Volume I
Capítulo XII: Onde a Inocência Morre | Parte I
O silêncio que se seguiu foi pior do que o combate.
Dóryon permaneceu imóvel, com a espada ainda em punho, os dedos rígidos como se já não lhe pertencessem.
O corpo à sua frente jazia inerte, e o sangue escorria lentamente pelas frestas do piso de terarth, formando linhas irregulares que refletiam o ligne trêmulo das tochas.
Ele respirava, mas não sentia o ar.
O estômago se revirou.
O mundo pareceu distante, abafado, como se estivesse submerso.
Aquela sensação estranha não era medo; era algo mais profundo, mais pesado.
Era a compreensão tardia.
“Eu matei alguém.
Não em treino.
Não em defesa simulada.
Mas ali… de verdade.”
A mão começou a tremer.
— Dóryon.
A voz de Dayla o alcançou, firme, cortante.
Ele não respondeu.
Ela deu um passo à frente e, sem aviso, desferiu um tapa seco no rosto dele.
O estalo ecoou pelo corredor.
— Respire. Agora.
O impacto trouxe dor e, com ela, foco.
Dóryon piscou, sentiu o gosto metálico na boca e o coração disparado.
— Isso não acabou — continuou Dayla, sem suavidade. — Você pode sentir depois. Agora, eu preciso de você inteiro.
Ela se abaixou, puxou Sienna com cuidado e passou o braço dela sobre os próprios ombros.
O sangue manchava o chão sob seus pés.
— Eu vou carregá-la. — disse Dayla. — Você vai à frente. E atrás. Se algo surgir… você protege nós duas.
Dóryon assentiu em silêncio.
Ainda atordoado, ainda lutando contra o peso do que havia feito, posicionou-se à frente do corredor.
Cada passo veio acompanhado por uma oração muda, não por coragem, mas pela esperança desesperada de que o caminho já estivesse livre.
O corredor pareceu interminável.
Sombras dançavam nas paredes.
Cada rangido distante fazia seus músculos se retesarem.
Ele manteve o escudo erguido e os sentidos aguçados, mesmo com a mente em caos.
Não houve novos ataques.
Apenas o som apressado de passos, respirações irregulares e o arrastar ocasional do metal contra o terarth.
No salão principal, a situação finalmente se estabilizava.
Darvor manteve-se firme ao lado do príncipe, protegendo-o enquanto os últimos focos de resistência eram contidos.
O jovem herdeiro tremia, não de ferimentos, mas do choque tardio.
Assim que alcançaram os aposentos reais, a rainha correu ao encontro do filho.
— Meu menino… — ela o envolveu num abraço apertado, a voz falhando. — Graças aos deuses… graças aos deuses…
O príncipe prendeu-se a ela como uma criança, o rosto enterrado no tecido do vestido real.
— Muito obrigada! Obrigada Darvor, serei eternamente grata! — disse Roselyne, com lágrimas correndo nos olhos.
— Não precisa me agradecer majestade, apenas cumpri com minhas obrigações. — respondeu Darvor, observando ao redor.
Ícaruz repousou o olhar em Darvor: na postura firme, no uniforme marcado, no sangue que não era dele.
Pela primeira vez, não viu apenas o homem que protegia seu pai por dever.
Viu um herói.
Um exemplo.
Um homem que ficara de pé quando o salão ruíra.
Com o palácio sob controle, Darvor não perdeu tempo.
Deixou Ícaruz e Roselyne sob os cuidados dos guardas.
Distribuiu ordens curtas, precisas, aos soldados restantes, organizando patrulhas e reforços.
Em seguida, virou-se abruptamente e correu em direção ao aposento dos servos.
O coração batia forte.
A cada passo, uma prece silenciosa escapava dos lábios:
“Que estejam vivos.
Que os deuses tenham protegido minha família.”
Ao alcançar o corredor inferior, o cheiro de ferro no ar confirmou seus piores temores.
Sangue.
Muito sangue.
Corpos estavam espalhados, alguns dos invasores, outros… não.
Darvor se ajoelhou e analisou a cena com o olhar treinado de um veterano: as marcas no chão, os rastros irregulares, as pegadas apressadas.
— Dois sobreviveram… — murmurou para si. — Um deles está gravemente ferido.
E não haviam lutado sozinhos.
As marcas indicavam apoio.
Cobertura.
Retirada estratégica.
Sem hesitar, ele seguiu o rastro de sangue que se afastava do local, acelerando o passo à medida que o caminho se tornava mais claro.
O rastro conduziu para fora.
Até o portão lateral da mansão.
Darvor atravessou a última curva… e parou.
Ali, sob o ligne pálido do exterior, estava Trowhearth.
