Volume I
Capítulo V: Laços do Passado | Parte II
— Eu agradeço… de verdade. Mas eu vou pedir à instrutora que cancele essa luta — disse ela, e se virou para ir até Dayla.
Dóryon a segurou pelo braço.
— Você não vai fazer isso. Eu não deixo.
— Ela é mais forte que você, Dóryon! Eu não quero te ver machucado.
Ele a soltou devagar. O semblante endureceu.
— Então é isso? Você teve tão pouca fé assim em mim?
Yoonji permaneceu em silêncio. Não conseguiu encará-lo.
Dóryon respirou fundo.
— Entendi. Faça o que quiser. De um jeito ou de outro, eu vou enfrentá-la. Eu preferia que você estivesse ao meu lado… como da última vez.
Ele virou as costas e seguiu sozinho até os portões do campo.
Mas, ao passar, foi surpreendido por Lioren, que o barrou com gesto tímido.
— O-oi. Eu me chamo Lioren, da casa Vaelor… será que nós podemos conversar?
— Eu não estou de bom humor. Pode ser outro dia? — respondeu Dóryon, sem esconder o cansaço.
— Claro… claro — disse Lioren, e ajeitou o manto. — Mas antes… eu queria te convidar para algo.
Ele estendeu um cartaz.
Dóryon franziu o cenho.
— O que é isso?
— Minha família administrou parte do comércio entre Vazenê e Gylden. Um dos mestres da casa de apostas de Lotkin nos deu passes de entrada para o coliseu amanhã à noite. Eu posso levar quantos convidados quiser.
Dóryon o encarou, desconfiado.
— Por que eu?
Lioren respirou fundo e reuniu coragem.
— Quando eu vi sua luta… eu senti algo mexer aqui dentro. Eu… quis ser como você. Alguém que, mesmo com medo, não recuou. Aquilo me inspirou.
Sem saber o que responder, Dóryon apenas pegou o cartaz.
— Se você aceitar… eu estarei na entrada do coliseu quando o sol se puser. Eu te espero lá — disse Lioren, antes de desaparecer no fluxo de estudantes que saíram de Melkin.
Dóryon continuou o caminho, com o peitoral preso por uma corda nos ombros, o remédio nas mãos e a cabeça pesada, cheia de raiva, dúvida e responsabilidades.
Ao chegar em casa, exausto e com dor ardendo nos músculos, Dóryon entregou a armadura a um dos empregados e subiu apressado para os aposentos.
Pediu que preparassem um banho quente, tentou aliviar a tensão do corpo e da mente.
Depois de algum tempo, limpo e arrumado, desceu para a sala de jantar, tomou seu lugar à mesa e aguardou os pais se acomodarem.
Durante o jantar, Darvor reparou que o filho mal tocou na refeição.
— A comida não está do seu agrado? — perguntou, enquanto cortou um pedaço de legume.
— Está ótima, como sempre. Só… eu não estou com muita fome — respondeu Dóryon, sem encará-lo, com os olhos perdidos no prato, como se pensasse em outra coisa.
Darvor o observou por alguns instantes.
— Então por que essa cara? Eu ouvi dizer que hoje você se saiu bem no teste. Até defendeu o jovem príncipe.
Dóryon respirou fundo. A voz saiu baixa e carregada de frustração:
— Eu achei que dessa vez eu conseguiria descobrir qual é a minha dobra.
Darvor deixou os talheres de lado. O tom ficou firme, quase duro.
— Tire essa dúvida da sua mente. Meu sangue corre em você. Ainda que seu elemento não tenha despertado, ele virá. É apenas questão de tempo.
As palavras, embora ditas com convicção, pesaram sobre Dóryon como terarth. Mesmo assim, ele forçou um sorriso frágil.
— Sim, pai. Eu entendi.
— Ótimo. Então termine de comer — encerrou Darvor, e levou o cez de Vazenê aos lábios.
Obedecendo, Dóryon se esforçou para engolir cada garfada.
Mais tarde, Darvor ficou no escritório da biblioteca e analisou documentos financeiros. Dóryon hesitou à porta, com o coração acelerado.
— Pai… eu queria pedir uma coisa.
Darvor ergueu o olhar.
— O que deseja?
— Um colega me convidou para ir ao coliseu amanhã à noite. Eu queria saber se… nós podemos ir.
