Volume I

Capítulo IV: Entre Rivalidade e Sobrevivência | Parte I

Ao cair da noite, quando já se preparava para descansar em seus aposentos, Dóryon foi convocado pelo pai para ir até o escritório, localizado dentro da biblioteca.

 

Ao entrar no cômodo, deparou-se com Darvor, que permaneceu de pé e observou a escuridão lá fora através da vidraça.

— O senhor me chamou? — disse Dóryon, ansioso e preocupado, à espera da resposta.

 

— Sim. Sente-se — respondeu Darvor, voltando-se para a cadeira atrás da mesa.

Darvor apoiou-se na bancada e entrelaçou os dedos.

 

— Imagino que seja sobre o ocorrido de hoje, quando enfrentei o príncipe.

— Exato. Diga-me o que passou na sua cabeça quando decidiu lutar e derrotar o príncipe sem o uso de dobra.

 

Sentado, Dóryon cerrou os punhos sobre as coxas. Por um instante, hesitou e manteve a cabeça baixa.

— Estou aguardando sua resposta — disse Darvor, com olhar sério e penetrante.

— Eu quis vencê-lo e trazer orgulho para o senhor e para nossa família.

 

Darvor recostou-se na cadeira e soltou um longo suspiro. Passou a mão pelos olhos, frustrado. Depois levou uma das mãos ao rosto e apoiou o cotovelo na mesa.

 

— Você continuou agindo por impulso, sem pensar nas consequências das suas ações. Filho, nós não estamos mais em Terkin. Aqui as coisas são diferentes. 

O que você faz pode acabar prejudicando nossa família. Hoje, por exemplo, você nos deixou numa posição delicada com o imperador.

 

As palavras pesaram sobre Dóryon. Ele arqueou as sobrancelhas e permaneceu cabisbaixo, tomado por frustração e tristeza.

— Me perdoe, pai… essa não foi a minha intenção — disse ele, arrependido.

Darvor o observou em silêncio por alguns segundos, com olhar firme. Então levantou-se e parou diante do filho.

 

— Quero que escute atentamente o que vou dizer agora. — A voz soou grave e contida. — De agora em diante, aja com cautela. Pense bem antes de tomar qualquer decisão. Lembre-se: todos ao seu redor sempre o julgarão. Cada atitude sua pode trazer consequências sérias, para você ou para nossa família.

 

Dóryon ergueu o olhar, ainda dividido entre culpa e confusão.

— Sim, pai. Prometi que seria mais cuidadoso. Peço novamente desculpas pelo que aconteceu… o senhor pode me punir, se achar necessário.

 

Ao dizer isso, Dóryon fechou os olhos com força e esperou uma repreensão física. O corpo tremeu levemente.

Surpreso com a reação do filho, Darvor o encarou, chocado, mas conteve o impulso de se aproximar. Virou-se de costas e respondeu, frio:

— Por que pensa que eu o puniria? Você venceu, não foi?

 

Dóryon abriu os olhos, confuso, e viu o pai lançar-lhe um olhar por sobre o ombro.

— Mas eu… — tentou dizer.

 

— Eu nunca disse que o castigaria pelo que fez — interrompeu Darvor. — Eu apenas pedi que tomasse mais cuidado daqui em diante.

Darvor voltou a se posicionar diante da janela.

 

— Já pode ir. Descanse. Amanhã será um dia longo.

— Sim, pai. Obrigado. Prometo que serei mais responsável pelas minhas ações. Boa noite.

 

Dóryon se despediu e deixou o cômodo em silêncio, tomado por confusão, tristeza e reflexão.

Na manhã seguinte, Altheryon caminhou pelos jardins reais, ladeado por soldados e servos que o seguiram em silêncio reverente. 

 

O lugar se estendeu como um fragmento de beleza antiga: vastos canteiros entrelaçaram flores raras do deserto de Astrabia, cujas pétalas, em tons vívidos e impossíveis, cintilaram sob o primeiro brilho do sol. 

