Volume I

Capítulo III: O Eco das Chamas | Parte I

Ainda em estado de euforia, Dóryon permaneceu ali, parado e um pouco ofegante. Olhou para a frente e viu os alunos gritando, exaltando-o pela vitória. 

À medida que a adrenalina diminuiu, ele começou a sentir dores musculares, até que o braço tremeu.

 

Dayla o declarou vencedor, mas, antes de mandá-lo de volta ao grupo, disse:

— Espero que não fique muito feliz com essa vitória, visto que você bateu no filho do imperador.

 

A ficha caiu de imediato. Dóryon sentiu o peso daquelas palavras e tudo o que significavam.

— Vá agora. Tome seu lugar.

 

Lentamente, ele retornou à posição, mas a mente ficou presa ao que ouvira. De repente, recebeu um soco direto no ombro, forte o bastante para desequilibrá-lo e fazê-lo recuar.

 

Yoonji o parabenizou:

— Cara, você foi incrível! Amassou a cara dele!

— Err… obrigado, mas eu bati no príncipe… acho que eu devia ter deixado ele ganhar, como a instrutora disse…

 

Séria, ela o repreendeu:

— Tira essas ideias da cabeça. Assim como todos aqui, ele também teve que lidar com as provas e tarefas que nos deram. Você fez bem em lutar com tudo o que tinha. Vencer foi só o resultado do seu esforço e do seu treinamento.

— Acho que você tem razão…

 

Dayla se aproximou. Deu-lhe outro toque no ombro e disse:

— E desde quando eu estive errada sobre alguma coisa? Agora me faça um favor: torça por mim.

 

Dóryon olhou para a frente e viu Dayla à espera, enquanto Yoonji recebeu a arma e se posicionou diante da adversária.

— Vamos, Yoonji, apresente-se para todos.

 

Durante a apresentação, Dóryon observou com olhos firmes e um tanto assustados a oponente que a amiga enfrentaria. 

Ela era mais alta do que todas as garotas da classe e quase alcançava a estatura de Aaron.

 

Tinha corpo robusto, cabelos longos e pretos presos por um laço discreto. A pele era marcada por cicatrizes que lembravam garras de lobos-dentes-de-sabre, conhecidos como Canis sabre.

Os olhos dela eram azuis de tonalidade profunda, semelhantes ao oceano em sua fase mais sombria. Ela segurava um machado grande e pesado, e a expressão denunciava fome pela luta que viria.

 

Dayla voltou a atenção para a oponente de Yoonji e disse:

— Apresente-se.

— Me chamei Auror Ironmantle, filha do capitão da guarda dos muros de Arllot, e meu elemento foi Venwin.

 

— Agora, lutem!

Auror fechou os olhos e encheu os pulmões com venwin. O ar rodopiou ao redor dela e se comprimiu na garganta como força viva, como um dragão ancestral prestes a libertar fimber sobre o mundo. 

 

Quando soltou o sopro, o elemento fluiu pelo braço dominante, o mesmo que empunhava o machado. Uma aura densa envolveu a lâmina e vibrou, como se o próprio ar respondesse ao chamado.

 

À frente, Yoonji se preparou com serenidade mortal. Nas mãos, duas adagas de lâminas curvadas reluziram sob o ligne trêmulo das brasas. 

Cada uma tinha uma argola presa ao cabo. Com calma e precisão, ela amarrou em cada argola a ponta de uma corda. 

 

O olhar permaneceu firme. Ela sabia que enfrentava não uma simples oponente, mas uma força da natureza.

Auror respirou venwin outra vez e avançou. A corrida foi selvagem, quase feral; o ar ao redor se distorceu com a fúria. 

 

Um sopro sob os pés a arremessou aos céus, e ela cortou o venwin como ave mítica. O salto foi alto e violento, e o chão tremeu. 

Até Dóryon, entre os espectadores, sentiu o coração se partir de temor pela amiga.

 

Yoonji parou por um instante diante daquela presença esmagadora e só despertou quando a voz de Dóryon ecoou, um grito de esperança no meio do caos. 

