Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 1 – Arco 1: União

Capítulo 6.2: Mesmo incapaz

No subterrâneo, onde um brilho cintila entre as pedras que se chocam, um som agudo, semelhante ao de guizos, ecoa pelo ar. No centro de um vasto salão de rochas sustentado por pilastras, um imenso cristal luminoso irradia luz. As diversas pigmentações das cores do arco-íris espalham-se suavemente pelo espaço, criando um cenário hipnotizante.

Ao lado de um poste cercado por ferro forjado negro, um pequeno gato de corpo translúcido, feito de energia branca e olhos brilhantes em tom de azul, passa a pata na cabeça antes de soltar um miado. Rie observa a pequena criatura com um sorriso no rosto, achando-a a coisa mais fofa que já viu, e continua caminhando ao lado de Chie. Ambas carregam pedras de aura, colhidas para reabastecer o estoque do senhor ferreiro.

— E então? Como foi exatamente a reação daquele garoto ao saber? — perguntou Chie.

— Foi muito inesperada. Ele simplesmente ficou… inconformado.

Rie descrevia o momento em que revelou sua condição para Jun. A curiosidade natural de Chie — ou, talvez, seu instinto fofoqueiro — tornava a situação ainda mais interessante para ela. Apesar do desconforto de Rie, parecia que contar a história trazia certo alívio.

Por outro lado, à medida que repassava os acontecimentos na mente, Rie sentia uma vergonha avassaladora que queimava dentro dela. Claro, ela jamais externaria isso para ninguém. O jeito como havia se comportado parecia ridículo aos próprios olhos. Sempre encarou a ideia de correr atrás do que seus sentimentos desejavam como algo cruel e egoísta, temendo colocar falsas esperanças em alguém que, mais cedo ou mais tarde, teria que deixar. Para Rie, isso significava roubar o tempo de outra pessoa apenas para satisfazer seu próprio egoísmo.

No entanto, Jun havia reagido de uma forma completamente diferente do que ela esperava. Em vez de se abalar ou encontrar um motivo para se afastar dela, ele tomou uma atitude que parecia saída diretamente de suas fantasias mais íntimas.

Ouvir de alguém que ela não iria desaparecer… Era algo que Rie sonhava ouvir há tanto tempo. Saber que Jun queria que ela continuasse viva abalou suas defesas e a fez desabar no instante em que ele disse. Até então, ela acreditava não merecer algo assim. Perdeu as contas de quantas vezes ouviu que não prestava, e tudo ao seu redor parecia confirmar essa crença. Mas então veio aquela confissão…

— Ahhh… Eu ainda não consigo acreditar no que aconteceu… — Rie fechou os olhos com força, sentindo um arrepio percorrer o corpo enquanto revivia o momento.

— Você é uma idiota completa — disparou Chie. — Devia se valorizar mais. Ainda bem que ele soube fazer alguma coisa antes.

— Ei!? Eu só estava tentando ser realista, tá? — rebateu Rie, defensiva.

De repente, Chie parou de andar. Cerrando os punhos, virou-se para encarar Rie com uma expressão indignada, o olhar firme perfurando diretamente os olhos da amiga.

— Isso é pra você perceber o quanto é importante. Caso contrário, ele não teria dito que faria de tudo para mudar seu futuro! Você conseguiu alguém especial pra você, mesmo agindo como uma imbecil… Isso é revoltante!

Por que tudo mundo tá agindo assim comigo nesses últimos dias?

Chie avançou até a frente da garota de cabelos brancos, forçando-a a inclinar-se levemente para trás devido à proximidade. Com uma mão sobre o peito e uma postura confiante, anunciou:

— Quero que saiba que serei eu quem vai encontrar uma cura para você a tempo! Não estudei e nem me tornei uma mestre em magia nesses últimos anos à toa! — A saia de Chie balançava, e as pedras de aura dentro da bolsa que carregava em sua outra mão chocavam-se com pequenos estalos.

— Você não precisa fazer tudo isso por mim… — murmurou Rie, desviando o olhar.

