Volume I

Dia 4

01

A noção de tempo — tanto para a mente quanto para o corpo — era facilmente perdida dentro de uma área abstraída daquele jeito. Hinako já tinha uma certa noção disso, apesar de que não esperava que o resto daquele dia inteiro fosse passar no intervalo de, talvez, uma hora.

— Gente, — A garota fala com um sorriso sem graça. — Talvez a dilatação do tempo aqui tenha sido maior do que a gente esperava, hehe…

— Hein!? — Misha fala ligeiramente baixo, tentando conter seu desespero.

— Eu já devia esperar algum tipo de gafe dessas, não é novidade… — Gabriel julga enquanto Fadıl apenas suspira desapontado e fala:

— Já passou quanto tempo lá fora?

— Cerca de, hum… — Hinako puxa do bolso de sua saia um pequeno relógio. — Ér, umas doze horas. É, mais ou menos, 00:30 ou 01:30…

— O pessoal do conselho estudantil e do clube bélico vão ter um treco. — o lobo resmunga colocando as mãos no rosto.

— Isso se meus pais já não tiverem acionado a polícia. — Hinako ri.

— Isso não é hora pra piada, sabe? Caralho…

— Chora não.

— Vai te foder!

— Fala baixo, vai atrair aberrantes.

— Qual o teu problema, porra, por que tu não pode agir feito gente só uma vez!?

— Relaxa, eu não preciso forçar pra ser gente que nem tu, totó — ela gargalha enquanto o lobo permanece indignado.

E em meio à troca de alfinetadas e xingamentos entre Fadıl e Hinako, Takeshi apenas observa o ambiente com uma estranha nostalgia.

Ainda era um corredor de hospital, não havia dúvidas quanto àquilo. Mas a ausência de luz (e qualquer cenário além de uma imensidão negra) nas janelas e as luzes que mal iluminavam o lugar, evocavam sentimentos mistos no raposo.

— Tá todo mundo bem ocupado agora — A voz de Zacarias surgiu, quase como um sussurro. — então, acho que não tem problema falar contigo agora. Hihi!

— Hã? — o raposo logo se vira para trás, à procura do defunto. De fato, ele está ali, encarando Takeshi com o mesmo sorriso morbidamente gentil de antes (talvez agora um tanto mais proeminente e travesso)

— Está atribulado, né? — Zacarias pergunta. 

— Um pouco. — o raposo responde — Eu me sinto um pouco melancólico aqui. 

— É normal, a julgar pelo seu jeito meio acanhado. — A expressão de Zacarias então muda. Ele está um pouco mais receoso agora. — Sabe, eu sei que disse que não fazia mal, mas não acho que posso falar tanto assim, porque o pessoal pode acabar me vendo… mas saiba que a sua angústia faz sentido. Afinal, você morou aqui nesses últimos dez anos.

— Pera, quê!?

— Eu tô com medo deles me verem, a gente se fala depois! — o garoto falou e então saiu correndo.

— E-ei! — E quando Takeshi dava indício de que iria atrás dele…

— HINAKO! — Fadıl grita após um som estranho, similar à uma pancada de vento (porém muito mais rápida e abrupta).

O raposo instintivamente olhou, novamente, na direção do grupo. A garota já não estava mais lá. 

— MERDA! — Fadıl grita conjurando o que parece ser uma espada e, dessa forma, golpeando o chão. — AJUDA AQUI!

— Haa… uh, hein!? — Takeshi gaguejou por um instante, ainda tentando se inserir na situação.

— Um aberrante, porra! Puxou a Hinako pro andar de baixo!

Naquele momento, Takeshi estava prestes a perguntar: “Mas porquê não descer pelas escadas ou elevador?”, já que em sua mente, obviamente isso seria mais rápido do que quebrar o solo do hospital.

Porém, a resposta logo veio em sua mente. 

“Estávamos andando há uma hora, sim, Hinako disse isso…”, ele pensou enquanto olhava o corredor no qual as extremidades não eram visíveis — o lugar se estendia infinitamente. 

02

— …

No fim, eu não tenho nada a falar. Eu apenas contemplo o quarto de hospital onde estou, aparentemente, internada.

— Hum… — suspiro — Que horas são?

Olho para o relógio digital na mesa de cabeceira ao lado da maca onde estava deitada — 7h15.

Ah, eu já deveria estar na escola.

Minha nossa. Será que eu receberei algum atestado por isso? Mas afinal, o que aconteceu? Lembro-me de um gosto metálico antes de perder a consciência… vomitei sangue ou algo assim?

PAH!

— Hã!?

Alguém abriu a porta do quarto de forma extremamente abrupta e violenta. Ao olhar naquela direção:

— PROFESSORA! — É… é a Hinako!?

Ela estava suja, com roupas manchadas por um líquido vermelho viscoso. Os cortes espalhados pelo seu corpo me fizeram assumir tratar-se de sangue. Ela também portava uma espada — uma katana — de cor vermelha.

— H-Hinako! O que aconteceu com você!?

— Professora — ela respira fundo, tentando se recompor enquanto suas mãos, assim como a espada, tremem incessantemente. Seja lá o que aconteceu com ela, a deixou extremamente cansada, ou abalada. — Cadê aquele diário!?

