Volume I

Capítulo I: Montanha Sangrenta

Dayla pediu que Dóryon se juntasse aos outros aprendizes e disse:

 

— Agora que nossos antepassados foram reverenciados, daremos início ao treinamento de hoje…

Ela se voltou para ele e prosseguiu:

 

— Dóryon, apesar de você ter chegado hoje, não retomaremos o conteúdo desde o início. Ao fim da aula, procure-me. Entregarei um pergaminho com tudo o que foi abordado até aqui, assim como fiz com os outros que ingressaram antes de você.

— Sim, senhora.

Em seguida, ela se virou para todos e continuou:

— Nas aulas passadas, estudamos nossa história e a compreensão de tudo que nos cerca, além de analisarmos o funcionamento de cada dominação elemental. Mas hoje… daremos início ao treinamento prático.

 

Ela apontou para os bonecos à direita e explicou:

 

— Os bonecos à frente de vocês são feitos de palha e presos ao chão por uma estaca de madeira. Formem uma fila. Os que eu chamar se posicionarão diante deles e me mostrarão suas habilidades com a espada.

 

Dóryon era o sétimo da fila. O primeiro, um garoto com armadura personalizada de Mirion, emanava um leve brilho azulado. No centro do peitoral, ostentava o símbolo de sua casa.

 

Ao chamá-lo, Dayla anunciou:

 

— Ícaruz, você será o primeiro. Venha e se prepare para aplicar um golpe diagonal.

 

O garoto, de cabelos loiros e curtos, olhos verdes e pele clara, aparentava ter a mesma idade de Dóryon. Ele se aproximou das espadas, todas forjadas em Bron, um metal leve, embora ainda pesado demais para crianças.

 

Ícaruz ergueu a espada com esforço e se preparou. Então avançou e aplicou o golpe solicitado. Os garotos à frente de Dóryon começaram a cochichar:

— Impressionante!


— Só podia ser o príncipe! Ele é realmente incrível!

 

Dóryon o observou com admiração… e uma ponta de inveja. Ícaruz não apenas era habilidoso, como também chamava atenção pela precisão quase impecável dos movimentos.

Ao concluir os golpes, Dayla o elogiou:

 

— Muito bem. Seus movimentos foram ótimos. Apesar de alguns erros de postura e balanceamento, seus golpes tiveram peso e precisão.

— Obrigado.

— Agora forme uma nova fila ao lado da outra e aguarde os próximos.

 

Ícaruz seguiu a orientação e se posicionou ao lado do próximo participante. Os que vieram depois cometeram diversos erros de postura e força; muitos, claramente, nunca haviam empunhado uma espada.

 

Por fim, chegou a vez de Dóryon. Nervoso, ele se posicionou e preparou o movimento. Ao sinal de Dayla, avançou e executou o golpe diagonal. 

Quase partiu o boneco ao meio. Alguns se impressionaram; outros, tomados pela inveja, o ridicularizaram em voz baixa.

 

Dayla o observou e pensou:

 

“Eu esperava mais desse garoto… talvez tenha criado expectativa demais. Imaginei que fosse como o pai.”

 

Quando ele encerrou os golpes, ela comentou:

 

— Seus pontos positivos são poucos, mas notáveis: sua força e destreza superaram as que vi até agora. Percebi também que, embora tenha errado o balanço, você usou o instinto para compensar a falha.

 

Ela chamou o próximo participante e prosseguiu:

 

— Ainda assim, sua postura, movimentação e noção de espaço são fracas… completamente amadoras. Em uma batalha real, você seria um dos primeiros a morrer.

 

Dayla tomou a espada das mãos dele e concluiu:

— Espero que melhore. Caso contrário, jamais se tornará um guerreiro.

 

As palavras atingiram o coração de Dóryon como uma lâmina. Abalado, ele voltou à fila em silêncio, com o peso do fracasso nos ombros. 

 

Alguns riram às escondidas, enquanto Ícaruz o olhou com desdém e voltou a atenção para a frente.

