Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 1 – Arco 1: União

Capítulo 6.5: Mesmo incapaz

Ele segura a mão da garota de cabelos brancos gentilmente. Em um olhar cansado, o brilho azulado de sua aura ainda a envolve. Um alívio por ter chegado a tempo toma Jun, porém a postura abalada da garota o toca profundamente. Era como se toda a determinação dentro dela tivesse sido roubada.

Eu sou realmente patético...

Se não fosse pelo ataque em conjunto com seu amigo, jamais teria conseguido chegar a tempo. Entretanto, agora estava sozinho. Atrás dele, Seiji se juntava a Chie em uma luta incessante contra um exército de armaduras escuras, sem perspectiva de se reunirem outra vez.

No momento, não há outra escolha além de encarar o inimigo diante de si. Portanto, assume a postura de batalha e aponta sua espada para ele.

— Então decidiu se sacrificar para salvar a vida da namoradinha? — provoca o general em um tom de deboche.

— Culpe o major por escolher ir embora, ao invés de cumprir com seu trabalho propriamente.

Falar esse último comentário de forma isolada não adiantaria de nada. O fato de que foi um idiota ao cair no plano daquele homem era algo imutável.

— Não se meta em uma luta que não é sua. Você não tem motivo algum para me enfrentar — comenta Renji, com um ar de soberba.

— É aí que você se engana, pois eu tenho, e de sobra!

Desde aquele dia em que o destino de um amigo poderia ter sido mudado caso ele decidisse agir completamente. Por causa do final que a irmã de consideração sofreu devido a esse fato. A partir daquele momento, ele jurou para si mesmo que jamais seria assim outra vez.

— Ter a possibilidade de salvar alguém e, mesmo assim, não o fazer é o tipo de atitude mais lamentável que alguém pode ter! Portanto, não me interessa qual seja a ligação que você tem com ela, eu irei lutar para proteger quem eu amo!

— É mesmo? — Renji zomba. — Então pare de se achar capaz. Para mim, você não passa de um moleque privilegiado que acredita ter mérito de algo.

— Você é desprezível! Julga as pessoas pela forma como nasceram e as descarta quando não prestam para você, como se fosse superior!

— Parece que a carapuça serviu. Mas essa é a verdade, então a engula.

Ser criada para seguir um modelo perfeito e, então, abandonada quando não cumpre essa expectativa. Ter seu destino arrancado de si, sendo obrigada a encarar um fim irrefutável. Restando apenas um mísero desejo: ser notada, alcançar alguém na esperança de que alguma coisa não tenha sido em vão.

Hesitar, fraquejar, se culpar, se lamentar... Essa é a última vez.

Para esse garoto que teve tudo tirado de si e que sempre precisou fugir, perante essa garota que também só lhe restou o nada, proibida de lutar pelo que deseja, ele seria aquele que tornaria esse futuro improvável possível. É por isso que enfrentaria essa pessoa que remove os sonhos dos outros.

— É por isso que eu vou mudar este mundo. Vou mudar para que ninguém mais arranque os desejos dos outros, como você! — declara Jun, com seus olhos imbuídos por um prata incandescente.

— E quem você pensa que é para fazer isso? — O general dá um passo à frente e bate o escudo no chão com força.

— O único! Não o que vocês, Ones, dizem ser, mas o de verdade.

Perante essa última fala de Jun, a garota anda e para ao seu lado, apontando sua espada quebrada. Ele a encara com insegurança; contudo, recebe de volta um olhar decidido e confiante.

— Agora é a hora de me provar se aquelas suas palavras para mim irão se tornar uma verdade ou não. — Uma feição nunca vista antes em Rie é direcionada para o jovem.

Apenas com esse simples gesto, agora já está certo do que deve ser feito. Sendo assim, ele parte ao lado dela perante essa figura que, desde o passado, tenta apagar tudo que há em si, no presente a acompanhando como o reflexo de um futuro que está para se construir.

Esse é um inimigo que não podem vencer, mesmo assim, irão tornar esse impossível em possível.

Ele ergue a lâmina da cor da noite à frente, com o olhar fixo, e canaliza uma energia prateada que a envolve. Em um piscar de olhos, ele dispara em um dash feroz, com o fio cortando o ar em direção ao homem. Renji bloqueia o ataque, mas Jun avança e não deixa que o impacto o detenha.

