Volume I
Capítulo XI: O Preço da Nobreza | Parte I
A residência do imperador erguia-se como uma obra monumental de poder e refinamento, marcada por uma grandiosidade sólida e atemporal, aliada à elegância severa dos palácios antigos.
Suas estruturas eram compostas por amplas arcadas de proporções imponentes, sustentadas por colunas robustas de terarth polido, cujas superfícies refletiam o brilho suave do ligne noturno.
Frisos entalhados percorriam as paredes claras, narrando feitos de imperadores passados, batalhas ancestrais e a ascensão do império; cada detalhe fora talhado com precisão quase reverencial, como se a própria história estivesse gravada na pedra viva do lugar.
Os pátios internos eram amplos e simétricos, organizados em níveis, conectados por escadarias largas e balaustradas ornamentadas com fragmentos de pladian incrustados.
Esses cristais captavam a luz das lamparinas e a devolviam em reflexos azulados e rubros, criando um jogo constante de cores que acompanhava o movimento dos convidados.
Jardins suspensos estendiam-se entre alas do palácio, irrigados por fluxos controlados de vater que desciam por canais discretos esculpidos no terarth, alimentando canteiros elevados e fontes circulares.
O ar permanecia permeado por uma brisa suave de venwin, canalizada pelas próprias arcadas do edifício, mantendo o ambiente fresco mesmo com a presença de centenas de pessoas.
Lamparinas entalhadas em terarth polido, abastecidas com ligne refinado, iluminavam corredores e varandas com um brilho constante e elegante.
Entre elas, esculturas de mármore branco e estátuas imperiais observavam o salão principal, silenciosas testemunhas do jogo político que ali se desenrolava.
À noite, vaga-lumes repousavam sobre flores noturnas cuidadosamente cultivadas, adicionando movimento e vida ao cenário já hipnótico.
Nada naquele lugar era excessivo sem propósito.
Cada coluna, cada jardim, cada reflexo de luz servia para lembrar aos presentes que estavam no coração do império, um espaço onde beleza, poder e vigilância coexistiam em perfeito equilíbrio.
Carruagens chegavam uma após a outra, rangendo sobre o piso de terarth polido. O som de cascos, rodas e vozes contidas misturava-se à música suave que escapava do interior do palácio.
Dóryon atravessou os portões ao lado dos pais.
Vestia um terno elegante de tom negro profundo, ajustado com precisão ao corpo.
Os detalhes em cinza desenhavam linhas sóbrias ao longo do tecido, enquanto sutis ornamentos dourados nos punhos e na gola denunciavam sua posição; não eram exagerados, mas eram impossíveis de ignorar.
Era a primeira vez que se apresentava em um evento daquele porte sem o peso do uniforme escolar ou da informalidade juvenil; ali, cada passo parecia exigir maturidade.
Ao lado, a mãe caminhava com postura impecável.
O vestido longo de tecido cinza fluía com imponência, sustentado por ombreiras estruturadas que ampliavam sua presença.
Babados discretos percorriam a saia, e os detalhes em branco e dourado refletiam o ligne das tochas, conferindo-lhe uma elegância austera, quase estratégica.
O rosto mantinha-se sereno, mas os olhos atentos denunciavam alguém acostumada a ler ambientes hostis.
Darvor vinha logo atrás, vestindo o uniforme imperial. As insígnias reluziam no peito, e a postura rígida não deixava dúvidas quanto à posição dele dentro da hierarquia.
Onde passava, o murmúrio espalhava-se.
— São eles…
— Olhe, o filho do comandante…
— Dizem que houve problemas no instituto por causa dele…
— Ainda assim, foram convidados…
Os cochichos surgiam em ondas discretas, jamais altos o suficiente para serem chamados de afronta, mas persistentes como agulhas.
No grande salão, lustres de cristal pendiam do teto abobadado, refletindo luz sobre mesas repletas de iguarias e taças de metal nobre.
