Volume I

Capítulo XI: O Preço da Nobreza | Parte III

O homem foi lançado contra o chão.

Antes que os dobradores de fimber reagissem, Darvor inspirou fundo e soltou o ar em um sopro brutal.

O venwin alimentou o próprio fimber inimigo de forma caótica, e as chamas explodiram contra os portadores. Os gritos cessaram quase tão rápido quanto começaram.

Darvor pousou à frente de Ícaruz.

— Para trás. — ordenou, sem olhar.

O príncipe obedeceu, ainda em choque e apavorado.

— Aconteça, o que acontecer, fique atrás de mim.

Ali, naquele instante, Darvor não era apenas o comandante das tropas imperiais. Não era apenas um pai.

Era a muralha entre o caos e a continuidade do reino, mesmo sabendo que, ao fazer aquela escolha, talvez tivesse condenado tudo o que mais amava.

Enquanto isso, Dóryon e Sienna avançaram pelo corredor como se caminhassem pelo interior de um pesadelo.

As lamparinas haviam sido destruídas ou apagadas às pressas, e apenas fragmentos de ligne residual, refletidos em rachaduras no terarth polido das paredes, ofereciam alguma noção de espaço.

As sombras alongavam-se de forma antinatural, projetadas pelo tremor distante da mansão sob ataque.

Sienna respirava com dificuldade.

O medo era visível em cada passo contido, em cada tentativa de manter a postura ereta apesar do corpo trêmulo.

Ainda assim, ela seguiu.

Pela força da vontade.

Pelo filho.

Dóryon percebeu.

Parou por um instante, ignorou o caos ao redor, respirou fundo e segurou a mão da mãe com firmeza.

— Vai ficar tudo bem — disse, com a voz baixa, mas surpreendentemente estável. — Eu estou aqui.

Ela o encarou, os olhos marejados, e assentiu em silêncio.

A simples frase não afastou o terror… mas o tornou suportável.

Seguiram.

Mais à frente, um corpo jazia estendido no chão.

Um dos servos.

Os olhos estavam abertos, vidrados, a garganta rasgada.

O sangue escorria em direção às canaletas do piso, misturando-se ao vater que vazava de uma tubulação rompida.

Dóryon sentiu o estômago revirar.

Instintivamente, puxou a espada.

Antes, a lâmina sempre parecera pesada demais, quase estranha às mãos.

Agora, após meses de treinamento, quedas, dor e frustração, o peso era familiar.

Confortável.

Parte dele.

Avançaram com cuidado.

Chegaram a uma bifurcação.

O corredor da esquerda parecia mais largo, mas estava completamente às escuras.

O da direita era estreito, com colunas próximas e paredes marcadas por impactos recentes.

— Direita — murmurou Dóryon.

Sienna assentiu.

Assim que entraram, o silêncio tornou-se opressor.

Os sons da batalha pareciam distantes demais, como se estivessem submersos.

Apenas o eco metálico de algo se chocando ao longe, gritos abafados e estrondos causados por dobras mal controladas chegavam até eles, distorcidos.

A respiração de ambos pesou.

Cada passo parecia alto demais.

Cada sombra, uma ameaça.

Então aconteceu.

O som seco de uma lâmina fincando cortou o ar.

Algo quente respingou no rosto de Dóryon.

Por um segundo, ele não entendeu.

Virou-se.

— Mãe…?

Sienna estava imóvel.

Uma espada atravessava o corpo dela, perfurando entre o ombro esquerdo e o peito.

A lâmina saía alguns centímetros pelas costas.

Os olhos estavam arregalados, tomados por terror absoluto.

— Dó… — ela tentou dizer, mas a voz saiu como um soluço engasgado. — Dóryon!

O invasor puxou a espada com brutalidade e atacou novamente.

O corte percorreu quase todo o braço esquerdo de Sienna, rasgou músculos, nervos e pele.

O grito que ela soltou foi animalesco, puro desespero e dor.

Ela caiu de joelhos, e o sangue jorrou, espalhando-se pelo piso.

O assassino ergueu a lâmina mais uma vez, preparando-se para decapitá-la.

