Volume I
Capítulo II: Sobre Carvão e Chamas
O garoto calçou as botas; o couro rangeu sob seus pés. Empunhou uma espada de ferro de duas mãos, simples, mas reluzente ao ligne das tochas, símbolo da coragem que carregava no peito.
Dayla o observou com olhar firme, e a voz dela cortou o ar como lâmina afiada.
— Muito bem, Willy. Pelo que me lembro, você já sabia qual era o seu elemento, não é?
— Sim, senhora… eu controlava o Vater.
Um leve sorriso cruzou o rosto da instrutora.
— Ótimo.
Ela se voltou aos demais, e sua presença impôs silêncio entre os aprendizes.
— Agora… quem seria o oponente dele?
Do meio da multidão, passos suaves ressoaram sobre as brasas.
Uma garota surgiu: cabelos ruivos e cacheados, olhos castanhos intensos, pele morena como bronze.
Ela caminhou com firmeza, empunhou um cajado e declarou:
— Eu irei.
— Você era a Amina, certo?
— Sim. Amina Yaa, filha do visconde Akuchi Yaa.
— Já conhecia sua dobra?
Ela hesitou por um instante, com o ar preso na garganta.
— Ainda não, senhora.
Dayla lhe entregou um par de botas, sem suavizar o olhar.
— Então, boa sorte.
Amina pisou nas brasas. O chão pulsou sob seus pés, e o calor subiu como onda viva, tocou a pele e o espírito.
Diante dela, Willy ergueu a espada. O brilho do ferro refletiu a chama do campo; ele parecia maior, mais forte, confiante.
Amina avançou sem hesitar.
O primeiro impacto das armas ecoou pelo pátio, e o som metálico se espalhou como trovão. Willy rebateu o golpe e contra-atacou com ferocidade, mirando as costelas dela.
Amina se abaixou num reflexo veloz, girou o cajado e o acertou no rosto. O estalo seco do impacto o fez cambalear para trás.
Ela avançou outra vez, mas uma rajada de Vater a atingiu com força e a desestabilizou. A espada de ferro cortou o ar e acertou a cabeça dela. O golpe a lançou contra as brasas, e o calor começou a envolvê-la.
Willy ergueu os braços e gritou, vitorioso, enquanto os colegas o aclamaram.
Mas algo mudou no ar.
Com o rosto marcado e o sangue escorrendo, Amina se ergueu, lenta, mas tomada por uma presença nova, indomável.
O calor sob seus pés despertou algo mais profundo, algo ancestral. Uma energia viva percorreu as veias dela e queimou por dentro, como se o próprio mundo respirasse através dela.
Era o Fimber.
O elemento que dormira despertou e correu por suas mãos, pulsou em cada fibra do corpo.
Amina encarou Willy. Ele riu, zombou da teimosia dela.
O riso morreu quando o ar ao redor estremeceu.
Amina avançou, e o som de seus passos ecoou como tambores de guerra. Willy tentou reagir e bloqueou o golpe, mas o impacto foi brutal. No instante seguinte, as mãos de Amina se acenderam em Fimber, e o cajado virou uma extensão ardente da fúria dela.
Ela golpeou sob o queixo de Willy, e o impacto o arremessou ao chão. A espada de ferro tombou e marcou o fim do duelo.
Amina saltou, pronta para desferir outro golpe. Antes que o bastão descesse, Willy ergueu as mãos em rendição.
Ela caiu sobre as brasas, exausta, e observou as próprias mãos: cobertas de sangue e envoltas pelo Fimber, vibrando em energia viva.
— Ela trapaceou! — gritou Willy, com o rosto vermelho de vergonha. — Me atacou depois que eu já tinha vencido!
Dayla avançou. O som dos passos dela anunciou a autoridade.
Com um tapa firme, fez o rosto de Willy girar para o lado.
— Eu sou quem dita as regras aqui — a voz dela cortou o silêncio como aço. — E Amina não trapaceou. Você apenas virou as costas para o seu inimigo.
Ela o empurrou de volta ao grupo e continuou, severa:
— Em um campo de batalha, jamais vire as costas antes de ter certeza de que seu inimigo está derrotado… ou será você quem tombará primeiro.
O ar pesou. Ninguém ousou romper o silêncio.
Dayla ergueu a voz outra vez, como se falasse aos deuses:
— Hoje, o duelo só terminou de duas formas: com rendição… ou com o adversário incapacitado. Entenderam?
— SIM, INSTRUTORA! — ecoaram todos, em coro, e fizeram o chão vibrar.
Dayla se aproximou de Amina e lhe entregou um pano manchado de cinzas e suor.
