Volume I

Capítulo V: Laços do Passado | Parte I

Yoonji correu até Dóryon para ajudá-lo. Ele estava ofegante, com o rosto coberto de suor e areia.

— Cuidado, a armadura ainda esta quente — alertou Dóryon, ao ver a amiga se aproximar.

 

Yoonji então notou o brilho avermelhado que se espalhava pelas costas do peitoral.

Enquanto isso, Dayla chamou os próximos participantes. Entre eles, assim como Dóryon, havia um novo aluno transferido.

 

— Posições, Willy e Lioren. Assim como a dupla anterior, vocês terão um tempo para discutir uma estratégia — anunciou ela.

Lioren era um pouco mais velho que Dóryon; contava doze outonos de vida. Seus olhos lembravam o brilho do âmbar refletido ao sol sobre as águas suspensas de Vazenê. 

 

Os cabelos, de tom acobreado com reflexos azulados, emolduravam um rosto de traços delicados, porém firmes, típicos dos povos do leste: uma combinação de nobreza e espírito aventureiro.

Ele vestiu uma armadura imponente, forjada de uma mistura entre gyl e um metal desconhecido para Dóryon, de tonalidade branca e entalhes dourados. 

 

Por baixo da armadura, trouxe roupas em marrom-escuro, indício de que o líder da família era um dobrador de terarth.

Willy, por sua vez, trajou um conjunto de silp e ferro élfico, cuja superfície realçou o brilho esverdeado característico do metal dos elfos.

 

Dayla observou atentamente enquanto Lioren e Willy se posicionaram no centro do campo. 

O chão, ainda marcado pelos golpes anteriores, exalou calor e faíscas tênues de fimber, que pairaram no ar como poeira dourada.

 

— Preparados? — perguntou ela, com o olhar firme e impassível.

Lioren apenas assentiu. O semblante permaneceu sereno, embora o coração batesse acelerado. Willy sorriu de forma tensa; o brilho esverdeado da armadura refletiu o campo em chamas, como se escondesse o medo que carregava.

 

— Então, que comece — declarou Dayla.

Dalgomir foi o primeiro a agir. Uma rajada de fimber partiu das mãos dele e atravessou o ar num arco incandescente. 

 

Lioren tentou se esquivar, mas o impacto o lançou de lado e o fez cair sobre o solo quente. Willy, ágil, desviou para a direita; a armadura faiscou com o calor, mas ainda assim ele foi atingido.

 

A segunda rajada veio logo em seguida. Trelibor canalizou uma espiral azulada de fimber e a lançou com precisão. Lioren mal reagiu quando sentiu uma força brusca empurrá-lo.

 

Willy o empurrou para frente e o usou como distração.

— Fique fora do meu caminho! — gritou o garoto, com o rosto contorcido em frustração.

 

A explosão passou acima da cabeça de Lioren e atingiu Willy de raspão. 

A armadura crepitou. As placas de silp brilharam em verde intenso antes de escurecer, e deixaram um rastro de fumaça. Willy cambaleou e praguejou.

 

O público murmurou. Dayla observou sem expressão, apenas acompanhou os movimentos.

Lioren levantou-se com dificuldade.

 

“Ele trapaceou… ele quis me usar para vencer.”

 

Mas Lioren não respondeu. O tempo pareceu mais lento. O ar vibrou com o fimber dos soldados, e ele soube que o próximo golpe seria decisivo.

Dalgomir ergueu as mãos novamente. Uma nova onda de fimber, mais densa, partiu em direção a eles. Willy tentou se proteger, mas o ataque o atingiu em cheio no peito. 

 

O impacto o lançou para trás, e o som metálico da armadura ecoou pelo campo.

 

Dayla ergueu a voz, firme, com olhar sério:

— Três impactos. Willy, você foi desqualificado.

 

Willy permaneceu caído, com o corpo coberto de fuligem e a armadura ainda fumegante. 

Os olhos, tomados de raiva, encontraram os de Lioren por um instante. Foi um olhar amargo, misto de inveja e vergonha.

 

Lioren não revidou. Apenas respirou fundo. O calor do fimber ao redor ficou quase sufocante; o chão tremeu sob os pés; e Dalgomir e Trelibor já se prepararam para o ataque final combinado.

 

“Eu não posso falhar.”

 

O pensamento ecoou dentro dele como maré.

 

“Eu precisei passar… eu tive que mostrar que os Vaelor também têm honra… pela minha mãe.”

 

Os dois soldados lançaram as mãos à frente, e duas torrentes de fimber, uma dourada, outra azulada, se entrelaçaram no ar e formaram uma espiral viva de energia ardente. 

O som foi ensurdecedor, como trovões fundidos em ligne.

 

Lioren ficou imóvel.

Por instinto, ou destino, ele estendeu as mãos à frente, com os dedos abertos, como quem tentou conter uma tempestade.