— Sua idiota! Mesmo que você nunca tivesse adquirido essa condição, eu ainda teria trilhado esse mesmo caminho. A família é a coisa mais importante para mim, e você faz parte dela.

Se Chie soubesse da dificuldade de Rie em aceitar e sentir o mesmo, talvez a tivesse batido, ou até chorado. Afinal, Rie sempre se sentiu deslocada, como alguém que não pertencia a lugar algum. Para ela, era apenas um erro, algo que nunca deveria ter existido. Como alguém assim poderia ser digna de ter uma família? Sua própria existência parecia cruel.

Por que eu ainda penso desse jeito? Por que esses pensamentos não saem da minha cabeça? Isso já passou… já deveria ter acabado… Ahhh! Eu sou mesmo uma estúpida.

— E, além disso, não vou parar só porque você pediu! Já cheguei muito longe e estou finalmente perto de fazer algo. Então, só espere! — declarou Chie, com determinação.

A garota de cabelos rosas retirou o celular do bolso, deslizou o dedo pela tela algumas vezes e o mostrou para Rie. Na tela, havia gráficos e imagens complexas, difíceis para ela entender.

— Isso aqui são todas as informações e ilustrações que consegui reunir ao escanear o seu coração. Basicamente, é como se o núcleo dentro dele estivesse se transformando em uma joia bruta, igual a esses cristais.

As pedras na bolsa que elas carregavam eram conhecidas como pedras de aura, minérios criados pela energia do mundo. Grandes concentrações dessa energia, ao se acumularem em um único ponto, solidificavam-se até assumir aquela forma.

— O que causou o despertar precoce do seu poder foi uma explosão de energia que criou um pequeno fragmento sólido ao redor do núcleo. Com o tempo, esse pedaço vai absorvendo energia, quer você a use ou não, até crescer o suficiente para cobrir tudo.

Meu coração vai se fechar ao ponto de não ser diferente de uma pedra? — pensou Rie, sentindo um aperto no peito. Era irônico, mas pensar assim não ajudava a aliviar a situação; só a fazia sentir-se ainda pior consigo mesma.

— Como ninguém tem uma aura idêntica à de outra pessoa, mesmo entre Zeros e Ones, o problema se manifesta de formas diferentes para cada um. Pode levar à morte, ao coma… ou, no seu caso, desenvolver-se lentamente.

A observação de Chie trouxe à tona a contradição dos Ones, que se autoproclamavam uma raça única e igualitária. Na prática, eram tão diferentes quanto qualquer outro, ainda que isso não fosse visível.

— Por essa razão, transplantes de coração não são mais viáveis. Mas há feitiços que curam doenças e danos relacionados a ele. Se for assim, basta criar um feitiço que elimine os fragmentos e deixe o núcleo limpo.

Rie arregalou os olhos, surpresa com a confiança de Chie.

— Você é mesmo incrível. É surpreendente que tenha descoberto tudo isso sozinha.

Chie guardou o celular e soltou um suspiro em resposta à última fala da amiga.

— Essa sua forma de falar, toda desacreditada, como se não houvesse mais solução, me irrita de muitos modos! — disse com um tom levemente debochado. — Você precisa ser mais positiva, garota! Francamente…

As duas voltaram a caminhar em silêncio. Enquanto os passos ecoavam pelo caminho, Rie mergulhava em seus próprios pensamentos, refletindo sobre a postura que vinha assumindo em relação à sua condição. Era torturante encarar a realidade de que, uma vez que seu tempo limite chegasse, poderia simplesmente desaparecer sem aviso.

E se eu apagar de repente, sem nem perceber? Ir dormir uma noite qualquer e nunca mais acordar.

Ela não tinha controle sobre isso, e a imprevisibilidade do momento só tornava tudo mais sufocante. A ideia de estar vivendo sua vida normalmente e, de repente, cair num sono eterno sem chance de despertar era aterrorizante. Mas, por outro lado, abandonar os dias que ainda tinha apenas por temer o futuro era igualmente angustiante.

Rie ergueu o olhar, tentando afastar os pensamentos sombrios.