Rie, afastada, manipula sua aura e a usa para influenciar Jun, estimulando-o. Com o que restou de sua lâmina, dispara rajadas de energia que se propagam como lanças e golpeiam o homem, dificultando sua mobilidade. Ela controla o movimento e o usa para chicotear o inimigo, utilizando a técnica de replicar o mesmo ataque em sequência múltiplas vezes.

Usando movimentos rápidos e precisos, ele desfere cortes contínuos na armadura dourada, buscando romper sua defesa, fortalecida pela aura. Cada impacto explode em faíscas e fragmentos, enquanto Renji mantém a guarda firme, sustentando o ritmo implacável.

Jun avança sem hesitar. Seus olhos brilham ao explorar cada pequena abertura, levando a espada ao limite. Ele desfere um golpe vertical, canalizando energia em um arco que atinge o peito do cavaleiro. A aura prateada estilhaça em mil fragmentos no impacto.

Contudo, a armadura intacta resiste aos ataques, enquanto Jun se move incessantemente. Ele salta para a parede próxima, e o homem tenta reagir, mas Rie faz espinhos crescerem do solo na tentativa de empalá-lo desenfreadamente. Enquanto isso, o ruivo usa o impulso da superfície vertical para retornar ao combate e traça linhas de prata no ar. Gira no eixo, liberando ondas de energia que cortam o espaço ao redor, até que rastros luminosos preenchem o cenário.

As espadas colidem em um frenesi vertiginoso. As auras se misturam, partículas de energia dançam como poeira brilhante. O coração de Jun dispara, mas ele acelera, ultrapassando os próprios limites, decidido a evitar a trapaça que drena sua vitalidade.

Rie pode não estar atuando diretamente, mas só o suporte dela já é o bastante. Ela faz as estalagmites crescerem e seus estilhaços quebrados voarem como chuva de facas, enquanto suas rajadas de energia atuam em sincronia com Jun.

O vínculo do casal se torna mais forte a cada instante, fazendo-os atuar em uma união absoluta. A partir desse momento, o general não tinha a menor chance.

A garota, canalizando todas as suas forças, cria uma rajada imensa, solidificando sua aura uma última vez. Ela cai de joelhos, exausta, porém esse simples ato foi suficiente para desestabilizar o inimigo completamente ao receber um golpe em cheio nas costas, enquanto Jun é impulsionado pelo poder dela.

Ele dá um salto poderoso que o faz subir além dos prédios, cortando o ar, até que seu pé toque o céu — ou, na verdade, o domo que aprisiona a cidade. Ele sente a resistência invisível, mas a empurra com todas as suas forças.

Sua energia explode, quebrando o vidro em um estrondo devastador, enquanto cai como um cometa, apontando a lâmina imbuída de prata, que deixa sua cauda para trás. Ele despenca em direção a Renji, aproveitando-se da gravidade para ir além de qualquer barreira e intensificar o impacto.

O rastro prateado de Jun risca o mundo enquanto ele mergulha, caindo como uma força da natureza que se cristaliza, partindo-se em meio ao impacto. A terra estremece, e a onda de choque se espalha pelo ambiente, lançando poeira e detritos para todos os lados. Contudo, quando recupera sua visão do espadachim ao redor, um calafrio o atinge de vez.

Renji se estabiliza, mantendo-se firme e, de braço erguido, bloqueia o ataque como se fosse nada.

— Ser destrutivo não é o mesmo que ser forte — diz o homem, logo na sequência, arrancando a espada da mão de Jun à força e arremessando-o para trás com brutalidade com a ponta do escudo.

Jun voa pela cidade de modo que a espada escapa de sua mão e rodopia antes de cair com um som seco no chão ao lado dele. Ofegante, ele tenta se erguer, mas Renji já o encara, sua sombra sobre ele como um presságio.

O general avança lentamente com a espada apanhada. Ele a segura, inspecionando-a como um troféu. De joelhos, Jun apenas o observa com uma expressão abatida, enquanto o inimigo se ergue vitorioso com a herança que recebeu de sua mãe cintilando em sua mão.

Entretanto, ele sequer tem tempo de se lamentar pela perda da arma.

Em uma rajada assustadora, Renji ergue sua espada decorada a ouro em um salto estrondoso. A imagem da lâmina perante ele expressa um tamanho imenso, prestes a esmagá-lo.