— Parabéns, garota. Você encontrou o seu elemento. Continue assim… e um dia será uma guerreira digna das lendas.
Amina respirou fundo, e o Fimber ainda dançou sobre a pele.
— Obrigada, instrutora Dayla.
Ela voltou ao lugar entre os alunos, com o Fimber ainda pulsando nas veias. Dayla se adiantou ao centro da arena, e a voz ecoou poderosa:
— Os próximos serão Ethan e Aaron… escolham suas armas e vistam-se.
Ethan deu um passo à frente. Baixo, de porte leve e cabelos castanhos curtos, carregava no olhar mais firmeza do que força.
A determinação brilhava onde não havia dúvida. Ele escolheu um par de manoplas e assumiu posição.
Logo atrás, Aaron se destacou. Mais alto que todos, cabelos loiros e ondulados, corpo robusto, presença dominante, contrastou como o ligne e a sombra diante de Ethan.
Ele empunhou uma longa lâmina, vestiu a armadura e cumprimentou o adversário com um aceno respeitoso.
Dayla observou os dois de perto, atenta a cada gesto.
— Ethan, apresente-se.
— Me chamei Ethan, da Casa Clifford, filho do visconde Henry Clifford… meu elemento foi o Terarth.
— Excelente. Agora você, Aaron.
— Eu fui Aaron, da Casa Talbot, filho do visconde Sebastian Talbot e da viscondessa Jena Talbot… minha dobra foi o Vater.
Dayla franziu o cenho.
— Não foi necessário apresentar toda a linhagem. Na próxima, contenha-se e diga apenas o nome do líder da sua casa.
— Sim, senhora!
Ela os encarou com seriedade.
— Estavam prontos?
Os dois responderam em uníssono:
— Sim!
— Lutem!
A palavra foi a fagulha que acendeu o duelo.
Ethan avançou de imediato. Aaron, sólido e preciso, reagiu com um corte lateral potente. Ethan rolou pelas brasas e as espalhou pelo chão, turvou a visão do oponente.
Aaron não lhe deu tempo. Ergueu o braço, e o Vater tomou forma: um chicote líquido deslizou como serpente e golpeou com precisão, abriu um corte no ombro de Ethan.
O garoto recuou, respirou fundo e voltou ao ataque. A arena vibrou com o choque entre punhos e lâmina.
Ethan se aproximou e tentou acertar um golpe, mas foi forçado a rolar novamente. Cobriu-se de Terarth e cinzas.
Nos bastidores, alguns alunos murmuraram:
— Essa luta já estava decidida!
Dayla ouviu e se voltou ao grupo.
— Acha mesmo que Ethan perderia?
Um deles respondeu, confiante:
— Claro! Ele era pequeno e não conseguia atacar bem com manoplas. Aaron era mais forte, dominava o Vater, e podia se defender e atacar à distância.
Dayla o encarou com um sorriso enigmático.
— Eu vi potencial em você… talvez um futuro estrategista.
O jovem se animou.
— Era o que eu queria ser! Eu pretendia servir como guarda de Melwin e caçar criminosos.
— Um sonho nobre — disse ela. — Mas olhe novamente para a luta… e aprenda sua primeira lição.
Ele obedeceu.
Então notou que o vigor de ambos se esvaía. Aaron, ofegante, músculos trêmulos, suor escorrendo pelo rosto, lutava para manter o equilíbrio.
Ethan, ferido e coberto de poeira, mantinha os olhos firmes e o corpo ereto, sustentado por pura força de vontade.
— A batalha estava empatada… como isso era possível? — murmurou o aluno.
Dayla corrigiu, calma:
— Você se enganou. Não estava equilibrada. Aaron seria derrotado.
— Mas Ethan também estava cansado…
— Observe com atenção. Ele atacaria… e desta vez Aaron não conseguiria defender.
Ethan inspirou fundo. Sentiu o Terarth sob os pés, e a vibração do solo respondeu à presença dele. Com um impulso repentino, avançou.
Aaron tentou erguer a espada, mas o peso pareceu dobrar sobre os braços. Ele a lançou sobre as brasas e adotou postura defensiva. Com um rugido, partiu para o ataque desarmado.
Antes que o punho alcançasse o adversário, Ethan desapareceu por um instante.
Quando Aaron o reencontrou, já era tarde: Ethan surgiu ao lado e golpeou com precisão a costela esquerda. O impacto o fez cambalear.
Ethan não parou. Surgiu diante dele e, com um soco poderoso, o lançou pelos ares. O corpo de Aaron caiu pesado sobre as brasas, e o Vater se desfez em gotas ao redor.