— Ei, Chie? Muito obrigada por tudo, até agora…

 

* * *

 

Desde o dia em que o namoro dos dois iniciou, independente da forma dramática que foi, eles só voltaram a se encontrar no começo da semana seguinte. Embora a festa só vá ocorrer no início do próximo ano, o casal se reuniu no estádio da escola para treinar juntos — fazer as preparações para as disputas e aprender a forma de lutar de cada um, para que assim conseguissem elaborar boas estratégias nos combates.

A esgrima dele é limitada quando se trata de usar uma espada de um tipo diferente do qual está acostumado. Contudo, graças à aceleração, Jun consegue se virar muito bem em diversas situações, mesmo que não tenha técnica com o equipamento que utiliza.

Rie tenta ensinar o que sabe para ele, uma vez que o aprendizado que teve durante a infância foi consideravelmente mais elaborado do que o do garoto. A princípio, imaginou que seria bastante complicado ajudá-lo a sair da zona de conforto, porém, para sua surpresa, Jun está desenvolvendo tudo numa velocidade surreal.

Então quer dizer que a aceleração torna o raciocínio dele mais rápido e assim ele tem mais facilidade para aprender? Isso não é justo...

Entretanto, em compensação, Jun possui uma experiência em batalha muito acima da dela. Portanto, conhece táticas e estratégias que ela jamais ouviu falar antes.

— Acho que por hoje está bom. Não quero chegar no orfanato exausta mais tarde.

— Seu frouxo.

O garoto de cabelos vermelhos apenas ignorou a óbvia provocação e ajeitou o cachecol, guardando a espada de madeira na bainha logo em seguida. Rie está contente que, após tanto cobrar, ele finalmente começou a usar o seu presente, embora ainda sinta uma certa culpa ao vê-lo se forçar a vestir aquilo, quando a temperatura já está começando a esquentar. Ainda assim, há momentos em que ela tem que se controlar para não ficar o encarando demais.

— Só esse treinamento de hoje foi muito bom, nunca aprendi tantas coisas de uma vez antes. Bem, mesmo que eu ainda me sinta meio incomodada por talvez estar roubando seu tempo com isso…

— Você é a minha dupla. Não existe ninguém que possa te substituir — disse Jun, praticamente cortando a última fala da garota. — Mesmo sabendo agora da sua condição, isso também não é motivo, embora eu não possa mais te tratar da mesma forma.

Rie não sabe muito bem como reagir perante o que acabara de escutar, porém um pequeno sorriso brotou nos lábios dela. Para ela, tudo ainda é um pouco estranho, pois, desde o começo, sequer imaginou que Jun iria agir da forma como está.

— Se não for muito, eu ainda gostaria que me tratasse como antes.

— Bem, não foi nesse sentido que eu quis dizer no final… Não tem como mais, pois agora a gente está namorando. — Ele desvia o olhar para o lado, numa postura de quem não quer dizer nada.

— Sim… Nós estamos, sim! — Rie fala de forma atrapalhada, em uma afirmação desesperada.

Ela foi pega de surpresa ao escutar aquilo dele. Mesmo assim, com certeza é algo que ela não quer negar de forma alguma, mas apenas não está acostumada. Ainda não lhe caiu a ficha de vez que a relação deles agora avançou para um próximo estágio.

— Eu gosto de você e, portanto, obviamente não quero te deixar. — Jun complementa, agora a encarando diretamente.

Negar que ela está toda boba ao escutar essa fala é impossível. Apesar de não saber como agir ou se comportar por não ter experiência nesse tipo de situação, ela quer ir até o fim. Se fosse perguntar a ela alguns dias atrás, diria que namorar era algo impossível, mesmo com uma vontade muito forte de estar com ele.

Antes, ela provocava ele, porque sabia que não iria dar em nada. Só que, no presente, eles não precisam mais se restringir a isso. Um novo mundo de possibilidades se abriu para ela a partir desse momento.

