Volume I

Dia 3

01

Ontem foi um dia estranho. 

Não só havia decidido invadir a sala das câmeras da escola, como também descobri que não haviam registros e gravações para serem roubados e analisados.

Fui tão surpreendida por esse ‘placebo’ quanto o clube de detetives.

— N-não — Hinako falou. — Tem algo errado, tem que ter algo errado!

E ela estava certa: tinha algo muito errado ali.

Takeshi Shinohara, ele havia morrido dez anos atrás — assim como não tinha família alguma em Rosário — ainda assim, todos do clube de detetives (e possivelmente todo o resto da escola, por tabela) acabaram trocando a imagem mental que tinham do garoto chamado Zacarias Foster pela dele.

Eu deveria falar algo? Creio que não. Afinal, eu não tenho prova alguma para falar que aquele indivíduo não era o colega deles além da minha memória. Mas que memória seria levada a sério quando ela contradiz a realidade bem na sua frente?

Naquela noite, dormi na sala dos professores. Não me sentia bem para voltar para casa, estava cansada e queria dormir em qualquer lugar que parecesse minimamente confortável — a mesa da sala acabou sendo a selecionada para essa missão. 

Enquanto me rendia ao sono, eu me perguntava: que tipo de dia será amanhã…? Será, de fato, um novo dia?

— Uh, Professora? — Ouço a voz de Fadıl. 

— Ngh… — Mas ainda estou muito cansada para falar com ele.

— Professora Sora…

— …

— Mas puta merda. ACORDA!

— Uou!? — É o Fadıl mesmo. — O-o que faz aqui? E que horas são!?

— 4h30 da manhã. — Hinako fala enquanto entra na sala.

— Hinako…?

— A gente ficou revirando a sala mais um pouquinho depois que a senhora saiu, achamos algo que a senhora pode gostar.

— Que… que eu posso gostar?

— É. — Hinako dá um sorriso travesso. — A senhora deve conhecer alguém que foi substituído no passado, pelo menos, essa é a minha teoria!

Bom, ela está mais ou menos certa… tornou-se um caso de substituição recentemente. 

— Entendo…

Ela coloca a mão dentro da pequena mochila que trouxe consigo, tirando um pequeno livro.

— Eu li um tico disso, só dando uma passada de olho mesmo… parece que é o diário de alguém que sabia mais do que devia.

— O diário de alguém que foi substituído…?

— Sei lá, não li ele todo. Mas o cara parecia bem doido!

A capacidade de atenção dos jovens, de fato, está se deteriorando, hein?

— Mas, a questão é: se for realmente um cara que sabe dessas coisas… talvez alguém que tenha experienciado isso de perto possa ter alguma ideia de como entender melhor isso, saca?

— Entendo… — Eu pego o diário. — Darei uma lida nele ainda hoje.

— Beleza, prof!

Dessa forma, consumida por uma compulsão e curiosidade sem tato com a realidade e, consequentemente, ignorando meu cansaço, eu comecei a ler aquele conteúdo assim que Hinako e Fadıl deixaram a sala.

02

Para quem eu escrevo? Certamente não sei, principalmente, devido à sensibilidade de algumas informações que apresentarei (de certo, pode-se dizer que, no fundo, não desejo mostrar isso à ninguém — e talvez, este seja o motivo de eu estar fazendo isso em primeiro lugar).

Ao fim desta narrativa, creio que estarei morto — afogado pelo suco pútrido expelido da decomposição da minha própria mente e ego. De antemão, desejo apenas o melhor ao meu mestre e colegas. De fato, se algum de vocês sentir-se assombrado ou angustiado pela minha ida, suplico do mais profundo buraco dos infernos pelo seu perdão pois, talvez, isso possa acalentar minha alma, mesmo que um pouco.

Agora, dada minha dedicatória fúnebre aos coitados que tiveram o desprazer de apegar-se à mim, inicio a minha breve biografia — meu relato — daquilo que sempre tentei rejeitar, a mancha que polui minha alma desde a tenra infância: uma perversão bizarra mesclada à aversão que sinto da própria vida como um todo.

