Shelter Blue Brasileira

Autor(a): rren


Volume 1 – Arco 1: União

Capítulo 4.3: Dias eternos

Após ter aprendido a aceleração, pela primeira vez, Jun se deparou com alguém capaz de acompanhar sua velocidade base apenas utilizando um reforço físico — além de sua avó, que sempre o ultrapassava e ainda aproveitava para humilhá-lo no processo, é claro. Esse garoto chamado Hiro, embora não tivesse a mesma técnica, possuía todo um estilo de luta voltado totalmente para a agilidade.

A própria arma que ele usava já servia como prova disso, pois o fazia parecer um assassino capacitado para acabar com seus alvos em breves instantes, sem ser percebido. Ele utilizava duas adagas, o que fazia Jun não conseguir afirmar se eram armas a serem ativadas em espadas ou se haviam sido feitas unicamente para serem usadas nessa forma. Apenas tinha a certeza de que Hiro era extremamente habilidoso com elas. Empunhava uma em cada mão e, mesmo com o curto alcance, conseguia repelir vários dos golpes que recebia de Jun.

Nestas últimas semanas, uma pequena rivalidade surgiu entre os dois, e Jun ainda não conseguiu superar Hiro. Tirando os momentos idiotas e divertidos que passava junto de Seiji na hora de treinar, Hiro se tornou seu maior adversário de todos os tempos. No momento, só restava mais um mês até que tivessem que se apresentar como soldados nas linhas de frente. Embora fossem novatos e devessem receber tarefas mais simples inicialmente, ainda assim qualquer mínimo risco já era motivo de preocupação.

— É impressionante que alguém consiga controlar a direção de uma arrancada de aura com tanta facilidade — elogiou Hiro em um suspiro, enquanto limpava o suor da testa. — Mesmo assim, me irrita ver que você não deixa nem um rastro de energia para trás. Sei que está usando algo muito básico contra mim.

— Ah, bem… Todo o meu treinamento foi baseado para que eu não acabe deixando qualquer quantidade de magia vazar. Não é que eu esteja só no simples contra você… — explicou Jun, mas sem revelar o real motivo. Ele ainda não tinha certeza se poderia confiar em nenhum desses dois irmãos caso soubessem como o seu poder realmente era.

A realidade era que ele não podia mostrar sua aura para ninguém, mesmo que já soubessem dela. Ele fora abandonado por sua mãe por causa disso, e a última coisa que desejava era que viessem atrás dele com a intenção de matá-lo pelo mesmo motivo. Se descobrissem, o pior também poderia acontecer com sua família atual. Portanto, precisava ser forte sem que esse poder amaldiçoado fosse revelado.

— Conta outra, cara… — Hiro deu de ombros. — É bom você não confiar demais nessa sua habilidade aí, aliás. Eu já vi do que sua avó é capaz, e só digo que você nem chega perto de se comparar com ela ainda.

— Se essa não é a realidade, então vou torná-la verdade — falou Jun com confiança.

Ele precisava se tornar mais capaz do que qualquer um. Caso contrário, não conseguiria proteger aqueles que eram importantes para si. Jamais deixaria que fossem mortos ou levados para longe à força, outra vez. Tudo o que almejava era não ficar mais sozinho.

— Agora não é hora de ficar botando conversa fora, seus idiotas! — exclamou a irmã mais nova de Hiro, Kaori, apontando uma pistola de aura e disparando contra os dois na sequência.

No reflexo, Jun moveu seu braço com a espada em direção ao projétil. Aquele objeto totalmente da cor vermelha, com guarda-mão pequeno e lâmina reta de dois gumes, parou na frente da trajetória do tiro em um piscar de olhos. O tiro de energia amarela atravessou o fio e se partiu em milhares de pequenas partículas. Assim, uma onda causada pela pressão do ar se espalhou pela atmosfera do local.

— Exibido…

Na verdade, a real intenção de Jun não era se exibir na frente dos outros ao realizar aquela ação. Ele sequer sabia que era capaz de fazê-lo. Apenas agiu por puro instinto. Algo que o surpreendeu por completo, mas, ao mesmo tempo, era um sinal mais do que positivo.