Quer dizer que eu posso beijá-lo se quiser, né? Aliás, eu tenho que pedir antes ou posso só fazer? Ahhh, o que diabos eu estou pensando…

Por onde ela deve começar agora? É uma questão sobre a qual ela não tem certeza. Significa que podem fazer mais coisas do que antes, como andar de mãos dadas e passar boa parte do tempo bem próximos, sem que isso seja algo esquisito na visão dos outros. É tudo muito novo, mas não muda o fato de que ela está empolgada para o que está por vir.

No entanto, por ora, ela não será capaz de experimentar qualquer coisa. Repentinamente, uma voz que ela não reconhece chega até os dois:

— Eu enfim te encontrei novamente, Jun.

O som veio de um garoto de cabelos prateados e olhos dourados, que vestia o uniforme da escola. Ela rapidamente assume uma postura de confusão ao ver um One se dirigindo a eles. Todavia, Jun, na mesma hora, mostra uma face descontente ao avistá-lo. Um mau pressentimento começa a surgir em seu peito.

E, quanto mais observa, estranhamente nota uma semelhança entre os dois. A forma de se vestir e o penteado são completamente diferentes, mas tanto a altura, o tipo de corpo quanto as feições são muito semelhantes.

— O que você quer, Mikio? — A fala de Jun sai em um tom sério e até mesmo ameaçador.

— Eu preciso falar com você a respeito da espada da nossa mãe, antes que seja tarde demais.

— Não vou entregar ela pra vocês, se é isso que quer. Essa espada é minha por direito e de ninguém mais.

— Não é disso que quero falar. A questão é que você está em perigo se continuar usando isso.

O One dá um passo adiante na direção dele e, no instante seguinte, Jun move seu braço até a espada na cintura e então hesita, pois se recorda de que é uma espada de madeira. Como não estão em uma disputa onde é obrigatório usar armas reais, mas num treino amistoso, deixaram as suas guardadas por segurança.

— Jun! — Rie chama por ele, segurando sua mão.

Apesar de estar confusa e não entender a situação, ela apenas agiu por instinto para impedi-lo de fazer qualquer coisa contra um One. Contudo, logo tem o sentimento de que sua tentativa seria em vão, ao escutar uma segunda voz entrando no ambiente:

— Ora, ora… Sinto muito atrapalhar esse lindo reencontro de família, mas sinto que será necessário que eu tome conta disso, vossa alteza. Já tenho experiência quanto ao lidar com esse moleque.

Andando lentamente entre o ecoar de seus passos, uma figura vai dando as caras. Um homem alto, de longos cabelos dourados e olhos vermelhos, com um tapa-olho no outro. Ele veste um uniforme preto que indica ser de uma alta patente, com ombreiras e detalhes dourados, coberto por uma capa carmesim em um dos lados.

Na hora, ela olha de volta para Jun e o avista com uma feição que a deixa espantada. Seu rosto está tomado por uma fúria intensa, e suas íris, imbuída pela aura de brilho prateado, expressa uma vontade assassina. Foi quando ela associou a imagem daquela pessoa com a que ele lhe contou.

Esse é o homem de quem Jun falou quando lhe contou o que aconteceu com ele na cidade onde morava anteriormente. Aquele que fez coisas terríveis e arruinou toda a vida que ele tinha naquele lugar. Agora, ela consegue deduzir que essa deve ser a roupa usada por um major.

— Chega de conversinha e entregue essa espada, agora. Caso contrário, eu te mato aqui e agora — ameaçou, sacando e apontando um sabre chique para Jun, com sua lâmina tomada por energia dourada.

— Ei! O que você tá fazendo? A minha intenção aqui não é essa! — contesta o garoto de cabelos prateados.

O major ignora a fala do outro e direciona um olhar também tomado pelo mesmo brilho. O coração de Rie congela por uma fração de segundos, mas o tempo suficiente para que ela não consiga agir antes de perceber o cabo de madeira na mão de Jun começar a expelir fumaça.

Usando essa ferramenta de treino, ele faz com que a arma do major seja jogada para o alto num relance, caindo e cravando no chão ao lado deles. Em reação, o objeto, que não foi feito para concentrar a aura, se despedaça em brasas no ar.

— Seu insolente!

