Volume I

Prólogo: Parte II

Vistos de perto, os monumentos pareciam vivos. Dóryon os contemplou, fascinado, e imaginou-se um dia entre eles, como um grande dominador de Venwin, assim como o pai.

 

Depois avistou o chafariz azul da praça, cercado por flores. Mercadores vendiam frutas exóticas, carnes raras e armaduras de materiais desconhecidos. As mansões ao redor exibiam fachadas trabalhadas e janelas altas, tão diferentes das casas simples de Terkin.

 

O olhar de Dóryon absorveu cada detalhe, cada cor, cada sinal de um mundo que até então conhecera apenas em histórias.

 

A carruagem parou diante da nova residência da família Magnuss. Dóryon prendeu a respiração.

 

A mansão erguia-se em três andares, mesclando tons de cinza-pérola e azul-acinzentado, refletindo a natureza do venwin. 

 

As janelas arqueadas tinham molduras douradas, e as colunas da varanda exibiam relevos que lembravam redemoinhos silenciosos.

 

Acima do portão de ferro, brilhava o símbolo da família Magnuss: uma adaga envolta por venwin, gravada em silp e gyl, reluzindo sob o ligne do entardecer.

 

O pátio era amplo, pavimentado com terarth clara, cercado por arbustos que se curvavam à brisa constante. 

As varandas se estendiam em arcos elegantes, cortinas translúcidas ondulavam ao venwin, e gárgulas aladas coroavam as torres pontiagudas, guardiãs silenciosas do novo lar.

 

— É… inacreditável — murmurou Dóryon.

 

Sienna desceu emocionada, com lágrimas silenciosas.

 

À frente da entrada, aguardava um grupo de pessoas. Um homem idoso de rosto rosado vestia um terno de seda preta; ao lado, uma mulher elegante usava um vestido cinza de cauda longa.

 

O homem inclinou-se.

 

— Senhora Magnuss, seja bem-vinda. Sou Tobias Laurence III, ministro do imperador. Esta é Dolores Montiliev, a mordoma-chefe da casa.

 

Sienna retribuiu o cumprimento. Tobias voltou-se para Dóryon com um sorriso caloroso.

 

— Este deve ser o jovem mestre Dóryon Magnuss.

 

Ele colocou as mãos sobre os ombros do garoto.

 

— Venham. A senhorita Dolores mostrará a nova casa.

 

Darvor deixou esposa e filho sob os cuidados de Tobias e seguiu para o palácio imperial.

 

Assim que cruzou os portões, Dóryon sentiu o peso silencioso da nobreza no ar. Observou empregados apressados, todos trajando cinza e ostentando o símbolo da Casa Magnuss.

 

— Por que todos usam a mesma cor? — perguntou.

 

— Pelo mesmo motivo que você a carrega no peito — respondeu Tobias. — As cores revelam o líder da casa e seu elemento.

 

Ele completou, com voz grave:

 

— Em Gylden, tudo se resume a poder. Quem o possui é temido… e respeitado.

 

Dóryon ainda não compreendia totalmente aquelas palavras. Seus olhos vagaram pelo salão imenso, pelas escadarias em espiral e pelos quadros antigos. 

 

Entre eles, um se destacava: uma elfa envolta em um manto, segurando uma manifestação viva de Ligne.

 

— A fundadora de Gylden — ou, ao menos, como imaginamos que tenha sido. Já se passaram mais de trezentos invernos desde que desapareceu.

 

— O que aconteceu com ela? — perguntou Dóryon, curioso.

 

— Ninguém sabe ao certo — respondeu Tobias, com um suspiro. — Os registros falavam apenas da última batalha dos guardiões contra uma criatura antiga. Após o confronto, muitos pereceram… e ela jamais foi vista novamente.

 

— E o monstro?

 

— Seu destino também se perdeu no tempo. Ainda assim, os guardiões triunfaram. À sua maneira.

 

Dóryon permaneceu ali, contemplando a elfa e sentindo algo inexplicável, como se o olhar oculto dela o atravessasse e sondasse sua alma.

 

Mais tarde, quando Tobias partiu e o crepúsculo cedeu lugar à noite, Dóryon tomou seu primeiro banho na nova morada.

 

O toalete era amplo, revestido de Silp stone reluzente. Na banheira, a vater quente exalava o perfume das pétalas de rosa que flutuavam à superfície. 