As demonstrações terminaram, e Dayla, com uma espada de Bron, posicionou-se diante de um boneco.

 

— Estou decepcionada. A maioria demonstrou completa falta de habilidade com a arma primordial de um guerreiro… principalmente você, Dóryon. Eu esperava mais.

 

Ela assumiu postura de batalha e continuou:

— O corte diagonal é um movimento simples, mas muitos mal conseguiram erguer a espada. Alguns tentaram compensar a falta de técnica com força. No entanto, para extrair o máximo de um golpe, é preciso precisão, não apenas brutalidade.

 

De repente, Dayla avançou com velocidade surpreendente. Em meio segundo, já estava diante do boneco. Usou o impulso do próprio corpo, desferiu o golpe e partiu o alvo ao meio.

 

Dóryon ficou boquiaberto. Nem mesmo seu antigo mestre havia feito algo tão impactante.

Dayla recolheu os restos do boneco e explicou:

 

— Não importa o golpe que usem; por mais simples que seja, deve ser executado com maestria. Se o fizerem de qualquer maneira…

Ela assumiu novamente a postura e desferiu um golpe de propósito errado. A lâmina se partiu e lançou metade dela para longe.

Erguendo a espada quebrada com as duas mãos, ela disse:

 

— A lâmina pode se romper. E, em uma batalha, um guerreiro sem arma está fadado à morte. No entanto…

Dayla inspirou fundo e moveu uma das mãos. O terarth ao redor reagiu. O chão se desfez, e o elemento subiu por seu braço, moldando-se em uma manopla sobre a armadura.

Ela a ergueu e declarou:

 

— O elemento também deve ser dominado. Quando sua arma se tornar inútil, ele será seu principal arsenal.

Os aprendizes ficaram hipnotizados. Dóryon a observou, fascinado.

Dayla finalizou:

 

— Aqui, no Instituto, vocês aprenderão não apenas a manejar uma espada, mas também a dominar seus elementos, e a torná-los uma extensão do próprio corpo.

A turma aplaudiu. Dóryon, inspirado, mal esperou para descobrir e dominar o seu.

 

Dayla soltou o terarth e concluiu:

— Por hoje, encerramos. Amanhã iniciaremos o treinamento com a espada… e o despertar do fimber.

 

As crianças correram animadas para a saída. Dóryon, junto a outros dois alunos, permaneceu à espera. Dayla os chamou e os conduziu ao interior do Instituto.

 

Ao lado dele caminhava uma garota de olhos azulados e puxados, pele alva e longos cabelos castanhos que balançavam a cada passo. 

Do outro lado seguia um garoto de rosto redondo, cabeça raspada e olhos castanhos curiosos.

 

A garota virou-se para Dóryon e sorriu com simpatia:

— Oi. Acho que ainda não nos apresentamos. Sou Yoonji Jeong.

— Dóryon Magnuss — respondeu ele, e retribuiu o sorriso.

— Eu sei. Fiquei impressionada com o movimento que você fez com a espada.

 

Dóryon coçou a cabeça, envergonhado:

— Sério? Não achei que fosse nada demais…

Empolgada, Yoonji fez um gesto com as mãos e imitou o golpe.

 

— Como não? Quando você deu aquela estocada, o salão inteiro ficou em silêncio!

Ele riu sem jeito:

 

— Na verdade, eu só não queria errar… haha…

O silêncio caiu por um instante, até que Dóryon tentou mudar de assunto:

— Sua velocidade também foi incrível. Eu gostei do jeito como você acertou o boneco.

 

Ela suspirou e olhou para as próprias mãos.

— Foi fraco… elas doeram muito. No final, mal consegui segurar a espada.

— Mesmo assim, por um momento, eu até te perdi de vista — disse ele, com sinceridade.

 

Enquanto os observava, Dayla cogitou se não teria sido melhor conduzir o treinamento pessoalmente, em vez de apenas entregar o pergaminho com as instruções.