O mundo de Dóryon se partiu.

Mas o corpo dele se moveu.

Ele avançou num impulso cego e bloqueou o golpe com a própria espada.

O impacto fez os braços dele tremerem, mas ele se manteve firme.

Lembrou-se do treinamento.

Da base.

Do equilíbrio.

Não deixou o inimigo recuar.

Usou o próprio peso, o impulso do corpo inteiro, e colidiu contra o homem com violência.

O invasor foi arremessado contra a parede de terarth, e o impacto arrancou-lhe o ar dos pulmões.

Dóryon não hesitou.

Enfiou a espada direto na garganta do agressor.

O sangue explodiu no rosto dele.

O homem morreu em segundos, engasgando com o próprio sangue, os olhos arregalados enquanto tentava respirar algo que já não existia.

Dóryon recuou um passo, o peito subia e descia de forma descontrolada.

Ele tirara uma vida.

Pela primeira vez.

O choque o atingiu com força total quando ele correu até a mãe.

— Mãe… não… fica comigo…

As mãos dele tremeram ao tentar pressionar o ferimento, inúteis diante da quantidade absurda de sangue.

Foi então que ele percebeu.

Eles não estavam sozinhos.

Ao erguer o olhar, viu as silhuetas se destacarem das sombras.

Três homens.

E uma mulher.

Todos armados.

Todos preparados.

Cercaram-nos.

Dóryon sentiu o chão desaparecer sob os pés.

A espada pareceu pesada novamente.

O braço dele doeu.

A mente girou.

A mãe estava ali, encostada contra a parede, sentada sobre uma poça do próprio sangue, pálida demais, frágil demais.

Ele quis gritar.

Quis chorar.

Quis fugir.

Mas não havia para onde.

Sienna ergueu o olhar para o filho e, mesmo à beira da morte, tentou sorrir.

Ali… ambos aceitaram.

Seria o fim.

Então o ar se moveu.

Não como ataque, mas como presença.

Um vulto branco atravessou o corredor com velocidade impossível.

Uma elfa.

Vestia um vestido branco, com a saia rasgada, curta demais para protocolos nobres, revelando as coxas firmes e grossas.

O tecido ondulava junto ao movimento do corpo, como se fizesse parte dele.

Os cabelos claros acompanharam o avanço, soltos, selvagens.

Ela não hesitou.

O terarth respondeu ao chamado dela.

Placas do piso ergueram-se e envolveram os antebraços, moldando-se em manoplas sólidas, angulares, vivas.

Um dos homens atacou primeiro e morreu antes de concluir o movimento.

Ela bloqueou a lâmina com o terarth endurecido, girou o corpo e esmagou o crânio do inimigo contra a parede com um único golpe seco.

O segundo tentou usar a dobra, puxando terarth do chão, mas ela pisou forte.

O solo respondeu apenas a ela.

O ataque inimigo se desfez, e a elfa avançou, quebrou o braço do homem e atravessou o tórax com um soco revestido de placas antigas.

A mulher atacou com fimber instável.

A elfa ergueu a manopla e criou uma barreira de terarth polido que absorveu o impacto.

No instante seguinte, ela contra-atacou, perfurou o abdômen da inimiga e a arremessou contra o teto.

O último tentou fugir.

Ela não permitiu.

O terarth elevou-se sob os pés dela e a impulsionou.

Um golpe descendente encerrou a luta.

Silêncio.

Os corpos caíram.

As manoplas se desfizeram lentamente.

O terarth retornou ao chão como se nada tivesse acontecido.

A elfa se virou.

Os olhos dela encontraram os de Dóryon.

— Vocês estão bem? — disse, com a voz firme, mas carregada de alívio contido.

Ele reconheceu imediatamente.

— Dayla…?

Ela correu até Sienna, ajoelhou-se ao lado dela e avaliou os ferimentos com rapidez profissional.

— Ainda há tempo — afirmou, com convicção. — Mas precisamos sair daqui agora.

Dóryon sentiu as pernas falharem.

O terror ainda estava ali. O choque também.

Mas, pela primeira vez desde o início do ataque, a esperança retornara.

 

Fim do Capítulo XI

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