O som de instrumentos de corda preenchia o espaço com uma melodia refinada, quase hipnótica.
Ícaruz encontrava-se próximo ao centro, cercado por nobres e oficiais.
Vestia um terno branco impecável, cujo tecido contrastava com os detalhes vermelhos e dourados que percorriam a gola, os punhos e a faixa sobre o peito.
Nas ombreiras, o símbolo de sua casa estava entalhado com precisão, um lembrete silencioso de quem ele era e do que representava.
Darvor aproximou-se com passos firmes, trazendo consigo um estojo longo, envolto em tecido escuro.
— Alteza — disse, inclinando a cabeça com respeito formal. — Em nome da minha família, ofereço-lhe este presente.
Ao abrir o estojo, revelou-se a espada.
O punho era ornamentado com Gyl trabalhado em formas elegantes, entrelaçado com veios de Frozten que refletiam uma palidez fria.
A lâmina, forjada em Mirion, emitia um brilho azul-escuro sutil, quase etéreo, como se guardasse dentro de si uma quietude poderosa.
Um murmúrio de admiração percorreu os que estavam próximos.
Ícaruz segurou a espada com cuidado, observando o reflexo da luz ao longo da lâmina.
— Uma obra magnífica — disse, genuinamente impressionado. — Agradeço em nome da coroa.
Roselyne aproximou-se então, e sua presença reorganizou o espaço ao redor. O vestido escuro, ricamente bordado, e a postura impecável faziam dela o verdadeiro eixo daquele salão.
— Sejam bem-vindos — disse, com um sorriso controlado. — É uma honra recebê-los nesta noite.
O olhar deteve-se brevemente em Dóryon. Não havia julgamento explícito ali, apenas atenção, o tipo que pesava mais do que palavras.
Dóryon e Ícaruz trocaram olhares. Por um instante, o ruído do salão pareceu se dissolver.
— Meus parabéns pelo seu aniversário, Alteza — disse Dóryon, com a formalidade exigida. — Que esta nova fase lhe traga clareza… e força.
Ícaruz assentiu.
— Agradeço. Espero que aproveite a noite.
Após alguns cumprimentos protocolares e conversas rápidas, Dóryon afastou-se, sentindo o peso crescente do ambiente. Foi então que percebeu rostos familiares entre os convidados.
Auror, acompanhada da família Ironmantle, conversava próximo a uma das colunas.
Mais adiante, ele reconheceu a mãe de Yoonji e, não muito longe, avistou Lioren e Jenma. A constatação trouxe-lhe um alívio inesperado.
Sem hesitar, dirigiu-se até eles.
Yoonji estava deslumbrante. Usava um vestido de tom claro, entre o azul suave e o prateado, que refletia o ligne de maneira delicada.
O tecido caía em camadas leves, e detalhes sutis bordados na cintura evocavam motivos tradicionais.
Os cabelos estavam presos parcialmente, com tranças finas adornadas por pequenos acessórios metálicos, enquanto o restante descia livremente pelas costas, emoldurando-lhe o rosto com elegância natural.
— Você está… — Dóryon começou, mas interrompeu-se com um sorriso contido. — Impressionante.
Yoonji riu de leve.
— Isso vindo de alguém vestido assim? — respondeu, avaliando-o com um olhar divertido. — Parece que finalmente te arrancaram do uniforme.
Lioren aproximou-se logo em seguida.
Vestia um terno azul-escuro, de corte refinado, com detalhes discretos em tons mais claros ao longo da lapela.
A camisa clara contrastava com o conjunto, e um broche simples indicava sua casa. Havia nele uma sobriedade elegante, sem ostentação.
— Nunca pensei que nos encontraríamos aqui — disse Lioren. — Confesso que ainda estou tentando entender todas as regras implícitas desse lugar.
— Se descobrir, me avise — respondeu Dóryon, com um meio sorriso. — Até agora, tudo parece um jogo onde ninguém explica as regras.