É quando ele percebe um raio de luz tocando sua pele. Diante dessa visão de seu fim iminente, entre as sombras, nota um vislumbre do céu estrelado através do buraco no domo. Foi apenas um instante de liberdade e imensidão antes que a abertura se fechasse novamente. Seus olhos mal conseguem processar direito o que avistou, contudo, aquilo lhe toca de alguma forma.

Jun move a mão para a cintura e saca a adaga, daquela mesma forma da rápida imagem. Um objeto mais fraco e simples do que o anterior, porém sua última alternativa, que não é mais uma herança. No entanto, a materialização de seu real eu.

Com um movimento rápido e suave, ele ergue a lâmina, sacando-a em meio à sua ativação. Seu movimento se desloca com um reflexo e, então, bloqueia o ataque de Renji no último segundo. O impacto ressoa com uma força brutal, e seus olhos apenas encontram o cavaleiro, sem qualquer brilho o imbuindo, mas agora com sua aura completamente prateada.

— Eu não vou desistir! — declara, com a voz firme.

Uma cratera começa a se formar abaixo dele em meio à disputa de força. As auras prateada e dourada, então, entram em um embate para ver quem vai resistir.

Em uma fração de segundos, Renji o golpeia com o escudo, acertando Jun no estômago com força esmagadora. Sangue jorra de sua boca, e o general, em um salto, cai por cima dele, esmagando-o com a barreira e arremessando-o de volta ao solo. O impacto cria uma cratera no chão que se expande continuamente. Jun é empurrado e sente o corpo começar a ceder enquanto a terra se rompe.

Ele avança de forma avassaladora, a uma distância cada vez maior, quando, de repente, começa a cair freneticamente.

Descontrolado, ele despenca em direção à cidade subterrânea. Seu corpo atinge a borda de uma das ilhas flutuantes, batendo contra o solo com violência, atravessando-o em uma explosão até afundar na água luminosa abaixo, em um jato feroz. O brilho azul o envolve como uma última memória de sua luta.

 

* * *

 

Jun afunda lentamente no lago banhado de magia. A luz ao seu redor é intensa e calorosa, mas dentro dele tudo parece frio. Completamente vazio. Ele sente o peso de cada derrota, de cada momento que se escondeu do mundo, de todos os sacrifícios e pecado feitos que nunca poderá se redimir. 

Desde ter deixado Hiro morrer, por ser responsável do fim que Aimi sofreu... e até mesmo agora que almeja salvar Rie. Cada nome carrega uma dor, e ele se afoga nela junto da água que envolve seu corpo.

No fim, você só usou o destino trágico dessa garota como um motivo para fugir da própria dor… Não é porque você realmente ama ela. Seu falso! Eu te odeio!

Esconder-se, fingir ser quem não é, viver conforme as expectativas dos outros... tudo isso apenas para sobreviver. Sempre teve que reprimir o próprio poder, e todas às vezes que o usou, só trouxe tragédias para quem estava por perto. Talvez esse seja o destino que merece: pagar por uma existência tão egoísta.

De que valeu toda a destruição que acabou de causar? Agora está afogado em sua própria arrogância. Eliminou inúmeros soldados, pessoas que também tinham sonhos e famílias, tudo para alcançar o que deseja. Até aqueles que ama foram arrastados para uma luta que nem era deles. Está mesmo disposto a enfrentar qualquer consequência para alcançar o objetivo que tanto almeja? No momento, suas palavras parecem apenas vazias, ditas por impulso.

Eu queria mesmo salvar ela. Queria passar mais tempo ao lado dessa garota, ficar mais próximo e construir algo, mas… afinal esses sentimentos realmente são reais, ou só uma desculpa? Eu consigo amar alguém?

Mas agora, debaixo d’água sucumbindo lentamente sozinho, no fundo ele ainda sabe o que verdadeiramente deseja. O que seu coração inseguro diz para esse seu eu perdido. Jun quer algo diferente. 

Eu quero viver, mais e mais do que nunca. Quero mudar este mundo, para não tirarem ninguém de mim.

Jun estende a mão na água e sente ao cabo frio de sua espada. 

Eu ainda não cheguei no meu limite.

 Com determinação, seus dedos se fecham ao redor da espada. E então, algo desperta. Toda a sua magia prateada percorre pelo corpo em uma corrente que se intensifica, o abraça e então se réplica.

Ele ativa a aceleração dupla e seu ser é envolvido por uma explosão de energia. A água ao redor é expulsa em um turbilhão, e Jun emerge num salto intenso, rompendo a superfície em uma tempestade de luz.

