Volume I
Capítulo IV: Entre Rivalidade e Sobrevivência | Parte II
Próximo aos portões, encontrou alguns alunos já reunidos, outros ainda por vir. Entre eles, Yoonji se destacou.
Ela não vestiu armadura nem cota de malha; usou roupas simples, de lã, em tons de azul que remetiam ao vater. Ao vê-lo se aproximar, caminhou devagar até ele e disse com sorriso leve:
— Oi, Dóryon. Eu soube o que aconteceu… você voltou do castigo?
Feliz por vê-la de pé, ele não se conteve e a envolveu num abraço apertado. Mas Yoonji se afastou depressa, com expressão de dor.
— Ei! Isso doeu. Você esqueceu que eu ainda estou machucada.
— Me desculpe… — disse Dóryon, com culpa no olhar. — Por um segundo, eu me esqueci. Você não deveria estar em repouso.
Ela ergueu o olhar, determinada.
— Eu não posso. Eu preciso completar meu treinamento, ou não poderei seguir para a escolha da minha profissão.
— Ainda assim, isso é muito arriscado. Você pode abrir os pontos — respondeu ele, preocupado, e pousou as mãos sobre os ombros dela para examiná-la.
Yoonji o afastou com gentileza.
— Está tudo bem. Eu não participarei das disputas por um tempo. O Instituto e a instrutora permitiram que eu apenas observasse os treinamentos.
Antes que Dóryon respondesse, uma voz firme cortou o ar.
Dayla surgiu, trajada com a armadura imperial, os cabelos presos num coque rigoroso e a espada presa à cintura.
— Ainda assim, você está em desvantagem, Yoonji. Enquanto assiste, os outros adquirem experiência de verdade.
— Bom dia, instrutora — respondeu Yoonji, e se curvou em respeito. — Eu tive isso em mente. Pretendi absorver o máximo de aprendizado, mesmo como espectadora.
Dayla observou a garota por um instante, e um raro sorriso cruzou o semblante austero.
— Você é uma menina esperta. Eu vejo muito da sua mãe nas suas atitudes.
Sem dizer mais nada, a instrutora se dirigiu aos portões, onde o restante dos alunos já se posicionou.
— Venha, nós temos que segui-la — disse Dóryon, e ofereceu o braço a Yoonji.
Ambos se uniram ao grupo. Assim que o último aluno chegou, Dayla assumiu a frente e, após breve reverência aos Guardiões, todos partiram para o local de treinamento.
Escoltados por Dayla e dois soldados, os jovens percorreram as ruas de Lotfell.
O caminho foi um espetáculo: comerciantes exibiram iguarias raras, ourives mostraram joias cintilantes, viajantes ostentaram artefatos exóticos.
Cavaleiros marcharam altivos, enquanto damas atravessaram vielas entre barracas e estandartes coloridos, e compuseram um cenário vivo sob o sol do meio-dia.
— Esse foi um Gharvorn — respondeu Yoonji, com leve sorriso, enquanto o filhote moveu as orelhas atentas ao som das vozes. — São criaturas raras, vindas das florestas enevoadas de Halfeim. Mesmo jovens, carregam a presença de algo antigo… algo que o próprio venwin parece respeitar.
Dóryon observou o pequeno animal com fascínio.
A pelagem prateada cintilou suavemente, e as escamas espalhadas pelo dorso refletiram o ligne em tons sutis de verde e lilás, como se absorvessem as cores do ambiente.
Os chifres curtos, lisos e curvos, lembraram os de um cervo jovem. Os olhos, de azul sereno e quase translúcido, transmitiram calma desconcertante, como se enxergassem além do que se mostrava.
O filhote soltou um som baixo, meio rugido, meio sopro, e uma brisa leve percorreu o ar. O venwin respondeu à essência dele.
— Dizem que os elfos de Halfeim os chamam de Guardas do Véu — continuou Yoonji, enquanto viu a criatura repousar sobre as patas. — Eles são sensíveis à energia ao redor e raramente se aproximam de humanos. Um filhote desses… — ela fez uma pausa, quase num sussurro — vale mais do que cem pladian.
Dóryon manteve os olhos fixos na criatura até que ela desapareceu de sua vista. Só então voltou o olhar para frente e encontrou o de Ícaruz.
O príncipe o fitou com frieza, e a raiva pulsou no semblante. Incomodado, Dóryon desviou o olhar e tentou ignorar o desconforto.
