Volume I

Prólogo: Parte I

Era uma tarde ensolarada.
Os raios de sol batiam nos muros úmidos da divisória entre Fellkin e Terkin, enquanto, sob eles, ouvia-se o som sereno do rio que corria entre as terarth.

 

Dóryon e seus amigos, Celth e Urlan, vestiam roupas de lã sujas e rasgadas; os três estavam sentados sobre uma tábua de madeira.

Cada um dos garotos havia amarrado uma corda em um cachorro de rua. Um deles tinha porte médio, algumas feridas na pele e o pelo grisalho e crespo. 

Outro era grande, de pelo curto e branco. O último, que estava com Dóryon, era alto, com pelos dourados, embora, por causa da sujeira, mal se percebesse a beleza de sua pelagem.

 

Dóryon havia completado onze invernos. Seus cabelos curtos e ruivos, de um tom acobreado, contrastavam com os olhos azuis que lembravam o céu, enquanto a pele muito clara fazia com que suas bochechas ficassem intensamente vermelhas no frio.

Montado sobre a tábua, com a corda presa ao cachorro firmemente nas mãos, Dóryon gritou:

 

— Vamos! Quem chegar por último nos portões da cidade vai ter que comer um caracol!

Dóryon arrancou na frente e deixou para trás o riso e os protestos dos amigos. O venwin brincou com seus cabelos, e o som dos passos ecoou pelas vielas úmidas de Fellkin.

Celth, de cabelos cacheados e castanhos, olhos quentes e pele escura como a terra molhada, levantou-se indignado ao vê-lo disparar.

 

— Isso é trapaça! Volta aqui e vamos recomeçar! — bradou, antes de sair em disparada atrás dele, determinado a recuperar a vantagem.

Urlan ficou por último.

Os cabelos curtos e castanhos lhe caíam sobre a testa, e seus olhos, negros como a noite sem estrelas, brilhavam com a chama da competição. Uma pequena cicatriz abaixo do queixo lhe dava um ar sério, em contraste com a pele pálida.

 

Quando percebeu que ficava para trás, arriscou: cortou caminho entre as casas estreitas de Fellkin, onde o cheiro de pão e ferrugem se misturava ao venwin.

 

Mas a corrida logo saiu do controle. O cachorro de Dóryon, tomado pelo ímpeto da brincadeira, desgovernou-se e passou a serpentear entre as pernas das pessoas, arrancando gritos e risadas nervosas.

 

Em meio ao caos, o animal chocou-se contra uma carroça, e o impacto lançou Dóryon ao chão. Ele deslizou pelas terarth, ralou os braços e os joelhos, e o mundo girou por um instante.

 

Antes que conseguisse se levantar, Celth o ultrapassou, triunfante, e gritou por sobre o ombro:

 

— Se deu mal, otário! Te vejo nos portões com o caracol pra comer!

Enquanto chamava o cachorro de volta, Dóryon viu Urlan passar por ele em disparada. O garoto, maldoso e risonho, deu um tapa na traseira do animal e o fez correr na direção contrária.

 

— Vai se fuder! — gritou Dóryon, furioso. — Quando eu te pegar, vou te arrebentar!

Urlan riu e provocou:

 

— Isso se você conseguir chegar até os portões… até mais, idiota!

E desapareceu pela esquina.

 

Resmungando, Dóryon tentou retomar o controle da situação. Com paciência e alguns puxões, convenceu o cachorro a voltar.

Desta vez, amarrou a corda como um cabresto improvisado e o fez correr novamente rumo à saída da cidade.

A cada passo, sua voz ecoou pelas ruas estreitas:

 

— Abram caminho! Abram caminho!

Ele desviou das pessoas e dos barris que cruzavam sua frente e, pouco a pouco, reduziu a distância que o separava dos outros.

Ao alcançar a rua principal, perto de uma barraca de frutas, Dóryon avistou Urlan às voltas com o próprio cachorro.

 

O animal havia parado para devorar um osso ainda coberto de carne, largado no chão. Urlan o puxou pelo pescoço, desesperado, e tentou fazê-lo seguir.

A cena arrancou de Dóryon uma risada. Ele ergueu o dedo do meio, zombeteiro, e seguiu em frente, decidido a alcançar o outro competidor.

 

Já próximo aos portões da cidade, Dóryon viu Celth adiante. Ele agitava a corda como se fosse um chicote e tentava apressar o cachorro, em vão, pois o bicho teimava em não sair do lugar.

 

Ao perceber que ficara para trás, Celth tentou de todas as formas acelerar o animal, mas já era tarde demais. Dóryon enfim chegou ao destino marcado.

