Volume I

Capítulo VI: Forjados pelas Batalhas | Parte I

(Na mesma noite)

 

A varanda dos aposentos reais se abria para um jardim suspenso, banhado pelo brilho suave da Ligne emitida por lamparinas entalhadas em Terarth polido. 

Entre elas, pequenas esculturas de mármore branco refletiam tons frios, enquanto fragmentos de Pladian incrustados nas colunas reverberavam um cintilar azulado e rubro, criando um contraste hipnótico com o movimento lento dos vaga-lumes que repousavam sobre as flores noturnas.

O ar carregava o perfume úmido vindo dos canteiros irrigados por fluxos controlados de Vater, e uma brisa leve de Venwin agitava as pétalas douradas da flor-aurora.

Sentado em um banco de mármore, Altheryon degustava uma dose de cez, preparado pelos melhores alquimistas de Vanezê. Apreciava o silêncio — aquele tipo de silêncio que apenas um estadista cansado compreendia.

Guiado por dois soldados, Tobias adentrou a varanda e inclinou a cabeça em um cumprimento formal.

— Boa noite, vossa majestade. Como tem se sentido? — disse ele, reverenciando-o.

Altheryon dispensou os guardas com um gesto breve.

— Estou bem. Vamos, fique de pé.

Tobias se aproximou e tomou assento ao seu lado, observando por alguns instantes o brilho do Pladian refletido nos olhos do imperador.

— Vi os Rheys deixando o palácio… pelas feições, não pareciam satisfeitos — comentou.

O imperador soltou um suspiro profundo e levou a mão ao rosto, massageando as marcas do cansaço acumulado nas últimas semanas.

— Arhh… aqueles carniceiros oportunistas. Mal descobrem algo novo e já querem arrancar para si.

— É o que desejam dessa vez? — indagou Tobias.

Altheryon balançou suavemente a taça, fazendo o cez girar em seu interior.

— Encontraram algo nas profundezas da Floresta do Alvorecer… ninhos de scordrak, escondidos nas cavernas da montanha Hiliar.

Tomou o último gole antes de continuar:

— E você sabe: o scordrak não serve apenas para entreter multidões em Lotkin. Usamos suas escamas e pele para o couro dos couraçados, e o veneno… esse é indispensável para remédios e para produzir o cerdromel, a bebida mais cobiçada entre todos os reinos.

Tobias assentiu.

— Imagino, então, que tenha negado o pedido.

— Claro que sim. Aquela zona de caça pertence aos Ironmantle. Têm sido competentes, pagam seus impostos e mantêm boas relações com o trono. Não há razão para alterar o que funciona.

O imperador desviou o olhar para os vaga-lumes, como se refletisse sobre algo muito maior do que o caso em questão.

Tobias ajeitou o manto.

— Se permitir, posso assumir esse assunto e tratar diretamente com os Ironmantle.

— Agradeço. Então deixarei tudo em suas mãos — concedeu Altheryon.

Após alguns instantes, o imperador inclinou-se ligeiramente, e sua expressão ganhou uma sombra de severidade calculada.

— Agora… quanto ao outro problema. Cuidou dele com a devida discrição?

Tobias respirou fundo antes de responder:

— Sim, senhor. Kyan está apodrecendo nas próprias fezes, nas vielas de Fellkin. Quanto ao mestre Growly… foi mais complicado, dada sua posição e comércio movimentado na rua principal. Mas não se preocupe: fizemos parecer que um pandoriano desesperado tentou roubá-lo e o matou por acidente. Nada vincula o caso ao palácio.

Um sorriso lento formou-se nos lábios de Altheryon — controlado, mas satisfeito.

— Perfeito. Eu esperava exatamente esse profissionalismo. Me certificarei de recompensá-lo adequadamente.

— Agradeço, vossa majestade.

Tobias ergueu-se levemente para ajustar o manto e perguntou em tom enigmático:

— E quanto ao Darvor? Acha que ele descobrirá o que houve?

Altheryon recostou-se, mirando o horizonte onde as lamparinas refletiam na superfície do Vater dos canais do jardim. Sua voz tornou-se fria, quase cortante:

— Mesmo que descubra… não importa. Darvor serve ao reino — e ao imperador. Ele sabe o peso da coroa. Não ousaria se levantar contra mim.

Tobias arqueou um sorriso discreto, calculado.

— Ainda assim, vossa majestade, homens de princípios também fazem escolhas imprevisíveis… mas, claro, permanecerei atento.

— Quero que faça mais do que isso. Fique de olho nele… e assuma também a supervisão dos guardiões. Eles permanecerão em Lotfell por alguns dias. Providencie abrigo, boa alimentação… e mulheres do bordel de Kintle. As mais belas. Finn tem gostos peculiares.

— Assim será feito — afirmou Tobias, inclinando a cabeça.

Altheryon levantou-se e caminhou em direção aos aposentos internos, ladeado por colunas de Pladian que vibravam em tons rubros sob a Ligne.

— Irei descansar. Informe ao segundo comandante que retorne ao posto. Tenha uma boa noite, Tobias.

O imperador desapareceu pelas portas de mármore branco.