Minutos depois, o grupo chegou ao destino. Assim que Dóryon reconheceu o local, uma lembrança o atravessou: era o mesmo lugar onde estivera com Yoonji dias antes.
Dayla ergueu a voz, firme e imponente:
— Hoje, treinaremos no Centro Militar de Melkin. Aqui foram formados os soldados e cavaleiros que lutaram pelo reino e pelo imperador.
Ao entrarem no pátio, viram dezenas de soldados e recrutas reunidos ao redor do campo, à espera dos alunos do Instituto. O ar pareceu pesado, carregado de disciplina e expectativa.
— Como podem ver — continuou Dayla —, o espaço foi reservado para nós. Todos ficarão observando as batalhas que ocorrerão.
Ela fez um sinal e chamou dois homens que aguardaram próximos aos portões.
— Estes são Dalgomir e Trelibor. Eles auxiliarão no treinamento de hoje.
Dalgomir era alto e musculoso, com cabeça raspada e olhos castanhos profundos. Pareceu ter por volta de vinte e cinco outonos.
Trelibor, de estatura mediana e cabelos curtos, ostentou grande queimadura no lado direito do rosto; os olhos verdes transmitiram serenidade e força. Devia ter uns vinte e dois verões.
Ambos exalaram autoridade, e a simples presença deles bastou para causar murmúrios e inquietação entre os alunos. Dóryon sentiu o estômago apertar; algo lhe disse que aquele treino não seria simples.
Dayla prosseguiu:
— Ambos são dobradores de fimber e serão seus adversários na disputa de hoje.
Ethan ergueu a mão, hesitante:
— Então será uma disputa de dois contra um?
Dayla deixou escapar um leve sorriso, quase provocativo.
— Claro que não. Será uma batalha em duplas.
Ela apontou para Aaron.
— Cada um deverá se unir ao adversário do treinamento anterior para enfrentar os soldados.
O olhar de Dóryon foi direto ao príncipe. Ícaruz já o observava, com o mesmo ar de desprezo de sempre.
Enquanto os murmúrios aumentaram, Dayla deu ordens aos soldados:
— Eles lançarão contra vocês rajadas de fimber. Vocês terão que se defender. Cada dupla enfrentará cinco ataques. Quem for atingido três vezes será reprovado.
A voz dela ecoou firme e cortante pelo campo:
— E os reprovados reiniciarão todo o treinamento, do início. Estamos entendidos?
— Sim, instrutora! — responderam todos em uníssono, com vozes firmes e nervosas.
Dayla pousou o olhar em Dóryon e anunciou, clara e autoritária:
— Começaremos com a dupla que mais nos trouxe polêmica… Ícaruz e Dóryon. Venham, posicionem-se.
Ambos se moveram até onde repousavam armas e escudos, mas o passo firme da instrutora os interrompeu.
— Neste treino, vocês não precisarão deles — disse ela, com os braços cruzados. — Usem a dobra… ou apenas tentem sobreviver.
O tom sério de Dayla cortou o ar. Por um instante, o campo pareceu silenciar.
— Vocês terão alguns instantes para se preparar e traçar uma estratégia — acrescentou, e se afastou com calma, ainda atenta.
Dóryon respirou fundo. O coração bateu acelerado, e a respiração curta denunciou o nervosismo.
Ele se virou para o príncipe, que observou o terreno com serenidade quase arrogante, o olhar fixo nos oponentes.
— Você tem algum plano em mente? — perguntou Dóryon, e tentou esconder a incerteza na voz.
Ícaruz nem desviou o olhar.
— Eu não tive intenção de me juntar a você.
Dóryon cerrou os punhos.
— Nós não vamos conseguir passar por essa prova se não agirmos como dupla.
— Eu não sei você… — retrucou o príncipe, frio — …mas eu consigo.
A resposta caiu como sentença. Sozinho, Dóryon voltou o olhar ao campo e organizou os próprios pensamentos.
Ele precisava encontrar um jeito de vencer, não apenas pela prova, mas pela chance de se redimir diante do pai.
Dayla retornou à linha de frente e ergueu a voz:
— Estão prontos?
— Sim — responderam quase ao mesmo tempo, cada um por si.
Dayla fez um leve aceno, com semblante impenetrável.
— Então… boa sorte.
O silêncio que se seguiu pareceu anunciar que, a partir dali, nada seria simples.
O ar vibrou antes que qualquer som surgisse.