Ele pulou da tábua e comemorou a vitória. Os amigos chegaram correndo logo em seguida.

Urlan, visivelmente chateado, cruzou os braços e disse:

 

— Não valeu. Você trapaceou.

Dóryon arqueou uma sobrancelha, ofendido:

 

— Não fui o único. Você deu um tapa no meu cachorro.

Concordando com Urlan, Celth comentou:

 

— Acho que devemos desconsiderar a aposta, já que os dois jogaram sujo.

— Nada disso — disse Dóryon. — Aposta é aposta. Agora um de vocês vai ter que comer o caracol.

 

Celth suspirou e dispersou os cachorros, enquanto Urlan e Dóryon recolheram três galhos caídos ao redor.

Quando voltaram, Dóryon embaralhou os gravetos e os manteve escondidos na mão.

 

— Escolham um — disse, com um sorriso travesso. — Quem tirar o menor paga a aposta.

Os dois escolheram. Quando conferiram, Celth havia pegado o menor. Urlan mostrou alívio e resmungou:

 

— Droga… por um momento pensei que seria eu.

Celth e Urlan até pensaram em questionar, mas Dóryon, animado, correu em direção à saída, e os outros dois o seguiram.

Logo chegaram ao lago em Terkin.

 

O vater reluzia sob o sol, e, no barrento das margens, os caramóis se escondiam sob folhas e terarth. Urlan foi o primeiro a encontrar um.

O molusco era grande, úmido, e se contorceu lentamente em sua mão.

 

— Pronto — disse, e entregou-o a Celth. — Sua refeição está servida.

Celth o pegou com repulsa. O corpo viscoso escorregou entre seus dedos e deixou uma trilha de muco.

 

— Vamos, chega de enrolação! — gritou Urlan, divertido. — Pega logo o caracol!

Com o rosto contorcido de nojo, Celth aproximou o molusco da boca, respirou fundo e engoliu.

O som bastou para fazer Dóryon empalidecer. Ele recuou alguns passos e vomitou ali mesmo. Urlan gargalhou, pegou outro caracol e o estendeu a Celth:

 

— Aqui, come mais um.

Celth, enjoado com o que acabara de engolir, tentou xingar o amigo, mas o estômago embrulhou de repente, e ele expeliu tudo o que havia ingerido.

Urlan apenas observou, divertido, e, sem hesitar, engoliu o caracol que segurava.

 

— Vocês são uns molengas.

Ele permaneceu ali e saboreou, enquanto via os amigos evacuarem tudo o que havia em seus estômagos.

Alguns minutos depois, Dóryon sentou-se sobre uma grande terarth próxima ao lago. De cabeça baixa, com os cabelos ainda molhados sobre o rosto, observou por um instante o reflexo trêmulo da vater. 

Depois se levantou e caminhou até Celth.

 

— Você está bem? — perguntou, com o refluxo ainda queimando o estômago.

Celth suspirou.

 

— Estou sim… mas nunca mais aposto com vocês.

Dóryon esboçou um sorriso cansado.

 

— Na próxima, apostamos algo menos nojento.

Urlan, encostado em uma árvore, riu.

 

— Vocês são um bando de mariquinhas. Comer um caracol não é nada demais.

Celth franziu o rosto.

 

— Só de lembrar já me dá enjoo… como conseguiu comer aquela coisa?

Urlan olhou para o chão e respondeu, com um pouco de tristeza:

 

— Na minha casa, foi o que tivemos para comer durante o inverno.

Dóryon olhou para ele com pesar.

 

— Deve ter sido difícil…

— Está tudo bem — respondeu Urlan, com naturalidade. — Depois que você se acostuma com a textura, o gosto nem é tão ruim.

Celth balançou a cabeça, com uma careta.

 

— É horrível. Nem imagino ter que comer isso todos os dias.

Dóryon baixou o olhar, a expressão presa em lembranças.

 

— Eu nunca comi caracóis… mas no último inverno tivemos que nos alimentar de cascas de árvore e cogumelos. — Fez uma breve pausa. — Um deles me deixou desacordado por dois dias.

Celth soltou um riso curto, amargo.

 

— Bom, não é motivo de orgulho, mas eu e minha mãe tivemos que roubar galinhas do nosso vizinho. Atraíamos as coitadas com migalhas de pão mofado.

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas não desconfortável. Apenas o som do vater e do venwin entre as folhas preencheu o espaço entre eles.

Em seguida, Dóryon se levantou e pousou a mão sobre o ombro de Urlan.

