Volume I

Dia 1

01

Escola Cristóvão de Rosário. De fato, sua arquitetura brutalista não combinava em nada com o tom da ambientação da cidade que, apesar de já ter um número razoável de habitantes, emanava uma influência forte do rococó europeu. Era como se o próprio ambiente em volta do campus estivesse com um ar, simplesmente, ‘incorreto’ — talvez isso também se desse pela atmosfera gerada pelos alunos e professores? 

No terraço do colégio.

Com as costas escoradas na parede do pequeno cubículo de concreto que isolava a escada para os andares inferiores, havia uma jovem segurando um maço de cigarros. 

Cabelos rosados de tom pastel que, apesar de lisos, se espalhavam próximos à região da nuca. Eram como pétalas muito finas de uma flor muito delicada. Algo realçado pelos seus olhos dourados vibrantes.

Porém, ela parecia incomodada com algo — sobrancelhas franzidas, olhos perdidos indo de um lado para o outro, braços cruzados e uma perna inquieta que não parava de tremer.

Apesar disso, ela nada disse — afinal, ainda não havia ninguém para contemplar os devaneios que ela refletia enquanto segurava um único cigarro.

— Meu Deus — a jovem resmungou — quando será que aquele idiota vai vir!? — e então franziu a testa ainda mais, deixando algumas rugas evidentes na região dos olhos e nas laterais entre o nariz e boca.

Ela havia saído da sala um pouco antes do toque para o almoço — por volta das 11h45.

— O sinal já deve ter tocado — mais reclamações enquanto olha para um relógio velho de pulso, ainda funcional.

12h10

— Ai meu Deus, cadê você!?

O silêncio não teve tempo de tirá-la ainda mais do sério, um lobo havia chegado.

Ele logo percebeu a presença dela, afinal ela estava escorada na única parte de concreto no lugar, e então falou:

— Você t-tá, ér, esperando alguém?

— Você não disse isso, cara.

— Hein?

— Eu tô esperando VOCÊ, ô imbecil!

O lobo apenas teve tempo de exclamar um — Ah! — desengonçado até que ela, puxando um isqueiro da pequena bolsa que tinha consigo, acendesse um dos cigarros que acabou de colocar na boca.

 

 

— E-ei!

— Que é? ‘Não pode fumar na escola’? Fala alguma coisa que eu não sei.

— Ér…

— Não, só fica quieto por um instante mesmo. — ela resmunga mais uma vez e dá uma tragada no cigarro. O silêncio, então, pôde reinar por alguns instantes…

Entre olhares e alguns grunhidos quase inaudíveis, o lobo permaneceu sem dar uma palavra sequer.

— …Cê fuma? — perguntou a garota.

— Claro que não. E você sabe disso.

— Prum lobo, você é bem mole.

— E-ei, fumar não é sinal de força, sabia!?

Eles se encararam por poucos segundos, uma tensão idiota se criava em meio ao silêncio e caretas de inconformidade dos dois.

— É, você tem razão. — a garota ri.

— Sabe, às vezes eu não entendo o que passa pela tua cabeça, Hinako…

— Eu também não.

Novamente, o silêncio.

Apesar de quase nunca saber o que falar, o lobo sentia um certo conforto quando próximo àquela garota. Sentia que ela podia, de fato, entendê-lo apesar de ele próprio não entendê-la na maior parte do tempo. Talvez esse fosse o motivo das suas mãos ficarem suadas perto dela.

Esta era a amizade estranha que Hinako Togawa e Fadıl Veiga Börü acabaram construindo nos últimos cinco anos.

— Mas enfim. — O lobo então tomou a iniciativa. — P-por quê você me chamou aqui?

— Queria te mostrar uma coisa.

— Uma coisa?

— É. — Hinako então olhou fixamente para o céu. Fadıl fez o mesmo.

— Ér, era o céu?

— Não.

Fadıl então estalou a língua com os olhos revirados e logo em seguida suspirou.

— Então o que é!? Para de fazer mistério!

— Hehe — Ela então deu uma pausa seguida de uma respirada funda, e então falou: — eu só queria te mostrar o meu amor.

— HÃ!?

— Quer dizer, eu nunca mostrei ele pra ninguém, sabe?

— Hum. — foi o máximo que saiu da boca do lobo enquanto, com as mãos atrás das costas, segurava o próprio rabo com uma força desnecessária. 

“Que saia justa…”, pensou Fadıl enquanto pensava no quão difícil era para os lobos esconderem esse tipo de intenção, se a cauda balançar seria constrangedor, se algo na frente ‘acordasse’ seria extremamente constrangedor.