Tobias permaneceu sozinho na varanda, observando os vaga-lumes refletidos no Pladian. Seu olhar, embora calmo, carregava algo sombrio — intenções que talvez nem o próprio imperador fosse capaz de antever.

A manhã em Arllot nasceu com um venwin leve que atravessava as janelas altas da mansão, trazendo o aroma fresco das árvores floridas do distrito nobre. 

Dóryon despertou sentindo uma estranha tranquilidade — uma sensação que não o visitava desde que deixara Terkin.

Havia silêncio, havia Ligne… havia espaço para respirar.

Sienna entrou em seu quarto carregando uma pequena bandeja com tecidos dobrados e uma tigela de cerâmica fumegante.

— Bom dia, filho.

Ela sorriu, mas o olhar atento avaliou as costas do filho.

— Vamos trocar os curativos antes de descermos para tomar o café da manhã. A mistura que trouxe é ótima, o curandeiro sabia mesmo o que estava fazendo… antes eu fazia essa mesma junção de ervas e colocava sobre os ferimentos de seu pai.

 

Dóryon assentiu e virou-se com cuidado. A queimadura ainda ardia como se tivesse vida própria. Sienna retirou os curativos antigos com delicadeza e soprou a área exposta.

— Está doendo?

— Um pouco… — Ele cerrou os dentes. — Mas já esteve pior.

Sienna aplicou a mistura espessa de ervas moídas e, logo depois, colocou as faixas e os novos curativos.

— Pronto. Agora se arrume e desça, você precisa comer antes de irmos até o Alfaiate.

Dóryon riu baixinho.

— Verdade… preciso estar apresentável.

Na sala de refeições, a mesa estava posta com um prato que ele nunca havia visto. O aroma doce que se espalhava foi o primeiro sinal de que o dia seria diferente.

— Isso cheira muito bem, o que é? — Perguntou, curioso e com anseio de provar aquele prato maravilhoso.

Sienna sorriu.

— É o dyralun. Um bolo típico de Lotfell. É feito com farinha doce e sementes tostadas. E esse aqui… — ela levantou uma jarra de vidro grosso — é suco de frissal. Uma fruta que só amadurece antes da metade da manhã. Se perder o horário, ela amarga.

Dóryon levou o copo aos lábios. O sabor cítrico e refrescante explodiu em sua boca, quase como uma corrente suave de venwin que percorreu sua garganta.

— Uau… isso é incrível! Me sinto renovado.

— É para começar o dia com energia. — Sienna passou a mão nos cabelos dele. — Vamos precisar.

Ele mordeu o dyralun. A massa leve derreteu em sua língua e trouxe um toque caramelizado e o crocante das sementes.

Dóryon arregalou os olhos.

— Eu quero levar uns dez desses para a viagem. Vou comer todos.

— Duvido que sobrem até metade do dia. — respondeu Sienna, rindo.

Após desfrutarem de um belo café da manhã, ambos partiram para a praça dos guardiões, onde se concentrava a maioria dos comerciantes em Lotfell. 

A viagem até o centro foi marcante para Dóryon. Diferente do dia anterior, ele esteve atento a cada detalhe.

Lotfell despertava com seu habitual tumulto organizado: mercadores abriam tendas, treinadores puxavam montarias para a arena, guardas conversavam enquanto ajustavam as lâminas.

Dóryon observou tudo pela janela da carruagem. Seus olhos brilharam com curiosidade constante.

— A praça parece diferente… mais viva.

Ao ver a alegria do filho, Sienna soltou um leve sorriso.

— Sabia que Lotfell é onde culturas se misturam. Por isso queria que você visse hoje.

A carruagem parou, e ambos desceram para caminhar pela praça. Ao redor, tendas de todas as cores competiam por atenção. 

Elfos vendiam frutas e iguarias raras; comerciantes de Vanezê expunham peças e joias; ambulantes de Hirosaka ofereciam roupas únicas e totens esculpidos.

Maravilhado, Dóryon seguiu a mãe até o destino: o ateliê de Thaevor Lintrell, famoso por vestir nobres de Gylden e aristocratas de Vanezê. 

Ao entrar, o som sutil das agulhas e o aroma de tecidos finos preencheram o ambiente.

Thaevor ergueu os olhos e abriu um sorriso profissional.

— Lady Sienna! E uma honra conhecê-la. Vejo que trouxe o jovem mestre Dóryon.

Ele fez uma leve reverência.

— Sejam bem-vindos.

Ao cumprimentá-lo, Sienna explicou o que desejava.

— Precisamos de roupas formais para esta noite. Algo cinza com detalhes brancos e dourados para Dóryon, e também uma roupa para mim, um vestido — com babados, com cores azul-escuro e cinza como base.

Thaevor bateu palmas.

— Perfeito! Tenho tecidos que vão realçar ambos. Mestre Dóryon, venha para as medições…

Dóryon engoliu seco e se lembrou da queimadura.

— Hmm… preciso avisar que minhas costas estão enfaixadas. Pode ser difícil levantar os braços completamente.

Thaevor estudou-o com cuidado.

— Nada impossível. Vamos devagar. A arte exige paciência.

