Bestas do Rosário Brasileira

Autor(a): Ikiru997


Volume I

Prólogo

Foi alguns dias antes das férias de verão de 2005.

Estávamos na calçada da escola.

— Você, você acha que eu sou algum tipo de prostituta!? — falei por entre grunhidos. Meu rosto estava inchado de tanto chorar; eu me sentia traída. — Você quer me comer ou algo do tipo!?

— S-Sora — O raposo juntou suas mãos trêmulas, seus olhos estavam bem arregalados. — N-não é nada disso! Eu, eu só…

— ‘Só’ o quê? Você queria que eu fizesse amizade com aquelas megeras!? Por quê isso do nada? Ia fazer um harém ou algo do tipo? Nojento, nojento!

— Sora, e-eu, eu…

— O QUÊ!? — gritei. Uma parte de mim, sabia que ele tinha pena da criatura patética que eu era, mas eu não queria que ele admitisse isso. Queria me sentir especial, queria que nossa amizade tivesse surgido naturalmente, sem o viés predatório que criei na minha mente devido aos boatos.

— Sora, por favor, se acalma — Ele tentou levar suas mãos até os meus ombros — possivelmente, queria me abraçar. E eu, de fato, queria isso.

Mas mesmo assim, eu o rejeitei violentamente. 

— MORRA COMO O ANIMAL QUE VOCÊ É!

Eu o empurrei.

Ele tropeçou.

E então, como se houvesse surgido do nada,

O carro.

Passaram alguns segundos — eu ainda estava observando a poça de vísceras e o olhar de dor repentina dele.

— … Ei… O que separa um humano de um animal? — perguntei naquela hora. — Ei, me responde, por favor, não me deixa sozinha aqui! — eu estava chorando, né? Era um momento desesperador, é, de fato. Não é como nos animes. Não é como nos jogos. Eu não tenho como, simplesmente, reescrever o passado. Ele está morto, eu o matei. Ele desistiu dos seus instintos, eu os recuperei. Seria essa a diferença fundamental entre o animal autointitulado Homo Sapiens e o restante dos seres vivos? Eu não sei, certamente, não sei.

— Me desculpe.

Hã?

— Me desculpe, me desculpe.

Entendi, estou revivendo aquele momento que mais ninguém lembra.

Que mais ninguém associa à mim, que todos consideram um simples timing ruim: o dia em que Takeshi Shinohara foi morto — o dia em que eu desejei pela sua morte — o dia em que minha vontade foi concebida pelo acaso, tornando-me uma assassina.

— Sora?

Essa é a voz da minha mãe 

— Ah? — Só então percebi, eu estava dormindo até então. — O que foi?

— Você não ouviu quando falaram? — meu pai questiona com um leve sorriso. — Já estamos nos preparando para aterrissar.

Que sono pesado eu tenho.

— Então, já estamos em Rosário? — pergunto.

A cidade em que meu pai irá trabalhar a partir de agora — de certo, é bem longe de casa. Eu me pergunto se isso seria uma forma que o destino achou de acobertar o meu crime…

Quando penso nisso, algo ruim percorre minhas costas — eu sinto que estou prestes a colapsar — por favor, alguém me ajude, por favor, alguém me perdoe.

— Alguém…

— Hã?

De repente, eu me dei conta — não estava mais naquele lugar — dez anos passaram desde então.

— Ah! Me desculpe, moço.

Eu me desculpo com o taxista — um urso pardo — enquanto me pergunto por quanto tempo eu fiquei falando — e o que eu estava falando…

— Trabalhando muito, senhorita?

— Ah, não realmente. Eu acabei de receber meu diploma, na verdade, hoje será meu primeiro dia oficialmente como professora.

Sorrio um pouco sem jeito.

— Entendi.

O silêncio reinou por poucos momentos até que o taxista voltasse a falar.

— Você é professora de quê?

— Química.

— Hum. Interessante.

Ele respirou fundo.

— Você quer descobrir a origem da vida ou algo assim?

— Hã?

— Uma vez, quando eu ainda estudava, um professor meu disse: “... a química é o estudo da matéria — o fundamento para toda a vida e universo.” Aí, desde então, eu acabei ficando com isso na cabeça, sabe… dos químicos estudarem essas coisas mais esotéricas também.

Ele riu.

— Acredito que os responsáveis por esse aspecto mais místico ficaram no passado; eram os alquimistas.

— Entendi

— Mas entendeu mesmo? — soltei uma risada. — Esses detalhes históricos não são muito conhecidos às vezes.

— Hehe, eu tenho alguns parentes que se formaram em áreas de saúde e pesquisa; acabei aprendendo uma coisa ou outra por osmose.

— Ah, entendo…

Permanecemos conversando por mais um tempo, na verdade, até a chegada ao campus — Escola Cristóvão de Rosário — uma escola tradicional da cidade em questão.

Foi um pouco estranho, senti um certo calafrio ao observar o prédio da janela do táxi. Era enorme, com uma arquitetura brutalista opressiva — não parecia, realmente, uma escola.

— Aí, moça — O urso chama a minha atenção. — caso você vá dar aula pro 3-E, pode me fazer um favor?

— Ah, c-claro. O que seria?

— É o meu filho, Misha, ele esqueceu o almoço. — Ele riu um tanto envergonhado enquanto me dava uma pequena marmita. — Só volta pra casa no fim de semana e ainda esquece a comida que fazemos quando volta pra cá… poderia entregar pra ele?

— Ah, sim, sem problemas.

— Valeu, mocinha!

E assim, já foi me dada a primeira missão do meu novo trabalho. Felizmente a classe 3-E é, justamente, a que eu estou responsável, assim como minha aula será a última antes do horário de almoço.

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