— Não é bem algo ‘romântico’, não me entenda mal. É só que, eu sinto que devo te mostrar isso.

— O-o seu amor? 

— É.

— Mas o que seria ele? Você disse que não era algo romântico. O que é então?

— Gratidão. E talvez egoísmo também.

— Hein? — Os ombros dele relaxaram, o rabo parou de contorcer.

“Ufa…”, ele então comemorou internamente.

— Sabe, quando nos tornamos amigos, cinco anos atrás?

— Hum, o que tem?

— Eu disse que não achava justo você ser ignorado por todo mundo, só por ser um lobo, parecia que eu tinha pena de você.

— Agora que você fala…

— Pois é. Mas a real é que eu sentia inveja.

— Você tinha inveja de mim por sofrer ostracismo social?

— Da sua determinação em não parar de tentar sair dele, ô imbecil. — Ela suspira e então continua: — Eu podia ser a garota popular, a garota bonita, a garota perfeita mas, mesmo com todos esses títulos, eu não aguentaria o que você aguentou.

— Entendi. — Ele engole em seco e continua: — Mas não me dá muito crédito não. Eu só aguentei porque não tinha outra escolha.

— Você podia ter se matado.

— Isso não é uma opção…

— E é por isso que te acho forte.

Hinako se levanta de onde ela sentava e vai em direção a Fadıl.

— Hum? H-Hinako?

De repente, ela o abraça, deixando-o sem tempo de reagir de outra forma, a não ser exclamar um — Hein!? — com um certo desespero enquanto implorava para que os instintos do seu próprio corpo não explodissem naquele momento.

— Para de ser virgem, não é só porque eu sou uma garota linda que você tem que ficar todo encabulado. — ela falou e deu uma leve risada, mas o lobo pôde perceber algo errado, um tremor na voz da garota.

— H-Hinako?

— Eu não acho que as coisas lá em casa vão durar muito mais tempo.

O lobo arregalou os olhos, seu coração acelerou por um instante, mas ele nada proferiu além de alguns gaguejos e grunhidos.

— Me desculpa, só me deixa ficar aqui um pouco.

— T-tá.

Eles permaneceram lá, por alguns momentos. 

O lobo pôde sentir o coração da garota — às vezes batendo rápido, como se quisesse paradoxalmente parar, às vezes lento, como se a vida de Hinako fosse realmente desaparecer ali mesmo.

Isso por si só, angustiou o coração dele — Hinako não era mais sua única amiga, mas ainda era alguém importante.

— Por favor, Hinako, mesmo que tudo dê errado. Não desapareça, tá bem?

— …Tá, tá bem.

O tempo permaneceu passando — ignorando, e ao mesmo tempo anestesiando, as dores dos dois.

12h45,

— Ah! — Hinako exclamou. — Tá quase na hora de voltar pra aula.

— É.

— Bom, pelo menos o turno da tarde vai ter mais algumas aulas da professora nova… a tal Sora.

— Ah, você gostou dela?

— É, eu gostei. Você não?

— Ela parecia meio nervosa demais, mas eu entendo o lado dela.

— Claro que entende, nervosismo é contigo mesmo.

— Besta.

Os dois riram.



02

— Classe 3-E.

Agora eu entendi o porquê de terem me colocado aqui sem mais nem menos.

— Ah, meu Deus — resmungo — essa é a pior classe da escola!

Claro, mas é claro que não iriam colocar uma professora jovem sem qualquer experiência prévia em uma sala de aula modelo, não iriam querer que uma possível incompetência não detectada no meu método de ensino afetasse a reputação da escola. Mas agora, eu estou numa saia justa!

A maioria da sala não quer saber de química e, certamente, de nenhuma outra matéria — ensinar naquele purgatório é como lutar com os interesses pessoais de cada aluno, tendo apenas informações desinteressantes como arma.

E o pior de tudo, eu preciso desse trabalho!

Uma chance de ensinar na maior escola de rosário não vai aparecer de novo assim, de mão beijada, eu preciso dar o meu melhor. Eu vou dar o meu melhor.

Eu!

— Contra a parede de novo?

— …Hã?

Uma voz familiar me pergunta, ecoando pela sala de aula ainda vazia.

—Você ainda está sozinha, mesmo dez anos depois? — É, sem dúvidas é ele.

“Atropelamento próximo à escola”

É, foi algo assim. A notícia saiu em todos os jornais da vila.

Takeshi Shinohara, um raposo que estudava comigo, morreu após um carro passar por cima dele.

Ele se desequilibrou na calçada, caiu no meio da rua.

Uma fatalidade, oh de fato, seria uma fatalidade se eu não tivesse causado isso…

— “MORRA COMO O ANIMAL QUE VOCÊ É!” — Certamente, foram palavras bem duras.