Ele ajustou as faixas com habilidade e pediu movimentos mínimos. Apesar do desconforto, Dóryon se sentiu… bem. Quase leve.

— Você tem porte de alguém destinado a feitos grandes, comentou Thaevor enquanto media o tórax.

— Só espero que eu consiga vestir essa roupa sem desmaiar de dor, brincou Dóryon.

Thaevor riu alto.

— Se desmaiar, garanto que cairá com estilo.

Sienna suspirou com bom humor.

Com as medidas feitas e os tecidos escolhidos, Sienna decidiu que o próximo passo seria mostrar ao filho uma das experiências mais marcantes da cidade.

O restaurante “Sabor das Estradas” era tradicional, com lamparinas de Pladian que projetavam tons de azul e cobre sobre as mesas de madeira polida. 

O ar tinha cheiro de ervas, especiarias e fumaça leve.

— Tem certeza que podemos comer aqui? — perguntou Dóryon, hesitante.

— Temos. E você precisa conhecer o que o mundo tem a oferecer além de Arllot.

Ele não conseguiu esconder o sorriso.

Logo, três pratos chegaram:

Carne de javali de Halfeim, assada lentamente com raízes aromáticas.

Tiras crocantes de durkran.

Caldo morno de rabhino, herbívoro típico da Floresta do Alvorecer e de Pandora.

Dóryon provou o javali e levou a mão ao peito.

— Isso… isso é o melhor que já comi na vida! É forte, mas doce… e meio defumado!

Sienna riu.

— A cozinha de Lotfell faz mágica.

Ele então provou o durkran.

— Mãe! Isso aqui é perfeito! É crocante e macio ao mesmo tempo. Por que nunca comemos isso em Arllot?

— Porque Arllot é sofisticado… mas não ousado. Aqui eles servem de tudo.

Por fim, o caldo.

— Quente… mas muito bom. Meio salgado, meio herbal… parece que te acorda por dentro.

Sienna se recostou e o observou se deliciar como não fazia havia muito tempo.

E então percebeu:
Dóryon estava verdadeiramente feliz.

Era a primeira vez, desde que deixaram Terkin, que ela via o sorriso sincero que tanto sentira falta.

Depois do almoço, Sienna e Dóryon retornaram ao ateliê para receber as roupas ajustadas. 

Thaevor já deixara cada peça cuidadosamente pendurada em suportes acolchoados, como se fossem artefatos sagrados.

— Ficaram prontas antes do previsto, anunciou o alfaiate com um ar orgulhoso.

As roupas estavam impecáveis. 

O traje de Dóryon brilhava com um dourado discreto nas extremidades e exibia linhas limpas no cinza e branco; era elegante, mas leve, perfeito para alguém que ainda se recuperava.


A roupa de Sienna parecia saída de um quadro antigo — camadas fluidas, babados sutis, azul profundo e detalhes cinzentos que valorizavam seus traços aristocráticos.

— Thaevor… estão maravilhosas., disse ela.

— Perfeitas, completou Dóryon, ainda maravilhado.

Eles recolheram as peças embaladas e deixaram o ateliê. Seguiram pela avenida brilhante de Lotfell, onde feirantes começavam a recolher tendas e lanternas se acendiam aos poucos.

Dóryon caminhou com um sorriso manso, admirando cada detalhe da cidade, quando, repentinamente, ouviu uma voz familiar:

— DÓRYON?!

Ele parou no meio da rua. O coração deu um salto.

— Celth?

O garoto correu na direção dele, desviou de uma carruagem e de dois mercadores e, antes que Dóryon pudesse abrir a boca, envolveu-o em um abraço apertado, quase sufocante.

Dóryon riu e segurou o amigo pelos ombros.

— Eu não acredito! O que está fazendo aqui? Achei que você e seu pai estavam em Terkin!

Celth sorriu largo, ofegante.

— Estávamos! Mas muita coisa mudou. Meu pai conseguiu trabalho em Winlot! Agora serve um dos atores do teatro! Você acredita?!

O orgulho transbordava da voz dele. Sienna sorriu discretamente ao ver a alegria dos dois.

— Isso é ótimo, Celth! Não sabia, fico feliz por você e seu pai!

— Obrigado! Agora comemos três vezes ao dia! — disse, rindo. — Mas e você? Está… bem?

Dóryon hesitou por um segundo; as lembranças da dor, da confusão, das chamas desordenadas passaram por sua mente — e então ele sorriu.

— Estou. De verdade. Acho que… finalmente estou.

Celth soltou o ar em alívio, como se esperasse essa resposta havia muito tempo.

— Que bom. Você merece isso, Dóryon.

Sienna tocou de leve o ombro do filho.

— Precisamos ir, querido. Ainda temos aquele compromisso mais tarde.

— Claro, mãe…

Ele virou-se para Celth.

— Escuta… quando você encontrar o Urlan, manda minhas saudações, tá? Diz a ele que sinto falta das piruetas que ele soltava ao ver um sapo do rio.

Celth sorriu com um brilho emocionado nos olhos.

— Pode deixar. Ele vai ficar muito feliz de saber disso.



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