 

Ao mergulhar, ele sentiu o cansaço do dia se desprender do corpo, como se o Venwin, o sopro vital do mundo, o envolvesse em descanso.

 

Sobre uma pequena mesa repousava um sabonete de aroma delicado, diferente dos que usava em Terkin. Ao tocá-lo, Dóryon sentiu a firmeza e a consistência daquele sabão.

 

De repente, uma empregada entrou discretamente e trouxe uma jarra de vater quente para manter a temperatura. Ele apenas acenou, sem dizer palavra.

 

Quando terminou, foi conduzido até seu quarto.

 

O corredor pareceu não ter fim: um tapete grosso se estendia sob seus pés, e as paredes exibiam pinturas e brasões antigos, testemunhas silenciosas da história de Gylden.

 

A empregada abriu uma porta alta e maciça, revelando seu novo aposento. Dóryon sentiu o ar lhe faltar por um instante.

 

O quarto era imenso. As paredes azul-celeste refletiam o ligne das velas, e uma cama de madeira escura, adornada por uma cabeceira entalhada, dominava o centro. 

 

O colchão macio, coberto por lençóis de linho, parecia um convite ao descanso. Ao lado, um guarda-roupa robusto completava o ambiente.

 

— Deseja ajuda, jovem mestre? — perguntou a empregada, deixando uma muda de roupa sobre a cama.

 

— Não, obrigado — respondeu ele, ainda atônito.

 

Depois de se vestir, desceu ao salão de jantar. A mesa, longa o bastante para acomodar uma dezena de convidados, já estava posta.

 

Na cabeceira, Darvor, trajando o uniforme imperial, aguardava com expressão severa; à sua esquerda, Sienna usava um vestido de seda que refletia o ligne das velas.

 

— Por que demorou tanto? — perguntou o pai, sem elevar o tom, mas com uma autoridade que tornava o ar pesado. — Da próxima vez, chegue uma hora antes.

 

Dóryon apenas assentiu e sentou-se à direita dele. Os criados serviram o jantar: um guisado de Durkran, ave rara de carne macia.

 

Ao provar a primeira colherada, Dóryon sentiu um sabor tão intenso que, por um momento, esqueceu onde estava. Jamais provara algo tão saboroso. 

 

O aroma preencheu o salão, e a carne se desfez na boca, despertando nele uma alegria infantil.

 

— Está delicioso! — exclamou, empolgado. — De qual bicho é essa carcaça?

 

Darvor ergueu o olhar lentamente, e sua voz grave rompeu o instante de harmonia:

 

— Modos à mesa, Dóryon. A forma como você fala e se porta é inaceitável.

 

O silêncio caiu como uma lâmina. Em seguida, ele se virou para a mordoma:

 

— Dolores, a partir desta semana, providencie uma tutora que ensine boas maneiras ao meu filho… e à minha esposa também.

 

— Sim, senhor — respondeu ela, curvando-se discretamente.

 

Tentando amenizar o clima, o cozinheiro adiantou-se:

 

— Jovem mestre, meu nome é Luence. O prato servido hoje foi feito com carne de Durkran, também conhecido como ave oculta. É uma espécie rara, de plumagem verde e vermelha.

 

Sienna inclinou-se levemente à frente.

 

— E por que ela é rara, senhor Luence?

 

— Porque o Durkran é um mestre da camuflagem, senhora. Ele muda a cor das penas conforme o ambiente, confunde predadores e caçadores. Caçá-lo exige mais sorte do que habilidade.

 

Darvor assentiu e ergueu a taça.

 

— Está excelente, Luence. Um trabalho digno da mesa imperial.

 

— Agradeço, senhor. É uma honra servi-los — respondeu o cozinheiro, orgulhoso.

 

Dóryon sorriu, empolgado, e não filtrou as palavras:

 

— Está muito foda essa comida!

 

O som de sua voz ecoou como um estilhaço. Sienna o repreendeu de imediato:

 

— Dóryon! Vigie sua língua!

 

Mas já era tarde. Uma presença opressiva o atravessou como um golpe invisível.

 

Quando ergueu os olhos, encontrou o olhar furioso do pai, frio e ameaçador, mais pesado que qualquer grito. Num movimento rápido e seco, Darvor levantou-se e desferiu um tapa que queimou mais o orgulho do que a face.

 

— O que lhe disse mais cedo? — a voz soou como um trovão contido. — Vá para o seu quarto. Amanhã quero você pronto. Irá ao Instituto.