Ao longe avista o general sumindo em uma torre de gelo que cria abaixo de seus pés para retornar de onde caiu. E em um movimento fluido, Jun projeta sua aura e se lança em direção ao homem. A velocidade o leva para o alto, cortando o ar enquanto o inimigo o percebe com uma face assustada.

— Ainda não acabou! — exclama o garoto direcionando um olhar feroz, com suas ires prateadas imbuídas por um brilho intenso.

Jun se aproxima e desfere um golpe, o impacto brutal que rasga o gelo em uma corrente, dissipando-o em uma onda de vapor. A espada se torna incandescente e estoca o peito da armadura que causa uma onda de impacto avassaladora e arremessa Renji com brutalidade contra o teto. Ele dá uma segunda arrancada e carregando o oponente rasga com ele as rochas acima em uma trilha.  Então, num instante eles retornam à superfície.

Contudo o local é diferente de antes, então no meio de uma cidade que brilha com uma majestade opulenta. Seus edifícios e construções feitos de mármore branco, perfeitamente polidos e detalhes decorados em ouro. A vegetação é escassa, porém tudo é feito de uma arquitetura de ponta, com o visual mais chique possível.

Jun não tem tempo para apreciar o cenário, mas sabe que está no meio do lar dos Ones. Ele encara Renji, e o homem limpa o rastro de sangue da boca que escorreu após sofrer esse último ataque. Sua energia não vai mais se descontrolar e seu núcleo sofrer danos, mas seu corpo ainda vai se desgastar até que não resista mais mesmo se curando sem parar, portanto precisa ser rápido a partir desse instante.

— Não é possível! Sua energia não acaba nunca!? — grita Renji que ergue a espada e o escudo.

Com a aceleração normal, eu poderia ficar por um tempo quase ilimitado a usando sem parar, mas com isso devo me cansar logo… Portanto, tenho que ser rápido!

Eles avançam um contra o outro. Jun, sob essa duplicação, move-se em uma dança frenética. Sua agilidade é estimulada além de todos os limites. E, em uma única rajada, que faz linhas cintilantes jorrarem,

ele dilacera todos os obstáculos que vêm em seu encontro. As magias que se aproximam se desfazem ao tocá-lo, e os ataques físicos apenas acertam o ar de forma lamentável, abrindo brechas para contra-ataques. Rasgos incandescentes são desenhados na armadura, e o metal é amassado.

O chão se desfaz em blocos e fragmentos com cada ataque do general. No entanto, movendo-se apenas pelo instinto, Jun salta, desvia, pisa neles para se locomover e, em um giro rápido, balança os braços, projetando um ar massivo que despedaça tudo à frente, enquanto a lâmina continua a jorrar um jato de energia.

A espada de Jun corta o ar em múltiplos ataques, e um rastro prateado ilumina cada golpe. Renji bloqueia com o escudo, mas a força dos ataques cria rachaduras na superfície da barreira que o protege. Faíscas e cacos de energia se espalham em meio a clarões que relampejam, fazendo o mundo ao redor tremer.

Renji recua, mas contra-ataca com uma rajada de gelo. Jun salta, rodopiando no ar, e corta o ataque em pleno voo, desviando e aterrissando com uma graça quase sobre-humana. O impacto espalha ondas de energia que ecoam pela cidade dourada, destruindo pilares e escombros em todas as direções.

E Jun continua a acelerar. Locomove-se de um lado para o outro, dá chutes e pontapés, ao mesmo tempo que reverte ataques com sua lâmina, enquanto sua imagem residual é deixada para trás. Um vendaval de cortes reluzentes avassala o inimigo, deixando mais marcas no metal dourado que o cobre, até que, repentinamente, todo o torso se fragmenta em milhares de estilhaços e expõe a malha preta de algodão que cobre a pele.

— Como alguém que saí destruindo tudo ao redor, que sequer sabe como cumprir a área de impacto de seus ataques, acha que pode fazer algo?! — Renji ruge e investe com o escudo.

Ele se refere a uma habilidade essencial para o uso de golpes com a aura que Jun não sabe. Consiste em canalizar a energia de modo que não reflita danos na área ao redor, podendo destruir o cenário ou acertar aliados e inocentes, mas seja direcionada completamente ao alvo sem que haja desperdícios.