Estava faltando pouco menos de um semestre para que eu me formasse na academia de artes de Santo-Monte. Todos estavam eufóricos (afinal, eu era um dos alunos mais exemplares, se não o mais exemplar em um certo intervalo de tempo), em especial, Maximiliano — um lobo que se especializava nas artes do combate. Era uma preparação bem distante da que eu e meus futuros colegas de profissão almejavam desenvolver), eu me perguntava se ele não deixava nosso caso muito escancarado ao vir bater perna à minha procura.

Lembro-me que ele veio, um tanto desengonçado, até mim para conversar sobre qualquer coisa, logo fazendo-me perceber que sua real intenção era uma comemoração privada. Em outras palavras, Maximiliano estava perdendo o controle sobre sua luxúria e, sorrateiramente, aproveitou o contexto de festas para tal.

— Você não tem escrúpulos, mesmo! — disse algo assim com um sorriso abobado enquanto o observava perder a compostura, tentando desconversar. Honestamente, possível leitor, eu achava que o comportamento hedonista daquele lobo era adorável. Pensando coisas como “O que você faria sem mim, hein?” enquanto tinha relações com ele pelas muitas noites em que adentrava meu quarto. E aquela noite não foi diferente.  Fui completamente consumido pelo desejo de meu amante e o único imprevisto seria causado pela exaustão que Maximiliano sentia após o ato, fazendo-o dormir sem mais nem menos. 

Por um instante, olhando ele adormecido à cama, pude acreditar que aquele seria o único contratempo que teria de enfrentar até ver o vulto pela fresta da porta de madeira.

Entanto isso, pude ouvir minha própria voz suspirar apaixonadamente em meu ouvido. Não olhei para o lado, mas de alguma forma tive certeza de que tratava-se de um alter-ego meu, uma faceta de mim que conversava coisas sem sentido naquele momento. E parando para refletir agora, eu me pergunto se não seria aquilo uma forma de advertência do destino para mim.

— Tu aproveitas a vida como quer, mesmo diante das manchas e deformidades que carregas na alma. Lindo, apenas lindo! — falou a minha contraparte, anunciando minha decadência por entrelinhas invisíveis.

E então…

03

— AH! — exclamo. Uma sensação cortante e aguda me toma a garganta. — Mas… hein? 

Eu estou em um hospital. Pelo menos, devido às paredes brancas e à cama desconfortável de mesma cor, acredito que seja uma sala de algo assim — uma clínica, talvez?

Não demoro a perceber que minha memória está embaralhada, eu sequer notei que ainda estava na cama, observando a janela do quarto.

Ah, que inferno. Eu estava em outro lugar, onde eu estava antes daqui?

Escola?

É, de fato eu estava numa escola.

Mas que droga.

— Ah… Nicolas, não é hora de perder a cabeça… — resmungo. 

E então, fico em silêncio. 

Espere um momento… 

— Quem é Nicolas?

O meu nome é Sora, Sora Tokimoto certo? Afinal de contas, eu sou uma professora da escola Cristóvão de Rosário — eu leciono na sala de aula 3-E…

— Ah! — exclamo à medida que tenho uma epifania, olhando para o diário do indivíduo que li hoje pela manhã — Talvez seja por isso…

Alguém está tentando me substituir, não é?

Nicolas é o nome do cara que escreveu aquele diário, o que Hinako e o clube de detetives encontraram — não é?

Eu estou caminhando para o mesmo destino daquele garoto — Zacarias Foster — ser substituída…

Não é?

04

12h00, o horário de almoço. 

Estranhamente, os ocorridos bizarros dos últimos dias aconteceram nesse mesmo momento. Desde o desaparecimento de um aluno na semana passada, até a descoberta do seu corpo nos corredores da escola pela professora Sora, que hoje passou mal um pouco antes do início do horário em questão — tendo de ser levada às pressas para o hospital.