 

— Mas hoje temos o que comer — disse, com um sorriso sincero. — Se algum de vocês passar a precisar de ajuda, não hesite em me procurar… basta imitar uma ave oculta.

Celth franziu a testa.

 

— Que bicho é esse?

— Um pássaro de penas verdes e vermelhas. Dizem que é o mais procurado de toda Arkien.

Curioso, Urlan perguntou:

 

— Nunca ouvi falar. E por que é tão procurado?

Dóryon abriu os braços e imitou o bater de asas.

 

— Porque as penas mudam de cor conforme o ambiente. Assim, ele escapa dos predadores.

Celth arqueou uma sobrancelha.

 

— Entendi. Então… você já comeu um desses bichos? Ou já ouviu o canto dele?

— Err… não — respondeu Dóryon, sem jeito. — Ouvi um cavaleiro contar essa história uma vez. Ele acompanhava meu pai em uma missão.

Celth deu um soco leve no ombro do amigo.

 

— Então não manda a gente imitar um animal que nem você sabe o nome!

Em seguida, colocou um braço sobre os ombros de Urlan e prosseguiu:

 

— Conta comigo também. Pode ir lá em casa quando precisar de ajuda.

Feliz pelo apoio dos amigos, Urlan agradeceu o carinho de ambos. Dóryon, por sua vez, voltou o olhar para o horizonte.

Das margens do lago, via as casas de Terkin: as chaminés soltavam fumaça, as crianças corriam pelos campos, e os fazendeiros conduziam o gado sobre o pasto.

 

As moradias de terarth, com telhados de palha e madeira, reluziam sob o ligne dourado do entardecer.

Seu olhar repousou sobre a paisagem com melancolia silenciosa. Havia em seu peito um sonho profundo, uma chama discreta que o tempo ainda não apagava.

Percebendo o semblante distante do amigo, Urlan se aproximou.

 

— Está tudo bem, Dóryon? Você ficou quieto de repente…

O garoto respirou fundo antes de responder.

 

— Não é nada… só pensei. Essa paisagem me faz lembrar do meu sonho.

Celth sentou-se ao seu lado, curioso.

— E qual seria?

Dóryon sorriu de leve.

 

— Eu queria que nós morássemos perto do palácio. Que pudéssemos conhecer grandes dobradores… quem sabe até o próprio imperador. — Fez uma pausa. — É um sonho tolo, eu sei… mas ainda assim era o que eu mais queria.

Celth assentiu, com convicção nos olhos.

 

— Não é tolo. Um dia estaremos lá. Seremos grandes guerreiros, grandes dobradores.

Urlan deu um salto e imitou um dobrador de Vater, com gestos exagerados.

 

— Eu serei um grande elementarista! Forte e famoso como Lanrith!

Contagiado, Celth o imitou, girou no ar e pousou de frente para os dois.

 

— E eu serei como o Protetor Alexsander! — gritou, abrindo os braços. — Vou usar minha dobra de Fimber como um tornado!

Urlan riu, puxou um punhado de vater do rio e lançou em Celth. Ele revidou com lama e acertou a cabeça do amigo.

Dóryon observou, divertido, até entrar na brincadeira.

 

— Vocês são fracos! — anunciou, e se colocou entre os dois. — Agora vão ver o poder da minha dobra de Venwin!

Antes que reagissem, ele cuspiu em Celth. O amigo gritou indignado, pegou mais lama e correu atrás dele. Urlan gargalhou, apanhou uma minhoca do chão e juntou-se à perseguição.

 

O riso dos três ecoou entre as árvores, misturado ao som do rio e do venwin. Aos poucos, o sol se escondeu atrás das colinas e tingiu o céu de dourado e violeta.

Dóryon, ofegante, foi o primeiro a notar o entardecer.

— Gente, acho que brincamos demais — disse, apontando para o horizonte. — Já está quase na hora do toque de recolher.

 

Urlan assentiu, ainda rindo.

— Verdade. Melhor a gente se apressar.

Depois de uma breve despedida, seguiram caminhos diferentes. Dóryon correu para casa, em Terkin.

 

A moradia da família, comprada por quinze moedas de gyld, mal se sustentava. As terarth das paredes estavam cobertas de mofo, escuras pela sujeira. O telhado, cheio de buracos, deixava a chuva entrar e, em certas noites, Dóryon acordava com uma poça de vater ao lado da cama.

Ao se aproximar, avistou a mãe: uma mulher de beleza serena, pele negra, cabelos escuros e olhos de um azul profundo. Ela o aguardava à porta, com o rosto tomado pela preocupação.

 

— Onde você estava? Sabe que horas são? — perguntou, com os braços cruzados.