 

Quando chegaram ao escritório, Dóryon se encantou com o ambiente: uma ampla mesa de carvalho, uma cadeira verde acolchoada e paredes revestidas de madeira avermelhada, que exalavam um leve aroma de resina antiga.

 

Dayla separou três pergaminhos e os entregou:

— Estudem bem e treinem suas técnicas de esgrima. Amanhã será um dia longo, e serei exigente, especialmente com vocês três.

Todos assentiram em silêncio. Quando estavam prestes a sair, Dayla chamou:

 

— Dóryon, espere um pouco.

Ele parou e se voltou para ela.

 

— Como está seu pai? — perguntou a instrutora, com voz suave.

— Está bem. Eu o veria mais tarde.

— Ele tem dormido em casa? Seus pais estão se dando bem?

 

Dóryon hesitou um instante antes de responder:

— Sim… ele dormiu às vezes, quando não ficou de guarda.

Dayla fez um leve aceno com a cabeça. O olhar ficou distante, como se ela carregasse algo não dito.

 

— Hum… entendo…

Recostada na cadeira, comentou:

 

— Seu pai e eu fomos grandes companheiros de batalha. Lutamos lado a lado contra os piratas de Vazenê… houve um dia em que empunhamos a mesma lâmina, cercados por chamas e sangue.

 

— Sério? Meu pai foi forte como a senhora?

Ela sorriu.

 

— Darvor foi mais do que forte. A conexão dele com o venwin foi única. Ele o refinou até que se tornasse uma lâmina invisível, cortante como o próprio ar.

— Incrível! Eu espero algum dia vê-lo usar a dobra.

— Dificilmente verá — respondeu Dayla. — Darvor só utilizou o elemento em uma situação.

— Em qual? — perguntou Dóryon, empolgado.

— Quando esteve perante o inimigo.

 

Dóryon se encheu de entusiasmo. O pai era respeitado e honrado por todos ao redor, e também um guerreiro extraordinário.

Dayla se levantou e pousou a mão sobre o ombro de Dóryon.

 

— Agora vá… e diga ao seu pai que mandei lembranças. Diga também que senti falta das nossas batalhas… no campo e nos aposentos…

Dóryon não entendeu bem o fim da frase, mas saiu da sala. Lá fora encontrou Yoonji à espera.

 

— E então, o que ela queria?

— Perguntou sobre meu pai. Disse que lutaram juntos.

— Faz sentido. Dizem que ele é um guerreiro lendário.

— É sim! Ah, eu quase esqueci…

Antes que terminasse, Yoonji o puxou pela mão.

 

— Vem comigo. Quero te mostrar algo!

— Agora? Eu preciso treinar…

— Confia em mim. Você não vai se arrepender!

 

Os dois saíram em disparada, cortaram o venwin de Arllot e Lotfell e, em pouco tempo, as muralhas de Melkin ergueram-se diante deles, imponentes, douradas pelo sol poente.

 

Lá dentro, um espetáculo se desdobrou: cavaleiros em armaduras reluzentes, escudeiros apressados, soldados imperiais em formação. O som ritmado de botas e espadas ecoou pelo pátio de treino.

 

Dóryon parou, hesitante.

— Por que me trouxe aqui? — perguntou, com a voz engolida pelo som metálico das lâminas.

 

Yoonji abriu um sorriso radiante; os olhos faiscaram de empolgação.

— Não é incrível? — disse, e estendeu o braço para o cenário. — Esses guerreiros exalam força… cada um deles é o reflexo do poder do império!

 

Ele observou com mais atenção. Homens montados em cavalos vigorosos marchavam pelo campo, guiavam lanças longas e escudos ornamentados. 

Alguns empunhavam espadas de ferro; outros, armas forjadas em silp, metal raro, leve e flexível como venwin condensado.

 

As armaduras, de ligne stone e lâminas de dracone, reluziam em tons de fimber e cinza, projetadas para canalizar o poder do fimber. O brilho vermelho refletiu nos olhos de Dóryon, e a timidez cedeu lugar ao fascínio.