Ela saltou sobre as brasas e se esquivou na última fração de segundo. 

 

O impacto do golpe de Auror levantou uma nuvem de terarth, brasas e cinzas, e engoliu a arena num manto de destruição e mistério.

Por alguns segundos, ninguém ousou respirar. Então, das entranhas da fumaça, Auror emergiu. Os olhos pareciam em chamas, e o corpo se tomou pela fúria do venwin. 

 

Ela investiu com brutalidade, e cada golpe rasgou o ar como se o próprio mundo se partisse.

Yoonji não cedeu. Ela ergueu as mãos, e o vater respondeu. 

 

O elemento se condensou em pequenas esferas suspensas; num instante, solidificou o bastante para sustentar o peso dela. 

Yoonji se apoiou sobre o vater, desviou com acrobacias graciosas e dançou entre os golpes colossais de Auror. Saltou, recuou e escapou por fios de segundo.

 

O público entrou em êxtase, mas o silêncio reinou. Não houve sussurro, só o som dos elementos em choque e o rugido do venwin. 

Dóryon, aflito, murmurou orações a Odythras e Ardyon, e implorou proteção para a amiga.

 

Yoonji revidou e buscou brechas com cortes rápidos das adagas, mas Auror, envolta pelo venwin e fortalecida pela fúria, desviou com facilidade e sofreu apenas arranhões. 

 

Ainda assim, Yoonji persistiu. Quando tudo pareceu perdido, ela lançou a corda num movimento perfeito e envolveu braços, pernas e torso da guerreira de ar. 

As fibras se entrelaçaram e apertaram como serpentes sagradas.

 

Com um grito, Yoonji puxou as lâminas, e Auror tombou, subjugada. 

Por um instante, a arena explodiu em euforia. Dóryon caiu de joelhos, aliviado. Mas Dayla permaneceu imóvel, com olhar frio, como quem já previa o inevitável.

 

— Yoonji! Cuidado! — gritou Dóryon, com o coração congelado.

Yoonji sentiu o corpo ceder. Cada músculo tremeu, cada respiração ardeu como se o ar queimasse por dentro. 

 

O suor escorreu, misturado à poeira e às cinzas. Por um instante, ela acreditou que vencera.

Diante dela, Auror ergueu o rosto. Inspirou venwin, e o som que se seguiu lembrou o rugido de uma criatura lendária. 

 

Quando soltou o ar, a força veio grande e violenta, carregada de energia crua. 

Yoonji perdeu o controle das lâminas; as mãos se abriram involuntariamente, e o entrelaçado da corda se desfez como se nunca tivesse existido.

O instante seguinte trouxe pura fúria.

 

Auror avançou como animal libertado, tomada por raiva antiga quanto o venwin que a impulsionava. 

O punho encontrou o rosto de Yoonji com força brutal, e a jovem foi lançada para trás, caiu entre as brasas e o terarth fumegante. 

 

O calor do fimber queimou a pele dela, e o gosto metálico do sangue encheu-lhe a boca.

Yoonji tentou se erguer, com os olhos marejados e a visão turva, mas não teve tempo.

 

Auror inspirou venwin outra vez e o concentrou no braço direito e no pé esquerdo. O ar girou em espirais ao redor, como se o elemento aguardasse o comando final.

 

Com um grito, Auror lançou-se à frente, movida por impulso impossível.

Yoonji ergueu um escudo de vater e tentou conter a onda de destruição. 

 

Por um momento, o líquido brilhou sob o ligne do fimber e refletiu a própria expressão dela, onde medo, resistência e esperança se misturaram.

Mas o impacto foi devastador.

 

O machado atravessou a parede de vater como névoa, cortou o ar e se encravou no peito dela.

O som seco do golpe ecoou por toda a arena e, então, veio o silêncio.

 

Tudo parou.

O venwin se dissipou aos poucos, e restaram no ar apenas o cheiro de cinzas e ferro.

Dóryon gritou o nome da amiga e correu, mas Dayla o interceptou, com olhar frio e implacável.

 

— Volte para o seu lugar… AGORA! — ordenou, e a voz cortou o ar como lâmina.

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