O silêncio dominou o campo. O ar vibrou entre o Fimber e o Terarth espalhados pelo chão.
Um aluno, atônito, perguntou:
— Instrutora… como Ethan ficou tão rápido? E como conseguiu golpear com tanta força?
Dayla respondeu sem mover um músculo:
— Você ainda não percebeu? Olhe para o chão, perto de Aaron.
O garoto observou e notou: o local antes tomado por brasas agora estava coberto por fragmentos de Terarth e areia.
Dayla continuou:
— Ethan não atacou ao acaso. Ele soube que, para lutar de igual para igual contra Aaron, precisaria usar o próprio elemento. Por isso, espalhou o Fimber e expôs o solo. Ele transformou o campo em arma.
O aluno assentiu, impressionado.
— Incrível… eu jamais teria pensado nisso.
— Em batalha, vence quem pensa — disse Dayla. — Sempre pergunte a si mesmo: o que eu posso usar a meu favor?
— Eu me lembraria disso, instrutora.
Dayla acenou e voltou a atenção ao centro da arena.
Ethan retomou a postura de combate. Aaron, com o corpo coberto de suor, transformou o Vater em um chicote líquido que ondulou no ar.
A tensão cresceu; o silêncio ficou absoluto.
Ethan investiu. Aaron lançou o chicote, mas Ethan usou o Terarth sob os pés e se moveu como se o chão respondesse aos passos. Ele desviou e avançou.
Aaron recolheu o Vater e criou um escudo em torno do braço. Bloqueou o golpe, mas perdeu o equilíbrio. Ethan recuou, girou e atacou novamente.
Aaron tentou outra manobra: transformou o Vater em laço e o arremessou contra o tornozelo do adversário. O golpe puxou com força. Ethan caiu, girou no ar e aterrissou de pé.
Aaron tentou repetir o ataque, agora mirando o outro tornozelo. Ethan, num reflexo, agarrou o Vater com o punho e aproveitou o impulso do próprio golpe. Projetou-se sobre Aaron.
O soco atingiu o rosto do loiro em cheio e o lançou a vários metros de distância.
O público prendeu o fôlego.
O som do corpo ao atingir as brasas ecoou como o fim de uma era.
Dayla caminhou até ele, examinou-o e ordenou com voz firme:
— Levem-no ao curandeiro. Ethan, eu declaro você vencedor.
A arena explodiu em aplausos.
Dayla se aproximou do garoto, que ainda respirava com dificuldade.
— Você lutou com sabedoria e força. Por um instante, você me lembrou seu pai, quando ele serviu nas tropas do imperador.
Ethan tentou responder, mas o cansaço o venceu. Os joelhos cederam, e ele desabou.
— Levem-no também — ordenou Dayla, serena.
Enquanto os dois foram retirados, a instrutora ergueu o olhar para a turma e anunciou:
— Preparem-se. A próxima batalha começará em breve.
Ela se aproximou dos alunos e disse:
— Os próximos serão Dóryon e Ícaruz. Venham e escolham suas armas.
Ícaruz avançou com calma e pegou a espada, nem muito longa, nem pesada. Confiante, caminhou até a arena e sustentou um olhar firme e determinado enquanto aguardava o adversário.
Dóryon, ao contrário, deixou transparecer o nervosismo. Ele escolheu uma lâmina curta e um escudo circular, marcado ao centro por uma ponta metálica.
Cada passo até a arena pareceu pesar, como se o chão sugasse as forças dele. Ao redor, o burburinho cresceu: todos cochicharam e fizeram apostas, quase sempre a favor do filho do imperador.
De repente, a voz de Yoonji rompeu a multidão:
— Acaba com ele! Chuta a bunda desse principezinho, Dóryon!
Críticas surgiram de imediato contra ela, mas, para Dóryon, aquelas palavras soaram como ânimo inesperado.
Os ombros dele se aliviaram da tensão, e ele afastou os pensamentos sombrios que insistiam em nublar a mente.
No silêncio que antecedeu o confronto, ele se lembrou dos ensinamentos do instrutor.
Dayla ergueu a voz, firme e solene:
— Vocês não precisaram se apresentar. Todos aqui já sabiam quem eram e também conheciam os líderes de suas respectivas famílias. Sem mais delongas… lutem!
A arena mergulhou em um silêncio denso. Dóryon e Ícaruz se encararam por longos segundos, imóveis, como guerreiros que mediam a alma antes da lâmina.
A tensão quase sufocou o pátio, até que um dos alunos, incapaz de se conter, perguntou em voz baixa:
— Por que eles não lutavam?