 

Dóryon permaneceu imóvel por um instante, com a bochecha ardendo e os olhos marejados. Em seguida, levantou-se sem dizer palavra e deixou a mesa.

 

Dolores observou a cena, horrorizada, enquanto Sienna manteve o olhar baixo, sem lágrimas, sem reação, como se aquele gesto já fizesse parte da rotina silenciosa da casa.

 

No quarto, Dóryon deitou-se sem trocar de roupa. As lágrimas umedeceram o travesseiro, e o gosto amargo da humilhação misturou-se à dor física, até que o silêncio o envolveu por completo.

 

Quando o sol nasceu, o garoto já estava de pé. Vestia uma calça marrom e uma camisa cinza sob um paletó avermelhado. Ao descer as escadas, viu a carruagem à porta e a mãe à sua espera, trajando um elegante vestido azul-escuro.

 

Sienna aproximou-se, ajeitou-lhe o colarinho e disse, firme e afetuosa:

 

— Lembre-se, meu filho: és um Magnuss, filho de Darvor. Mostre piedade aos aliados… e aço aos inimigos.

 

Ainda ferido pela noite anterior, Dóryon apenas assentiu e subiu na carruagem em silêncio.

 

Enquanto atravessavam as ruas de Arllot, ele observou o mundo pela janela.

 

Na praça central, viu um garoto manipular vater e fazê-lo girar em círculos que subiam e desciam como uma dança ao redor de seus pés. Mais adiante, outra criança praticava terarth e erguia pequenas lascas que flutuavam diante das mãos.

 

O coração de Dóryon se apertou. Ele cerrou os punhos sobre as coxas e desviou o olhar, tentando esconder o misto de apreensão e desejo que o consumia.

 

Após uma longa jornada, enfim avistou o Instituto Imperial. A construção erguia-se como um monumento à grandeza.

 

As torres gêmeas subiam ao céu em espirais de terarth cinzenta, coroadas por estandartes que tremulavam sob o toque do venwin. 

 

Os portais de madeira escura e metal polido exibiam entalhes minuciosos dos quatro dobradores primordiais, fimber, vater, terarth e venwin, em poses grandiosas, como se estivessem prestes a liberar o poder que moldara o mundo.

 

Os vitrais, em tons de rubro, azul, marfim e cinza, filtravam o ligne do sol em reflexos dançantes e projetavam no chão figuras de heróis antigos em batalhas lendárias.

 

Ao redor do Instituto, a vida pulsava com ordem e propósito. Soldados em armaduras douradas marchavam em ritmo firme, enquanto estudantes, professores e nobres cruzavam o pátio, cada qual imerso em seu próprio dever.

 

O coração de Dóryon acelerou. As mãos úmidas repousaram sobre os joelhos. Preso entre o medo e o fascínio, ele permaneceu imóvel na carruagem.

 

Dolores percebeu sua hesitação, ajoelhou-se diante dele e tomou-lhe as mãos com delicadeza.

 

— Mestre Dóryon… não há o que temer. O Instituto é um lugar de aprendizado e honra. Aqui, aprenderá a se tornar um guerreiro digno, como seu pai.

 

— E se eu não conseguir ser como ele? — murmurou o garoto, e desviou o olhar. — E se eu fracassar?

 

Dolores sorriu com ternura e apertou-lhe as mãos.

 

— O futuro é feito de incertezas, meu jovem senhor. Mas, com coragem e força, creio que você se tornará alguém grande.

 

— Acha mesmo?

 

— Sem dúvidas. Errar faz parte do caminho. É no tropeço que aprendemos a erguer a cabeça. — Ela pousou a mão sobre a coxa dele. — O importante é seguir em frente. Sempre.

 

Dóryon respirou fundo e relaxou os punhos.

 

— Certo… vou tentar. Obrigado, Dolores.

 

— Boa sorte, jovem mestre.

 

Ao descer da carruagem, ele foi envolvido por uma mistura de frio e ligne. Ao cruzar os portões do Instituto, o ar pareceu mudar, denso, carregado de ecos e memórias.

 

O interior era magnífico. O piso de madeira polida refletia o ligne suave que entrava pelas janelas altas, e as paredes, em carvalho e gesso, exibiam relevos intrincados que narravam a história do império.

 

No salão principal, abóbadas erguiam-se como costelas de um gigante adormecido, sustentadas por colunas ornadas em gyld pálido.