 

Yoonji ainda o segurava pela mão quando o puxou até uma imensa base militar.

 

O edifício ergueu-se com blocos de terarth e madeira escura, sustentado por pilares gravados com runas élficas. O ar ali pareceu pesado, carregado de disciplina e autoridade.

 

Mas, antes que pudessem entrar, dois guardas avançaram.

 

— Parem aí mesmo! — bradou um deles, cruzando as lanças. — Entrada proibida.

Yoonji, sarcástica, apoiou-se em Dóryon, apontou para o símbolo no peito dele e disse:

 

— Viemos fazer uma visita, e vocês não podem nos parar… não reconhecem esse símbolo?

Os soldados trocaram olhares e, de súbito, o tom mudou.

 

— N-nossos perdões… nós não sabíamos que eram parentes do comandante Darvor.

Yoonji ergueu o queixo, triunfante.

 

— Pois saibam agora. E lembrem-se: o comandante saberá da insolência de vocês.

A passagem se abriu.

 

Dentro da base, mais de trinta recrutas treinavam em sincronia. Os elementos dançavam pelo ar, venwin, terarth, fimber e vater, numa coreografia de caos e tentativa. A maioria, porém, falhava; as partículas se desfaziam antes de ganhar forma.

Curioso, Dóryon perguntou:

 

— Uau… que impressionante. Todos fazem os mesmos movimentos… mas por que alguns mal conseguem dobrar os elementos?

— Porque não têm essa capacidade — respondeu Yoonji, como se fosse óbvio. — Você não sabia?

— Não…

Ela o encarou em silêncio, intrigada com a falta de conhecimento dele. Em seguida, apontou para a frente e continuou:

 

— Aqueles que conseguem tocar a essência da natureza são chamados de elementares. Eles moldam as partículas vivas do mundo: respiram com o venwin, ardem com o fimber, fluem com o vater e se enraízam com o terarth.

 

Os dois observaram uma mulher de cabelos cacheados e presos, em posição de combate. Com as mãos estendidas, ela se concentrou na criação do vater. Yoonji prosseguiu:

 

— Ainda assim, nem todos têm grande domínio do próprio elemento. A maioria das pessoas mal consegue formar uma pequena fração de partículas.

Engolindo em seco, Dóryon perguntou, já imaginando a resposta:

 

— E aqueles que não conseguem manipular nenhum elemento… o que acontece com eles?

— Não sei — respondeu Yoonji, em tom pensativo. — No nosso reino, não havia ninguém sem afinidade com um desses quatro elementos.

 

Antes que Dóryon respondesse, uma voz grave ecoou atrás deles:

— Estão perdidos, Dóryon? Yoonji?

 

Eles se viraram. Um homem de uniforme negro, com linhas douradas e o olhar afiado como lâmina, os observou em silêncio.

— Quem é você? — perguntou Yoonji, desconfiada.

 

O homem se aproximou, e o piso rangeu sob as botas.

— Vocês não me conhecem, mas eu conheço vocês. Sou Owen, da Casa Práise. Um simples soldado, apenas isso.

 

O rosto dele era marcado por uma cicatriz profunda que cruzava o canto da boca. Os cabelos grisalhos, amarrados em um coque, se moveram ao venwin.

Yoonji tentou impor presença.

 

— Pois bem, soldado. Saia do nosso caminho.

Ele sorriu, um sorriso frio que não alcançou os olhos.

 

— Claro… mas antes enviarei um pássaro ao comandante Darvor e à ministra Da-hyun. Imagino que eles vão gostar de saber onde seus filhos andaram.

O sangue de Dóryon gelou. Ele segurou Yoonji pelos ombros e a empurrou em direção à saída.

 

— Não é preciso incomodar ninguém. Nós já estávamos indo.

Yoonji, furiosa, tentou se soltar.