Um projétil daqueles devia se mover a cerca de duzentos metros por segundo. Embora esse tipo não fosse letal, ainda assim era assustador. Portanto, para ter conseguido reagir mais rápido que ele, Jun precisava ter alcançado uma velocidade próxima à do som. Mesmo que tenha sido por sorte, agora tinha certeza de que era capaz.

— Enfim, vamos voltar logo ao treinamento… — suspirou o garoto de cabelos castanhos. — Não podemos perder tempo. — E Hiro, em seguida, entrou em postura de combate.

Ao ouvir essas palavras, Kaori soltou algum resmungo e virou o rosto para o lado, retornando ao seu treino de batalha à longa distância com Aimi e Seiji. Até então, Jun não havia conseguido se dar bem com ela. Aquela garota sempre agia de forma extremamente estressada e, na maior parte das vezes, era mais do que pavio curto.

— Ai, ai… Você e essa sua pressa de novo.

— Estou fazendo nada mais do que a minha obrigação. Não vejo a hora de poder cumprir quantas missões eu puder.

Quando ânimo para ir se matar…

O pensamento de Jun, de que Hiro era alguém muito ansioso para participar de algo que acabaria custando sua vida, permanecia firme desde que o garoto havia demonstrado esse desejo de ir logo para o campo de batalha. Qualquer pessoa sensata desejaria o completo oposto. Ninguém quer lutar contra monstros imprevisíveis em suas formas de agir e ser, apenas para conquistar o direito de abrir os olhos no dia seguinte.

Entretanto, a mentalidade de Jun começou a mudar no final desse mesmo dia. Tudo aconteceu graças a um pedido de sua avó, que pediu ajuda para levar alguns sacos de arroz até a casa de Hiro e Kaori. Pelo visto, a mãe dos irmãos havia negociado para que Miyako conseguisse comprar o alimento, algo que já era estranho e um tanto específico por si só. Ainda assim, foi a primeira vez que Jun teve a oportunidade de visitar uma das ilhas voadoras que constituíam a cidade, embora fosse uma das mais baixas.

Entre as várias casas com telhados feitos de material translúcido, Hiro o guiou até uma moradia pequena, em comparação à maioria, e localizada próxima à borda da terra flutuante. Jun ajudou a carregar os sacos para dentro, enquanto Kaori, que apenas os observava, foi direto para o quarto dela, sem dizer uma palavra. Ele realmente não conseguia entender aquela garota.

Grande parte da residência era consideravelmente vazia. Chamá-la de minimalista seria quase um deboche de mau gosto. Contudo, isso dava a Jun uma noção clara de que aquela comida havia sido obtida de forma não convencional, ao invés de comprada em um mercado. Eles não tinham condições financeiras para isso. Dependiam da boa vontade de outras pessoas para conseguir alimento.

E qual era a razão de tudo aquilo?

A resposta estava logo à frente de Jun, em um sorriso que doía de certo modo:

— Muito obrigada por ajudar o Hiro com isso. E obrigada à sua avó também, por sempre nos dar essa força.

Quem disse isso foi uma mulher, a mesma que era mãe dos dois irmãos.

Ao mesmo tempo, ela era também uma pessoa que, muito provavelmente, devido às diversas lutas nos campos de batalha, havia sofrido consequências que agora não lhe permitiam mais participar. Estava o tempo todo em uma cadeira de rodas, incapaz de se movimentar e muito menos de lutar, pois não possuía mais o braço e a perna esquerdos.

Missões são tarefas a parte em que um Zero pode escolher ou não fazer por conta própria. Elas dão recompensas e na maior parte delas é dinheiro… agora eu entendo…

A partir da magia, restaurar membros perdidos era algo totalmente possível. Contudo, não eram todos que conseguiam realizar tal feito. Apenas curandeiros de maior experiência eram capazes disso, e, mesmo assim, o custo do feitiço era alto, uma vez que exigia muita energia, a menos que a pessoa tivesse dominado essa habilidade com maestria, a ponto de não causar desgaste físico. Não dominar perfeitamente significava que, ao tentar ajudar, o curandeiro poderia acabar se matando. Além disso, a escassez de pessoas aptas a realizar essa técnica tornava o processo muito caro para muitos.