Antigo companheiro de batalha.
Homem que já lutara ao seu lado.
Agora, alinhado aos invasores.
O silêncio entre os dois pesou como aço prestes a colidir.
Darvor não sacou a espada de imediato.
O olhar dele ficou fixo em Trowhearth, duro como terarth antigo.
O homem usava armadura negra, um manto com capuz sobre os ombros, e a espada estava encharcada de sangue.
Os cabelos eram curtos; uma cicatriz se estendia da lateral da cabeça até o pescoço; um bigode grosso e espesso.
Os fios eram escuros como aquela noite, e os olhos, castanhos claros.
— Onde… — a voz saiu baixa, contida, mas carregada de algo perigoso — …onde está minha família?
Trowhearth inclinou a cabeça levemente, como quem avalia uma presa antes do golpe final.
Então, sorriu.
Não um sorriso largo.
Um riso curto, torto.
— Sua esposa… — começou, caminhando devagar para o lado — estava quase morta quando me encontrou.
O mundo de Darvor pareceu parar.
— Gritava muito pouco — continuou Trow, dando de ombros. — Forte, até o fim. Admito isso. Mas já não havia muito o que fazer.
Ele ergueu o olhar, os olhos brilhando com um reflexo alaranjado.
— Então… eu apenas finalizei o serviço.
O som que Darvor emitiu não foi um grito.
Foi um rosnado.
Num único movimento, ele inspirou violentamente pelo nariz, o peito inflando como um fole antigo.
O venwin respondeu de imediato, comprimindo-se ao redor do corpo dele.
Ao soltar o ar pela boca, o elemento explodiu em lâminas invisíveis, cortando o espaço à frente.
Darvor avançou.
As lâminas de ar rasgaram o chão, arrancando lascas de terarth enquanto ele fechava a distância em velocidade brutal, a espada surgindo num arco mortal.
Trowhearth reagiu no mesmo instante.
Ele cravou o pé no solo e puxou o ar quente para dentro dos pulmões.
O fimber acumulou-se sob a pele, pulsando como magma contido.
Ao exalar, o calor projetou-se à frente em lâminas incandescentes, distorcidas pelo ar ardente.
As duas forças colidiram.
O impacto não foi uma explosão.
Foi um rasgo.
O venwin cortou o fimber, e o fimber incendiou o venwin, criando um choque instável que lançou ambos para lados opostos.
Darvor rolou pelo chão, sentindo a pele do braço arder.
O cheiro de carne queimada subiu imediatamente.
Ele se ergueu com um grunhido, ignorando a dor.
— Você aprendeu bem… — murmurou Trow, girando a lâmina enquanto o calor ondulava ao redor. — Nunca pensei que chegaria a enfrentar você desse jeito.
Darvor não respondeu.
Inspirou novamente.
Dessa vez, o venwin moldou-se em torno dos braços dele, formando cortes precisos, controlados.
Ele avançou em zigue-zague, reduziu o impacto do fimber e desferiu um golpe lateral.
Trow desviou por pouco.
A lâmina de ar passou raspando e abriu um corte profundo no ombro dele.
O cheiro de sangue misturou-se ao calor.
Mas a resposta veio imediata.
Trow girou o corpo e lançou uma lâmina de fimber num arco baixo.
Darvor tentou saltar, mas sentiu o calor rasgar a coxa.
Ele caiu de joelhos.
O mundo girou por um instante.
— Ainda consegue lutar? — provocou Trow, o fimber pulsando mais forte. — Ou vai se juntar a ela?
Darvor cerrou os dentes.
Inspirou, mais fundo do que antes.
O ar ao redor afundou.
Quando soltou o venwin pela boca, não foi um corte.
Foi uma pressão esmagadora.
Lâminas múltiplas surgiram em todas as direções, obrigando Trow a recuar.
Os dois colidiram novamente, espada contra lâmina ardente, ar contra chamas.
Cada golpe foi respondido.
Cada erro, punido.
Darvor sentiu o corpo falhar.
Os braços tremeram.
A perna ferida ameaçou ceder.
O fimber de Trow queimava a pele dele sempre que se aproximavam demais.
Mas algo em Darvor não quebrou.
A raiva.
A perda.
O vazio.
Trow avançou para o golpe final, concentrando o fimber numa lâmina espessa, pesada, letal.
Darvor viu a abertura.
Não pensou.
Inspirou curto.
Preciso.
Ele soltou o venwin não pela boca…
mas pelo nariz,
num jato estreito e brutal, direcionado ao peito do inimigo.
O ar cortou como uma estaca invisível.
Trow arregalou os olhos.
A lâmina de fimber se dissipou no impacto.
O golpe o atravessou, lançando-o contra o portão com força suficiente para rachar a madeira.
