Volume I
Capítulo VI: Forjados pelas Batalhas | Parte II
Os dois bateram as mãos de forma rápida, como faziam quando mais novos, e se despediram. Celth seguiu pela rua lateral, apressado, e acenou até desaparecer.
Dóryon ficou alguns segundos parado e observou a direção por onde o amigo sumira. O peito estava leve — leve de um jeito que não parecia real.
— Vejo que seu dia está cheio de emoções, comentou Sienna com um sorriso caloroso.
— Está sendo… o melhor dia em muito tempo, admitiu ele.
Juntos, caminharam de volta à mansão em Arllot, as roupas embaladas nos braços, a promessa de uma noite memorável no coliseu à frente — e o coração de Dóryon respirou, enfim, sem peso algum.
Ao chegar à mansão, Dóryon mal teve tempo de fechar o portão antes de ser surpreendido por Dolores, que veio em sua direção com passos apressados e expressão séria.
— Jovem mestre Dóryon… — ela respirou fundo, como quem hesita em dar a notícia. — Seu pai está esperando por você. Disse que precisa falar imediatamente. Está no jardim.
O coração de Dóryon deu um salto desconfortável.
Ele acabara de reencontrar Celth, uma alegria breve no meio de dias turbulentos, mas o tom de Dolores apagou qualquer resquício de leveza.
Ajustou a camisa com cuidado para evitar que o tecido roçasse na queimadura coberta por curativos — ainda dolorida, mesmo com as ervas de Sienna — e caminhou até o jardim.
Darvor estava de pé perto das árvores antigas, as mãos cruzadas atrás das costas, e observava o tronco de uma figueira como se analisasse um inimigo real.
Sem olhar para trás, ele disse:
— Atrasou-se.
— Eu… fui buscar as roupas, pai. — Dóryon respondeu, mantendo a postura ereta, mesmo com a ardência que latejava nas costas.
Darvor virou, enfim, o rosto. Seus olhos eram firmes, frios, avaliadores — nunca afetivos, mas nunca indiferentes.
— Recebi notícias hoje. — Ele fez uma breve pausa, como se selecionasse as palavras com precisão militar. — Seu mestre, Kyan… foi encontrado morto. Nas vielas de Fellkin.
Dóryon sentiu o estômago afundar.
Kyan… morto?
As vielas de Fellkin eram conhecidas por esconder tragédias que raramente recebiam explicações.
— Como…? — a voz dele saiu abafada.
— Circunstâncias ainda não esclarecidas. — Darvor respondeu de forma seca, como se sentimentos fossem distrações. — E não, não tenho intenção de esperar pelas respostas. Você não pode perder a semana de preparação.
Dóryon ergueu os olhos, ainda tentando processar.
Perder Kyan era duro. Mas…
Darvor continuou:
— Recebi um pássaro de Dayla. Ela me informou que você desafiou a filha dos Ironmantle.
Seus olhos se estreitaram.
— E considerando o histórico da família da garota, não pretendo vê-lo entrar despreparado.
Dóryon engoliu seco.
— Então… o senhor vai me treinar?
Darvor soltou um leve, quase imperceptível respiro — quase um riso, mas sem humor.
— Não. Minhas responsabilidades com o imperador não me dão esse luxo.
Ele deu um passo à frente.
— Mas encontrei alguém que dará conta.
Dóryon piscou, confuso.
— Quem?
Darvor manteve o olhar firme, mas havia algo ali… uma rarefação emocional, quase um orgulho escondido.
— Um dos Guardiões de Arkien, Isaac.
O impacto acertou Dóryon como uma rajada de venwin. Em seus pensamentos:
“Um Guardião.
Um dos protetores lendários das fronteiras, guerreiros escolhidos entre centenas.
E ele ira me treinar?”
— Isso é… sério? — Dóryon deu um passo involuntário para frente. — Um Guardião mesmo?
— Sim. — respondeu Darvor, direto. — Ele foi meu escudeiro anos atrás. Deve-me um favor. E aceitou vir enquanto está na cidade. Treinará você durante toda essa semana.
Dóryon sentiu a tristeza pela morte de Kyan, mas, ao mesmo tempo, uma chama de entusiasmo surgiu no peito — impossível de conter.
Treinado por um Guardião.
Ele nunca imaginara algo assim.