Yoonji cruzou os braços suavemente.
— É exatamente isso. Um jogo. E, pelo visto, estamos todos nele agora.
Os três trocaram olhares cúmplices, enquanto ao redor o salão continuava a girar em sua dança de poder, aparências e sorrisos calculados.
A noite ainda estava apenas começando.
De repente, Sienna tocou levemente o braço do filho, chamando sua atenção em meio ao salão iluminado.
— Dóryon — disse em voz baixa, mantendo o sorriso social intacto. — Você precisa interagir mais com o príncipe. É importante.
Ele respirou fundo e desviou o olhar por um instante.
— Mãe… você sabe que não é simples.
— Justamente por isso — respondeu ela, firme, mas sem dureza. — Hoje não é sobre o passado. É sobre o que vem depois. Aproxime-se dele. Pelo bem da nossa casa.
Dóryon assentiu. Ficou por um momento relutante, mas decidiu seguir a orientação.
Ele observou o salão mais uma vez, procurando Ícaruz entre nobres, generais e damas trajadas com exuberância calculada.
Não o encontrou ali.
Foi então que percebeu a porta lateral entreaberta, levando à varanda imperial.
Ao atravessá-la, o som do salão diminuiu drasticamente.
O ar noturno, fresco e perfumado pelas flores do jardim suspenso, envolveu-o de imediato.
A ligne das lamparinas refletia suavemente nas colunas de terarth polido, enquanto fragmentos de pladian cintilavam nas estruturas ao redor.
Ícaruz estava ali, apoiado no parapeito da varanda, o olhar distante perdido sobre a cidade iluminada abaixo.
O traje branco contrastava com a noite, e os detalhes vermelhos e dourados nas ombreiras exibiam com clareza o símbolo de sua casa.
Dóryon aproximou-se com passos cautelosos.
— Alteza — disse, quebrando o silêncio.
Ícaruz virou o rosto apenas o suficiente para reconhecê-lo.
— Magnuss. — O tom não era hostil, mas tampouco caloroso. — O que você quer?
Dóryon hesitou por um segundo, depois decidiu não mascarar a verdade.
— Honestamente? Minha mãe me obrigou a vir falar com você.
Ícaruz arqueou uma sobrancelha, surpreso e, para a surpresa de Dóryon, soltou um breve riso nasal.
— Pelo menos é sincero.
Dóryon apoiou-se ao lado dele, encostando os antebraços no parapeito da varanda.
Os olhos acompanharam a vista: os jardins suspensos, os canais de vater refletindo o brilho do ligne, as luzes da cidade espalhadas como constelações artificiais.
— É… — disse ele, após alguns segundos. — Esse lugar é bonito. Sempre pensei como seria visitar a residência do imperador, mas nunca imaginei que superaria minhas expectativas.
Com desdém, Ícaruz respondeu:
— Esse lugar não tem nada demais… você vê beleza, porém a única coisa que vejo é uma casa tomada por política e jogos. No entanto…
Ícaruz voltou a atenção para a paisagem.
— Às vezes, eu venho aqui só para lembrar que existe algo além de títulos, protocolos e gente esperando que eu seja perfeito.
Houve um silêncio confortável, raro entre eles.
— Você não gosta muito de mim — comentou Dóryon, sem acusação.
Ícaruz inclinou levemente a cabeça.
— Não gostava. — fez uma pausa. — Você apareceu de repente. Chamou atenção. E… ainda não dobrou nada, mas mesmo assim se manteve de pé. Isso irritou muita gente. Inclusive eu.
Dóryon sorriu de leve.
— Não foi minha intenção competir com você.
— Eu sei agora — respondeu Ícaruz. — Porém antes, tudo parecia competição. Meu nome, meu sangue, minhas obrigações… tudo virava comparação.
Ele respirou fundo.
— Hoje eu vejo: você não tentou me superar. Só tentou sobreviver.