Contudo, nesse caso é inútil, pois, sendo destrutível ou não, pela segunda vez, a tão inabalável proteção metálica foi estourada em um líquido ardente diante de um único ataque diante dos olhos supressos do general.

As espadas entram em um embate frenético, e a terra ao redor treme. Linhas de energia prateada e dourada se entrelaçam em uma dança feroz e se espalham de forma avassaladora. O som de metal se chocando ecoa, e faíscas voam entre ondas de impactos que golpeiam o cenário ao redor, destruindo os vidros dos prédios. Todavia, a velocidade do garoto continua a aumentar.

Movendo seus pés em um ritmo harmônico, Jun vai se esquivando e intensificando a fúria do homem, que passa a fazer ações mais bruscas. Ele agacha, dá pulos e rodopios que o fazem escapar da área de ataque do homem, que apenas acerta o nada, enquanto cortes são descarregados contra ele, sem que possa reagir. E isso se repete quando bloqueia as investidas, aparando-as, seja de frente ou até de costas.

Mesmo sem armadura, a defesa do general ainda é forte. Não é à toa que tenha chegado a tal patente, porém isso não o livra de ser morto por Jun no próximo instante.

Tomado por partículas prateadas ardentes, ele dá início. Com arrancadas que ultrapassam a barreira do som, ele parte a realidade por onde cruza, entre rajadas poderosas, movendo-se por todas as direções e desgarrando ataques potencializados no inimigo.

O homem é arremessado por toda a cidade dourada, e Jun não para de investir. Ele acelera mais e mais. Trilhas flamejantes de destruição são deixadas no solo, enquanto rombos são criados nos prédios que usa para se impulsionar simultaneamente. A espada de cor noturna fatia o que toca, em uma tormenta de arcos, e avança progressivamente.

E assim, a muralha que divide duas realidades é atravessada em um impacto que ressoa de forma estrondosa.

Bruscamente, o general, com o corpo tomado por cortes que não se abalam, faz uma explosão de inúmeros cristais de gelo disparados à sua volta. Jun sente o cansaço pesar, contudo, isso ainda não é nada. Entre os estragos feitos no ambiente, ele fecha seus olhos e deixa seus instintos o guiarem.

Ele corre e salta entre blocos de pedra que se soltam do chão destruído, se apoia com a mão vazia, desvia entre escombros e pula de um fragmento para outro, enquanto corta o ar ao redor. Renji, em desespero, lança uma muralha de gelo para bloquear o caminho, mas é quando Jun revela suas íris intensas e a atravessa com a espada, em um estouro que se espalha em uma corrente.

É agora ou nunca! Eu vou ser como a luz!

O jovem dá uma arrancada de aura e um estrondo faz tudo ao de redor de propagar numa rajada. Aponta sua lâmina e com um movimento em linear lança uma sequência de estocadas. Uma chuva de estrelas cadentes metralha Renji que voa de forma avassaladora.

Contudo Jun continua indo atrás. Movendo-se como a própria luz, toda vez que o inimigo se afasta ele vai ao seu encontro outra vez e repete o ataque cada vez mais rápido. O garoto não para de acelerar.

— Seu maldito! — grita o general em meio ar, instantes de se chocar contra a superfície em uma explosão feroz.

Suavemente, o espadachim de cabelos vermelhos aterrissa. Sua respiração está pesada, sua visão começando a ficar turva e sentindo que está prestes a perder o equilíbrio a qualquer instante. Nessa condição não lhe resta outra alternativa além de dissipar a habilidade que causa um desgaste maciço em seu corpo antes que o pior aconteça.

E é quando repara no cenário ao seu redor. Ele deu toda uma volta e então conseguiu retornar para o ponto inicial da batalha com o prédio abandonado que possuí uma abertura, onde Rie, Chie e Seiji continuam lutando contra o restante daqueles soldados intermináveis. Por um momento Jun se sente aliviado.

Entretanto, foi só uma questão de segundos para que um grande arrepio o atinja de vez, o deixando desacreditado. Adiante de si, erguendo-se entre escombros, o general surge outra vez, ainda inabalável, apesar de todos os machucados em seu corpo.

Não… Isso não é possível…

Como se tudo o que fez até então foi em vão, o homem avança até ele lentamente. O garoto assegura com força o cabo de sua espada e então a aponta para ele em uma postura de batalha. Até que ponto Jun consegue aguentar nessa luta? Não faz a menor ideia, mas vai continuar mesmo que não tenha mais energia.