Darvor concluiu:
— A luta é em sete dias. Não desperdice a oportunidade.
O olhar dele pousou rapidamente na postura rígida do filho.
— E trate de pedir que troquem seus curativos outra vez. Está se movendo como um idoso.
Era o mais próximo de preocupação que Darvor demonstrara.
E Dóryon sabia disso.
— Sim, senhor. — respondeu, firme.
Darvor virou-se para sair e acrescentou:
— Ele chegará amanhã ao amanhecer. Esteja pronto. Não gosto de ver meu nome associado a fracassos.
Assim que o pai desapareceu pelo corredor do jardim, Dóryon soltou o ar preso no peito.
Kyan morto.
Auror.
A luta se aproximando.
E… um Guardião como novo mestre?
Uma mistura de medo, tristeza e excitação o atravessou — tudo ao mesmo tempo.
(Mais tarde)
O pôr do sol tingiu Lotfell com tons dourados e alaranjados, refletiu sobre os telhados de terarth polida e sobre as bandeiras que tremulavam ao sabor do venwin suave.
O som da multidão já era audível a quadras de distância: risadas, conversas empolgadas, passos apressados e o rumor grave das trompas cerimoniais que anunciavam o início dos espetáculos.
Dóryon caminhou entre os pais, o coração pulsando com uma excitação que não sentia desde os tempos em Terkin — uma sensação leve, viva, quase esquecida.
O Coliseu de Lotfell ergueu-se diante deles.
Uma estrutura magnífica, monumental, feita de arcos colossais de terarth cinzelado, colunas enfileiradas como sentinelas e grandes estandartes vermelhos que balançavam acima dos portões.
Havia uma beleza imponente ali — e também brutalidade. As estátuas de gladiadores nas paredes exibiam ferimentos, marcas de batalha, dentes de presas e armas quebradas como troféus eternos.
Nobres de túnicas elegantes, guerreiros tatuados, servos carregando caixas de mercadorias e crianças fascinadas juntavam-se em um só mar de corpos, todos avançando para o mesmo destino.
— Incrível… — murmurou Dóryon, espantado.
— Aproveite para observar — disse Darvor, sua voz firme, quase neutra. — A grandiosidade também tem seu preço.
Sienna, ao lado, sorriu suavemente para o filho.
— Hoje não vamos pensar em outras coisas, apenas viver o momento.
Perto da escadaria principal, eles avistaram Lioren, impecável em uma roupa formal azul-acinzentada com detalhes prateados.
O jovem estava claramente nervoso — ajeitava as mangas, o colarinho, o cabelo, repetidamente.
Ao lado dele estava sua mãe, Jenma Vaelor, uma mulher deslumbrante de pele morena, cabelos curtos e negros como a noite sem lua, e olhos castanhos calorosos.
Vestia um vestido longo de tecido leve, azul profundo com detalhes em dourado que cintilavam ao toque da luz do entardecer.
— Senhora Sienna! Comandante Darvor! — ela os saudou com um sorriso respeitoso. — É uma honra encontrá-los.
Ela entregou a Sienna uma garrafa elegantemente decorada.
— Este é um Cez Vazene envelhecido, das vinhas de Alven’or, perto das colinas douradas de Vazene. A colheita deste ano foi excepcional. Que seja um presente para esta noite especial.
— Uma gentileza preciosa, Jenma. — Sienna agradeceu com sinceridade.
Enquanto as duas mulheres conversavam, Lioren se aproximou de Dóryon.
— E-então… — Lioren começou, quase tropeçando nas próprias palavras — prontos para ver uns guerreiros sendo… quebrados no meio?
Dóryon riu.
— Você não sabe nem o que vai acontecer, sabe?
— Claro que sei! — disse Lioren, erguendo o queixo. — Bom… mais ou menos. Não exatamente. Mas parece impressionante, e… e eu achei que seria legal chamar você.
— É legal — Dóryon respondeu, sinceramente. — Faz tempo que eu não me sentia ansioso por algo assim.
Lioren relaxou visivelmente.
— Aí sim! Só não desmaia, tá? Minha mãe me mata se você cair duro no chão.
— Se eu desmaiar, vou cair em cima de você. — Dóryon rebateu.
— …então vou me afastar um pouco.
Ambos riram, e Sienna observou o momento com orgulho silencioso.