De dentro da capa, o major retira uma pistola. No entanto, essa não é feita para disparar projéteis de energia, e sim de metais. Ela se desespera ainda mais, pois foi o mesmo tipo de equipamento que utilizaram para feri-lo outra vez. O instinto dela é o de que precisa fazer urgentemente algo para impedir que Jun seja baleado.

Portanto, ela rapidamente pega o sabre cravado ao seu lado. Corre e coloca-se na frente do outro, movendo seu braço na vertical, desenhando uma linha azul feroz e cortando o objeto de ferro ao meio. Ela gira seu corpo e para, com a ponta da lâmina, apontada a poucos milímetros do pescoço do major.

— Sai daqui! — Rie grita, com seus olhos preenchidos pelo poder azul.

— O… O quê!? — O homem apenas se demonstra surpreso.

É quando um segundo grito interrompe a situação:

— Já basta! — exclama o One de uniforme escolar, utilizando uma espada longa para partir a que Rie empunha em duas. — Eu peço que o major se retire daqui imediatamente. É uma ordem!

Sem ao menos contestar, o homem apenas abaixa a cabeça e lentamente se vai do estádio, com uma cara inconformada. O garoto olha para Rie e Jun, transforma sua arma em adaga e a guarda na bainha. Se vira e fala:

— Mais tarde eu volto para resolver esse assunto com você. Agora, tenho uma dor de cabeça a mais para lidar.

Na sequência, ele vai embora e deixa os dois no lugar, sem brecha para reação. Apenas ficaram observando o rasgo deixado no chão por aquele ataque de energia simplório, aparentemente.

 

* * *

 

Após o último ocorrido, os dois fizeram questão de estar com suas espadas. Aliás, como o major Noburo deu as caras novamente, Jun acredita que ele tentará ir atrás dele outra vez, pois, obviamente, há um grande rancor entre eles. Para um One, fracassar ao lidar com um Zero é uma das maiores humilhações possíveis.

Capturar dois deles naquela vez e ainda por cima ter falhado com seus objetivos, resultando na morte da maior parte de seus capangas perante um dos Zero, ao perder o controle e se tornar um monstro, é uma vergonha. Além disso, permitir que o outro escape e continue vivendo normalmente é inadmissível.

— Ei, Jun? Acho que ficou um assunto inacabado entre nós.

— É mesmo, eu ia te convidar para aproveitar e sairmos antes de visitar o orfanato, mas aqueles dois foram um incômodo maldito.

No meio de uma ponte em arco de madeira, logo após a escola, em uma rota que vai em direção ao caminho para chegar à casa da garota, os dois pararam. O lugar está praticamente deserto nesta hora, então é uma boa oportunidade para os pombinhos terem um momento a sós.

— Olha só, não esperava esse tipo de atitude vindo de você. — Os olhos dela ficam vidrados nele de imediato.

— Tá toda convencida, hein? Mas o que foi? Não me diga que esse tipo de coisa já não anima mais você a esse ponto? — Ele fala em uma pose dramática, obviamente para provocar a garota.

— Pelo contrário, fez muito bem. Não espero menos de um namorado meu. — E Rie, por sua vez, já responde com orgulho, deixando um pequeno riso escapar de canto.

— Não me subestime.

Ele move a mão até o rosto dela, puxando-a para perto. Rie mostra uma feição muito animada e sorridente, deixando-se levar pela atitude do namorado. Os dois começam a se aproximar lentamente, com o toque da garota indo ao encontro do garoto e seus rostos ficando próximos um do outro.

Contudo, por mais que fosse o que seus corações desejassem no momento, eles não conseguem cumprir isso naquela hora. O que aconteceu, o casal sequer percebeu ou viu qualquer indício de aproximação.

Jun é acertado por um tiro que o faz perder o equilíbrio.

De repente, escutam o som de incontáveis passos vindo em suas direções. Ele tenta segurar o ferimento com sua outra mão, e Rie corre em sua direção para socorrê-lo. No entanto, antes que consiga fazer qualquer coisa, ela é agarrada pelos braços e puxada para trás com força.

