidade é capaz de eliminar os danos que se foram ao redor do núcleo de aura, sendo assim vou ensinar magia de conjuração para vocês. Desse modo será capaz de desenvolver essa técnica completamente para algo seguro sem ter que ficar testando ela dentro de si e, portanto sendo mais rápido.
Chie estende sua mão e uma energia de cor verde água fluiu até a ponta de seus dedos, girou, se entrelaçou e permaneceu a jorrar no formato de uma chama. Um truque que até mesmo Jun consegue fazer, em que sabia perfeitamente que aquilo era apenas o poder puro sem nada a mais.
— Aqui vocês veem minha aura na cor normal. Porém, agora vou aplicar o elemento de água nela.
As linhas, na quais pareciam fitas girando como uma broca em espiral, começaram a ter seu formato alterado, assim, se parecendo mais com um líquido fluido. E assim, o tom daquilo tornou-se mais puxado para um ciano.
— E isso aqui é uma aura elemental. Não parece que mudei para uma totalmente diferente, hein? — Chie parecia realmente orgulhosa com o que tinha feito.
— Bem, como a gente viu mudando, dá pra perceber que é a mesma. — Jun olhava aquilo com uma cara de análise.
Nesse instante, o capitão andou lentamente até Chie e fechou a palma dela com a sua mão e desse modo, a absurda chama feita de água se apagou. O homem ajeita a postura e assim fala para o casal:
— Agora que tudo foi explicado, a partir dessa tarde de sexta, até segunda de manhã eu espero que vocês já tenham aprendido isso. Será muito bom que quando começarem a participar dessa suposta elite já tenham essa habilidade, pois irá aumentar a força de vocês consideravelmente, também.
— Não se preocupem, eu já farei vocês conseguirem fazer o básico hoje — exclamou Chie, mais uma vez mostrando estar toda convencida de si.
— E já que tudo está decidido, vou voltar ao trabalho — falou Isamu partindo em retirada.
Entretanto, Jun não podia permitir que isso acontecesse sem mais nem menos. Portanto, pediu para que Rie o soltasse e foi até seu pai. O agarrou pelo braço, puxou de volta para trás e com um pontapé na sequência, disse:
— Você não vê o Mikio a anos e nem vai, ao menos, abraçar o seu filho? Hein, seu pinguço?!
Após o som dessa ameaça, o capitão então andou até seu segundo filho. Parou na frente dele e lhe deu um grande abraço. Na cabeça de Jun, ele sequer podia imaginar o que seu pai e, até mesmo seu irmão, poderiam estar pensando agora. Estavam distantes o suficiente para sequer escutar o que falavam. Não tinha certeza se isso poderia significar algo no futuro, mas acreditaria que talvez. Por hora, daria esse momento para os dois.
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