O silêncio que se seguiu foi tenso e absoluto. Darvor recostou-se na cadeira, indecifrável.
— Muito bem. Nós podemos ir — disse, por fim.
Os olhos de Dóryon brilharam.
— Sério? Obrigado, pai! Eu prometo que o senhor não vai se arrepender.
— Vá descansar. E cuide desse ferimento — respondeu Darvor, e voltou a atenção para os papéis.
Dóryon fez uma reverência curta e seguiu para os aposentos.
Ao entrar no quarto, encontrou Sienna sentada numa poltrona, à espera. Numa mão, ela segurou uma tigela de água gelada; na outra, um pano limpo.
— Onde você estava? — perguntou ela, aliviada e levemente irritada. — Eu fiquei esperando.
— Eu fui falar com o pai. Eu precisava da permissão dele para irmos ao coliseu amanhã.
— Hm. E ele deixou? — perguntou, ao arquear as sobrancelhas.
— Sim. Ele disse que nós podemos ir.
— Ótimo. Mas antes disso, você vai precisar de roupas mais adequadas — disse Sienna, e pediu que ele tirasse a camisa e se sentasse à beira da cama.
— Qual foi o problema das roupas que já temos? — questionou Dóryon, enquanto desfez as faixas da queimadura.
— Nós moramos em Arllot agora, querido. Cada lugar teve seu próprio modo de vestir. Nós não podemos aparecer de qualquer jeito — respondeu ela, e mergulhou o pano na água fria.
Dóryon assentiu e permaneceu calado enquanto ela fez a compressa e aplicou o medicamento. O toque cuidadoso contrastou com a dor ardente.
Após alguns minutos, ele quebrou o silêncio:
— Mãe… como a senhora conheceu o pai?
Sienna pausou, surpresa com a pergunta.
— Por que quer saber?
— Hoje eu conheci um homem que parecia ter uma história antiga com ele. E eu percebi… todos os soldados tinham um respeito enorme pelo pai. Eu queria saber um pouco do passado de vocês. Eu queria saber o que ele significou para a senhora.
Sienna respirou fundo. Os olhos se encheram de lembranças.
— Seu pai… — disse, com voz suave — foi o meu mundo. Eu não consegui imaginar minha vida sem ele.
Dóryon virou-se depressa para encará-la, surpreso com a sinceridade.
Sienna segurou a mão do filho e olhou pela janela. A expressão ficou distante, como se parte dela voltasse no tempo.
E, assim, envoltos pelo silêncio do quarto, ela começou a contar a história.
Sienna inspirou devagar. O pano escorreu água fria entre os dedos enquanto ela fixou o olhar além da janela. A ligne suave da lua tocou o rosto dela, e a voz surgiu tranquila, mas carregada de lembranças.
“Eu tinha apenas nove outonos de vida quando tudo aconteceu…”
— Dóryon, meu amor… se existiu algo que eu aprendi neste mundo, foi que algumas histórias não começaram com alegria. Elas começaram com perda, medo e esperança misturada ao desespero.
Ela respirou fundo.
— Eu não me lembro de muito de Astrabia… apenas da cor do céu, um azul tão intenso que pareceu pesar sobre nós. Astrabia nunca foi um lugar para humanos. Meu pai soube disso e, mesmo assim, tentou me criar lá, entre perigos que não pertenciam a nós.
O rosto dela se entristeceu.
— Eu lembro do cheiro do sangue dele. Eu lembro dos braços fortes me carregando enquanto nós corremos pelas areias densas e quentes do deserto. Ele foi ferido por uma besta… algo que eu nem sei nomear. Eu só lembro do som dos ossos dela roçando quando nos perseguiu. Mas meu pai lutou. Lutou até o último sopro para me manter viva.
A voz embargou, mas ela continuou.
— Ele morreu poucas horas depois de nós chegarmos perto da divisa entre Astrabia e Gylden. Ele me deixou ali, sozinha, com o corpo ainda quente. Eu só tinha as roupas que vestia, velhas, rasgadas, cobertas de poeira e medo.
— Eu caminhei até onde minhas pernas permitiram e, quando vi as muralhas de Gylden pela primeira vez, eu achei que estava salva. Mas… eu não pude entrar. Eu precisava de cidadania ou de moedas: dez gyld, alguns silpra, qualquer coisa. Eu não tinha nada.
Ela sorriu com tristeza.