Entretanto, antes que a batalha possa continuar, uma figura inesperada surge.

Invadindo esse cenário, um homem de cabelos longos da cor do vinho que veste um sobretudo preto que carrega consigo uma longa espada curva, dá as caras. Ele anda até o cavaleiro e então diz as seguintes palavras:

— Nós precisamos conversar, vosso comandante do exército.

— Quem diabos é você? Saia da minha frente!

O cavaleiro brande sua espada que cortando a lateral do rosto do capitão, mas no mesmo instante se cura. E então, num piscar de olhos, ecoa um estrondo que faz os ouvidos de todos serem invadidos por um zumbido durante um breve instante e chamar a atenção de qualquer um de modo que os conflitos na volta parem. Toda a atenção é direcionada para essa cena. O fio da lâmina de Isamu Asano ameaça de atravessar o pescoço do outro.

— Eu sou o capitão das forças de ataque. Alguém com influência o bastante para iniciar uma guerra entre nações com poucas palavras.

— Não me venha com blefes. — Renji diz em um tom sarcástico. — Você só pode estar louco em insinuar algo assim.

— Se eu fosse você, não duvidaria disso.

No segundo em que o general começa a movimentar seus músculos para reagir, Isamu concentra sua aura na lâmina. Mesmo que o corte não esteja tocando, somente a energia ao redor já começa a queimar o pescoço daquele cara. E o indivíduo de sobretudo permanece sem expressar nenhuma reação perante o outro.

— Bem, só eu quero que você ordene que seus soldados se retirem e a partir de hoje nos deixem em paz de uma vez. Portanto que isso aconteça, jamais irei fazer o que mencionei. Muito simples, não concorda?

— Não se iluda.

Ambos os guerreiros assumem posições de combate. A energia vibra ao redor de suas lâminas e lança um brilho cortante no ar. O olhar de Jun permanece fixo, frio e concentrado, carregado de insegurança de quem anseia algo trágico e inevitável, no qual agora foge de seu controle.

A tensão domina o campo, suspensa no ar como uma tempestade à beira de explodir — até que uma sombra interrompe o embate. De passos firmes, uma figura surge com olhos de um dourado que varrem a atmosfera: Mikio. Seus cabelos prateados e o uniforme escolar com detalhes em ouro se agitam suavemente, e ele avança trazendo consigo um ar de autoridade implacável.

Parando entre todos, ele lança as seguintes palavras que jamais se esperaria saírem da boca dele:

— Como príncipe dos Ones, ordeno que obedeça o que ele disse. Retire suas tropas agora ou vou dissolver o exército atual e esmagar qualquer resquício de resistência contra a vontade da família real.

A cena congela com as lâminas imóveis no ar, como se o tempo aguardasse a reação diante da autoridade de Mikio.

 

* * *

 

Horas depois de toda a batalha anterior, o sol emerge no horizonte tingindo o céu com uma luz tênue e quase reverente. Rie está na beira do terraço, entoando uma melodia que ecoa suavemente pela quietude ao redor, misturando-se à brisa da manhã. Jun a observa em silêncio, perdido nos próprios pensamentos sobre o tumulto recente. 

Em sua mente, os eventos do dia anterior recomeçam como um filme interminável; ele tenta — ainda que inutilmente — imaginar maneiras de reverter o que já aconteceu. Mas, no fundo, ele sabe que o passado agora é imutável.

Ele se permite esquecer um pouco das dúvidas e observar apenas Rie, a voz dela vibrando e preenchendo o espaço com um leve conforto. Ela parece quase etérea sob a luz, seus cabelos brancos flutuando suavemente ao sabor do vento.

Rie interrompe a melodia e vira-se para ele, a surpresa em seu rosto ao vê-lo ali a observando.

— Há quanto tempo você está aí? — pergunta ela, a voz com uma nota de curiosidade.

 Tempo suficiente para ouvir você cantar — ele responde, dando um passo à frente, a cabeça ainda cheia de pensamentos sobre o caos e as mudanças que se aproximam.

Rie dá um sorriso provocador e caminha até ele.

— De todo modo, isso é bom. Tem algo que eu queria falar com você — diz ela com uma leveza que contrasta com o peso dos eventos recentes.

Quando ela se aproxima, Jun sente o coração acelerar. Ela para a um passo dele, tão próxima que ele quase recua, pego de surpresa pela intensidade de sua presença.