Antes que ele sequer consiga processar o que está ocorrendo, recebe um impacto nas costas que o derruba contra o chão. O garoto tenta se erguer, mas algo o empurra de volta contra a superfície. É quando ele avista como está Rie à sua frente. Se debatendo e tentando soltar-se desesperadamente, ela luta contra os soldados que a prendem pelos braços. Porém, esses são diferentes dos que já conhecem, pois todos usam armaduras pretas com vários detalhes em dourado.

Como assim? Desde quando eles surgiram? Eles estavam se escondendo para atacar a gente?

Jun combate ferozmente contra aqueles que o mantêm no chão na tentativa de se livrar. Mesmo assim, a única coisa que consegue é provocá-los e receber golpes nas costas e na cabeça. Ele ignora a dor do ferimento e não desiste de se levantar à força. A garota, na qual mais se importa, está sendo levada bem diante de seus olhos.

— O que vocês estão fazendo!? Larguem a Rie!

Os cavaleiros, então, se acalmam. A questão é que não foi devido à fala de Jun, e sim à entrada de uma figura soberana.

— Após o major relatar a existência de um indivíduo de aura azul, capaz de usar uma arma de One, não teve como ficar quieto. Ainda mais por saber de quem se tratava.

Um pouco ao longe, apenas observando tudo com uma face inexpressiva, lá está o Noburo. Todavia, a voz que escutaram veio de um homem cuja armadura tem as cores trocadas em comparação às dos outros. Ele tem olhos dourados, um cabelo levemente comprido penteado para trás e uma barba curta e branca, bem definida, muito provavelmente estando na casa dos trinta anos.

— Como comandante do exército e, infelizmente, pai dessa criatura que já devia estar morta há muito tempo, eu, Renji Koike, darei um fim a esse problema com minhas próprias mãos.

A expressão na face de Jun é de surpresa, enquanto a de Rie é de alguém que se vê incrédula. Enquanto isso, o garoto tenta processar a enxurrada de informações que está recebendo. Ela nunca falou que seus pais morreram, apenas que nasceu como uma Zero entre os One e foi abandonada devido a isso. Portanto, existe a possibilidade de que o que aquele homem falou seja verdade.

— Cala a boca! Eu nem sei quem é você! Nunca te vi na vida! — Ela contesta, agora golpeando os soldados com as pernas.

Apesar do que for, Jun não pode ficar parado, ainda mais perante alguém que disse que Rie devia estar morta. Portanto, ele pouco se importa se aquela figura é pai dela ou não; representa uma ameaça.

— Eu já disse para soltarem a Rie! Larguem ela! — Ele grita, começando a se levantar, dessa vez usando sua aura para se fortalecer fisicamente.

Contudo, os cavaleiros conseguem jogá-lo para baixo novamente. A força que eles possuem está muito além daqueles com quem enfrentaram antes. Independentemente do quanto Jun insiste em se libertar, mesmo com suas íris imbuídas por sua magia prateada, ele só consegue observar a garota.

— Parem! Não machuquem o Jun!

— Fecha essa sua boca! — O major, que até então estava quieto, anda até ela e lhe dá um soco no rosto.

Ao ver a face de Rie cambalear para o lado, algo em Jun se descontrola. A energia prateada começa a jorrar de seu corpo de forma massiva, e ele passa a lutar contra os inimigos que o derrubam como nunca antes.

— Seu desgraçado! Você vai ver, eu vou te matar!

Os homens de armadura golpeiam o garoto na tentativa de apagá-lo de todas as formas, mas ele não desiste. Tudo que ele recebe de volta são golpes que mais parecem cócegas para ele, naquele instante.

— Soltem a Rie! Deixem ela em paz!

Nada adianta. Não importa o quanto grite, continuam a levá-la embora. E é só uma questão de tempo até que o nocauteiem e façam o mesmo com ele.

Jun solta um grito profundo, um som que reverbera em seu peito e ecoa pelo ambiente ao redor. Ele estica o braço, os dedos trêmulos tentam alcançar o impossível, enquanto a visão começa a escurecer aos poucos, como se o mundo estivesse se desfazendo diante de seus olhos.