— Estranho. — o raposo resmunga, sentado no terraço da escola com seus amigos. Desta vez, Hinako não fumava, pois respeitava o fato de todos terem ido ali, simplesmente, para relaxar (apesar de que ela adoraria relaxar observando as nuvens artificiais nascidas do tabaco).

— O que é estranho? — o urso pergunta.

— A Sora, passar mal assim, do nada. — Takeshi responde.

— Isso me parece um trabalho… — Hinako fala com um sorriso, mas logo é interrompida pelo lobo.

— Não começa com as frases de efeito, não.

— Qualé, Fadıl! — a garota reclama, encarando o canídeo com uma expressão de censura. — O clube de detetives, eventualmente, vai virar uma puta agência! A gente precisa de um slogan.

— Por que não deixamos esse tipo de identidade de mercado pra depois de averiguarmos o que aconteceu com a professora? — Gabriel suspira.

— Hein? Você tá real querendo bisbilhotar a Sora? — Hinako pergunta em tom de surpresa, um tanto forçado, como se fosse uma dama de época embasbacada com uma fofoca.

— Sim. — Uma resposta curta e grossa. — Afinal, e se isso tiver a ver com o diário que entregamos pra ela?

— HEEEEEIN? — ela exclama perplexa. — Mas eu li por cima e não aconteceu nada!

— Você não tem cara de quem gostaria de ser substituída. — Gabriel a cortou. — Mas eu, não só tenho, como já fui atrás disso.

— Pera, quê!? — Hinako, novamente, se choca com a situação de maneura exagerada, arregalando os olhos e colocando uma das mãos na frente da boca. — Caraca, eu pensava que você era só depressivo!

— Eu fiz questão de esconder isso, mas já adianto, nós não procuramos a substituição, é ela quem nos procura para fazer a proposta.

— Entendi…

— Então — Misha se mete na discussão. — Acha que aquele diário seria uma ‘oferta’ desse fenômeno?

— Como eu vou saber? A única forma de tirar a dúvida é testando mesmo…

Enquanto isso, Takeshi apenas observava a discussão. Sua mente estava em outro lugar ou, pelo menos, tentava chegar em tal.

“Eu… me lembro…” ele pensou. “Me lembro de quando Sora me disse para morrer — ela… não tinha aquela aparência… era mais jovem, na verdade, era minha colega de classe…”

Com a testa franzida e rugas no focinho tensionado, ele refletia, tentando achar uma resposta racional de como ela havia, simplesmente, tornado-se sua professora.

Ele se perguntava sobre quem, de fato, era sua família.

Ele pensava no que aconteceu, de fato, no dia em que Sora pediu para que ele morresse.

E então…

— Ei. — uma voz desconhecida falou. Era a de um jovem rapaz, com boa parte de sua pele esfolada irregularmente. Quase como se houvesse sido rasgado e dividido por um açougueiro amador e então remontado, parcialmente, por ele.

Algumas partes do rosto faltavam, assim como sua abertura da base da barriga até o começo do tórax, também mostrava sua espinha dorsal e músculos das costas, devido à ausência de entranhas.

— Por favor, tenha respeito pela sua comida. — o garoto falou. — Foi eu quem te deu todas as vitaminas para te preparar para esta metamorfose, este retorno triunfal.

Era uma situação bizarra — o tempo parecia ter parado, mas Takeshi não se importava de fato com isso. O que mais lhe incomodava era a sensação de que aquele garoto carcomido parecia saber das dores de Sora, parecia entender como ela se sentia.

— Qual o seu nome? — Takeshi pergunta com um rosto neutro, talvez com retoques de inocência.  — E por que me deixou te devorar?

O garoto nada respondeu por um instante, até que, de repente, ele sorriu com satisfação e falou:

— É simples, eu sei como é desesperador sentir que faz peso no mundo. E quando vi que ela tinha a oportunidade de se livrar disso, decidi fazer este pequeno sacrifício.

— Entendi… —  o raposo responde. — E o seu nome, qual é?

— Zacarias Foster.