— Nós deixamos um assunto inacabado no outro dia. — Ela afirma, inclinando-se ligeiramente, com os olhos fixos nos dele.

— É mesmo? Eu não tô lembrando… — reflete o garoto, pensativo em uma pose de questionamento.

— Sabe, antes dos soldados nos atacarem quando saímos da escola…

— É mesmo, eu deixei que rasgassem o cachecol que você me deu, desculpa.

— Bem, não era isso, mas agora que você falou também ser serve como motivo! — Ela aponta o dedo. — E também, você está me devendo algo desde aquele momento — responde Rie com a expressão determinada de sempre. — Exijo uma compensação e uma conclusão!

Jun sente o calor subir ao rosto e, por um instante, hesita. No fundo ainda é um garoto de dezoito anos, inexperiente e cheio de dúvidas quanto como deve se comportar nesse tipo de relacionamento. Mas ao vê-la ali, tão próxima e determinada, ele decide se seguir adiante sem mais hesitações. Ele estende a mão direita e tocando o rosto dela com suavidade, e a outra mão desliza até sua cintura puxando-a para perto. 

Ela não recua; pelo contrário, aproxima-se ainda mais. Ele sente o coração dela batendo rápido, como o seu. E então a beija, um beijo breve, mas que ecoa para além do momento, uma faísca que parece durar uma eternidade.

Quando ele se afasta, Rie está com o rosto corado com o olhar em um misto de surpresa e contentamento. Ela solta uma risada leve, quase inaudível.

— Eu... Não esperava que você fosse realmente fazer isso agora... — Ela murmura, com as mãos trêmulas.

— Eu disse para não me subestimar naquela vez — diz ele, tentando suavizar o momento com humor.

— É mesmo? — Ela comenta inocentemente, antes de surpreendê-lo ao passar os braços ao redor de seu pescoço e trazê-lo para um beijo mais longo, desta vez sem pressa.

Eles ficam ali, juntos enquanto o sol ascende e a cidade aos poucos desperta ao redor. Entre vários segundos que levam para chegar a um fim, mas que parecem durar minutos. Milhares de pensamentos borbulhavam por sua cabeça, mas por hora apenas se concentra em sentir o momento.

E quando enfim se afastam, ela sussurra contra no ouvido dele:

— É estranho... enquanto eu me sinto mais feliz do que nunca, uma parte de mim se sente mal por isso.

Jun compreende muito bem o que ela quer dizer. Aliás, mesmo que os dois estejam juntos, Rie permanece sob uma condição que levará ela a um sono sem fim após alguns meses. Portanto, querer estar ao lado de alguém sabendo que logo em seguida o deixará, realmente deve ser algo extremamente torturante. No entanto, embora isso ameace o futuro que mal começaram a construir juntos, ele não acredita que irá acabar desse jeito.

— Não se preocupe. — Ele diz com convicção. — Eu não vou deixar que você se vá. Vou fazer de tudo para que você tenha tempo. Muito mais tempo do que qualquer uma espera e viva até não aguentar mais.

Ela o encara com um olhar de ceticismo misturado com esperança.

— Não quero que faça promessas que não possa cumprir…

Ele a olha diretamente nos olhos, junto de uma intensidade em sua expressão que reflete nas palavras que está para dizer:

— Vou repetir, não estou prometendo nada. Estou dizendo o que eu vou fazer.

Ela permanece em silêncio por um momento, absorvendo as palavras dele até que um sorriso tímido surge em seus lábios.

— Então eu irei acreditar em você — diz ela, e em sua voz há uma sinceridade que ele nunca ouviu antes.

Jun solta um suspiro, sentindo uma determinação inédita em seu coração. Ele não permitiria que esse mundo, cheio de barreiras e injustiças, os separasse. É agora que esse mundo começa a mudar. Pela primeira vez, tem uma certeza inabalável: ele lutará para transformar esse lugar para que Rie possa realizar seus sonhos. Para que a voz dela ecoe além de qualquer limite, além de qualquer destino iminente.

A luz do sol nasce mais forte, e ele se prepara para o que está por vir, certo de que não importa o preço ou a dificuldade. Mesmo que todos se voltem contra ele, que todo o mundo se oponha, Jun está disposto a mudar cada parte disso — para que, no futuro, Rie cante mais alto e mais livre do que jamais imaginou. É a partir de agora que esse mundo começa a mudar.

 

Shelter Blue v.1 — fim

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