— Me desculpa, mãe… perdi a noção do tempo. Não vai se repetir.

Ela suspirou.

 

— Você disse isso da última vez. Mas deixo a bronca para depois. Vai se lavar. Seu pai voltou hoje.

A notícia acendeu um brilho imediato nos olhos do garoto. Ele correu para dentro, desviou desajeitadamente dos móveis velhos e rangentes e foi direto para o lado de fora, onde os baldes cheios de vater já o aguardavam.

 

Ele encheu a banheira rústica de madeira, reforçada por cordas grossas.

Sem pensar duas vezes, despiu-se e mergulhou no vater gelado. Um grito ecoou pelo pátio.

 

O frio ruborizou-lhe as bochechas, mas ele riu, pegou o sabonete de banha de cabra e cinzas e esfregou o corpo até a sujeira dos dias sumir. 

Por fim, despejou o último balde sobre si e correu para dentro, nu e risonho, e deixou um rastro de vater e confusão.

 

— Dóryon! — gritou a mãe, indignada, mas ele já sumira pelo corredor em direção ao quarto.

Sienna suspirou, enxugou as mãos no avental e se aproximou da chaminé. Fechou os olhos, respirou fundo e se concentrou.

Por um instante, o mundo pareceu calar, até que as pontas de seus dedos brilharam em vermelho, como se algo queimasse por dentro.

 

A palma direita incandesceu, e uma tênue película de fimber surgiu sobre sua pele. 

A brasa cresceu, virou chama, e ela a pousou com delicadeza sobre as lenhas, aqueceu o caldeirão e dissipou o frio do ambiente.

Pouco depois, Dóryon reapareceu, já com uma roupa de lã bem cuidada.

 

— Por que você está com essa roupa? — perguntou Sienna, e arqueou as sobrancelhas. — Essa é para sair. Tira agora.

— Mas, mãe… o pai vai chegar! Eu quero recebê-lo bem-vestido.

 

Ela o observou por um instante e sorriu de leve.

— Tudo bem. Mas vai buscar vater no córrego. Ele vai querer se banhar quando chegar.

— Pode deixar! — respondeu ele, pegou dois baldes e saiu saltitante.

 

Horas depois, o crepúsculo se derramou sobre Terkin. Dóryon, no quintal, brincava com a espada de madeira, enquanto o som do fimber crepitava dentro da casa. Então o som dos cascos o fez parar.

Um cavalo destrier marrom se aproximou. Sobre ele vinha um homem imponente, coberto por uma armadura marcada por batalhas, arranhada, suja de lama e sangue seco.

 

As ranhuras brilhavam com filetes de ligne derretido e formavam o símbolo da casa imperial. 

O couro vermelho-escuro que sustentava o metal fora retirado de um búfalo krivar e, sob a couraça, o tecido escuro denunciava o cansaço dos dias de marcha.

O homem retirou o elmo e revelou longos cabelos ruivos de reflexos acobreados e uma barba cerrada, salpicada por fios grisalhos. Uma cicatriz larga cruzava-lhe o rosto, da bochecha ao início do pescoço.

 

Dóryon correu até ele e o abraçou, mas o pai permaneceu imóvel, com o olhar distante.

Sienna saiu apressada e enxugou as mãos no avental.

 

— Darvor, querido! Bem-vindo de volta!

Ele soltou o filho com um gesto breve.

 

— O jantar está pronto? — perguntou, com a voz grave e rouca.

— Sim, mas preparei um banho quente antes de comer — respondeu ela.

 

— Ótimo. Ajuda-me a retirar a armadura.

— Claro, querido.

Sienna lançou um olhar rápido a Dóryon.

 

— Vai arrumar a mesa.

O menino correu até o caldeirão, de onde vinha o aroma da sopa de Rabhino, um pequeno herbívoro das colinas, cozido com legumes e ervas. Ele serviu as tigelas, arrumou os talheres de madeira e esperou.

 

De repente, sons abafados vieram do quarto dos pais. A casa, pequena e de paredes finas, deixava escapar tudo: risos, gemidos e sussurros confusos. Dóryon franziu o cenho, sem entender o que se passava.

 

Quando voltaram, Sienna trazia os cabelos em desalinho e as faces coradas; Darvor, o cabelo preso e uma antiga túnica de seda cinza. Sentaram-se em silêncio, e o jantar começou sob o peso das palavras não ditas.

 

Depois de alguns minutos, Darvor pousou a colher e encarou o filho.

 

— Você tem treinado?

— Sim, pai. Com o mestre Kyan.