Ele caiu.
Tentou se mover.
Não conseguiu.
Darvor cambaleou até ele, cada passo custava sangue e esforço. A espada tremia na mão dele.
— Você… — Trow tossiu, o sangue borbulhando nos lábios — …sempre foi… teimoso…
Darvor ergueu a lâmina.
— E você sempre escolheu o lado errado.
O golpe foi rápido.
Silencioso.
Quando tudo terminou, Darvor permaneceu ali por alguns segundos, ofegante, coberto de sangue, parte dele, parte não.
Vencera. Mas por muito pouco. Ainda assim, não comemorou. Não havia vitória alguma ali.
Quando o corpo de Trowhearth cessou qualquer movimento, Darvor deixou a espada cair da mão.
O metal bateu contra o terarth com um som seco, distante, como se já não pertencesse àquele mundo.
As pernas dele cederam.
Ele caiu de lado, o ombro encontrando o chão frio, e por alguns segundos ficou ali, apenas respirando, puxando o venwin em goles curtos e dolorosos, como se cada inspiração fosse arrancada à força do corpo.
O cheiro de sangue era sufocante.
Então, ele viu.
Sob o ligne trêmulo das tochas, um rastro escuro serpenteava pelo chão do pátio interno, seguindo em direção ao corredor lateral da mansão. Sangue em quantidade demais para ser ignorado. Não de um homem levemente ferido.
Darvor sentiu o coração bater com violência.
— Sienna… — o nome escapou num sussurro rouco.
Forçando o corpo além do limite, ele se arrastou até a parede mais próxima e apoiou o antebraço queimado contra o terarth áspero.
O contato arrancou um gemido involuntário, mas ele se ergueu, cambaleante, usando o muro como apoio.
Cada passo tornou-se uma negociação com a dor.
A perna ferida falhava. O fimber deixara bolhas sob a armadura, a pele em carne viva. O venwin ao redor parecia pesado, espesso, quase indiferente ao chamado dele, como se o próprio elemento exigisse um preço.
Ainda assim, ele seguiu.
Arrastou-se pelas paredes, deixou marcas de sangue nas colunas, nos arcos e nas portas, e acompanhou o rastro no chão como um caçador ferido que se recusava a cair antes de alcançar a presa… ou a salvação.
O corredor se estreitou à medida que avançava.
O silêncio ali era diferente.
Não havia o eco distante de combates, nem gritos, nem ordens.
Apenas o som irregular da respiração dele e o arrastar de botas contra o terarth.
O rastro conduziu até os muros externos da mansão, onde uma pequena porta de serviço permanecia entreaberta.
Darvor quase caiu ao atravessá-la.
O ar noturno atingiu o rosto dele como uma lâmina fria, contrastando com o calor queimado da pele. Ele se apoiou no batente; o mundo girou ao redor, mas os olhos dele se fixaram novamente no chão.
O sangue continuava.
Fresco.
Mais adiante.
— Ainda estou vindo… — murmurou, a voz falhando, como se falasse para si… ou para alguém que precisava ouvir.
Ele seguiu pelos muros externos, os dedos deixando rastros escuros na terarth clara, o corpo colidindo contra cercas, pilares e colunas enquanto avançava.
Cada metro percorrido era um desafio à própria morte.
Mas Darvor não parou.
Não podia parar.
Enquanto houvesse sangue no chão, ainda havia chance.
Darvor não conseguiu dar mais um passo.
As forças finalmente o abandonaram, como se o próprio venwin tivesse decidido soltá-lo. As pernas cederam, e ele caiu pesadamente de lado; o impacto arrancou o ar dos pulmões.
Com esforço quase inconsciente, arrastou-se até a parede mais próxima e apoiou as costas no terarth frio, tentando manter-se acordado.
A visão ficou turva.
O som distante dos combates já não chegava até ali.
Foi então que passos apressados ecoaram pelo corredor.
— Pai!
Dóryon surgiu de repente diante dele.
O garoto estava ofegante, os cabelos grudados à testa pelo suor e pelo sangue seco.
O terno cerimonial estava rasgado em vários pontos, manchado de vermelho escuro que não parecia ser todo dele.
Os olhos, arregalados e assustados, percorreram rapidamente os ferimentos de Darvor antes de se fixarem no rosto dele.
— O que aconteceu? — perguntou, com a voz trêmula, ajoelhando-se ao lado dele. — Você está sangrando muito…
Darvor ergueu a mão com dificuldade e segurou o antebraço do filho.
— Sienna… — disse num fio de voz. — Como está sua mãe?
Dóryon abriu a boca para responder.
Não teve tempo.
Uma sombra moveu-se atrás dele.
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