 

— Me larga, Dóryon! Esse verme acha que pode nos ameaçar?!

Ele a arrastou, ignorou os protestos, e cruzou os portões. Só então a soltou.

 

Indignada, Yoonji acertou um soco forte no pé do estômago de Dóryon e o derrubou na mesma hora.

— Na próxima vez que fizer isso, eu vou usar minha dobra em você!

 

Com a dor queimando na barriga, Dóryon ficou no chão, gemendo, enquanto Yoonji se virava rumo à estrada principal do reino de Gylden. 

Ressentida, ela ainda voltou a atenção para ele e disse:

 

— Espero que você não fique com raiva. Você me deixou furiosa… não faça mais isso. Bom… te vejo amanhã.

 

Ela seguiu o caminho. Dóryon permaneceu no chão, com a dor pulsando, até que o pôr do sol tingisse o céu de escarlate. Depois se levantou com dificuldade e retornou para casa, perdido em pensamentos.

Na soleira, a mãe o aguardava.

 

— Filho! Que bom que chegou. Como foi o primeiro dia?

— Foi… bom — respondeu ele, sem olhá-la, e subiu as escadas.

 

Sienna sentiu a rispidez na resposta e se perguntou o que poderia ter acontecido.

 

Mais tarde, os dois se reuniram à mesa de jantar. Dóryon permaneceu calado, enquanto Sienna o encarou.

 

À medida que cortava a carne, Darvor perguntou:

 

— Como foi?

Confuso, Dóryon respondeu:

 

— Está falando comigo?

— E com quem mais seria…

 

— Foi melhor do que eu esperava. Eu conheci minha turma… e minha instrutora. Ela disse que conhece você.

Darvor ergueu o olhar, atento.

 

— Qual o nome dela?

— Dayla.

 

A faca parou no ar. O semblante do guerreiro endureceu.

Sienna, curiosa, perguntou:

 

— Quem é ela?

— Uma antiga companheira de batalha. Só isso.

 

— E ela é bonita? — provocou Sienna, em tom leve.

Darvor bateu a mão na mesa.

 

— Já chega! — rugiu. — Não importa quem ela seja.

 

O silêncio voltou.

Depois da refeição, o pai apenas disse:

 

— Vá estudar os pergaminhos da sua instrutora. Quero que aprenda algo útil.

— Sim, senhor.

 

Na biblioteca, Dóryon estudou até o sono pesar. As palavras nos pergaminhos pareciam dançar diante dos olhos: venwin, fimber, vater, terarth… como se algo dentro dele buscasse uma resposta que ainda não existia.

 

Ele guardou os pergaminhos, trocou de roupa e caiu na cama. Adormeceu ao som distante de trovões.

No dia seguinte, Dóryon se arrumou e seguiu até o Instituto. Ao chegar, encontrou Yoonji à espera na entrada.

 

Desta vez, ela vestia o uniforme, mas, no lugar da saia, usava uma calça social preta e, por cima, uma armadura de silp e ferro élfico. Ao ver Dóryon, correu até ele:

 

— Bom dia! Você está pronto para o treinamento de hoje?

— Err… eu…

 

Percebendo que ele ainda guardava ressentimento, Yoonji juntou as mãos e implorou:

 

— Me perdoa… ontem eu explodi e descontei em você. Aquele homem me deixou irada.

— Ainda assim, não foi motivo para o que você fez.

— Eu sei, eu sei… me desculpa, vai… por favor.

 

Dóryon suspirou.

 

— Tudo bem. Só não me dá outro soco.

— Prometo! — disse ela, e o abraçou com força.

— Ok, ok… vamos logo, ou a gente vai chegar atrasado.

 

Quando chegaram ao campo de treinamento, ficaram sem palavras. O solo, antes de areia clara, havia virado um mar de carvão e chamas. 

O calor ondulava no ar, e o som das brasas lembrava a respiração de um animal.

 

No centro, Dayla os aguardava, imponente, com uma armadura forjada de frozten e ferro. A espada em sua mão cintilava com um brilho esverdeado, leve como venwin e mortal como fimber.