— Se você quer ficar forte rapidamente, então eu vou te ajudar nisso. Não precisa se preocupar. Quando formos para as linhas de frente, você será capaz de fazer quantas missões quiser — comentou Jun, ao sair pela porta de entrada. — Sendo assim, no treino de amanhã, eu vou dar tudo de mim, então esteja preparado. — E, com essas palavras, ele foi embora.

Todos estavam lutando suas próprias batalhas, mesmo que não fossem diretamente contra monstros. Jun sabia que era alguém sem o direito de contestar qualquer coisa perante os Zeros de verdade. Diferente dele, que não passava de uma existência errada — alguém que sequer devia ter nascido para começo de conversa. Ainda assim, ele era capaz de compensar isso ajudando os outros no processo.

 

* * *

 

O tempo passou com o grupo praticando incontáveis vezes, até que o tão ansiado e temido dia finalmente chegou. Agora, todos os Zeros que fizeram treze anos neste ano, ou após a chamada anterior, estavam reunidos em um campo aberto. Na frente, havia um palco de madeira montado às pressas. Se houvesse cinquenta pessoas ali, já seria um exagero. Não eram muitos, e a quantidade de grupos que dava para contar nos dedos muito provavelmente já estava formada antes de virem.

— Muito prazer, eu me chamo Himari Maeda. Vou ser a responsável pela equipe de vocês até que façam dezesseis.

Essa idade que ela acabara de mencionar era considerada como a maioridade para os Zeros, mesmo que, pela lei, não fosse oficialmente assim. Obviamente, havia aqueles que conseguiam chegar a idades mais avançadas, o que os tornava impossibilitados de participar do campo de batalha. Passavam, então, a servir a sociedade com tarefas de suporte. Contudo, a expectativa de vida geralmente girava em torno de trinta anos.

Normalmente, era nessa fase que eram enviados para enfrentar as maiores categorias de bestas, o que, na maior parte das vezes, era um convite quase garantido para se sacrificar ao custo de eliminar a ameaça.

Portanto, nessa sociedade sem valor, onde as pessoas morriam muito jovens, criou-se uma cultura que incentivava os jovens a formarem novos casais logo ao atingirem essa faixa etária. Por exemplo, a mãe de Jun deu à luz a ele e ao irmão quando tinha apenas quinze anos. Contudo, nos últimos anos, essa necessidade vinha se mostrando menos urgente, permitindo que as pessoas pudessem esperar mais antes de tomar essa decisão.

Himari, uma garota de cabelos e olhos em um azul-ciano intenso, que aparentava ter cerca de dezoito anos, ficaria responsável por eles até que alcançassem essa independência. Jun, até então, nunca tinha dado muita atenção a esse assunto. Agora que ela o fez lembrar, sentia-se aliviado por não precisar enfrentar essa pressão tão cedo. Afinal, ele sequer acreditava ser possível para alguém como ele — um tipo defeituoso que, ao menos na sua visão, não tinha o direito de existir ao lado dos outros dois.

Uma pessoa como ele não merecia estar junto de outra, uma vez que já não devia sequer estar viva para começo de conversa.

— Muito prazer — disse Aimi, dando brecha para que os demais fizessem o mesmo logo em seguida.

Entretanto, grande parte foi impedida de continuar, pois, nesse instante, uma voz alta ecoou, cortando a todos:

— Atenção, seus Zeros!

Fazendo uma pose militar em cima do palco, no centro, estava um homem alto e jovem. Ele tinha cabelos dourados e longos, que passavam dos ombros, e olhos de um vermelho intenso e profundo. Vestia um uniforme de major preto, com ombreiras e os mais sofisticados e luxuosos detalhes em dourado. Tratava-se de um One, mas não de qualquer um.

— Me chamo Noburo. Serei o responsável por supervisionar vocês até que amadureçam e eu não precise mais perder o meu tempo.