O impacto veio. Mas, em vez de destruí-lo, o fimber foi tragado pelas palmas dele. As chamas douradas e azuladas se fundiram, giraram ao redor dos braços e foram sugadas para dentro da pele.

 

O campo inteiro prendeu o fôlego.

As pontas dos dedos de Lioren começaram a brilhar em vermelho intenso. 

 

O brilho se espalhou como um rio de ligne, percorreu as mãos e subiu pelos braços. As veias pulsaram iluminadas, enquanto o fimber se misturou ao sangue e fluiu a cada batimento do coração.

 

Ele arfou, não de dor, mas de revelação.

Sentiu o poder vivo dentro de si, pulsando em uníssono com a respiração.

 

A espiral de fimber se dissolveu no ar.

No lugar das chamas, restou apenas Lioren, envolto por uma aura âmbar e dourada, de onde emanou um calor sereno, quase divino.

 

Trelibor e Dalgomir recuaram, perplexos. Dayla, ainda imóvel, deixou escapar um sussurro quase inaudível:

— Isso foi novidade… quem diria, um Vaelor que dominou as chamas.

 

Lioren abaixou lentamente as mãos. 

O brilho diminuiu até restarem apenas linhas tênues de fimber correndo sob a pele, como cicatrizes de ligne. Ele caiu de joelhos, exausto, com o peito arfando.

 

Dayla deu um passo à frente e ergueu a voz com firmeza:

— Prova encerrada.

 

Um silêncio reverente pairou sobre o campo de treinamento.

Entre os alunos imóveis, Dóryon observou em silêncio, surpreso e intrigado. 

 

Lioren despertou nele um sentimento difícil de definir. Não foi inveja, tampouco admiração pura. Foi algo mais profundo: uma vontade silenciosa de estar no lugar dele.

 

— Vamos. Precisamos ir até a enfermaria cuidar dessa queimadura nas costas — disse Yoonji, e puxou Dóryon pelo braço.

 

Os dois se afastaram, enquanto Ícaruz permaneceu imóvel e encarou Lioren com mistura amarga de inveja e frustração.

Na enfermaria, o ar pareceu denso, saturado pelo cheiro de ervas e sangue seco. 

 

Dóryon parou um instante à porta, chocado com a cena: leitos ocupados por soldados feridos, alguns com braços ou pernas amputados, outros com o rosto marcado por bandagens e olhos perdidos. 

 

O som dos gemidos e das preces baixas ecoou como lamento coletivo.

Um dos curandeiros os avistou e acenou.

— Venha, rapaz. Tire essa armadura — pediu com voz rouca.

 

A queimadura nas costas de Dóryon era extensa e ocupou quase toda a pele sob o peitoral.

— Isso vai deixar marca — comentou o curandeiro, ao examinar o ferimento com cuidado.

 

Ele tinha cabelos longos e grisalhos e um olhar cansado, mas vivo, que transpareceu sabedoria e compaixão. As mãos, marcadas por antigas cicatrizes, se moveram com destreza enquanto ele disse:

— Mas não se preocupe. Tenho certeza de que Darvor ficará orgulhoso dos feitos do filho dele hoje.

 

— O senhor conheceu meu pai? Lutaram juntos? — perguntou Dóryon, curioso.

 

Enquanto preparou compressas de vater fria, o homem respondeu:

— Eu nunca lutei ao lado dele… mas tratei dos seus ferimentos muitas vezes. Todos neste reino conhecem Darvor e o respeitam. Depois de tantas batalhas, ele deixou de ter companheiros… e ganhou irmãos. Esses homens — disse ele, e apontou para os feridos — não o temem. Eles o consideraram parte da família.

 

Dóryon permaneceu em silêncio, pensativo. Observou os soldados ao redor e se imaginou entre eles, com cicatrizes de guerra e histórias que ainda não viveu.

 

O curandeiro então se levantou e, com leve sorriso, disse:

— Ah, antes que eu me esqueça… pode me chamar de Guilhotina.

 

Dóryon arregalou os olhos, desconfiado. O olhar percorreu os leitos cheios de amputados, e o nome pareceu, no mínimo, alarmante.

— Acho que já estou melhor… não precisa se preocupar com a ferida — murmurou, e tentou se afastar discretamente.

 

O homem riu baixo.

— Calma, garoto. Foi só um apelido. Eles me deram esse nome pelo meu antigo ofício… antes de me tornar curandeiro.

 

Enquanto falou, ele amassou uma mistura de ervas e raízes numa tigela de terarth.

Com delicadeza, aplicou a pasta sobre a queimadura e cobriu-a com faixas limpas.

 

— Mantenha isso sobre o ferimento. Vai ajudar na cicatrização e aliviar a dor — disse ele. Em seguida, entregou uma pequena caixa de madeira adornada com aros de ferro. 

 

— Leve isto também. Troque o curativo à noite e novamente pela manhã.

— Obrigado, senhor — respondeu Dóryon, enquanto vestiu uma blusa de lã.