Quando estavam prestes a entrar, algo chamou a atenção de Dóryon.
Ao longe, perto da entrada das celas de monstros, um servo caminhava lentamente enquanto carregava correntes pesadas.
Era extremamente magro, seu corpo marcado por feridas, a roupa rasgada, suja.
Mas o que realmente fez Dóryon parar foi a marca em seu rosto — um símbolo estranho, angular, queimado na pele. Nunca havia visto nada igual.
O servo percebeu o olhar do garoto. Por um instante, seus olhos se encontraram — um olhar profundo, triste, carregado de algo que Dóryon não soube identificar.
— Dóryon — chamou Sienna, tocando o braço do filho. — Venha, vamos entrar.
Ele piscou, quebrou o contato e seguiu os outros.
Ao atravessarem os portões, o mundo os engoliu.
O rugido da multidão os atingiu como uma onda. Milhares de pessoas gritavam, batiam palmas, batiam os pés.
O cheiro de comida quente, fumaça de tochas e suor pairava no ar. As luzes de cristal que bordavam o topo iluminavam tudo com brilho dourado.
O chão de areia no centro era vasto e parecia vivo, remexendo em poeira sob cada movimento.
Dentro da arena estavam cinco gladiadores, cada um trajando armaduras diferentes, representando seus elementos:
Um dobrador de venwin, leve e veloz
Dois dobradores de fimber, com brasões vermelhos
Um dobrador de vater, com ornamentos azul-escuros
Um dobrador de terarth, com placas de terarth reforçada no peitoral
Mas todos encaravam o mesmo terror.
O Scordrak emergiu das portas da cela com um rosnado que fez a areia vibrar. Suas penas haviam sido arrancadas, expondo a pele escamada e tons vivos de verde e vermelho.
Suas asas, mutiladas, ainda eram enormes — mas incapazes de voar. A cauda longa terminava em um ferrão sombrio que pulsava como se respirasse por conta própria.
A multidão rugiu.
O monstro não hesitou: investiu.
O dobrador de venwin foi o primeiro a agir e criou rajadas que desviaram o ataque inicial.
Os de fimber lançaram chamas que envolveram o peito do Scordrak, enquanto o de terarth ergueu muralhas que tentaram bloquear a investida.
Mas o monstro era rápido.
Muito rápido.
O Scordrak avançou com um salto violento e cravou o ferrão no gladiador de vater antes que ele pudesse reagir. O homem caiu sem soltar um som.
— Ele… ele morreu tão rápido… — murmurou Dóryon, atônito.
O segundo a cair foi o dobrador de terarth — o Scordrak quebrou a muralha levantada e o derrubou com as garras afiadas.
O terceiro foi um dos dobradores de fimber, atingido por um golpe de cauda que o jogou contra a parede da arena com força mortal.
— Eles… eles estão aplaudindo… — Dóryon disse, horrorizado, ao ouvir o público vibrar a cada morte.
Darvor permaneceu imóvel, olhando a luta com uma expressão indecifrável.
— Eles são gladiadores, Dóryon. — Sua voz era firme, fria, militar. — Eles nasceram para lutar.
— Mas… morrer assim?
— Eles anseiam pela batalha, mesmo que ela os leve ao fim. Esse é o caminho que escolheram.
As palavras ecoaram no coração do garoto.
A luta continuou.
Os dois gladiadores restantes — o dobrador de venwin e o último de fimber — sincronizaram seus ataques.
O de venwin criou correntes de ar que prenderam as patas do monstro por instantes preciosos, enquanto o de fimber concentrou suas chamas diretamente no ponto fraco do pescoço.
O Scordrak rugiu.
Cambaleou.
Caiu, finalmente morto.
A arena explodiu em comemoração.
Dóryon olhou para o pai, que não tirava os olhos da arena.
— Pai… isso é… isso é o que me espera?
Darvor inspirou devagar, como se fosse escolher muito bem as palavras.
— O mundo não poupa ninguém, filho. Ele molda, esculpe e testa cada homem…
Ele colocou a mão no ombro de Dóryon, firme, pesada.
— …e aqueles que sobrevivem…
Os gladiadores ergueram as armas, celebrando a queda do monstro diante da multidão.
— …são forjados pelas batalhas.
Fim do Capítulo VI
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