 

— Ótimo. No próximo ciclo lunar, você irá para o Instituto Imperial de Arllot.

As palavras pairaram no ar como um trovão. Sienna levou a mão à boca.

 

— Amor… tem certeza? O Instituto Imperial?

— Sim. E nós nos mudaremos. Essa é a outra notícia.

Dóryon piscou, atônito.

 

— Vamos nos mudar? Por quê?

Darvor se endireitou, com a voz carregada de orgulho.

— Fui nomeado comandante dos cavaleiros imperiais.

 

Sienna deixou escapar um soluço de alegria; lágrimas escorreram por seu rosto. Dóryon mal conteve o entusiasmo. Seu sonho, afinal, tornava-se real.

Darvor se levantou e retirou um saco de couro do alforje. Dele tirou roupas de seda e sapatos novos. O cinza predominou em todas as peças, adornadas por um emblema: uma adaga envolta por venwin.

 

— Quando formos para a nova residência, usem essas roupas. Uma carruagem virá nos buscar.

Dóryon segurou a túnica.

 

— Pai, por que todas têm essa cor?

— Porque as vestes das famílias nobres refletem o elemento do chefe da casa — respondeu ele.

 

O menino levou o tecido ao rosto. O aroma de lavanda o envolveu, doce e raro, um perfume que até então só sentira nos que vinham de Arllot ou Lotfell.

Dóryon agradeceu ao pai e correu para o quarto. Guardou cuidadosamente as roupas novas sob a velha cama de madeira, onde uma fina camada de feno servia de colchão.

 

Depois voltou à mesa e terminou o que restava da ceia, e saboreou cada colher como se fizesse parte de um sonho prestes a começar.

Alguns dias depois, o sol de Terkin dourou os campos pela última vez. Sienna, vestida com um belo traje amarelo, despediu-se das vizinhas junto à carruagem parada diante da casa.

 

Um pouco mais afastado, Dóryon despediu-se dos amigos.

— Eu realmente estou indo… — disse, com a voz embargada. — Tenho me beliscado o dia todo pra ter certeza de que não estou sonhando.

Celth sorriu e tentou esconder o orgulho.

 

— Espero que você se torne um grande dobrador, Dóryon. E que um dia a gente se reencontre.

Urlan não disse nada. O rosto molhado de lágrimas falou por ele. Dóryon o abraçou com força.

— Ei… não fica assim. Eu volto pra ver vocês.

 

Os olhos de Celth também marejaram.

— Para de chorar, Urlan… seja homem! — disse, mas a voz falhou.

— Droga — murmurou Dóryon, e riu entre lágrimas. — Vou sentir muita falta de vocês!

 

Os três se abraçaram longamente. Em uma última brincadeira, Dóryon bagunçou os cabelos de Celth.

— Ei! — gritou ele. — Passei uma hora me arrumando no reflexo do rio!

Urlan riu alto, e o riso contagiou os outros dois.

 

Então a voz firme de Darvor ecoou:

— Dóryon, venha! Não podemos esperar mais.

O garoto respirou fundo e estendeu os braços à frente, cerrou os punhos. Celth e Urlan cruzaram os antebraços com os dele, em um gesto simples e solene.

 

— Iremos nos reencontrar — disse Dóryon. — É uma promessa.

— Com certeza! — respondeu Celth.

— Vamos sim! — completou Urlan, enxugando o nariz.

 

Dóryon subiu na carruagem e olhou pela janela enquanto os campos e fazendas de Terkin ficavam para trás.

 

O coração pulsava rápido. Jamais estivera em uma carruagem, e o conforto o maravilhou. O assento era macio como lã espessa, e o tecido acariciou sua pele com suavidade. 

 

As paredes eram revestidas por veludo azul-marinho, e as cortinas brancas de seda traziam bordas douradas entrelaçadas em desenhos quase mágicos. Para Dóryon, pareciam fios de gyl trançados à mão.

 

Logo, porém, o encantamento deu lugar a um leve desconforto. O tecido fino da roupa arranhava-lhe a pele. Ao lado, Sienna também se remexia, visivelmente aflita.

 

— Mãe, está tudo bem?

— Está sim, filho. É só esse… troço que as mulheres nobres usam na cintura. Aperta demais.

— Por que não tira?

— Não posso. Preciso me acostumar. A vida em Arllot será diferente.

 

Dóryon se calou e observou o mundo pela janela. Passaram pela Praça dos Guardiões, onde se erguiam quatro colossais estátuas, os antigos mestres de venwin, vater, fimber e terarth e, ao centro, Arllot, a única dominadora do ligne.

 

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