 

Mas a curiosidade venceu.

— Então… o senhor foi um carrasco? Por que decidiu se tornar médico?

 

O velho ficou em silêncio por alguns segundos. O venwin soprou pelas janelas e trouxe o murmúrio distante do campo e o sussurro entre as árvores.

— Porque eu percebi que o que eu fazia… me deixava vazio — respondeu por fim. 

 

— Passei muitas estações tirando vidas, até entender que nada preenchia o que eu perdia em cada execução. Então eu mudei e comecei a salvar aquelas que ainda podiam ser salvas.

 

Os olhos, antes cansados, brilharam com força serena.

— Foi a melhor decisão que tomei até hoje.

 

Ao devolver o peitoral polido a Dóryon, completou:

— Agora vão. Não irão querer deixar a Galanor esperando.

 

Quando Dóryon pegou a armadura, ela pareceu mais pesada do que antes. Não pelo ferro, mas pelo peso das palavras que ouvira.

Ele pensou no pai, nas histórias, no respeito e na lealdade que inspirava, e se perguntou se algum dia seria digno do mesmo.

 

De volta ao campo, Dóryon e Yoonji chegaram a tempo de ver Auror enfrentar sozinha os dois soldados. Os demais alunos ficaram enfileirados e aguardaram o fim da última luta do dia.

 

Auror trajou uma armadura de ferro e silp, pesada demais para a idade, mas moveu-se com a leveza de quem nasceu para lutar. 

Ela saltou, desviou, girou. Cada esquiva veio acompanhada pela vibração suave da dobra, reflexo perfeito entre força e graça.

 

Ao término da prova, Dayla ergueu a voz, visivelmente impressionada:

— Nenhum golpe a alcançou. Auror, você passou no teste.

 

Os alunos ao redor se agitaram em aplausos, todos exceto Dóryon e Yoonji.

Auror desfilou até eles com o mesmo ar de superioridade que carregou durante a luta. 

 

Para provocá-los, cuspiu no chão, a poucos passos dos dois. Foi um gesto pequeno, mas cheio de veneno.

Como estopim, Dóryon avançou e a segurou pelo braço.

 

— Que diabos foi isso?

Auror puxou o braço de volta com brutalidade e o encarou de cima a baixo, com sorriso que pareceu um corte.

— Eu apenas passei diante de dois vermes.

 

— Repete isso… — rosnou Dóryon, pronto para partir para cima.

— Dóryon, não — disse Yoonji, e tentou contê-lo pelo ombro. — Não vale a pena.

 

Mas Dayla já notou o tumulto.

— O que está acontecendo aqui?

 

Auror tomou a dianteira, falsa como sempre:

— Nada, instrutora. Eu só testei até onde o filho do grande Darvor aguenta.

 

Dayla suspirou, cansada daquele tipo de provocação.

— Se vocês quiserem lutar, eu posso marcar um duelo formal na próxima aula. Mas eu não admitirei brigas sem minha autorização. Estamos entendidos?

 

— Por mim, perfeito — disse Auror, e cruzou os braços. — A menos que o ruivinho aí esteja com medo, depois do que fiz com a amiga dele.

Dóryon deu um passo à frente, com o olhar incendiado de fúria contida.

 

— Eu aceito. E eu vou fazer você pagar pelo que fez com a Yoonji.

— Ótimo. Agora afastem-se e retomem posição — ordenou Dayla, e caminhou para o centro do campo.

 

Então, ergueu a voz para os demais:

— A aula de hoje chegou ao fim. Parabéns a todos — alguns passaram por pouco, outros com mais facilidade, mas o desafio foi superado. A partir daqui, enfrentarão provas semelhantes… e também duelos entre vocês. Meu objetivo não é só fazê-los despertar.

 

Ela fez uma pausa. Os olhos encontraram os de Lioren, que desviou rapidamente.

— Quero transformá-los em guerreiros exemplares. E mesmo que, após concluírem todas as aulas, sigam caminhos longe da espada e do escudo, jamais esquecerão do que aprenderam aqui — nem da força necessária para sobreviver em Gylden.

 

Depois de agradecer Trelibor e Dalgomir, ela concluiu:

— Vocês terão uma semana de descanso antes do próximo teste, que abordará a dobra do terarth. Treinem. Estudem. Assim como o fimber, o terarth exige disciplina e determinação.

 

— Sim, instrutora! — responderam todos, em uníssono.

Quando o grupo começou a se dispersar, Yoonji se aproximou de Dóryon, com o rosto tenso.

 

— Por que você fez isso? Por que desafiou ela?

Dóryon hesitou. As palavras saíram pesadas:

 

— Ela quase te matou, Yoonji. Toda vez que eu olho pra ela… eu sinto algo queimando dentro de mim.

Yoonji desviou o olhar. Aquilo a confortou e a feriu ao mesmo tempo. Auror não a feriu apenas na pele; deixou cicatrizes mais profundas.

 

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