— D-diário? — Olho para a mesa cabeceira, ele estava logo ao lado do relógio. Agora que paro para pensar, eu me mantive agarrada com ele ou algo do tipo antes de vir para cá?

— HAAA! — a garota avançou furiosamente, cortando o livro e a mesa.

O barulho era esquisito, não que eu tenha experiência com coisas quebrando, só não esperava que o som fosse tão seco.

— Hinako, o… o que foi isso?

— Aaah, aaah — ela estava ofegante — A maldição, a substituição.

Meus olhos arregalam.

— E-esse diário tem algo a ver, então…?

— De certo tem. O cara que escreveu ele, real deve ter sido substituído. — ela cerra os dentes, deixando escapar um ‘tsc’ seco antes de prosseguir: — esse troço de substituição parece que é mais antigo do que eu pensei.

— H-Hinako… 

— Não dá tempo de explicar agora, professora. A gente tem que meter o pé daqui, não dá pra lutar com o aberrante agora!

No fim, eu decido que não vou, sequer, questionar o que seria um “aberrante” nesse contexto — apenas afirmo com a cabeça e a sigo para fora do quarto.

03

Quando os injustos se mostraram, rasgando a frágil justiça dos fracos com sua ambição doentia, os flagelados clamaram pela ajuda de Deus que nada fez. Eles então se viram sem saída — sua fé os havia abandonado — o desejo pela justiça, o desejo pelo auxílio, tais conceitos foram mais uma vez frustrados. E quando os últimos mártires foram levados pelos injustos… os fracos caíram no desespero. Não havia nada para se agarrar, não havia nada para se ter esperança — aqueles que tentavam eram os primeiros a cair, não importava quantos flagelados fossem arrastados para o abismo.

— Não há mais orgulho algum em ser humano. — falou o homem à beira da morte no seu leito solitário em meio à paisagem monótona — Sabe, eu iria preferir muito mais… ser como você: um animal. — ele tentou respirar fundo, uma tentativa pífia de puxar o sopro de vida para seu corpo novamente, mas tudo o que conseguiu foi tossir sangue.

— Ah… — então, ele percebeu — Minha nossa, parece que o período frio já está para começar… — o lugar estava coberto de neve, ele e o lobo de pelagem acinzentada que o acompanhava estavam cercados por uma imensidão branca. Eles estavam sempre ali? O homem sem forças não sabia responder. Da mesma forma, não sabia mais o que estava fazendo, nem o objetivo de sua jornada.

O animal que o acompanhava fielmente se angustiou, percebeu que havia algo errado.

“Mesmo que ele esteja aqui, mesmo que eu esteja te vendo… por que… por que o seu cheiro está assim…?”, pensou o canídeo. Ele achava muito mais fácil identificar o que seu companheiro humano sentia através do cheiro do seu suor ao invés de ficar observando seu rosto, e aquele cheiro não era algo corriqueiro, não era algo que ele associava ao humano. Era comum quando caçava, quando devorava uma presa, mas não em seu companheiro.

“Por que você está cheirando a sangue…!?”

— Ei, Fadıl… — falou o homem — Quando eu morrer, eu vou sumir. Não tem nada no fim. Por isso, por favor…

O lobo não era capaz de entender as palavras do homem, apenas sentia o turbilhão de dor no tom de voz dele.

Porém…

— Por favor, viva para sempre no paraíso.

De alguma forma, ele foi capaz de compreender perfeitamente tal pedido. Da mesma forma, ele foi capaz de perceber no mesmo instante que seu dono já não estava mais lá. 

Tudo o que sobrou foi uma casca, um corpo onde algo que o lobo nomeado como Fadıl considerava importante residia, uma essência que não estava mais lá. 

Um calor que esfriou na neve.

Uma chama…

— Se apagou. — o lobo falou.

“Não!”, Fadıl repreendeu a memória — não havia tempo para pensar naquilo. “Hinako, preciso achar a Hinako…!”

O hospital já não obedecia mais às regras da própria arquitetura, o andar abaixo daquele — o térreo — já não era mais o mesmo. Assim como o segundo andar. Este era como um enorme corredor infinito cuja única diferença para o local anterior era o seu chão e paredes cobertos por vísceras.

Mas elas não estavam simplesmente espalhadas, como se houvessem sido jogadas ali — eram parte do lugar — algumas pulsavam e outras pareciam se retrair mais para o fundo da parede, o que indicava uma certa profundidade. Era até mesmo possível ver partes mais fálicas se espremerem por entre orifícios de carne, como se as entranhas vivessem e reproduzissem — mesmo sem um corpo completo.

 — Merda — grunhiu o lobo — cadê você, Hinako, porra…

— Vocês também estão procurando alguém? — uma voz masculina desconhecida fala. 

Fadıl, instintivamente, olha para os lados, procurando pela voz. Leva um certo tempo até ele perceber que ela havia ecoado do fundo corredor. Era um lobo, assim como ele. Uma garota de cabelos loiros e olhos alaranjados o acompanha.

— Meu nome é Maximiliano. E a garota chama-se Gisele. Estamos à procura de alguém importante para nós. — o lobo se apresenta. Não parecem estar buscando confusão, mas suas roupas visivelmente de época davam um nó na cabeça de Fadıl. 

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