Volume I

Capítulo III: O Eco das Chamas | Parte II

Dóryon parou. Ninguém ousou se mover. Com o coração despedaçado e a mente tomada pela preocupação, ele suplicou:

 

— Por favor, instrutora… me deixe ver o estado da Yoonji.

Dayla se voltou para ele, com o olhar inflamado e a voz carregada de autoridade e raiva:

— Eu já disse para voltar ao seu lugar!

 

Dóryon ignorou a ordem e deu o primeiro passo em direção à enfermaria.

Dayla falou então num tom frio e ameaçador, que cortou o silêncio ao redor:

 

— Tem certeza de que deseja desafiar minhas ordens?

Ele hesitou. Por um breve instante, o medo o segurou, mas logo cedeu à determinação.

 

Erguendo o olhar, respondeu, firme:

— Sim.

 

Dóryon seguiu rumo à enfermaria e deixou para trás os murmúrios e as perguntas dos colegas, que já especulavam o destino dele quando voltasse a pisar na arena.

Ao entrar, deparou-se com diversos leitos ocupados por alunos e outras pessoas tratadas pelo curandeiro e seus assistentes. 

 

Entre eles estavam Aaron e Ethan, recém-liberados dos cuidados e já prontos para retornar.

Ícaruz permaneceu sentado, com curativos no rosto. Quando os olhos dele encontraram os de Dóryon, encheram-se de ódio. 

 

Dóryon sentiu o peso daquele olhar, desviou o rosto, desconfortável, e seguiu até a amiga.

Yoonji estava deitada, com o corpo coberto por faixas que protegiam o ferimento no peito e no torso. Dóryon correu até ela, ajoelhou-se ao lado do leito e chamou, com a voz trêmula:

 

— Yoonji… Yoonji… você consegue me ouvir?

Um dos assistentes o repreendeu de imediato:

 

— Shhh! Deixe-a descansar. Nós administramos uma mistura de ervas; ela só deve recobrar a consciência mais tarde.

Aflito, Dóryon perguntou:

 

— Ela vai ficar bem?

— Sim — respondeu o assistente, após breve pausa. — Felizmente, a maior parte do impacto foi absorvida pelo peitoral da armadura.

 

As palavras trouxeram alívio profundo. O nó no peito de Dóryon se desfez, e ele deixou escapar um suspiro pesado. 

As lágrimas brotaram sem que ele contivesse. Pela primeira vez desde a luta, respirou com alguma tranquilidade.

 

O assistente prosseguiu, em tom mais cauteloso:

— Ainda assim, ela não poderá participar das atividades práticas do Instituto por um tempo. Isso, inevitavelmente, pode prejudicar os estudos.

 

Dóryon o encarou, preocupado:

— Há algo que possa ser feito para evitar isso?

 

— Não tenho certeza — respondeu o homem. — A situação será avaliada pela administração do Instituto e pelos pais da paciente.

O assistente se aproximou, pousou a mão no ombro do rapaz e concluiu:

— Agora, peço que se retire. Sua amiga e os outros pacientes precisam descansar.

 

Dóryon assentiu em silêncio. Lançou um último olhar a Yoonji, imóvel sob as faixas e o ligne suave da enfermaria, e se afastou devagar, com o coração inquieto, mas aliviado por saber que ela viveria.

 

Ao retornar à arena, Dóryon sentiu o olhar de todos recaindo sobre ele. O ar pareceu mais pesado. 

 

Dayla continuou imóvel, fria como terarth. Quando ele se aproximou, a voz saiu contida, quase hesitante:

— Eu voltei, instrutora.

 

Dayla levantou o olhar lentamente. Havia algo cortante nos olhos dela, um silêncio que fez Dóryon prender a respiração. Ele tentou se manter firme, mas o peso daquele olhar fez as mãos suarem.

 

Sem aviso, Dayla avançou e desferiu um soco poderoso. O impacto o lançou pelo campo, e Dóryon caiu na areia, com o rosto ardendo e o corpo tomado pela dor.

— Como ousa me desobedecer daquela maneira? ENLOUQUECEU? — gritou Dayla, firme e furiosa.

 

Ela caminhou até ele; cada passo ressoou pela arena. Dóryon, ofegante e ferido, tentou se levantar e cuspiu sangue.

— Levante-se! — ordenou ela, com a raiva evidente.