 

Entre elas, cresceram ervas curativas trazidas das entranhas de Halfeim, e liberaram um perfume suave que pareceu purificar o ar ao redor do imperador.

Altheryon trajou um manto de seda imponente, que reluziu a cada passo como se respirasse o ligne. 

 

Os bordados, tecidos com fios imbuídos de gyl, formaram o símbolo do leão real, emblema de força e soberania, e os traços sagrados de Gylden, que carregavam o peso da linhagem e da tradição. 

 

O vermelho profundo da veste irradiou a essência do fimber e pareceu pulsar com a mesma energia que ardeu nos olhos do imperador.

Mais à frente, Ícaruz o aguardou. Vestiu uma armadura forjada em ferro élfico, polida até o brilho do reflexo. Entalhes de ligne serpenteavam pelo peitoral e formavam o símbolo imperial com precisão quase sagrada. 

 

As peças foram presas por tiras de couro de serpente diacônica, cuja tonalidade vermelho-escarlate reluziu sob os lignes refletidos pelo sol. 

Por baixo, uma fina seda reforçou o conforto e a elegância que contrastaram com a rigidez da armadura, combinação de força e nobreza.

 

Ao avistar o imperador, Ícaruz apressou-se em tomar postura e se curvou diante de sua presença.

— Eu o saúdo, Vossa Excelência! — declarou, com a voz tensa, porém firme.

 

Altheryon o fitou com olhar profundo, carregado de autoridade.

— Vão — ordenou aos servos e soldados. — Deixem-me a sós com meu filho.

 

Os homens se retiraram em silêncio, e o som das armaduras ecoou suavemente até desaparecer. O jardim voltou a se tornar um santuário de venwin e perfume. 

Então, Altheryon caminhou até uma das rosas que floresciam próximas à fonte de mármore.

 

— Veja… conhece esta belíssima flor? — perguntou, com o olhar voltado para a planta.

 

Ícaruz manteve-se curvado.

— Sim, majestade. Foi a orkiduna, uma rosa que nasceu entre as cavernas e as dunas do deserto de Astrabia.

 

— Muito bem — respondeu Altheryon, com leve aceno. — E sabe por que ela foi trazida até nosso jardim?

— Acredito que… por sua raridade, senhor — respondeu Ícaruz, hesitante.

 

O imperador voltou-se para a flor e a tocou com a ponta dos dedos.

A orkiduna era singular: as pétalas se abriram como as de uma orquídea, largas e delicadas, mas o vermelho profundo na base ascendia a um tom alaranjado nas pontas, como se o próprio fimber ardesse em sua essência. 

 

Um leve brilho percorreu as bordas das pétalas, que pareceram pulsar sob o ligne do sol.

— Não — disse Altheryon, grave. — Essa magnífica flor foi trazida não apenas por sua beleza, mas pela forma como nasceu e pelo que representou. Ela floresceu sobre o sangue de monstros e criaturas que habitaram Astrabia. Suas raízes se alimentaram dos corpos caídos, e foi através deles que ganhou cor, força… e vida.

 

Ícaruz manteve o silêncio, com o olhar fixo no chão. O tom do pai tornou o ar mais denso, quase opressor.

— Sabe por que eu falei sobre essa flor e por que o trouxe aqui hoje? — continuou Altheryon.

— Não, majestade… — respondeu Ícaruz, com a voz trêmula.

 

O imperador aproximou-se e ficou diante do filho. A sombra dele o envolveu como sentença.

— O significado dessa rosa foi poderoso — declarou, em tom solene e ameaçador. — Ela inspirou reflexão e medo àqueles que conheceram sua origem. Representou a força do nosso império… e o quanto fomos implacáveis com nossos inimigos.

 

Então, num gesto lento e perturbador, Altheryon tomou a flor entre os dedos e a esmagou. As pétalas vermelhas e alaranjadas se desfizeram na mão dele e mancharam-lhe a pele com néctar escuro.