Está sendo como aquela vez. Da mesma forma que foi incapaz e permitiu que levassem Aimi naquele dia, agora estão levando Rie. Ele não pode permitir que isso aconteça, não aceita que façam isso de novo. Essa é uma situação de vida ou morte, e ele ainda não conseguiu fazer nada.

Não importa qual seja o preço eu tenha que pagar…

Mesmo que não tenha dominado perfeitamente a habilidade, ele usaria.

E assim fez.

Jun acelera. O ferimento no ombro começa a se regenerar, fechando-se com uma urgência violenta. Acelera uma segunda vez. Sua aura prateada se rasga em partículas ferozes, como brasas, avançando com uma intensidade tão devastadora que, caso ele não se curasse mais rápido do que os danos se formam, cortes seriam feitos em sua própria pele. Diferente da última vez, esse poder está mais estável do que antes, mas os riscos ainda são os mesmos.

Suas íris brilham incandescentes com a cor prateada. Seu cachecol é agarrado e então rasgado em uma inútil tentativa de o parar. E, num estrondo devastador, os cavaleiros são arremessados para o alto, com os corpos lançados e o mundo ao redor se partindo em pedaços.

— Não vou perdoar vocês... — Em meio aos pedaços vermelhos de lã espalhados no ar, ele murmura essas palavras.

No ato de sacar a adaga, entre o processo de transformação em uma espada, com a lâmina jorrando uma corrente maciça de magia, ele fatia a armadura junto com o primeiro homem que corre em ataque contra ele, em um único corte. O outro, que tenta avançar contra o rastro de sangue, então tem seu estômago atravessado, causando uma onda de impacto avassaladora que empurra tudo o que toca, entre os pedaços metálicos que se espalham no ar.

Ele dá uma arrancada de aura, partindo a ponte abaixo em pedaços e fazendo a água explodir contra seu movimento. A escolta ao redor dispara uma chuva de projéteis de metal contra ele, mas Jun cruza adiante como se fossem nada — só de chegarem perto da energia à sua volta, eles se dilaceram.

O major tenta atacá-lo com seu sabre, contudo, o garoto atravessa além, como um borrão que retalha o braço empunhado à arma, em uma linha precisa. Aquele membro, então, se espatifa no chão. Jun rotaciona seu corpo, fazendo um movimento vertical que divide ambas as pernas do homem.

No entanto, antes que ele caia no chão, Jun o agarra pelo cabelo e o puxa.

Com um chute acertando em meio ao peito, o homem cospe o líquido vermelho, deixando-o para trás. Entre uma explosão descarregada completamente contra ele, Noburo é arremessado freneticamente, ricocheteando até alcançar a muralha de mármore próxima e a atravessar.

Desenhando um rastro luminoso de sua silhueta por onde passa, Jun avança até chegar no autodenominado general e suposto pai de Rie. O homem, então, o bloqueia usando um escudo dourado imbuído em magia.

— Sai da minha frente!

A espada de cor noturna, em um estrondo sônico, vai de encontro à barreira com força devastadora. O impacto transfere toda a intensidade contra o escudo, tornando o metal incandescente. Em um instante, o aço se torna líquido e se espalha em gotículas ardentes, em meio a uma explosão que causa uma onda de choque, deixando o cheiro de metal quente preenchendo o ar ao redor.

Renji cambaleia, tentando manter o equilíbrio, desestabilizado. O ataque foi suportado, porém Jun não deixa a oportunidade passar. Com uma precisão inabalável, ele avança, aproveitando-se da brecha, com os olhos fixos em seu próximo alvo.

Ele desmembra o primeiro cavaleiro que prende a garota e finaliza, perfurando sua armadura e derrubando-o. Quanto ao segundo, vê-se diante de múltiplos cortes em uma velocidade tão assustadora que o deixa em pedaços. A aura, que continua a retalhá-lo a cada segundo, continua a fluir. Jun pega a garota em seu colo e, concentrando o poder para uma nova arrancada, parte para o local mais longe e seguro que consiga encontrar antes que sua vida seja drenada.

 

* * *

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