 

No centro, uma pintura monumental dominava o espaço: Arllot, a elfa dobradora do Ligne, envolta em um halo dourado, os braços estendidos, enquanto moldava a luminosidade em formas etéreas.

 

Dóryon permaneceu imóvel por um instante, pequeno diante de tamanha imponência.

 

— Você aí — chamou um homem alto, de barba malfeita e olhos verde-acinzentados. — Siga em frente. No final do corredor, aguarde com os outros alunos.

 

O garoto assentiu e caminhou.

 

Enquanto avançava, seus olhos percorreram os retratos nas paredes, imperadores, generais e dobradores lendários. 

 

Cada quadro trazia uma placa dourada com nomes gravados em caligrafia elegante. Entre eles, reconheceu sobrenomes familiares, figuras que haviam moldado o destino de Gylden.

 

Ao final do corredor, o sol o recebeu com intensidade. O chão de areia clara aquecia o ar vibrante. Bonecos de palha espalhavam-se pelo pátio de treinamento, e, ao centro, um grupo de jovens aguardava em silêncio.

 

À frente deles estava uma elfa de porte imponente. As pernas fortes sustentavam o corpo com natural elegância, e a armadura de Gyl, gravada com entalhes de Silp, reluzia sob o ligne. No peitoral, o símbolo imperial cintilava em dourado.

 

Ela aparentava cerca de trinta outonos. O rosto belo e sereno contrastava com a firmeza do olhar. Os cabelos loiros caíam em ondas suaves até os ombros, e os olhos castanhos tinham algo de hipnótico. Onde passava, atraía olhares.

 

Ao notar Dóryon, ela o observou por um instante, com atenção avaliadora. O estômago do garoto se contraiu.

 

Com um leve movimento de cabeça, ela o chamou.

 

— Venha. Está atrasado, mas ainda há tempo de provar seu valor.

 

Voltou-se ao grupo e ergueu-se com imponência:

 

— Bom dia a todos. Este é o novo colega de vocês.

 

Virou-se para Dóryon.

 

— Meu nome é Dayla Galanor. Serei sua instrutora até que você se forme neste primeiro ano no Instituto Arllot.

 

Com um leve empurrão de encorajamento, colocou-o diante da turma.

 

— Agora, Dóryon, apresente-se.

 

Ela recuou alguns passos, com os olhos fixos nele. O coração de Dóryon acelerou, as mãos ficaram úmidas, e o ar pesou no peito.

 

Por um instante, ele fechou os olhos. Então reuniu a pouca firmeza que lhe restava e falou:

 

— Meu nome é Dóryon Magnuss, filho de Darvor Magnuss, comandante das tropas imperiais!

 

O murmúrio foi imediato. Cochichos curiosos se espalharam, até que Dayla os silenciou com um tom cortante:

 

— Quietos. Deixem-no terminar.

 

Dóryon respirou fundo e prosseguiu:

 

— Minha mãe é Sienna Magnuss. Recentemente, mudamo-nos para a região de Arllot. A partir de hoje… serei colega de vocês.

 

Um breve silêncio antecedeu os aplausos. Dayla ergueu a mão.

 

— Muito bem, Dóryon. Agora diga-me: você conhece o Conto dos Guardiões?

 

— Sim… instrutora.

 

Ela sorriu de leve.

 

— Aqui no Instituto Imperial, nas primeiras aulas começamos com uma homenagem aos fundadores de Gylden. Hoje, você conduzirá o relato da Lenda dos Guardiões de Arkien.

 

Dóryon engoliu em seco.

 

— E… como devo começar?

 

Antes que ela respondesse, um garoto gordinho e moreno riu, debochado. O som ecoou por um instante, até ser interrompido por um estalo seco.

 

Dayla desferiu um tapa rápido e preciso. O menino congelou.

 

— O momento de reverência aos fundadores não admite zombaria — disse ela, com autoridade. — Mais alguém deseja rir?

 

O silêncio tornou-se absoluto.

 

— Continue, Dóryon — disse, por fim. — Comece pela grande infestação.

 

— Certo… — iniciou ele. — Há muito tempo, no fim da era sombria, nas profundezas da floresta de Pandora, onde o sol mal tocava o solo, a carne da terra apodreceu. E dessa podridão nasceu uma praga.

 

Chamaram-na Córius.

 

Ele fez uma pausa. O silêncio foi total.