Dóryon o encarou, surpreso com a franqueza.
— E você — respondeu — sempre pareceu inalcançável. Como se não pudesse errar. Isso… também assusta.
Ícaruz soltou um suspiro curto, quase um riso.
— Então acho que ambos erramos ao julgar rápido demais.
O príncipe estendeu a mão, simples, sem pompa.
— Vamos começar de novo?
Dóryon olhou para a mão por um instante… e então a apertou.
— Vamos.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Apenas permaneceram ali, lado a lado, observando o império que, de maneiras diferentes, ambos aprendiam a carregar.
Naquele momento, sem discursos ou promessas grandiosas, nasceu algo raro naquele palácio: um vínculo que não vinha do dever, mas da escolha.
— Venha — disse Dóryon, quebrando o silêncio. — Yoonji e Lioren estão ali dentro. Pelo menos com eles dá para rir desse teatro todo.
Ícaruz soltou um leve sorriso, mas negou com a cabeça.
— Não hoje. — Ele endireitou a postura. — Ainda tenho convidados demais esperando atenção. E… — fez uma breve pausa — mesmo que tenhamos nos entendido, eu ainda o vejo como um rival.
Dóryon assentiu, sem se ofender.
— Eu também!
Ícaruz afastou-se em direção ao salão, reassumindo o papel de príncipe herdeiro. Dóryon permaneceu alguns segundos na varanda, respirou fundo e então retornou.
No interior do salão, encontrou Yoonji e Lioren próximos a uma mesa adornada por arranjos dourados e taças de cristal lapidado. Assim que o viram, os dois abriram sorrisos cúmplices.
— Então? — perguntou Lioren, ajeitando o terno azul-escuro, cujos detalhes prateados refletiam a luz das lamparinas de ligne. — Sobreviveu ao príncipe?
— Por pouco — respondeu Dóryon.
Yoonji riu suavemente.
— Aposto que ele tentou te intimidar — disse ela.
— Na verdade, foi menos pior do que eu esperava.
— Isso é preocupante — comentou Lioren, em tom irônico. — Quando príncipes começam a ser razoáveis, algo está errado.
Os três trocaram risos contidos, observando o salão repleto de nobres que se moviam como peças ensaiadas de um grande jogo social.
Não muito longe dali, Sienna conversava com Jenma. Ambas mantinham posturas elegantes e seguravam as xícaras com naturalidade.
— Seu filho tem um senso de humor raro para este ambiente — comentou Sienna.
— Aprendeu cedo que, se não rir da nobreza, ela te engole — respondeu Jenma, sorrindo. — E Dóryon parece seguir o mesmo caminho.
— Ele tenta — disse Sienna, com um olhar orgulhoso, porém atento.
O som de trombetas ecoou pelo salão.
As conversas cessaram gradualmente. Nobres, damas e oficiais voltaram-se para a entrada principal. As portas se abriram com solenidade, revelando Altheryon.
O imperador vestia um terno branco de corte impecável, com detalhes vermelhos e dourados que marcavam autoridade e tradição.
Sobre os ombros, uma capa vermelha profunda descia até quase tocar o chão, pesada e majestosa.
Na cabeça, a coroa dourada refletia a luz das lamparinas, incrustada com pladian que reverberava tons sutis de azul e rubro.
Todo o salão se curvou em reverência.
Altheryon caminhou até o centro, com o olhar firme, mas sereno.
— Levantem-se — disse, com voz grave.
Ele agradeceu a presença de todos, falou sobre união, continuidade e responsabilidade. As palavras carregaram peso, mas também humanidade. Ao final, voltou-se para Ícaruz.
— Hoje celebramos não apenas o nascimento de meu filho — declarou — mas o homem que ele está se tornando. Que ele aprenda que governar não é dominar… mas sustentar.
O salão respondeu com aplausos respeitosos.
Foi então que Darvor sentiu.
Não um som. Não uma visão clara. Mas algo estava errado.
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