 

— Porém — disse, frio — no fim ainda foi apenas uma flor. Bela, mas frágil. E se sua história não bastou para intimidar, ela não me serviu para nada.

Um arrepio percorreu a espinha de Ícaruz. As palavras do pai o atravessaram como lâminas.

 

— S-sim, senhor… eu entendi agora — murmurou, quase sem erguer a cabeça.

— Que bom que entendeu. — Altheryon limpou a mão com um lenço branco e atirou os restos da flor ao chão. — Tudo neste lugar teve um propósito, Ícaruz. E eu esperei que cada um soubesse cumpri-lo. Caso contrário… sempre foi possível substituí-lo.

 

Altheryon chamou novamente os guardas e voltou-se para seguir o caminho. Antes de partir, lançou uma última frase por sobre o ombro:

— Agora vá. Não se atrase para sua aula.

 

— Sim, majestade — respondeu Ícaruz, erguendo-se lentamente, ainda tomado por medo e vergonha. Em silêncio, afastou-se pelos corredores do jardim, enquanto o som distante dos passos do imperador se misturou ao sussurro do venwin entre as flores.

 

No Instituto Imperial de Arllot, Dóryon finalizou a última sessão da punição. O som ritmado dos golpes ecoou pelo campo vazio, até que, por fim, ele parou. 

Ofegante, o suor desceu pelo rosto e se acumulou no queixo. Com o antebraço, limpou-o e respirou fundo.

 

À frente, Dayla o observou em silêncio. Vestiu uma calça preta justa, feita de elastano, e um top branco de linho que deixou evidente o físico firme e disciplinado. 

Os longos cabelos dançaram ao venwin, como se reconhecessem a autoridade dela.

 

Dayla caminhou até ele com passos firmes. Cada movimento carregou uma aura de controle e confiança. Diante de Dóryon, fitou-o com olhar sereno, mas exigente:

— Muito bem. Eu observei você de longe. Agora vá se trocar e vista sua armadura.

Dóryon assentiu e endireitou a postura. Quando tentou agradecer, Dayla já virou de costas e seguiu para a entrada do campo. Sem parar, acrescentou:

— Eu os aguardarei nos portões do Instituto. A aula de hoje será em outro lugar.

 

— Sim, instrutora. Eu irei agora mesmo — respondeu Dóryon, pegando uma toalha para secar o rosto, enquanto a viu desaparecer entre os arcos de terarth.

Ele se preparou com calma. Primeiro vestiu a cota sobre as roupas e sentiu o tecido áspero e frio deslizar pelos braços. 

 

Em seguida, tomou a armadura que o pai encomendara ao renomado ferreiro Hójorn, de Melkin, artesão conhecido por forjar peças dignas do imperador e de guerreiros lendários.

 

A armadura era uma obra-prima, forjada a partir da fusão entre mirion e silp. 

Juntos, aqueles metais conferiam resistência quase inquebrável, ainda que ao custo de um peso mais severo do que o de uma armadura comum. 

 

O mirion imprimia um brilho azul-escuro profundo, como reflexo de céu noturno sobre aço polido. O silp, trabalhado com maestria, dava leveza ao toque e acabamento liso e refinado, digno da realeza.

 

Nas ombreiras, finos entalhes marcavam o símbolo da Família Real e o dos Guardiões de Arkien, esculpidos com precisão quase cerimonial, como se cada traço carregasse um juramento antigo. No peitoral, sob o reflexo das tochas, repousava o emblema dos Magnuss.

 

Ao vestir a armadura, Dóryon sentiu o peso das palavras do pai ecoar dentro de si e, com elas, o significado profundo daquele símbolo. 

 

A frieza do metal contrastou com o fervor no peito. Por um instante, ele observou a peça em silêncio e admirou cada detalhe com seriedade, mas também com centelha de empolgação escondida no olhar. 

 

Então inspirou fundo, recompôs-se e seguiu para a saída do campo de treinamento.

 

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