Dalgomir foi o primeiro a agir. O fimber irrompeu das mãos dele como chama viva, dançou em espirais douradas e se transformou numa rajada que atravessou o campo.
Ícaruz reagiu de imediato. Com gesto firme, moldou o mesmo elemento e criou uma corrente incandescente diante dos dois, que dissipou o ataque num redemoinho de ligne e calor.
A energia crepitou, rugiu e se desfez no ar.
— Primeiro ataque — anunciou Dayla, impassível.
Ícaruz manteve-se firme, com o rosto tenso.
Gotas de suor escorreram pelo queixo. Dóryon, ao lado, tentou acompanhar o ritmo dos movimentos, com olhos atentos e corpo pronto para reagir.
Ele não tinha dobra. Tinha reflexos e uma armadura de mirion e silp, feita para suportar impactos, não milagres.
O segundo disparo veio de Trelibor: uma lança de fimber azulada, que girou como trovão em chamas.
Dóryon rolou para o lado, com o calor roçando-lhe o rosto, enquanto Ícaruz canalizou a energia e desviou parte do ataque para o alto. O campo se iluminou em clarões dourados.
— Fique atrás de mim! — rosnou o príncipe.
— Se eu ficar parado, eu viro cinzas — retrucou Dóryon, firme apesar do medo.
O terceiro ataque veio em sequência, um disparo duplo. Ícaruz tentou conter o primeiro, mas o segundo desviou e veio direto.
Dóryon o puxou por instinto, e o feixe explodiu onde o príncipe estivera um segundo antes, abrindo cratera incandescente no chão.
Os observadores prenderam o fôlego.
O calor tornou-se sufocante. Fimber correu pelo ar como serpentes luminosas.
Ícaruz se concentrou e respirou fundo, enquanto Dalgomir e Trelibor se entreolharam, prontos para o golpe final.
As mãos deles brilharam em uníssono. Duas torrentes de fimber se ergueram, se entrelaçaram e formaram uma espiral dourada e flamejante. O ar vibrou; o som pareceu rugido.
— Ataque combinado! — gritou alguém.
Ícaruz avançou, cruzou os braços e moldou uma onda de fimber diante de si. A energia se expandiu como muralha viva, ondulante, sustentada por pura força de vontade.
Mas o impacto era colossal. Cada centímetro de ligne pareceu prestes a se partir.
Dóryon percebeu o inevitável. O calor o atingiu mesmo de longe e queimou a pele sob a armadura. Ele viu fissuras se abrirem na proteção do príncipe e correu.
— Ícaruz! Abaixe-se! — gritou.
O príncipe virou o rosto, confuso, e viu Dóryon se lançar contra ele. O impacto o derrubou, e o ataque passou logo acima, mas atingiu Dóryon em cheio nas costas.
O som foi ensurdecedor.
A armadura de mirion e silp reluziu por um instante e resistiu à fúria do fimber. Mesmo assim, parte da energia atravessou as camadas metálicas e queimou-lhe a pele.
Dóryon gritou, breve e gutural, e caiu de joelhos, com o corpo tremendo sob o calor que ainda crepitou.
Quando o ligne se dissipou, o campo inteiro pareceu em choque.
Ícaruz levantou-se lentamente, ofegante. À frente, Dóryon permaneceu curvado, e vapor subiu das costas chamuscadas.
A armadura negra ainda brilhou em tons vermelhos, como se o fimber tivesse ficado preso nela.
Dayla deu dois passos à frente. O olhar permaneceu firme, mas mais contido que antes.
— Cinco ataques… Apenas um foi bem-sucedido.
O silêncio se instalou.
Ícaruz olhou para Dóryon, dividido entre surpresa e orgulho ferido.
Dóryon ergueu o olhar, com a respiração falha.
— Eu disse… — murmurou, com meio sorriso cansado — que eu não podia ficar parado.
Dayla cruzou os braços e avaliou a cena.
— Prova concluída. E, aparentemente… com um exemplo de coragem.
Murmúrios se espalharam entre os espectadores, alguns impressionados, outros sem palavras.
Ícaruz desviou o olhar, incapaz de dizer qualquer coisa.
Dóryon, ainda ajoelhado, apoiou-se e ficou de pé.
A dor o rasgou, mas a armadura o manteve vivo. Pela primeira vez, a ausência de dobra não o tornou menor que ninguém.
Enquanto o fimber ainda cintilou no ar, ele apenas respirou fundo e sentiu o peso do momento.
Fim do Capítulo IV
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