Ele soltou um suspiro, demonstrando um evidente cansaço, como se já estivesse farto da tarefa que estava prestes a executar. Então, prosseguiu:

— A partir de hoje, farão perante a mim o juramento de que servirão como as armas da humanidade. Essa será a sua função, e vocês não terão valor algum além disso, pois ainda são Zeros. Não passam de um meio, uma ferramenta com o fim de garantir a sobrevivência de pessoas de verdade, nós, Ones! E só isso justifica tudo.

Uma onda de tensão gélida percorreu o ambiente, paralisando os indivíduos presentes. Suor começou a escorrer pelo rosto de Jun, e seu coração bateu freneticamente. Ele sentia uma agonia que tomava conta de todo o seu corpo, algo que jamais havia experimentado antes. Era um sentimento horrível, impossível de explicar. Uma parte de si desejava, com toda a intensidade, ver aquele homem morto e agonizando diante de seus olhos. Contudo, ele sabia que não podia fazer nada — algo que, de certa forma, já fazia parte de sua existência.

— E, caso qualquer um de vocês não concorde...

Ao redor, as outras pessoas ostentavam feições terríveis, como se toda a esperança em seus interiores tivesse sido arrancada, sem deixar uma única migalha. Ainda assim, lutavam para esconder esse desespero. No entanto, não eram apenas eles que demonstravam tal expressão. Noburo também.

No fundo dos olhos daquele homem, havia algo impossível de descrever de outra forma: ódio e nojo. Sentimentos puros, voltados contra eles.

— Caso não sejam úteis para nós... Com as minhas próprias mãos, eu mato cada um de vocês.

 

* * *

 

Depois que todos os outros grupos foram enviados para os limites da cidade a fim de realizar missões de extermínio e serem avaliados por um One responsável, apenas o grupo de Jun permaneceu naquele lugar. Isso era um péssimo sinal, pois agora estavam sozinhos com aquele homem.

O mesmo caminhou até a equipe e, sem hesitação, declarou:

— Como vocês obtiveram a melhor pontuação na primeira avaliação de força, eu serei o encarregado de analisá-los no teste prático.

Não havia qualquer traço de empatia em sua voz. Era como se ele realmente não se importasse com eles, de fato. Ou talvez fosse mais que isso. Na verdade, ele deixava claro que queria vê-los sofrer de alguma forma. A expressão de desprezo em seu rosto era tamanha que fazia Jun sentir um aperto no peito tão intenso que parecia prestes a esmagá-lo.

— Vocês serão encarregados de eliminar um grupo de bestas que se estabeleceram no litoral ao norte. E já deixo claro, desde o início...

Como alguém podia carregar tanto ódio assim? Jun não conseguia compreender, definitivamente. O homem parecia insatisfeito com o trabalho que desempenhava, inconformado por ter chegado à posição de major e, ainda assim, precisar lidar com a "espécie" de Jun e de seu grupo, que ele considerava claramente inferior.

— Tratem de não deixar nenhuma delas escapar. Caso contrário, sofrerão punições tanto vocês quanto suas famílias.

Qual era a razão desse nojo? Existe algum motivo para ele ter ficado desse jeito? Não é possível que tudo isso tenha surgido por causa de um orgulho cego, geminado de geração a geração… Isso sim, não é ser humano…

De todo modo, independentemente da ameaça que sofreram, partiram em direção ao local ordenado. Durante todo o caminho, Jun perguntou a si mesmo se essa seria a realidade que teria que viver nos próximos anos. Realmente, ele não fazia ideia. Contudo, daria o máximo para proteger sua família e seus amigos. Jamais permitiria que tirassem tudo dele novamente, mesmo que precisasse lutar contra toda uma nação de Ones.

Enquanto mentalizava tudo isso, percebeu, quase sem notar, que já haviam chegado ao litoral designado. À primeira vista, parecia uma praia comum. Contudo, logo avistaram objetos esféricos e pontiagudos cravados no chão. Como se tivessem percebido sua presença, aquelas coisas saltaram do solo, revelando-se seres quadrúpedes. Lembravam porcos-espinhos, mas com mandíbulas semelhantes às de crocodilos, das quais escorria uma energia escura. Seus espinhos eram feitos de um cristal roxo que se intensificava nas pontas.