— Entendi. É um prazer.

— O prazer é meu. Espero que possa aproveitar bem a minha vida.

— Ei! — Hinako retira o raposo do transe. — Tá me escutando, Takeshi!?

— Hã?

— Uuuugh! Você é surdo? A gente tá planejando a próxima missão do clube de detetives!

— E ela seria?

— Operação - Bibliotecário! — ela falou em alto e bom som enquanto apontava para o céu.

— Que nome horrível… — Takeshi falou, tentando conter a risada.

— Vai tomar no cu! — Hinako rosnou. Fadıl fez menção de que iria falar algo, mas ela o encarou como se estivesse jurando o lobo de morte, o fazendo se calar antes mesmo de argumentar. 

— Intensa, você. — Misha falou. — Deve ser por isso que é a chefe… hehe

— Enfim! — Hinako corta o assunto, o emendando na missão. — Engulam seus almoços! Nós partiremos em direção ao hospital para recuperar aquele diário daqui a pouquinho!

— P-peraí… — Fadıl censura. — E tu sabe onde ela foi internada?

— De certo ela deve ter sido levada pro Santo-Monte, é o hospital mais próximo daqui. — a garota debocha com um sorriso pomposo. — Nem precisei roubar mais material da investigação dos meus pais pra saber disso!

— Entendi… — Fadıl fala, deixando sua decepção com o compasso moral e filtro de ações da amiga nas entrelinhas do tom de sua voz.

— Bom, vamos em frente, amigos! — ela começa a marchar em direção às escadas do terraço. 

— Espera aí, ninguém terminou de comer ainda! — Misha fala em um tom de voz sofrido.

Ela deu mais dez minutos para que comessem e se preparassem psicologicamente. Após isso, todos foram arrastados por ela em direção ao local.

Hospital Santo-Monte. Antigamente — até o final do século XIX, era uma universidade aristocrática de extremo renome, o que explica a sua arquitetura de aspecto barroco.

— Bom dia… — Misha fala com a atendente em um dos guichês disponíveis. Era uma mulher já de certa idade (possivelmente na casa dos quarenta ou cinquenta anos). 

— Ah! Você é o filho da doutora Medvedovsky, certo? — ela indagou com um sorriso amigável.

— Oh, hm s-sim, eu sou. Haha…

— Nossa, Misha, eu mal te reconheci, você está enorme!

— É natural que isso ocorra com ursos. — outro riso sem jeito. — M-mas sim, a senhora, hum, pode me dizer se a minha mãe está muito ocupada? Eu queria tirar uma dúvida com ela.

— Ah, acredito que não… ela deve estar no consultório dela, ainda é o mesmo de quando você era mais novo! Se quiser ir lá, na pior das hipóteses ela não poderá atender de imediato.

— Entendi, obrigado! — o urso então se afastou e foi em direção ao grupo, que o esperava um pouco mais distante.

— E aí — Hinako falou. — Como foi?

— A gente vai cortar caminho pelo consultório da minha mãe. De lá, a gente encontra a professora se ela, realmente, estiver sob algum efeito de maldição. 

— Beleza.

Desta forma, o grupo adentrou o hospital.

O consultório de Alina Medvedovsky encontra-se mais a fundo no lugar, levando seus pacientes a caminharem até o fim do corredor. 

Na parede oposta à porta do consultório, encontra-se um elevador de serviço para funcionários levarem recursos até os andares superiores do local, onde estão internados pacientes que necessitam de um pouco mais de cuidado.

— Certo… — Fadıl fala. — Você já tá com a semente de abstração aí?

— Eu ativei ela enquanto a gente andava pelo corredor. — Hinako responde.

— QUÊ!? Você tá louca? E se algum aberrante tivesse atacado uma pessoa!?

— Eles estão mais profundos no hospital, onde tem gente passando mal mesmo. Não iam ter como chegar até o nosso ponto de transição assim, tão rápido. 

— Cê é muito inconsequente às vezes, chefia

— Relaxa totó. 

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