Sem desviar os olhos, Dayla o repreendeu:
— Não se distraia. O que você verá agora não será uma luta comum.
Ícaruz se moveu. Postou-se em guarda, e a voz ecoou com arrogância calculada:
— Já que você não veio… eu irei até você!
Ele avançou, e o corpo inteiro virou um condutor. A perna esquerda freou o ímpeto, enquanto a direita pulsou em energia.
O fimber das brasas percorreu as veias dele como rio em ebulição, subiu do solo ao coração, dos ombros aos braços.
No instante em que alcançou a espada, o metal brilhou como se tivesse sido forjado outra vez, até se incendiar em chamas vivas que distorceram o ar ao redor.
O golpe caiu como um raio.
Dóryon ergueu o escudo na última fração de segundo, mas a força foi tamanha que ele caiu ao chão e rolou entre fagulhas de fimber que dançaram e crepitaram, como se celebrassem a queda.
Sem lhe dar respiro, Ícaruz avançou outra vez. Dóryon bloqueou o ataque com o escudo e, num giro, escapou para se recompor.
Ícaruz permaneceu implacável: canalizou fimber na perna e desferiu um chute frontal devastador.
Desta vez, Dóryon não reagiu. O impacto o atingiu no rosto e o lançou vários metros adiante. A multidão explodiu em euforia, exaltou o príncipe, e as brasas no ar pareceram dançar em honra ao poder dele.
Em meio à comemoração, Yoonji, com a voz trêmula e o coração aflito, ergueu uma prece:
— Odythras, Deus da guerra… conceda força a Dóryon, para que ele não caia diante das chamas do inimigo!
Ícaruz avançou de novo, seguro da superioridade. Mas, dessa vez, Dóryon se ergueu com fúria inesperada. O olhar dele flamejou, e o corpo vibrou em energia. Ícaruz recuou instintivamente um passo.
Sem hesitar, Dóryon largou a lâmina e se lançou para frente, com o escudo erguido diante do rosto, como a face de um guerreiro indomável.
Ele avançou com a brutalidade de um animal acuado, transformado em predador.
Ícaruz não se intimidou. Canalizou fimber na espada, que voltou a arder como fragmento do próprio sol, e desferiu um golpe impiedoso.
A lâmina em brasa colidiu contra o escudo de Dóryon num estrondo de fagulhas, mas, desta vez, ele não cedeu. Cravou o corpo no chão e sustentou o impacto com todo o peso da determinação.
Num rugido, Dóryon girou o braço e acertou o escudo no rosto de Ícaruz.
O impacto fez o príncipe perder os sentidos por um instante; ele cambaleou, vulnerável. Dóryon aproveitou a brecha e golpeou outra vez, esmagou-lhe a face com violência.
Para selar a virada, Dóryon desferiu um soco poderoso, carregado de raiva e coragem. O punho encontrou o alvo com força avassaladora e lançou Ícaruz ao chão.
O príncipe caiu de costas sobre as brasas incandescentes, já inconsciente, enquanto a arena inteira prendeu a respiração diante da queda inesperada.
O corpo de Ícaruz jazeu imóvel sobre as brasas. A espada ainda ardeu ao lado dele, como se recusasse aceitar a derrota do mestre que a empunhava.
A multidão, antes ensurdecedora, silenciou, incapaz de compreender o que acabara de acontecer.
Dóryon, ofegante, com o escudo ainda erguido e o punho cerrado, permaneceu firme diante de todos.
O suor escorreu-lhe pelo rosto, misturado à fuligem e às faíscas que ainda dançavam ao redor.
Os olhos dele não brilharam com arrogância, mas com a chama incandescente de alguém que se recusara a ser apagado.
Dayla observou em silêncio, sem expressão. Por dentro, reconheceu a verdade: algo mudara para sempre.
Yoonji, com lágrimas nos olhos, ergueu as mãos ao céu como quem agradecia pela prece atendida. Em seguida, enxugou o rosto e, com o punho cerrado, gritou:
— Boa, Dóryon! É isso aí! Você foi incrível!
Por um instante eterno, ninguém ousou se mover.
Então, como o estalar repentino de lenha numa fogueira, vozes começaram a se erguer em murmúrios, até que os alunos explodiram em gritos de espanto e incredulidade.
O príncipe caíra e fora derrotado por aquele que todos já haviam sentenciado como fracassado.
Assim se encerrou a batalha, marcada não apenas pela vitória inesperada, mas pela revelação de um novo sentimento que nascera dentro de Dóryon.
Ele não era mais apenas um competidor hesitante. Agora era um guerreiro moldado sobre carvão e chamas.
Fim do Capítulo II
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