Tratava-se de um enxame. Não havia um centímetro sequer sem aquelas criaturas.

Entretanto, eles precisavam ser fortes. Havia muito em jogo naquele momento.

Sem hesitar, partiram para o ataque. Seiji foi o primeiro, lançando uma rajada de fogo que dilacerou algumas criaturas. Em seguida, começou a atacá-las com sua katana. Aimi e Kaori, uma usando magia de vento e a outra, pistolas, fizeram as bestas explodirem. Jun e Hiro, com cortes e estocadas, rasgavam as criaturas impiedosamente.

Hiro e Seiji desenhavam arcos luminosos no ar ao concentrarem a aura em suas lâminas. Quando alguém se machucava, Aimi e Himari, a garota mais velha, usavam feitiços de cura. Enquanto isso, Kaori parecia contar suas eliminações, uma a uma. Já Jun, esmagava tudo que estava à sua frente com uma velocidade frenética.

Gradualmente, a quantidade de bestas diminuiu, até restar apenas uma. Então, usando o dedo indicador e o médio como uma pistola, Seiji lançou uma pequena bola de fogo que extinguiu a última criatura. O grupo retornou ao major para relatar o sucesso da missão.

— Ótimo. Conseguiram servir para alguma coisa — declarou ele, sem emoção alguma. — Por ora, podem ir embora.

Foi então que algo inesperado aconteceu. De repente, uma criatura saltou do chão, voando na direção do homem. Em uma fração de segundo, Jun acelerou e cortou a besta ao meio. Ela explodiu, espalhando uma energia sombria pelo ar. Porém, ao vê-la começar a se dissolver, ele percebeu que a pior das hipóteses havia se concretizado...

— Seus insolentes! Como ousaram deixar uma merda dessas escapar! — gritou o major, tomado pela fúria. — E ainda por cima, permitir que me tocasse...

Ele exclamava descontrolado, com uma expressão assassina. Com uma mão, segurava o olho arranhado; com a outra, apontava uma pistola diretamente para Jun.

O coração de Jun congelou. Ele sabia que, se quisesse, poderia repelir o ataque com sua espada. Contudo, seu corpo estava completamente paralisado pelo desespero.

— Me desculpe! Me desculpe mesmo, senhor! Isso foi minha responsabilidade! Fui eu quem mandou que eles retornassem, mesmo sabendo que ainda restava uma criatura. Por favor, perdoe-me... — disse Himari, a veterana de cabelos cianos, colocando-se entre o major e Jun e curvando a cabeça em sinal de súplica.

Por um momento, a mente de Jun se acalmou, permitindo que ele processasse o que estava acontecendo. Aquela garota, que acabara de conhecê-los, estava arriscando sua vida para salvar um deles? Por quê? Não havia motivo algum. Isso não era justo. O erro era deles, e apenas deles.

— É mesmo? — murmurou o major.

— Sim, senhor. Foi tudo culpa minha!

— Entendo...

O homem moveu o braço lentamente, apontando a pistola para Himari. Seu único olho restante estava tomado por um ódio tão profundo que parecia consumir a alma de quem o encarasse. Então, ele puxou o gatilho.

Um estrondo ecoou pelo ar.

Uma rajada dourada, feroz e intensa, avançou.

Quando as ondas se dissiparam, restou apenas o silêncio.

— Espero que isso sirva de lição para você — disse o major, virando as costas e deixando o local enquanto o grupo o observava desaparecer lentamente.

Jun olhou para Himari. Depois, para suas próprias mãos. Notou o vermelho. Observou o chão ao redor e viu uma poça de líquido fervente espalhando-se. O cheiro insuportável de ferrugem invadiu suas narinas, fazendo-as arder e lhe provocando náuseas. Ele então olhou para Himari mais uma vez — ou para o que restava dela, espalhado pelo chão.

 

 

* * *

 

Desde então, passaram-se quatro anos desde que o grupo iniciou sua interminável batalha contra as bestas. Durante esse período, ninguém foi designado para liderar a equipe até que eles atingissem a idade suficiente para se tornarem independentes, obrigando-os a se virar por conta própria. Contudo, isso já não era uma preocupação, pois todos haviam completado dezessete anos. Naquele instante, embora fosse um momento de calmaria, também era extremamente entediante — ao menos para o garoto de cabelos carmesins.