 

Ele obedeceu, trêmulo, coberto de poeira e sangue. Dayla moveu a mão, e o chão diante dele respondeu: pontas afiadas de terarth emergiram sob seus pés.

— Tire os protetores de joelho — disse, com frieza. — E ajoelhe-se.

 

Sem protestar, Dóryon obedeceu. Quando os joelhos tocaram as lâminas, a dor o fez estremecer.

Dayla voltou-se para os alunos e ergueu a voz:

 

— Que isso sirva de lição a todos! Quem ousar me desobedecer será punido! A posição de seus pais na alta sociedade aqui em Arllot não importa. Vocês terão que me obedecer. Vocês não têm títulos e, neste lugar, o superior sou eu!

 

— Sim, instrutora! — responderam todos em uníssono.

Dayla tornou a encarar Dóryon.

 

— Como punição, você ficará aí até o último duelo de hoje. Nas próximas semanas, você chegará antes de todos, correrá cinquenta voltas pela arena e escreverá um pedido de desculpas por extenso, que deixará sobre minha mesa amanhã. ENTENDIDO?

 

Com voz fraca e o rosto contraído pela dor, ele respondeu:

 

— Sim, instrutora.

— Ótimo — disse ela, fria. — E não pense que seu pai não saberá disso. Mandarei uma mensagem informando sua desobediência.

 

O silêncio que se seguiu pesou. Apenas o som distante do venwin sobre a areia acompanhou Dóryon, ajoelhado, enquanto os olhares se voltaram para ele, um lembrete vivo do que significava desafiar Dayla.



(Mais tarde, naquele mesmo dia)

 

No Palácio Resplandecente, conhecido entre os eruditos como o palácio das vinte cúpulas, no coração da capital de Gylden, em Lotfell, o edifício dominou o horizonte com torres douradas e abóbadas reluzentes. 

 

De longe, a construção pareceu brilhar com ligne próprio, reflexo do sol sobre o Gyl Stone, o metal dourado que revestia as cúpulas e simbolizava a opulência do império.

 

As lendas imperiais afirmavam que o palácio fora erguido pelos Construtores Esquecidos, um povo de artesãos que auxiliara os Guardiões de Arkien na fundação do reino, antes mesmo da Era dos Imperadores. 

 

Pouco se sabia sobre eles, exceto por fragmentos de manuscritos que descreviam técnicas de precisão impossível de reproduzir. 

 

Alguns acreditavam que eram anões, mestres do terarth e do metal, mas a história oficial do império tratava essas menções como mitos e superstições antigas, atribuídas à era D.GA (Depois dos Guardiões).

 

A estrutura do palácio mesclava mármore branco, feito de um minério que já não se encontrava, com pilares reforçados em Bron Stone, e lhe conferia a resistência de uma fortaleza. 

 

As colunas que sustentavam o Salão do Trono exibiam incrustações de Ligne Stone, um cristal dourado cujo brilho mudava sutilmente conforme o ligne do dia e criava um efeito de movimento que impressionava até o visitante mais cético.

 

O Pladian, cristal raro e de propriedades pouco compreendidas, aparecia apenas em detalhes discretos: bordas do trono, mosaicos escondidos nas paredes, pequenos fragmentos embutidos nas janelas do santuário interno. 

O brilho azul-celeste, mesclado a um vermelho vivo, criava pontos de ligne que pareciam observar em silêncio quem entrava no salão. 

 

Poucos percebiam, mas os soldados diziam que, à noite, aqueles cristais pulsavam, como se respirassem com o próprio palácio.

No centro de tudo, erguia-se o trono do Solar de Arkien, obra-prima forjada em mirion e adornada com filetes de gyl stone. 

 

A combinação conferia à peça presença imponente: o brilho azulado do mirion contrastava com o dourado vivo do gyl, e representava o equilíbrio entre força e riqueza, base do poder do império de Gylden.

 

Naquela tarde, o Salão do Trono ficou banhado pela ligne alaranjada do entardecer. 

 

Os vitrais, que representavam antigas campanhas dos Guardiões, filtravam o ligne em tons de âmbar e azul e se refletiam sobre o chão de mármore como fimber líquido.

 

As portas se abriram com eco profundo, e Darvor passou por elas.

 

Ele se ajoelhou e se prostrou diante do imperador.

— Aqui se encontra seu comandante. No que posso servi-lo?

 

Altheryon era a personificação viva do esplendor de Gylden. A presença dele dominou o salão, não por força bruta, mas pela serenidade implacável de quem carregava o peso de séculos de soberania. 