Eu estava com raiva, estava com muita raiva.

Takeshi era meu único amigo na escola.

Takeshi era o único que passava tempo comigo.

O único que eu podia confiar.

Ainda assim, ele se apaixonou por uma das garotas populares. Uma daquelas prostitutas imundas.

Quando ele tentou amenizar toda aquela exclusão que eu sofria, obviamente tudo se voltou contra mim.

Me acusaram de manipulá-lo para me tornar popular.

Me acusaram de me envolver com Takeshi para me proteger, que eu estava apenas o enganando.

Muitas coisas.

E então, eu explodi no fim da aula — o confrontei e disse coisas que não devia.

Nem mesmo ele acreditou que minha boca era capaz de produzir tais maldições — muito menos eu.

E então…

Foi um som horrível. 

Os pneus do carro esmagaram seu abdômen e pescoço num instante. 

Os órgãos pulsaram por uma ínfima fração de tempo — eu pude perceber naquele momento que era a pior dor que ele sentiu na vida. Mesmo que só houvesse durado um momento.

No fim, eu fiz tudo isso pois me revoltei ao ficar sozinha — ao ser traída.

E agora, cá estou eu. Presa em uma situação complicada, e completamente sozinha.

Foi assim que você se sentiu, Takeshi?

Foi assim?

Foi assim?

Foi assim?

Foi assim?

Foi…

— Oiê! — Uma voz me tira do transe. — Vim só te agradecer por entregar a marmita, hehe… — Uma risada envergonhada, tal qual o taxista de mais cedo.

Ah, mas é claro.

—Ah! Sem problemas, Misha.

Eu sorrio e olho discretamente os arredores.

Ótimo, não tem ninguém além do urso para ver a minha decadência. Desta forma, é mais fácil de disfarçar. 

— … — Ele dobra ligeiramente a cabeça com uma das sobrancelhas tencionada para baixo, enquanto a outra levanta. Uma expressão confusa, mesclada à uma certa preocupação. — Tá tudo bem?

— Hein? Ah! C-claro!

— A senhora, hm, não quer lavar o rosto ou algo assim?

— O que quer dizer, Misha? O intervalo deve acabar a qualquer momento.

— É que, sabe — Ele olha de um lado para o outro, como se quisesse me falar um segredo, mas também como se não conseguisse acreditar no que via, algo que está bem debaixo do meu nariz e apenas eu não era capaz de perceber. — a senhora… tá chorando.

— …

Por um instante, eu permaneço calada. Ah, então é por isso que meus olhos estão com essa sensação de inchaço. Faz sentido, é, de fato faz sentido. 

— Ah, minha nossa, eu, não… não percebi! 

Tento enxugar as lágrimas mas, quanto mais eu tento me desculpar pelo inconveniente, mais elas fluem, mais elas transbordam, mais eu me afogo nesse turbilhão viscoso de um sentimento que nem sei o que é…

— Hum, t-tá de boa.

— N-não, me perdoe, me perdoe mesmo, Misha! Um professor, um adulto, não deveria ter esse comportamento!

— …Tá tudo bem. — Ele sorriu. — Às vezes adultos se sobrecarregam também, heh, eu entendo, de verdade. Eu já sou um adulto também, afinal de contas.

— V-você não precisa tomar as dores da sua professora, Misha. — Tento sorrir de volta. “Eu vou sair aqui para tomar um pouco de água.

— Quer que eu acompanhe?

— Não, está tudo bem, sério.

— Tá.

Eu saio da sala. Ainda não tem ninguém voltando do intervalo — realmente, os estudantes devem gostar de aproveitar sua liberdade acadêmica até o último minuto, hein?

TUC!

— Argh! — acabei esbarrando em alguém, um aluno — Ah, m-me desculpe.

— Professora Sora? — ele pergunta, e então sorri. — Eu estava procurando pela senhora.

— Hum? D-do que precisa? — ignoro meu estresse latente e tento assumir uma postura de ajuda, afinal, a oportunidade de lecionar aqui não vai cair do céu de novo.

— Bom, eu deveria ter ido falar com a coordenação, mas não havia ninguém na sala. — ele permanece em silêncio por um momento, e então, com um sorriso deslocado, fala: — Encontraram o garoto desaparecido da semana passada. Ele está morto, estirado no corredor ao lado.

— …Hein?

Certamente, encontrar um cadáver com marcas de mordida e garras — assim como partes faltando — não estava nos meus planos de ingresso profissional.

Certamente — assim como na vez em que Takeshi morreu — as coisas começaram a desandar com a minha presença.

Talvez eu, de fato, seja o problema.

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