— A gente precisa aprender essas coisas, ou a senhora Miyako pode nos matar de verdade da próxima vez. Ela ficou uma fera quando descobriu que a gente ainda não sabia disso — exclamou Aimi, emburrada com os garotos.

Fazia algum tempo que Jun soubera que, em sua cidade natal, os jovens não precisavam mais ir para o campo de batalha até completarem dezoito anos. Lá, haviam criado academias para que pudessem estudar e, ao mesmo tempo, aprender a lutar de forma eficiente. Entretanto, na cidade onde viviam no momento, essa estrutura ainda estava pela metade. Por enquanto, precisariam aprender tudo sozinhos.

— Voltando à revisão... — disse Aimi, respirando fundo. — Por volta de mil anos atrás, descobriu-se que o planeta estava morrendo. E, ainda mais surpreendente, o que estava acabando com a vida na Terra era a falta do que hoje conhecemos como aura. Por isso, iniciou-se uma busca para tornar isso mais abundante. Contudo, durante essa busca, descobriu-se que a própria população de um passado muito distante foi quem a selou...

Por que eles tentaram banir a magia do mundo?

Jun refletia, ironicamente, consigo mesmo. Afinal, foi só ela voltar que toda a população começou a se dividir e a destruir aqueles que eram diferentes. Ou talvez as coisas sempre tivessem sido assim, apenas assumindo uma nova forma?

De qualquer modo, isso já não importava mais. Aquela era a realidade em que vivia, e nada poderia mudá-la.

— Depois de muito esforço, descobriram uma maneira de isolar resquícios dessa energia encontrados no subterrâneo e fazê-la se reproduzir até se tornar mais abundante. Então, em um evento presenciado por todo o planeta, utilizando a tecnologia da época, dispararam uma rajada em direção ao núcleo. No entanto, algo inesperado ocorreu...

— Mas você está mesmo gostando de ler isso daí, hein? — provocou Seiji, debochado.

Aimi suspirou e continuou a leitura do livro em seu colo:

— A aura mudou drasticamente toda a flora, fauna e os seres vivos do planeta, que, a partir daquele momento, passaram a ter a capacidade de gerar esse poder. Entretanto, certas pessoas, animais e outros seres vivos rejeitaram a energia em seus corpos. Como consequência, foram deformados, transformando-se nessas criaturas hostis que hoje conhecemos como bestas. Ainda assim, restaram indivíduos incapazes de usar magia, mas isso a gente deixa para amanhã.

Ela encerrou com um tom cansado e, ao final da última frase, fechou o livro, batendo as páginas com força.

— Pronto. Acabei. Estão satisfeitos, hein?

— Ei, por que a gente tem que aprender história, mesmo? Que coisa inútil! — reclamou Jun, entediado.

— Para aprendermos com os erros do passado, usá-los como correção no presente e como aprendizado para o futuro. — Aimi gesticulava com a mão, cheia de si.

— Não é como se os corpos das pessoas fossem rejeitar a aura e se transformassem em bestas. Isso já aconteceu. Todos os seres vivos agora possuem a capacidade de gerar aura. É impossível que algo assim volte a ocorrer.

— Isso tudo é só uma desculpa para não precisar estudar, né?

— Exato.

Por mais que houvesse momentos como aquele, nos quais tudo parecia mais maçante do que qualquer outra coisa, aquilo ainda tinha seu charme. Os sentimentos causados por esses instantes eram muito agradáveis, ao ponto de os últimos quatro anos terem passado tão rápido que mal parecia possível perceber. Tudo até então seguira em um ritmo pacífico, sem mais perdas ou tristezas.

— De todo modo, você não ficou sabendo? Estão dizendo que algo assim aconteceu na capital. Usuários de aura se tornaram bestas.

Mesmo cercados por tragédias, Jun desejava, com todas as suas forças, que esse dias fossem eternos.

 

* * *

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