 

Os cabelos longos, dourados como o sol sobre o império, caíam sobre uma armadura cerimonial em tons verdes e dourados, cores que simbolizavam a vida e a eternidade da coroa gyldiana.

 

Os olhos, de âmbar profundo, misturavam calma e julgamento, e mediam o valor de quem ousava sustentar o olhar. 

A barba bem aparada e o semblante firme denunciavam um homem que vira guerras, mas aprendera a governar com equilíbrio entre aço e diplomacia.

 

No manto, bordados em fios de gyl formavam o símbolo da casa: o leão dourado de Arkien, emblema imperial que representava poder e força do reino Gylden. 

No peito, ele carregava o broche dos Guardiões, relíquia da era dos fundadores, lembrete de que o poder nascera não apenas da conquista, mas da promessa de proteger.

 

Altheryon se levantou do trono, caminhou até Darvor e pousou a mão no ombro do homem, num gesto contido, porém firme.

— Levante-se — disse. — Não precisa dessas formalidades quando estamos a sós.

Darvor permaneceu curvado, com a cabeça baixa, como se não aceitasse a intimidade.

 

— Perdoe-me, senhor — murmurou. — Eu não posso…

Um meio sorriso cruzou o rosto do imperador.

 

— Levante-se, meu amigo. Eu não o chamei aqui para tratar da minha segurança nem de assuntos militares.

Darvor hesitou, mas obedeceu. Ergueu-se e ficou diante do imperador. Altheryon se voltou e subiu ao trono com passos calmos. De costas, deixou escapar, quase casual:

 

— Eu soube do segundo dia do seu filho no Instituto.

— Ainda não, senhor. Eu estava a caminho da recepção do palácio quando Vossa Majestade requisitou minha presença… informaram-me que havia uma carta da instrutora de Arllot.

 

Sentado com a compostura de sempre, Altheryon falou com voz baixa, mas clara:

— Então você ainda não sabe? — disse, com desprezo contido. — Aquela elfa astuta colocou nossos filhos para se enfrentarem hoje.

 

Darvor tremeu por dentro. Sentiu o olhar do imperador atravessá-lo, frio e incisivo, como se Altheryon lesse pensamentos. Ele se curvou e falou apressado:

— Peço desculpas se meu filho causou algum problema ao príncipe.

 

O silêncio se estendeu demais. Altheryon ficou imóvel, e o desconforto de Darvor cresceu. Por fim, o imperador respondeu com tranquilidade calculada:

— Não se preocupe. Não há razão para punição, nem para você, nem para sua família.

 

A calma de Altheryon, porém, ficou mais grave quando ele se acomodou. Os olhos buscaram Darvor com seriedade renovada.

— Diga-me — prosseguiu. — Qual era o elemento que seu filho dominava?

 

Darvor engoliu em seco. A pergunta o pegou desprevenido; não havia resposta fácil que não soasse como falha.

— Ele… atualmente não demonstrou dobra alguma, meu senhor. Dóryon ainda não descobriu a afinidade.

 

Ao relatar, Darvor sentiu o peso daquele olhar outra vez, tão denso que quase o fez curvar. Altheryon murmurou, como quem pensou em voz alta:

— Hum. Então ele derrotou Ícaruz apenas com força…

 

— Não se preocupe, senhor — apressou-se Darvor. — Eu o punirei por isso.

Altheryon fechou os olhos por um instante e soltou um suspiro contido.

 

— Ícaruz terá pela frente adversários bem mais difíceis que seu filho — disse, frio e realista. — Alguns dependem mais da diplomacia do que da lâmina. Acredite: são esses os piores de enfrentar.

 

Altheryon se levantou com a mesma calma. Caminhou até a saída e, antes de atravessar o limiar, voltou-se e deixou uma última sentença, firme e medida:

— Eu o admiro, Darvor. Diferente de muitos, você viveu segundo um código de honra.

 

Houve uma pausa, e a voz dele ficou mais cortante, como advertência sussurrada que ecoou nos pilares do salão:

— Porém, não se engane. Se algo semelhante voltar a acontecer, haverá consequências.

 

Altheryon partiu, e ficou no ar a sensação de que aquela marcha não fora apenas uma retirada, mas uma sentença velada. 

Darvor permaneceu ali, pequeno diante do trono, e sentiu o peso do futuro sobre a família e a sombra das ações que ainda viriam.




Fim do Capítulo III

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