— Então eu me virei e caminhei na direção da Floresta do Alvorecer… e esperei que alguém, qualquer pessoa, pudesse me ajudar.
O tom mudou, ficou tenso.
— Mas antes que a ajuda viesse… veio o pior. Mercadores. Homens maliciosos que viram em mim uma mercadoria. Eles quiseram me vender em Gylden… ou em Vazenê… como serva. Ou pior.
Os olhos se encheram de brilho frio.
— Eu corri. Eu corri até minha alma doer. Mas eles foram rápidos. E quando me cercaram… eu achei que minha história terminaria ali.
Ela fechou os olhos por um instante, como se revivesse tudo.
— Mas ele chegou.
Sienna sorriu, e o sorriso carregou admiração.
— Seu pai, Darvor… tinha apenas quatorze invernos. Mas pareceu um homem que já enfrentara guerras inteiras. Ele caminhou pela floresta carregando a cabeça de um Canis Sabre, como se aquilo fosse apenas mais um dia de caça.
Ela riu de leve.
— Ele era tão selvagem naquela época… cabelos ruivos desgrenhados, roupas de lã velhas e farrapadas, uma armadura quebrada por cima… mas os olhos… Dóryon, os olhos do seu pai sempre foram chamas de fimber presas dentro de alguém que se recusou a apagar.
O sorriso se aprofundou, cheio de ternura.
— Ele viu os homens me perseguindo e, sem hesitar, atacou. Sozinho. Com nada além daquela velha espada, da coragem e da ferocidade que sempre carregou. Ele me salvou. Matou todos eles. Mas o detalhe… o detalhe que eu nunca esqueci… foi que ele tremeu depois.
Ela apertou as mãos, emocionada.
— Ele tremeu não de medo, mas de preocupação comigo. A partir daquele dia… ele nunca me deixou sozinha.
— Darvor me levou até a cabana onde viveu com os pais. Ela era pequena, feita de madeira e feno. Mas era quente. Era segura. Pela primeira vez desde que eu fugi… eu dormi sem chorar.
Sienna riu com saudade.
— Ele era um menino frio, fechado, quase rude. Mas comigo… ele sempre foi gentil. Ele sempre deixou a comida dele para mim quando achou que ninguém estava olhando. Ele sempre dividiu o cobertor. Ele sempre me guiou quando eu me perdi na floresta.
— Ele dizia que não precisava de amigos… mas viveu ao meu lado.
— Os anos passaram. Darvor cresceu e cresceu forte. Ele sempre foi justo, corajoso… e impiedoso com aqueles que machucaram inocentes. E eu… bem… eu fui o oposto. Eu fui alegre demais, chorona demais, emotiva demais. Ele reclamou muito, disse que eu falava demais.
Ela riu, divertida.
— Mas eu vi como ele me olhou quando pensou que eu não estava vendo. E um dia… aquele olhar mudou. De proteção… para amor.
— Quando ele completou vinte invernos, ele decidiu entrar para o exército de Gylden. Ele disse que queria garantir um futuro para nós: uma casa dentro das muralhas, um lugar onde eu nunca mais precisasse fugir.
Ela sorriu, cheia de orgulho.
— Ele conseguiu. E com a cidadania dele… veio a minha. E então nós começamos nossa vida em Terkin. Longe da floresta, longe do medo. Ao lado um do outro.
Sienna passou a mão pela bochecha do filho, com carinho.
— Por isso, Dóryon… seu pai foi meu mundo. Ele salvou minha vida quando eu era apenas uma menina perdida. Ele salvou meu coração quando eu não tinha mais fé. E ele construiu tudo que nós tivemos com as próprias mãos.
Ela segurou o rosto de Dóryon entre as mãos.
— E mesmo que ele parecesse duro, frio e distante às vezes… saiba que ele amou você com a mesma intensidade feroz com que me salvou naquele dia. Você foi tudo para ele. Você foi tudo para nós dois.
Ela sorriu com ternura profunda.
— E foi assim que nossa história começou.
Diferente do dia inteiro, Dóryon desta vez não sentiu o peso do legado do pai. Sentiu conforto e inspiração pelos atos dele e pelo que fizera por Sienna.
Ela terminou o curativo e deixou Dóryon nos aposentos, refletindo sobre o que ouvira e ansioso pelo que veria no dia a seguir.
Fim do Capítulo V
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