 

Quando viu que os últimos haviam chegado, Dayla disse:

 

— Estão atrasados. Assim que o treino acabar, vocês farão cem flexões e correrão por todo o campo durante uma hora.

Dóryon e Yoonji assentiram e se juntaram ao restante dos alunos. Dayla passou entre as chamas e anunciou:

 

— Hoje vocês treinarão em um cenário diferente. Aqueles que ainda não encontraram sua afinidade elemental terão, no treino de hoje, um vínculo maior com o fimber. Se esse for o seu elemento, tenho certeza de que conseguirão manipulá-lo.

 

Com dúvidas, um dos alunos questionou:

 

— E o que nós vamos fazer?

 

— Lutar — respondeu ela, com um sorriso enigmático. — Em meio às chamas.

 

Algumas crianças demonstraram medo e receio de se queimar. Dóryon, porém, sentiu-se motivado, já que a mãe usava fimber. Yoonji levantou a mão e perguntou:

 

— E aqueles que já dominam um elemento… também precisam passar por esse treinamento?

— É claro que precisam. O fimber é intenso e extremamente poderoso. 

 

Ao longo da vida como soldados, vocês enfrentarão diversos inimigos, e eu diria que os que menos gostei de enfrentar foram os dobradores de fimber.

Dayla caminhou entre as chamas, parou de frente para os alunos e continuou:

 

— Esse elemento é forte e muito perigoso. Conforme o conto dos elfos, o fimber nasceu nas Montanhas Sangrentas, onde as chamas ecoaram e se espalharam por toda parte. Naquela era, as montanhas lançaram fogo e destruíram tudo ao redor.

Ela apagou uma brasa sob a bota e concluiu:

 

— Nos tempos de hoje, as montanhas adormeceram. Mas existem profecias e contos de que elas despertarão no fim do mundo. 

Alguns dizem que o fimber se originou ali e que os dragões foram os primeiros a comê-lo e espalhá-lo por Arkien.

 

Dayla se dirigiu a uma mesa com armaduras de ferro e botas de couro de Scordrak. Pegou uma cota e a lançou para o garoto que questionara antes.

 

— Pensando nisso, o guardião Alexsander criou esse método. Ele ajudou não só os dobradores a dominar o fimber, como também acostumou os demais a enfrentar alguém que manipula o elemento.

 

Ela olhou para as botas e ordenou:

 

— Vistam-se e calcem as botas.

O garoto hesitou.

 

— Essas botas não vão derreter?

 

— Elas foram feitas a partir do couro de um Scordrak.

 

Dóryon levantou a mão.

 

— O que é um…

 

Antes que terminasse, Dayla o interrompeu:

 

— Eu direi o que é. Mas sugiro que você, assim como os outros, estude o bestiário na biblioteca do Instituto… ou na biblioteca próxima ao palácio.

Ela pegou uma das botas e a arremessou ao fimber.

 

— O Scordrak faz parte da família dos dragões, mas não alcança o mesmo tamanho dos parentes. Na fase adulta, chega no máximo a cinco metros. 

As escamas são verdes e vermelhas. As asas lembram as de um gavião, com grandes penas. Na cauda, há um ferrão com veneno tão poderoso que pode matar a vítima em segundos.

 

Dayla fez gestos de mordida com as mãos e finalizou:

— O fimber dele é fraco, porém os dentes e as garras são extremamente afiados.

 

Ela se abaixou, pegou a bota do chão e disse:

— Como podem ver, as escamas de um Scordrak resistem às chamas. Mas não se enganem: a bota não derrete, mas isso não significa que ela não deixe o calor passar.

 

Dayla entregou as botas ao aluno e concluiu:

— O treinamento de hoje colocará à prova suas habilidades com a espada e os ajudará a se fortalecer. Agora… quem deseja ser o primeiro a duelar contra o Willy?





Fim do Capítulo I

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