 

— O Córius não matava de imediato — continuou. — Ele consumia. Entrava pelas feridas, pelas veias, pelos olhos, e corrompia tudo o que tocava.

 

Ainda hesitante, Dóryon tentou gesticular. Passou a mão sobre o braço e o corpo, e prosseguiu:

 

— As criaturas afetadas se contorciam de dor. Seus corpos se partiam e se recompunham em formas grotescas. A pele escurecia, e sob ela as veias pulsavam com um brilho vermelho e vivo, como se a doença tivesse vontade própria.

 

Dóryon olhou para a turma. Alguns ficaram vidrados no que ele dizia; outros o encararam com desdém, como quem já ouvira aquela história muitas vezes.

 

— Quando enfurecidos, os infectados rompiam a carne e deixavam as veias saltarem para fora como raízes em chamas, pulsando com um som úmido.

 

As crianças recuaram. Até Dayla manteve os olhos fixos nele.

 

— Mas o pior — prosseguiu — não era a dor. Era o que acontecia quando o Córius encontrava um dobrador. A doença aprendia e se tornava consciente.

 

Quando se sentiu mais confortável, Dóryon imitou movimentos de dobradores.

 

— Quando tomava um corpo capaz de dominar um elemento, o Córius moldava essa energia e corrompia a dobra até torná-la antinatural.

 

A entonação de sua voz ganhou força.

 

— O vater se misturava ao sangue e fervia. O fimber queimava sobre a pele e pulsava até os ossos. O terarth se movia como maremotos, e o venwin soprava cortante, tóxico com a praga… e criava ainda mais desespero.

 

Dóryon enfatizou as palavras e gerou tensão nos que o escutavam.

 

— Esses dobradores corrompidos eram conscientes. Inteligentes. Predadores com lembranças humanas. Usavam suas habilidades não apenas para destruir, mas para espalhar a infecção entre povos e raças.

 

O tom de Dóryon tornou-se pesado, quase trêmulo, mas firme.

 

— Em pouco tempo, cidades inteiras foram consumidas. Os rios de Vater tornaram-se espessos, cobertos de sangue. As montanhas de Terarth tremiam sob o peso dos corpos. Até o próprio Venwin carregava o cheiro da morte.

 

Um breve silêncio se instalou.

 

— Até que ela surgiu.

 

Seus olhos brilharam.

 

— Uma elfa diferente de todas as outras. Seu poder não vinha dos quatro elementos conhecidos. Era algo que ninguém compreendia. Um quinto princípio, puro e terrível, capaz de rasgar a escuridão.

 

Dóryon fez a mesma pose da estátua na praça e exaltou:

 

— Ela dominava o Ligne. Com ele, queimava o Córius sem fimber, purificava sem vater e desfazia a carne corrompida como se arrancasse a doença da própria alma.

 

Ele estendeu o braço e continuou, empolgado:

 

— Chamavam-na Arllot, a Iluminada. Sob seu Ligne, os monstros gritaram pela primeira vez.

 

Ergueu o olhar para o céu aberto.

 

— Mas Arllot não lutou sozinha. Ela reuniu quatro grandes dobradores: Lanrith, o Justo, mestre do vater. Kaykhan, a Destemida, senhora do terarth. Arcel, o Desbravador, dominador do venwin. E Alexsander, o Berserk, dobrador do fimber.

 

Ao tomar fôlego, Dóryon buscou novamente o olhar das pessoas. Pareciam cada vez mais envolvidas no conto.

 

— Juntos, enfrentaram o coração do Córius. Lutaram por dias e noites, até que o Ligne de Arllot explodiu como um sol no meio das trevas e purificou tudo.

 

As crianças permaneceram imóveis.

 

— E assim — concluiu, em um sussurro — a praga foi extinta.

 

O silêncio dominou o pátio. Então Dayla avançou, com o olhar firme.

 

— Com o fim da praga e da destruição, os reinos de Arkien compreenderam que jamais poderiam permanecer separados.

 

Ela gesticulou e prosseguiu:

 

— Guiada pelo Ligne, Arllot uniu-se aos quatro grandes dominadores e fundou um reino no coração de Arkien. Gylden, o farol entre os reinos.

 

Dayla fez uma pausa solene.

 

— Assim nasceram os Guardiões de Arkien. Seus nomes ecoaram até hoje e nos lembraram de que o verdadeiro ligne não nasce do poder… mas da coragem de resistir ao caos e à escuridão.

 

 

Fim do Prólogo

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